Uma chuva, um dente e um Sertão


O temporal que caiu no fim do dia formou poças imensas na frente da escola de música. Foi botar o nariz pra fora e ficar encharcada, com os pés molhados dentro do sapato-esponja, os livros, a bolsa e a alma, todos molhados. Eu abri o guarda-chuva, mas a chuva deve até ter achado graça da insignificância do coitado. E aí vem aquela cena linda: com um conjunto mão/braço seguro o guarda-chuva, tento manter a bolsa tão próxima ao corpo quanto possível e envolvo os pobres livros contra o peito; com a mão livre, eu, já bem molhada, destravo o carro; com a mesma mão abro a porta, enquanto verifico se outro motorista passará por ali nos próximos segundos, causando o temido efeito chuááááá em toda aquela água empoçada (a água empoçada na qual meus dois pés estão enfiados enquanto a abro o carro). Uma vez escancarada a porta, a chuva molha todos os papéis que estão no porta-trecos, mas isso é um mero detalhe; numa manobra radical e perigosíssima, passo a chave para uma mão e trago o guarda-chuva para a outra. Sem saber o que fazer em seguida, fico um pouco mais molhada. Então entro no carro de ladinho, mantendo o guarda-chuva para fora, já que é preciso fechá-lo antes de enfiá-lo no carro. Jogo livros molhados e bolsa molhada no banco do carona e enfio a chave na ignição. Aí encosto a porta com o guarda-chuva ainda aberto fora do carro até que os 89 motoristas que decidiram passar por ali naquela hora me permitam abrir a porta, me molhar um pouco mais e finalmente fechar o guarda-chuva. Aí foi só fechar a porta e molhar o que ainda estava seco nos bancos da frente porque, ao tentar colocá-lo no chão do carro, o querido guarda-chuva enganchou no câmbio e espirrou água por todo lado. Depois foi fácil, só dirigir pela cidade com aquela chuvarada sem sentir direito os dedos dos pés.

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Mas vamos ao grande acontecimento da semana, algo que já vinha sendo esperado por algum tempo por certa pessoinha moradora dessa casa. Um fato inédito em sua vida, o início de uma nova era, um divisor de águas. Algo que realmente abrirá uma nova porta - ou pelo menos uma janelinha: Amanda agora tem seu primeiro dente mole.

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Amanda tanto paquerou as aulas de judô do irmão que recebeu o convite do professor para fazer ela mesma uma aula experimental.  Agora põe o quimono duas vezes por semana e vai lá fazer rolamentos e quetais. Acho que combina tanto com ela que nem sei porque não a matriculei antes. As brigas domésticas entre irmãos por aqui devem ficar emocionantes. Prometo mantê-los informados, não se preocupem.

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Eu bem que poderia ter lido Grande Sertão: Veredas há mais tempo. Mas estou gostando tanto de lê-lo agora, nessa fase de minha vida, que nem vou lamentar mais. Comecei com esse papo de "poxa, como não li antes?", agora acho bom tê-lo comigo. Sabe aquela alegria besta? Pois então. 


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