Windy, sunny, easy


"Vento, ventania
Me leve sem destino
Quero mover
As pás dos moinhos
E abrandar o calor do sol
Quero emaranhar
O cabelo da menina
Mandar meus beijos pelo ar..."
(Biquini Cavadão)


Desde que Ulisses começou a praticar kite surf, o vento passou a ser mais do que o moço invisível que derruba o varal de chão. É agora o fenômeno bem vindo que arranca meu marido de casa rumo à Lagoa ou a uma praia próxima (o conceito de próxima está aberto a discussões), o porta-malas cheio de petrechos indispensáveis cujos nomes um dia hei de memorizar. Hoje pela manhã, no entanto, havia um mercado no meio do caminho. Enquanto ele fazia as compras da semana, curti a preguiça de uma manhã ensolarada no quintal de casa; somente as crianças, algumas abelhas e eu. E o vento.

Parece que o verão se despediu com pontualidade. O sol dessa manhã não cozinhou nossos miolos, nem cegou nossas vistas. Apenas aqueceu o suficiente para curtirmos a delícia que é estar ao ar livre sem suar em bicas ou desmaiar de moleza. A certa altura, enquanto a brisa refrescava nossas cabeças ao sol, Arthur, Amanda e eu nos dedicamos com afinco a devorar um pote de biscoitos com suco de frutas e engatamos um bate-papo cheio de afagos e elogios verbais. Você que é lindo, você é tão gentil, você consegue ter paciência, sua pele tá bronzeada. Éramos uma ninhada de gatos, onde eu era a gata orgulhosa lambendo suas crias cada vez mais manhosas. Depois eles se cansaram daquela lenga-lenga e resolveram correr sobre o chão molhado até um deles se estabanar numa queda que chegou a me assustar, mas, ainda bem, não passou disso, um susto. Antes disso, claro, engataram uma discussão inútil sobre quem tinha roubado o brinquedo do outro, quem tinha jogado água na cabeça do outro primeiro, quem tinha atrapalhado a brincadeira. Ou seja, tudo igual no outono. Entregues à preguiça, voltamos ao modelo ninhada de ser, cada um lendo um gibi ou um livro, até que o Ulisses voltou com sacolas e fome. E a promessa de mais vento à tarde, na Lagoa.

Sol a pino, somente nas páginas de Grande Sertão: Veredas, que me chamam para o sofá e fazem qualquer passeio parecer algo que, veja bem, podemos fazer amanhã. Hoje pela manhã, no quintal, tive um daqueles momentos em que ficou tão evidente como o tempo - "tecido de nossa vida", como dizem lindamente por aí - nos é tão valioso. Ao invés de trânsito, papel, escritório; ao invés de correr, comprar ou acelerar; ao invés de tudo, a prosa comprida de G. Rosa, meus filhos jogando conversa fora comigo e falando de suas alegrias, ela com a cabeça em minha perna, ele deitado na espreguiçadeira ao lado, o melhor de minha vida ao alcance de minhas mãos. Assim como o tempo longo e espichado da lenta narrativa de Riobaldo, hoje eu quis um dia assim: um outono que começa sem pressa, canções do vento que chegam pela janela da cozinha, pela varanda, nas palmeiras do quintal. Nada mais.

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