Away


Odeio quando você viaja. É meio dramático, mas faz tempo que deixei de negar o drama. Sinto falta mesmo e você ainda nem passou da ponte. A melhor maneira de lidar com as horas de 600 minutos cada uma é arrumando o que fazer. Então é bom ir ao trabalho e descobrir uma mesa cheia de pendências. Nada inadiável, mas eu posso fingir que é tudo urgente e enfiar a cara na papelada. Aí você já se afastou uns 30 quilômetros e eu começo a ficar menos chorona, ainda que só um pouco. 

Se um dia decidirmos reformar nossa casa, dispensemos os pedreiros. A maneira mais fácil de ampliar nossa casa é você viajar. Ela fica enorme, larga, sobrando; ouço ecos pela escada, os ecos dos meus pensamentos conversando com você. As crianças fazem planos para sua volta e preenchem um tanto bom da amplidão, mas, acredite em mim, nossa casa nunca é tão grande como quando você viaja. Bom, você sabe que detesto reformas, então tá tudo certo.

As canções no carro, o portão emperrado, aquele sinal que demora pra abrir, a correria na hora de levar o Arthur ao inglês, o almoço da Amanda, o cachorro sem banho, o estacionamento da escola das crianças, o pão naquela padaria boa, o sanduíche que você faria, o episódio de Big Bang Theory, o tênis largado no banheiro - são como vagalumes piscando pra mim, passam o dia insistindo em você.

Ou seja, no final das contas, você nem vai. Fica aqui, desse jeito enroscado que a gente arrumou de viver, meio desalinhado como cachinho de cabelo, um tanto bagunçadinho, um tanto no lugar. Mas odeio quando você viaja.  

1 comentários:

Clara Lopez disse...

Amor danado de bonito, esse. Parabéns aos dois dois tê-lo contruído tão forte.
bjo,

 
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