Those big little things


- Arthur, vamos andar de bicicleta?
- Ah, não, mãe, meu livro tá no finalzinho, quero ficar lendo.
- Ah, mas tá bem fresquinho hoje, bom de andar de bike, vamos vamos vamos vamos vamos.
- Não queroooo...
- Vamos vamos vamos vamos vamos vamos... leva o livro...
- Tá booommm.

E nós fomos. O membro mais empolgado do grupo era o Floquinho que não sabia por qual porta do carro entrar. Saracoteava em voltas, balançando o rabo numa velocidade impressionante. A praça estava vazia quando chegamos, o céu completamente nublado nesse domingo com cara de primavera indecisa. Quando nos lembramos do calor sufocante da semana passada, nem lamentamos o dia que bem poderia ter sido passado à beira da piscina ou numa praia mais distante. Mas tínhamos optado pela praça ao invés do sofá e foi uma boa escolha. Aos poucos outras crianças chegaram com seus cachorros, patins e bicicletas. O Arthur escolheu a prancha de abdominais para se deitar e ler seu livro. Amanda seguiu em sua jornada para aprender a pedalar sem rodinhas de apoio, com a ajuda do pai. Fiquei por ali, caminhando o Floquinho, achando que a praça tá mal cuidada com toda aquela grama alta demais; e me espantando, mas só um pouco, com o descaso dos donos de cachorros em relação ao cocô que os bichinhos largam pela praça. Olhei para o Arthur mergulhado em Hogwarts e pensei nos contos da Lygia que deixei no banco do carro, mas resisti; em breve eu substituiria o Ulisses no auxílio às pedaladas ainda bambas da Amanda. 

***

Depois de algum tempo, você aceitou o convite do pai e foi pedalar também. Seguiu animado e rapidão pela ciclovia repleta de pequenos buracos, feliz com sua nova bicicletona. Como a minha segue presa em casa graças à chave perdida do cadeado, peguei a sua emprestada e também pedalei um pouco, enquanto você voltava aos papos com o Harry na prancha de abdominais. E foi naquela hora em que Floquinho e eu nos juntamos a você na prancha que meu dia ficou imenso. Eu me sentei à sua frente, observando a Amanda brincar de morcego nas barras, com aquele cabelão varrendo o chão onde os cachorros fazem xixi, e senti quando você tirou uma das mãos do livro e fez um carinho em minhas costas. Talvez Lord Voldemort estivesse infernizando a vida do Harry, já que você está no finalzinho do livro, mas ainda assim você se dividiu entre os feitiços e a minha presença. Você foi tão grande ali. Eu adorei o carinho, sua mãozinha coçando minhas costas, o céu branco, sua irmã bancando a ginasta, Floquinho exausto de encarar todos os outros cachorros da praça. Não foi nada complexo ou epifânico: foi sua mão nas minhas costas, você como você é, carinhoso, generoso, presente. Que bom que você foi junto. E não que eu seja ingrata, você sabe que adoro os dias mais coloridos, mas hoje não precisei do sol.

4 comentários:

simplesmentefluir disse...

Rita, simplesmente lindo!!!!Beijo.

Clara Lopez disse...

Nossa! Nossa, Rita, tão singelo e tão perfeito. Você sabe tecer mágicas :))
abração,
clara

Jeferson Corrêa disse...

Como sempre, doçura e perfeição transformadas em palavras escritas =)

Felicia Luisa disse...

*_*

 
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