"Me dê um silêncio. Eu vou contar."


"De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe."


***

Em resenha de Grande Sertão: Veredas publicada em 2006, Noemi Jaffe diz: 

Não sei se o fato de "Grande Sertão: Veredas" ter sido escrito em português e, por essa razão, não figurar nas listas dos melhores romances do século 20, representa um mal ou um bem. Porque assim o ciúme que nós, como brasileiros, devemos sentir por esse livro, fica bem mais preservado. Ficamos com esse segredo. São as listas que não o merecem.
Ciúme vem do latim "zelúmen", do qual também deriva a palavra zelo, cuidado. E é isso o que o "Grande Sertão" provoca. É preciso lê-lo zelosamente e cuidar de frases como: "Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal por principiar" ou então "A colheita é comum, mas o capinar é sozinho". Talvez fosse preciso guardar essas frases numa gaveta, escondidas, e só olhar para elas de vez em quando, em silêncio.

Fiz isso muitas vezes ao longo de minha leitura de Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa, Ed. Nova Fronteira): olhei frases em silêncio, namorando-as, tomando-as para mim. Não costumo fazer anotações em meus livros; no máximo dobro "orelhinhas" no alto da página para marcar alguma passagem que me cativa mais, às vezes com o intuito de comentar sobre ela com alguém. Com Grande Sertão, no entanto, me transformei na leitora com lápis na mão. Sublinhei inúmeras frases, marquei palavras, bordei as margens com pequenos "x' para reencontrar quando quiser minhas veredas favoritas.

"Moço: toda saudade é uma espécie de velhice".

Era Diadorim que eu tinha como elemento mais forte da história quando comecei minha leitura, lado a lado com a lembrança que trago de meus primeiros contatos com os contos de Guimarães Rosa, lidos há anos-luz, na faculdade. Grande Sertão, claro, se mostrou muito maior do que eu podia esperar. Além da construção narrativa tão celebrada; além do amor contido de Riobaldo por Diadorim; e além do que eu já sabia sobre o enredo, encontrei em Grande Sertão um livro imenso, histórias de amor e guerra descritas com riqueza linguística que superou todas as minhas expectativas (e elas eram gigantescas, dado todo o fuzuê em torno da obra). E, acima de tudo, cravei Riobaldo para sempre na minha  lista de personagens mais adoráveis da literatura - eu sabia de sua coragem de jagunço, mas não sabia de sua compaixão, de sua empatia; de sua doçura ou de seus medos, seu olhar de enxergar veredas. Com o devido derretimento: ler Grande Sertão foi uma delícia. 

"A aguagem bruta, traiçoeira - o rio é cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de desamparo."

O livro acabou e fiquei com meu espanto diante do talento de Guimarães Rosa. Vi no Facebook o Professor Idelber Avelar se referindo a Grande Sertão como um "mundo em forma de romance" - e é bem por aí: cabe o mundo no Grande Sertão, em suas travessias infinitas, seus questionamentos filosóficos para papos eternos, o medo, a morte, o amor construído, o amor que atropela, o amor perdição, o amor salvação, a vaidade e seus demônios, as perguntas, todas elas. Como se fosse pouco, ainda há a beleza das imagens na longa narrativa de Riobaldo, uma espécie de homenagem não só às paisagens que elas retratam, mas à nossa língua, vestida de gala nesse livro que é uma festa.

"Os afetos. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do mundo."

E aí veio aquele final que me atropelou como se eu não soubesse que viria. Eu esperava encantamento, linguagem rica e belas imagens - e disso tive, em generosos lotes. Mas não esperava todo esse arrebatamento. Foi mesmo como atravessar o Sertão, uma aventura inesquecível. 

"Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."


Para ler, reler, tomar um banho de encantamento. 

4 comentários:

Camila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Camila disse...

Comentei algumas vezes no "anônimo", mas Rosa é Rosa e merece ser exaltado sempre! Confesso que, fiquei bastante curiosa e esperando por tuas impressões, por saber que você ainda não havia lido este primor de obra.
Rita, expresso aqui meu inteiro acordo com seu depoimento. Guimarães Rosa não só é o autor mais absoluto da literatura brasileira do século passado: é um dos mais absolutos escritores da literatura mundial. Tivesse ele escrito primores como o "Grande Sertão" ou o "Corpo de Baile" ou o "Primeiras Estórias" (que, inclusive, recomendo (re)lê-los), em línguas mais conhecidas, de maior apelo internacional, certamente o seu lugar no panteão universal estaria ainda mais assegurado. Na minha edição de "Grande Sertão: Veredas" são muitas as páginas e trechos marcados. E quando retorno a cada um deles, de tempos em tempos, encontro múltiplos Rosas.
E sabe o que mais gostoso? Quando tomamos uma certa intimidade com o livro, o silêncio não cabe. Acho que deve ser por isso que nos dá tanta vontade de ler em voz alta.
Ave, palavra!

Luciana Nepomuceno disse...

Eu morro de ciúmes desses livro. Sério. E me sinto imensamente privilegiada de ter ouvidos frases como as que pulsam no livro da boca de tios-avós. Com ritmo. Com doçura. Com firmeza. Com este sol na voz.
Se GSV tivesse sido escrito em outra língua, certamente seria ovacionado com cortina aberta. Só tem um porém: ele não poderia ter sido escrito em outra língua, né. Porque a língua, aqui, é o homem, acho eu.

Daniel Nascimento disse...

Alembro-me de uma aula de linguística donde o professor contou de um causo em que ele e um amigo japonês nato andavam por São Paulo no tempo das cerejeiras florirem e o amigo japonês comentou como aquilo era bonito e evocava o Japão, quando meu professor - que já tinha vivido no Japão - respondeu que sim, que ele sabia e a réplica do japonês foi imediata: "Não, você não sabe".
Acho que com GSV acontece fenômeno semelhante: se quem o tivesse escrito fosse um cabra de fora muito do arretado em brasilianismo, PhD em linguística e no português e resolvesse o escrever em seu idioma nativo, perceberíamos que faltaria algo, que haveria uma incompletude pois a espacialidade e todo esse universo jagunço e interiorano é, como diz o samba, coisa nossa. O que traria um cenário interessante: uma discussão sobre porque o GSV estrangeiro seria aclamado no mundo mas não no Brasil. E diríamos: "é porque vocês não sabem".

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }