Sweet Monday



Contrariando todas as probabilidades, resolvi que, sim, daria tempo de fazer aquele bolo nos 10 minutos que me restaram livres antes do almoço. Fiz, ficou bem mais ou menos, deu pro gasto. Um bolo mais ou menos é menos triste do que bolo nenhum, convenhamos. Além do mais, foi uma daquelas pequenas jornadas em que o processo valeu muito mais do que o produto final. Não sei se enquanto separava gemas das claras ou se quando media os ml de leite, o fato é que ali, num cantinho espremido da cozinha, misturando loucamente o aroma do chocolate granulado ao do frango que saía do forno, em algum momentinho daqueles que só a baderna da cozinha nos proporciona, bem ali, sorri com facilidade. Achei graça, assim do nada, de eu gostar tanto daquela desordem - onde já se viu, o fermento e o feijão lado a lado no balcão? É que se esperar apenas o momento limpinho, o momento oportuno de balcão desocupado, o bolo talvez não venha. Minha vida tem sido assim, balcão desordenado, e enxergar a grandeza em cada pequeno momento de prazer tem valido muito. Ainda prefiro ligar o som, pôr um avental e chamar Amanda para lamber a vasilha; mas quando não dá, é bom ver que bater o bolo 5 minutos antes de arrumar o cabelo dela para ir à escola e de ajudar o Arthur a se servir também me faz bem. É para eles que faço o bolo que comeremos juntos no final do dia, comentando a aula de geografia. Guardo aqui para me lembrar daqui a vários anos que gosto muito quando as réstias que o sol desenha na parede prendem minha atenção.

Hoje era, ainda, dia de cumprir promessas. Amanda há dias me pedia o dia do cupcake, a receita vista no livro da bailarina etc e tal. Eu havia prometido a função para o domingo, mas o cinema roubou nossa chance de melecar a cozinha e adiei o cumprimento da promessa, imaginem às custas de quanto protesto. Não dava para adiar mais, tinha de ser na noite de segunda-feira-infinita mesmo. É claro que o livro com a receita da bailarina desapareceu (ficou dias no balcão da cozinha esperando o cumprimento da promessa; quando finalmente decidimos botar a mão na massa, sumiu). Resignadas, Amanda e eu catamos o iPad, recorremos ao santo blog da Patrícia e fizemos essa receita. Pesei os ingredientes e dei as instruções; ela executou cada passinho com louvor, toda concentrada, "meu primeiro cupcake, né, mãe?". Aquele sorriso que já havia vindo fácil no cantinho da cozinha calorenta antes do almoço, agora, na cozinha pós-jantar toda nossa, veio a galopes largos. Ficaram fofinhos e deliciosos, usamos cobertura de chantilly (que era, afinal, o momento mais esperado do cupcake da bailarina, o chantilly branquinho se esparramando sobre os bolinhos, o lado bom da vida) e coroamos com moranguinhos. E num grande exemplo de alimentação saudável e balanceada, meus filhos devoraram cupcakes pouco tempo depois de terem comigo bolo de chocolate granulado no jantar. Balcão desordenado, boa semana. 

5 comentários:

Patricia Scarpin disse...

Delícia de texto, Rita (pra variar). Adorei imaginar vocês duas preparando os cupcakes, Amandinha compenetrada, que coisa mais querida. <3
E que felicidade minha fazer parte deste momento, nem que de longe, nem que com a receita apenas.
xx

Thaís disse...

Doces momentos...
Saboreio seus textos como as crianças devoram os cupcakes.
Tenha uma semana plena de raios de sol!

Luciana Nepomuceno disse...

É um respiro vir aqui. Daqueles bons, porque não nos levam pra longe da vida, mas nos mostram como ela pode ser boa. Obrigada. Por ser. Por escrever.

Renata de Oliveira disse...

Delicia de post.
Delicia vir aqui.
Vou experimentar o cupcake.
Já sonhando com o dia em que farei cupcakes com a minha filha, a que ainda gestarei...
Beijos, Rita

Anônimo disse...

Belas palavras, Rita! Que demonstram o quão a vida é essa estrada anil (narrada por ti), nos momentos mais simplórios: uma aventura na "sweet monday", em fazer cupcakes com a filhota. E ao final, nem precisam sair tão saborosos et cetera, pois o importante e o que enraiza na vida, é o sabor /saborear do momento, e que lá na frente, serão memórias gostosas de serem recordadas em muitas "sweet mondays".

 
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