As janelas do elevador


O dia amanheceu com cara de bravo, mas logo deu uma piscadela. Tímida, mas ainda assim. Comecei com preguiça, admitamos, ando cansada e vou dizer que é por dormir pouco, mas não sejamos ingênuos. Estou nessa toada há muito tempo; no entanto, pensar que é uma fase pode ser útil, anotem aí. Fingimos ser o sono pouco cobrando seu preço, quando sabemos que é tudo pelas mudanças que não fazemos. Eu bem queria ter terminado aquele livro ontem, mas houve tudo aquilo que não interessa me surrupiando as horas. Mas eu dizia que me levantei com preguiça, segurem o foco. Vesti qualquer coisa, prendi o cabelo de qualquer jeito, comi um pão com sei lá o quê, tomei um café - devo aqui reconhecer que minha caneca é boa ouvinte. Fui. 

Fiz o que tinha de fazer, suspirei umas três vezes, tomei outro café, agradeci o convite, doei as bicicletas menores, voltei pra casa, beijei as crianças, vi a dança da raposa de pelúcia, disse que sim, pode, levei o marido ao trabalho, vi o amigo, atendi a amiga no telefone, vi o outro amigo, fiz as unhas, li o livro, vendi livro, voltei pra casa, vi o cocô do cachorro e no segundo seguinte me esqueci dele, beijei as crianças, busquei o marido e a essas alturas já tinha estragado nove unhas, vi o cocô do cachorro e pensei "putz", almocei, elogiei, tomei o vinho, comi o chocolate, hum, quanto mais amargo, melhor (o chocolate, não o dia), reclamei do calor, fui ao trabalho, voltei correndo porque o telefone tocou, a filha tinha se machucado, levamos ao médico, não aqui não atendemos crianças, levamos ao outro médico, olá, tudo bem, vai ficar bem, torcicolo de novo, é comum, bolsa quente, assim assim, buáááá, calma, vai passar, levamos pra casa, beijei as crianças, disse sim, pode, acho que alguém catou o cocô do cachorro, voltei ao trabalho, de repente BUM, o moço se distraiu e bateu no nosso carro, não foi nada, a filha dele chorava alto no banco de trás, deixa pra lá, seguimos caminho, não restava nenhuma unha intacta, agradeci à amiga que segurou as pontas, expliquei à chefe, fiz o que tinha de fazer, morri de tédio, ressuscitei dez vezes, liguei pra casa, disse sim, pode, fui ao banco, pensei no livro, no que li, no que estou lendo, no que quero ler, no que estou escrevendo, olhei pela janela, o mau humor do dia tinha voltado, mas eu vi lá longe uma linha de luz branca sublinhando o horizonte, resistindo, e pensei eu também posso.

E no elevador você abriu janelas e disse olha por aqui, fica melhor, e eu me senti muito grata, meu amor.

***

Leio contos da Lygia Fagundes Telles e me sinto grata. Lygia, querida.

***

A noite chegou e fez o que o dia só ameaçou. Agora os céus abrem a represa, a água jorra e lava as esquinas. As trovoadas enlouquecem o cachorro, relâmpagos rasgam as nuvens e iluminam nossas janelas. Em algum lugar da cidade, alguém deve estar escrevendo uma história boa. 

6 comentários:

Liliane Gusmao disse...

deve ser você.
<3

simplesmentefluir disse...

Surpreendente...amei! Bjs

Rafaela Sena disse...

Oi Rita! grata surpresa encontrar este seu espaço, muito bom topar com uma escrita feminina tão potente quanto a sua. Escreves muito bem, sutil, mas forte ao mesmo tempo. voltarei sempre aqui, espero em breve ler teu livro, grande abraço, até sempre!

Rita disse...

Liliane, <3
Simplesmentefluir, obrigada.
Rafaela, seja bem vinda. Será um grande prazer vê-la aqui. Beijinhos.

Rita

Clara Lopez disse...

Menina, eu não leio tanto a Lygia quanto deveria, mas você eu tento ler sempre, e é bom, viu.
beijo,
clara

Anônimo disse...

Oi Rita!
É sempre bom ler teus textos!

Isadora Cysne

 
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