Congonhas, again


Meu voo saiu com uns cinco minutos de atraso, pouco depois das quatro e meia da tarde, do aeroporto de Florianópolis. A previsão era pousarmos cinquenta minutos depois em Congonhas, de onde eu partiria vapt-vupt para o hotel, largaria minha bolsa e pegaria um taxi para o Canto Madalena. Lá eu me juntaria à Lu e à Fal, e a várias pessoas queridas de Sampa que convidamos para o lançamento de Contos do Poente. Mas, antes, havia Congonhas.

Tenho birra com Congonhas e sei que não estou sozinha. Durante algum tempo foi trauma e medo por causa daquele terrível acidente de que todos se lembram. Depois, por experiência pessoal. Quando me aproximo de lá, já me pergunto "será que o avião vai arremeter dessa vez?". Porque, olha, parece parte do pacote dos meus voos via São Paulo. Enfim. Cá estou, em Florianópolis, num nível de frustração que ainda estou elaborando, escrevendo no blog enquanto tanta gente bacana celebra em São Paulo o lançamento de meu livro sem mim. Estava chovendo muito quando nos aproximamos do aeroporto, por volta das cinco e meia da tarde. E, principalmente, estava ventando muito também. O voo de hoje foi um daqueles que transformam pessoas que antes voavam tranquilas em pessoas com medo de avião. Foi difícil. 

Aquele avião balançou com força. É claro que o piloto arremeteu trinta segundos depois de anunciar que o pouso estava autorizado, dando um clima de expectativa tremendo entre os passageiros. Bem, eu estava na maior expectativa. O fato é que acelerar ao descer em Congonhas, com chuva, causa arrepios. Mas não haveria pouso. Foram três aproximações do aeroporto, sem sucesso. Quarenta minutos depois, o comandante anunciou que nosso tempo de espera para pouso acabara, retornaríamos em segurança para Florianópolis. 

Retornamos, não sem turbulências, porque o avião estava decidido a nos apavorar. Quando pousamos em Floripa, duas horas e meia depois da decolagem, eu estava aliviada por estar viva. Parece dramático? Foi. O comandante então anunciou que a situação em Congonhas melhorara e que o avião seria abastecido e partiria em seguida para Sampa. Não comigo. Imaginei ali uma espera de cerca de trinta ou quarenta minutos para abastecimento da aeronave (seria isso?), além da retirada da bagagem dos passageiros que desistiram do voo e optaram por descer em Floripa. Imaginei, também, o trânsito que eu pegaria entre Congonhas e o hotel com toda aquela chuva despencando sobre São Paulo bem na hora em que todos voltam pra casa. E pensei, gente, eu chegaria ao Canto Madalena muito tarde. E, confesso, eu estava apavorada diante da perspectiva de encarar Congonhas novamente dali a uma hora, uma hora e meia? Não faço ideia de quanto tempo o avião levou para decolar novamente, mas desci e liguei para o Ulisses me buscar no aeroporto. Então liguei para a Fal e a Lu, falei com as duas. Senti um enorme vazio. Uma tremenda dor de cotovelo. Ao mesmo tempo em que me sentia aliviada porque, olha, houve um momento em que realmente temi por nossa segurança naquele avião.

Não foi a primeira vez que Congonhas me fez perder algo importante. Em 2012, perdi o funeral de minha tia por causa do tempo ruim, avião arremetendo, pouso com grande atraso, conexão perdida.  

***

Eu queria muito me desculpar com todas as pessoas queridas de São Paulo que atenderam ao nosso convite e estão agora no Canto Madalena. Eu espero que vocês me perdoem por não ter ficado no avião, encarado tudo outra vez e chegado lá bem tarde - mas chegado. Eu pensei nisso depois, mas só depois de abraçar Ulisses e chorar um pouco para espantar o susto e toda minha enorme frustração. Ele achou que eu deveria ter ido, chegado tarde, ido ver todo mundo. Talvez eu tenha feito a escolha errada, mas eu não estava exatamente escolhendo. Eu quis fugir daquele avião. 

Tenho certeza de que a Luciana está abraçando nossos amigos e leitores por nós duas. Eu nem sei dizer o quanto eu queria estar lá também. Sinto muito, queridos. Desculpas, de verdade. 

***

Sábado vamos, Ulisses e eu, ao lançamento no Rio. Sem Congonhas. 

9 comentários:

Fal disse...

Vc não tem nada do que se desculpar. vc é uma linda, nóis tudim liama e dias melhores virão. <3

Clara Lopez disse...

Fal está certa, vc fez o que qualquer um de nós faria, e as pessoas de sampa entenderão. Aolançamento do Rio adoraria ir, mas chego na cidade na cidade na segunda feira, à noitinha, mas fiquei imaginando num certo delírio que vc poderia deixar meu exemplar autografado e eu pegaria - e nem sei onde será. Onde será? Eu posso ligar pra livraria, faço o depósito do valor na conta deles, ou na sua conta, e vc deixa assinado, será que pode? :))
Enfim, boa sorte lá, que todos estejam felizes e leves e a noite sem chuvas,
clara

Rita disse...

Clara, querida, obrigada. Você pode mandar um email pro contosdopoente@gmail.com? Aí te passo os detalhes do pagamento. Terei imenso prazer em deixar seu livro na livraria do lançamento. Amanhã trocamos emails, OK? Beijo!

Luciana Nepomuceno disse...

Eu dei pelo menos dois abraços por pessoa. E sábado te passo todos os seus. A escolha certa foi ficar bem <3

Marcia disse...

Rita, eu nem estaria lá, mas se estivesse eu preferiria saber que você estava sã e salva em Floripa do que arriscando a sua vida num vôo incerto. Acho que a sua atitude foi responsável e madura. A decisão foi certa porque você está aí, presente onde mais importa no mundo.

Anônimo disse...

Minha amiga, não sei o que te falar, estava eu pensando em você em SP, no lançamento, feliz por você, quando te liguei e você estava no aeroporto e me contou... Como Luciana falou o importante é que você tenha ficado bem. Agora vamos pensar amanhã no lançamento do Rio, que tenho certeza será maravilhoso!!!
Um forte abraço,
Ju

Anália disse...

Rita,
Acho que vc fez bem em não vir. Primeiro pelo medo, acho que a gente tem mais é que respeitar. Depois, Sampa estava um verdadeiro inferno. Tudo quanto é farol queimado. Se o lançamento nçao tiver ido madrugada adentro, vc perderia, com certeza. E a fortuna de taxi, nem se fala.
Mas enfim, depois desse verão tórrido, descobri finalmente uma boa função dessas tempestades, a temperatura finalmente baixou... Não falo mais mal desses temporais, mesmo quando cair a luz (toda vez) e quando ninguém conseguir chegar em casa!
Bjs,
Anália

Marissa Rangel-Biddle disse...

O importante é que vc está bem. Me arrepiei toda só lendo vc descrever esse vôo horriverrrr! E nem medo de voar tenho eu.

Essa maravilhosa dessa Borbs ta na terra Brasilis! Aff! Ceis por favor se ajuntem em três e dêem meus beijos uma nas outras no próximo encontro.

Bitocas!

Angela disse...

:( Tava meio desconectada e so agora vi. Meleca. Mas que bom que voltou para casa segura! E que esteja festejando muito no Rio nesse exato momento! Beijao!

 
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