O perfume da folha da laranjeira


É você por todo lado. Não adianta. Assim que o carro se aproxima daquela curva fechada à direita, que marca a entrada da cidade, é você. Não há nenhuma surpresa nisso, obviamente. É só que ontem teria sido um daqueles dias de muito falatório em sua casa, bem sei, e aí foi como se eu começasse a ouvir sua voz já no início da rua. A cena que decidi pintar nas entranhas de meus pensamentos é assim: você está bem e saltitante, nada da fase mais pesada do final de sua vida. Você teria ligada para todos - todos - seus amigos na véspera intimando-os para as obrigações do dia: pular cedo da cama e ligar o rádio para ouvir a entrevista; comprar o jornal; não desgrudar da TV na hora do jornal local. Teria ficado assim, meio boba. Esses mesmos amigos teriam sido convocados para a noite de lançamento, à qual você compareceria com um sorriso de orelha a orelha, meu livro na mão, foto atrás de foto. Diria assim a eles: aff, é um livro lindo, lindo! Bem assim, eu sei. 

Mas o mundo é isso aí e ontem não pude trocar figurinhas com você. Eu acho uma pena mesmo, porque eu gostava desse negócio que era botar um sorriso em seu rosto. E alguns de seus amigos estavam lá, outros não puderam ir, mas se fizeram presentes através de telefonemas carinhosos e recadinhos que me foram dados com igual cuidado. E em todos eles, cada recado, cada olhar de amigo seu, em todos estava você. Sua mão ainda segura a minha. 

Escolhi de novo flores brancas e amarelas. Havia uma aranha enorme e colorida numa teia imponente próximo à plaquinha com seu nome. Deixei ali, a aranha guardiã, não mexi com ela. Um pouco abaixo, olha que engraçado, nasceu um pé de laranja-cravo. A gente passa as pontas dos dedos nas folhas e o perfume é algo indescritível. Algum passarinho deve ter levado a semente. Ou talvez o vento, o mesmo vento que trazia a chuva fina que caía sobre o cemitério. Botei as flores ao lado do pé de laranja-cravo. E imaginei os abraços e a barulheira que você teria feito ontem. Também levei flores para o túmulo de Tia Maria - ela, então! Teria dado pitacos em cada conto. E teríamos dado boas risadas. Mas o mundo é isso aí.

Meus amigos sabem que eu senti muita alegria em lançar o livro por aí. Foi bom demais. E sei que eles não se importam de, no fundo, no fundo, saberem que é por eles, mas é muito mais por você, por sua memória. Não muda nada no curso irremediável de nossa separação, mas às vezes, mãe, é tudo que nos resta: o vento, as flores, o perfume da folha da laranjeira, o eco da voz das pessoas que amamos tanto. 

Que bom que sempre demonstrei minha gratidão, você sabia dela. Ontem ela retumbava no meu peito, tentando abafar um pouco a vontade de chamar você. 

3 comentários:

Anônimo disse...

Sentimentos transvestidos em palavras para a figura sublime e materna. E que, com toda certeza, esteve e está presente em todos os teus lançamentos e em cada poente dessa estrada anil. Admiro você e sou tua leitora assídua. Sucesso, querida!

vera maria de queiroz costa disse...

Que lindo, rita, sua mãe deve estar muito orgulhosa do talento da filha, que deve ser hereditário. Seu amor por ela é comovente.
beijo, sucesso, gostando muito de ler seus contos,
clara

Marcia disse...

Neste post tão pessoal, eu me sinto uma intrusa ao comentar. Mas me sinto ainda mais indelicada ler e fechar a janela e não dizer nada. Então mando-lhe um grande abraço, Rita. Acredito que a sua mãe sempre soube que você continuaria a lhe dar muito orgulho, ao longo de toda a sua vida.

 
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