Vida Querida, livro querido


O nome da espera no saguão, com apenas um cartão de embarque; o nome da espera sem poder telefonar, porque sei que você deixou o celular no trabalho quando me levou; o nome da espera, sabendo que quando você chegasse ao trabalho eu já estaria voando; o nome dessa espera também é solidão.

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Por que razão me importei com a presença do estranho do assento ao lado, a ponto de jogar deliberadamente o cabelo sobre o rosto e assim esconder as lágrimas? Era quase um sacrilégio se importar naquele momento. Por que deixei que alguém que muito provavelmente eu nem voltaria a ver fizesse parte do momento em que virei a última página de Vida Querida? Não deveria ter sido assim. Eu deveria ter chorado o que tivesse vontade, porque a turbulência da aeronave não chegava aos pés das sacudidas que os últimos contos do livro me trouxeram. Havia chuva por todos os lados, mas minhas nuvens pessoais eram muito mais pesadas, e as de Alice Munro, naqueles contos autobiográficos, me parecerem tão preciosas, tão completamente carregadas de vida. Aquelas lágrimas mereciam ter sido derramadas livremente, como um temporal.

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Gostei do livro todo, mas, como geralmente ocorre em coletâneas de contos, tenho cá meus textos preferidos. Os primeiros dez contos de Vida Querida (Alice Munro, Ed. Cia das Letras, tradução de Caetano W. Galindo) são ficcionais. Deles, meu favorito talvez seja "Corrie"; ou quem sabe "Cascalho". Talvez, ainda, seja "Com vista para o lago". Em todos esses, Alice abusa do talento em tratar com delicadeza e perspicácia as dores de amores que inventamos, da velhice, das memórias que enterramos porque precisamos sobreviver. Gostei da fluência da linguagem de Alice, ao mesmo tempo em que suas frases encerram mais, sempre mais do que parecem mostrar num primeiro momento. É seguir lendo e retomando parágrafos anteriores, para então perceber as pistas que o texto vai jogando pelo caminho.

Dos quatro últimos textos, todos autobiográficos, não quero escolher um favorito. Foram quatro abraços, quatro pequenos deleites. Toda minha torcida por uma autobiografia que eu devoraria em grandes garfadas. Alice tem histórias pra contar, mas mais do que isso, tem o olhar que cava as histórias e as lapida com esmero. Uma alegria.

"Demorava um pouco para a casa abandonar a luz do dia e as lâmpadas acesas do fim da noite. Deixando para trás o alarido das coisas que tinham que ser feitas, penduradas, acabadas, ela se tornava um lugar mais estranho onde as pessoas e o trabalho que lhes ditava as vidas desapareciam, o emprego que tinham para tudo à sua volta desaparecia, toda a mobília se recolhia a si própria e não existia mais por causa da atenção de alguém."  Em "Noite".

Talvez o livro seja menos melancólico do que me minha choradeira possa fazer parecer. Seja como for, com ou sem choradeira, o encanto está lá. Vão por mim. 

1 comentários:

Anônimo disse...

Curiosa para fazer a leitura do livro!

 
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