Em estado de férias


Voltar de uma viagem de férias e ainda ter uns dias de folga antes de retomar o trabalho é um pedaço do céu. Ter tempo para desarrumar as malas sem alvoroço, recuperar o corpo do voo noturno (até durmo bem em aviões, mas dessa vez não deu), curtir a casa. Com as crianças de férias e o Natal batendo na porta, esses dias em casa têm tido um saborzinho bem bom. 

Passamos pouco mais de uma semana no Nordeste, mergulhados no verão de verdade - o de Florianópolis tem tido cara de outono esta semana, com dias frios de vento forte anunciando chuva. Fico feliz por termos aproveitado bem nossos dias de praia em João Pessoa. Aliás, quase tudo em nossa viagem foi impecável, não sei como vou me recuperar de tanto paparico. Fomos recebidos com muito carinho, os mimos não paravam de nos cercar. Todo desejo gastronômico era prontamente atendido, comemos como reis. Matei saudades da minha canjica - e nem era junho; as crianças tiveram o suco, o sorvete e o feijão que preferem; Ulisses piscava e o copo de cerveja surgia em sua mão, o queijo de coalho assado aparecia do nada em seu prato, o peixe que só o pai dele sabe preparar nos esperava na volta da praia... E nem vou falar das mangas. As mangas do Nordeste (vou falar) são, anotem, as mais doces, mais carnudas, mais mangas que todas as mangas do universo. E eu, amigos, me esbaldei.

Mas eu disse que quase tudo foi impecável. Porque faltou tempo. Conheço gente querida demais por aquelas bandas, visitar João Pessoa e Campina Grande com pouco tempo é realmente um pecado. Volto pra casa sentindo mais saudades de gente que não consegui ver. :-(

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Vou à minha cidade e visito túmulos. A mesma vida de dias azuis e mar de águas mornas é a da saudade e das conversas que nunca terei.

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As crianças ganharam instrumentos musicais de presentes da tia: uma guitarra para  a Amanda, um violão para o Arthur. Não sei se vão tocar tanto quando aprenderem quanto têm tocado agora que acabaram de ganhar. O fato é que já temos algumas composições inéditas - hohoho - e acho que de estilo eles estão indo muito bem. ;-)

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Meu sobrinho é lindo e muito, muito querido.

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Voltar das férias de dezembro de 2014 sonhando com as férias de janeiro de 2015, trabalhamos. Estou em estado de graça, mas disso falo em breve. Antes, quero que saibam que mando daqui todos os bons pensamentos de um Natal cheio de risadas, amigos e boas comidinhas. Com a ajuda da Amanda, já providenciei as sobremesas de amanhã. Nham! Boas festas, pra quem é de festas; bom descanso pra quem quer se recolher. Do jeito que for, que seja bom. Feliz Natal!



De: _________ Para: _________


Uma das coisas bacanas da infância é a alegria besta, daquela com gargalhadas emboladas, por causa de coisas pequenininhas. Hoje botei alguns presentes no pé da árvore, onde ficarão até a noite de Natal. É um pouco torturante, reconheço. Uma tentação sem fim, coitadas das crianças. Olham, salivam, pegam, balançam, pedem pra abrir "um só", e eu, carrasca, digo nananina-ninanão. Reconhecendo as embalagens da livraria, Arthur implora pra abrir pelo menos os livros, mas Ulisses insiste que aquilo é na verdade uma vara de pescar, não é livro coisa nenhuma.

Só que não é da alegria de ver os presentes que estou falando, mas das etiquetas. Hoje quando fui preencher as etiquetinhas "de... para...", substituí o "papai e mamãe" por personagens habitantes do imaginário deles. Arthur adorou ver que há um presente para ele vindo de ninguém menos que Harry Potter himself! Morreu de rir ao ver que o Martin McFly, do recém-visto e adorado Back to the Future, também lhe mandou um presente de Natal. Amanda foi lembrada por Elsa e Olaf. Ao ver a etiqueta "De Coelhinho da Páscoa Para Arthur", então, ele me lançou o melhor dos olhares: 

- Ai, mãe, aí você forçou, hein? Agora só falta a Fada do Dente me trazer um presente de Natal.

Fui logo dizendo que não tenho nada a ver com isso, apenas ia passando na rua e me pediram pra trazer essas encomendas e coisa e tal. Foi mais divertido do que abrir os presentes. Adorei e recomendo. ;-)

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A & A: Eu quis contar aqui pra vocês dois lerem no futuro, caso se esqueçam. Porque foi divertido demais, demais. 

Do que fica


Às vezes acho que a gente cria "coincidências", inventando convergências para dar mais sabor a coisas sem qualquer parentesco ou semelhança. Como quando dizemos: olha, que coincidência, você me beijou pela primeira vez no dia em que fazia três anos que eu tinha passado no vestibular! Pois. Um jeitinho bobo de dar mais graça a eventos desconexos, mas com importância suficiente para querermos alçá-los à categoria "coisas incríveis".

No ano passado, a editora entregou os primeiros exemplares de Contos do Poente no dia 09 de dezembro. O carro do correio chegou no final da manhã. Era o dia em que eu revivia pela terceira vez a cronologia de seu último dia na Terra. A cada dezembro agora é assim. É bem verdade que penso muitas vezes nos momentos que antecederam sua partida em dias aleatórios ao longo do ano, em momentos absolutamente inesperados em qualquer estação, seja enquanto redijo um documento no trabalho, dou boa noite ao Arthur ou escolho tomates no mercado. Mas a cada 09 de dezembro a folhinha do calendário fica mais pesada, e o peito também. Nem sou tão ligada em datas, você bem sabia, mas o dia 09 de cada dezembro me traz você grande de novo. Então amanheço sabendo que eu tomaria café e iria à UTI para o horário das visitas e que eu conversaria com você como se você pudesse me ouvir. E que, momentos depois de eu sair, o hospital nos telefonaria e nós regressaríamos para lá absolutamente perdidos. E que o mundo seguiria girando no espaço, meus olhos arregalados, minhas mãos oscilando à procura das suas tantas vezes, meus filhos crescendo, a vida seguindo, você em mim.

Chega o dia 09 de dezembro de novo e me lembro de que no ano passado o carteiro me entregou os livros do lançamento e eu pensei "bem na hora em que mamãe se foi", como se existisse qualquer relação entre o horário do carteiro e a última batida do seu coração cansado. Uma invençãozinha para permitir importância a qualquer outra coisa no dia nove que não seja o fato de que você não podia mais.  

Em poucos dias irei à nossa antiga casa ouvir os ecos de minha infância. Vou de ouvidos bem abertos, com uma canção no coração. Aprendi que o amor fica. 

Bryson, o tempo e o Escorpião


Antes de ontem à noite estiquei o braço e alcancei a prateleira mais alta da estante, mas não a mais bagunçada, onde estava meu exemplar de Breve História de Quase Tudo, iria emprestar a uma amiga. Levei o livro para meu quarto onde cada membro da família lia ou teclava alguma coisa. Arthur me perguntou que livro era aquele, falei do que se tratava e disse que, olha, você bem que poderia dar uma olhada, acho que você ia gostar e tal. Ele abriu e viu, na primeira página, nossos nomes escritos com minha caligrafia: "Rita, Ulisses e Arthur, 2006". Mostrou à irmã:

- Olha, Amanda, seu nome não está aqui.

A carinha que ela fez cortaria mil corações. E me olhou, inquisidora. Arthur esclareceu:

- Você ainda não tinha nascido quando a mamãe comprou esse livro, né?!
- Você meio que já existia no coração dela - acrescentou o pai, idealizando só um pouco.

Aparentemente, a explicação não foi suficiente. A cara dela não melhorou muito, a recusa em visualizar um tempo em que não estava ali, naquela cama, em nossa muvuca de fim de dia. Aí me dei conta de que Bill Bryson entrou na minha vida antes da Amanda, o que pode entrar para o rol das comprovações da relatividade do tempo. Porque Amanda é mais espaçosa do que o Bill, parece que está aqui há mais tempo do que consigo medir, mesmo levando em conta todos os bons momentos que a escrita dele me dá.

No dia seguinte minha amiga elogiou a edição toda linda, levou o livro pra casa e sugeriu que eu acrescentasse ali, ao lado dos três nomes, um coraçãozinho planejando a Amanda que viria no ano seguinte. Vejam vocês o cordão do puxa-sacos da minha filha.

Enquanto isso, ainda leio Little Women, atrasada, meio fora de tempo. Uma leitura que deveria ter sido feita aos 15 anos, talvez. Mas sigo lendo, meio curiosa, que o tempo é elástico e a menina que fui ainda está aqui. O que não me impede de sugerir ao Ulisses, assim, meio sem querer, que, olha, em alguma época dessas aí em que o povo costuma dar presentes... sabe, não tenho todos os livros do Bryson e tal. Ele mal me escuta, anda com a cara enfiada em Dezoito de Escorpião, livro que lhe dei no aniversário depois de mendigar sugestões de histórias scifi aos amigos. Parece que a sugestão foi das melhores, posto que falo com meu marido e ele nem mais responde, vão vendo. Vou ali fazer uma lista de coisas com as quais quero que ele concorde e ouvir um "tá" desinteressado. Tipo livros do Bryson.

We will not grow old


De vez em quando, no meio de um dia especialmente corrido, a gente pensa "ah, quem me dera ao menos uma tarde de folga para botar aquelas pendências mais ou menos em dia!". Hoje tive uma tarde dessas. Fiz as unhas - pendência da maior importância - dei uma passada na livraria, comprei manteiga. Depois fui pra casa. As crianças na escola, você resfriado. Sua tarde de folga veio a calhar, seu corpo pedia repouso. Mas a calhar mesmo foi o fato de essa bonança ter vindo na véspera do seu aniversário. A gente pôde começar a comemoração um tanto mais cedo, fazendo algo que a gente faz muito bem, ficando juntos. Tão bom ver que gosto cada vez mais desse lance aí, não importa o número de anos que compartilhamos. É como vinho, só melhora. Como os anjos estavam todos dizendo amém, passou Friends na TV, bem aquele episódio antológico do famoso "break". Friends foi ao ar pela primeira vez no ano em que nos conhecemos. Dez anos depois, algum tempo depois do nosso próprio break, compramos a última temporada e rimos juntos das velhas piadas vencidas. Hoje olhei para Ross & Rachel como quem observa um amuleto. Nós conhecemos todas as falas, uma pequena amostra do conforto que nos cerca. A gente se sabe, meio de cor. E a gente também sabe que sempre há descobertas, a gente deixa que elas venham. E a gente se aprende de novo e se redescobre, tal qual desejamos lá atrás. A gente envelhece e rejuvenesce e se reconhece. Dia desses você falou daquela canção da Lenka, quando ela diz que "we will not grow old"; você disse que é bem assim, ainda somos aqueles, da faculdade. Acho que entendi. Claro que mudamos, mas trazemos aquela vontade no peito, todos os dias desse agora. E ainda vibramos com uma simples tarde de folga que nos permite ficar grudados vendo um seriado velho na TV. Chamo isso de vencer na vida.

Então você sabe, estar com você ao longo dos anos é minha fonte maior de alegria. Seu aniversário é um pretexto maravilhoso para sublinhar isso aí. Te amo mais e mais. Seja feliz, seu lindo.  

Azul


Durante algum tempo, Belo Horizonte foi para mim a cidade onde Ulisses morava. Não era a capital de Minas ou a terra daquele povo simpático, mas o lugar para onde havia se mudado aquele menino com quem namorei na faculdade. Parecia um ciclo encerrado, o mineiro que havia voltado para casa. Isso foi antes de ele trocar Belo Horizonte por Floripa, claro, e a gente se entrelaçar de novo. Aí BH voltou a ser só a capital de Minas mesmo.

Com a mineirice, Ulisses trouxe o Cruzeiro para perto de mim. Não muito, que minha relação com futebol não é lá esse romance todo, vocês sabem - salvo em Copas, quando me rendo, facinha. Já o campeonato brasileiro não costuma tomar nenhuma tarde de domingo em minha vidinha afutebolística. Acontece, porém, que quando derrotou o Grêmio de virada na semana passada, o Cruzeiro ficou a um passo do título brasileiro (de novo). A mineirice de Ulisses aflorou com força. Foi um tal de reservar passagem e comprar ingressos antes de terminar a frase "Vamos para Bel..?". Quando dei por mim, estava dentro do Mineirão. O brasileirão, olha só, tomou de mim um final de semana inteirinho.

Não posso dizer que revi BH. Foi uma viagem corrida, no melhor estilo vim, vi pouco, venci. ;-) Do pouco que observei da janela do carro ou do curto passeio pelo bairro onde ficamos, vi uma cidade ainda maior do que eu me lembrava, mais barulhenta, mais agitada, mais mais mais. BH tamanho GG. Passamos metade do sábado no avião, metade da tarde tentando almoçar e o resto do dia paparicando meu cunhado, de quem gostamos demais. Ainda consegui dar um rápido abraço em uma amiga (mas um abraço bem dado: com café e pão de queijo recheado no Café com Letras do CCBB, anotem aí, delicinha - a meia hora mais bem aproveitada de Belzonte), mas há tantas pessoas que eu gostaria de ter encontrado em BH, que nem vou contar essa viagem como visita social. Continuo devendo.

O domingo pertencia ao Mineirão e para lá nos dirigimos no início da tarde. Escolhemos um restaurante em frente ao templo, digo, ao estádio (esse negócio empolga) e lá tive um gostinho da farra que vocês, amantes do futebol, vivem a cada ano/campeonato/fim de semana. O restaurante estava tomado de azul. Mulheres e homens smurfs entoavam seus hinos como se estivessem prestes a entrar no campo de batalha - ou a seguir atrás do trio elétrico, dá na mesma.

Para os dois minicruzeirenses de nosso grupo, tudo era festa. Cantavam sem saber a letra, batiam palmas. Arthur e Amanda nos acompanharam na fuzarca e estrearam em estádios de futebol em tarde de gala. Não de galo - oops, desculpa. Com a barriga cheia e a chuva despencando do céu, vestimos nossas lindas capas de chuva (o moço das capas de chuva deve ter ganhado um bom dinheirinho) e atravessamos a avenida. Chegamos de sapatos encharcados ao palco do inesquecível 7 a 1.  E aí dou o braço a torcer e admito: um estádio de futebol lotado é um trem lindimais, sô. Para todos os lados, azul azul azul. (Parênteses para registrar que é muito legal quando a torcida entoa o hino nacional com ênfase em "a imagem do Cruzeiro resplandece" - de arrepiar.)

Arthur não perdeu nenhum lance. Amanda se assustou com o barulho no primeiro gol. Instruída pelo pai, berrou forte no segundo e já pegou o jeito (fez uma carinha impagável quando a torcida xingou o juiz, by the way). O jogo foi emocionante, com o Goiás ameaçando adiar a festa até o último minuto. E não sei se a torcida que berrava ter o melhor goleiro do Brasil está com a razão, mas certamente foi ele, o goleiro, quem garantiu nosso grito de tetra no final. O Goiás quaaase marcou, mas o Cruzeiro se segurou e o estádio explodiu. Se para mim a coisa foi divertida, imagino para quem se envolve de verdade, torce o ano inteiro, vai sempre ao estádio. Bom, meu pé parece ser quente, tamos aí, é só convidar.

Deixamos o estádio e fomos visitar um velho amigo do Ulisses - atleticano. Disse que nunca antes na história daquela casa tantas camisas azuis, em noite de título! O mundo não é uma graça? :-)

Nesta quarta-feira tem mais, final da Copa do Brasil. No mesmo palco, um clássico que promete alguns infartes. Daqui do meu canto de torcedora eventual, acho que dá Galo, para alegria dos muitos amigos atleticanos - tá meio óbvio, né, já com dois gols de vantagem. Claro que tudo sempre pode acontecer (vide 7 a 1), mas acho que o azul hoje vai mesmo ceder lugar ao lado de lá. Vumbora.

De resto, agora o Mineirão não é mais só o campo dos gols da Alemanha. É o campo do primeiro jogo que meus filhos viram, do primeiro título que vi de pertinho. O campo que, quem diria, sequestrou meu final de semana - tudo isso ao lado do mineiro que um dia trocou BH por Floripa, ainda bem. 


Dos posts invisíveis


Vocês não sabem, mas ainda escrevo neste blog todos os dias. A dinâmica das redes sociais me afastou das postagens diárias e há muita conversa barulhenta nos compartilhamentos e curtidas, mas continuo escrevendo aqui. Apenas não publico, sequer digito os posts. Escrevo em minha cabeça pequenos textos diários como na época em que era aqui, nesta sala, que as conversas se desenrolavam. Um blog pequeno como o meu costuma manter seus ares de sala de visitas e de vez em quando eu até servia café, lembram? Um bolinho, um comentário sobre aquele filme. Pois não se enganem. Se hoje é no Twitter que mais falo do filme ou se a discussão acalorada sobre repimbocas e parafusetas pega mesmo é no Feissy, continuo vindo aqui. Abro a porta em silêncio, divago sobre aquele momento em que Amanda me abraçou apertadinho, deixo cair das mãos uma ou duas linhas sobre o pôr do sol que vi enquanto pedalava na Avenida Beira Mar. Faço posts que nunca serão, todos os dias. Este blog tem uma camada mais sutil, que se desmancha na pedalada seguinte. Cada sopro do vento em meu cabelo dissolve uma frase que quase se escreveu. Mesmo assim, passo o café e pego o pote de biscoitos. A mesa continua posta.

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Entrevista que dei à TV Itararé, afiliada da TV Cultura, em março deste ano, no lançamento de Contos do Poente em Campina Grande. O pessoal do programa Diversidade fez uma edição bacana, pena que a entrevistada é meio estabanada e fala obviedades em vez de coisas interessantes. :-) Mas gostei de ver nosso livrinho tratado com carinho.


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A edição da Revista Plural que sai esta semana traz um conto inédito meu, Sonata. Os exemplares podem ser comprados pelo email scenariumplural@globo.com. Deixo um beijo de agradecimento à Lunna Guedes pelo convite. :-)

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Lá no Facebook estamos brincando de comemorar um ano do lançamento de Contos do Poente. Leitores e amigos escrevem qual seu conto ou ilustração favorito(a), publicam fotos com o livro ou nos mostram o lugarzinho que ele ocupa na estante de cada um. Eu pitaco: Palavras, da Luciana, é o conto que eu quis que abrisse o livro. É meu favorito pela maneira irresistível com que Luciana coloca o leitor dentro da cabeça da protagonista. 

(As vendas seguem pela internet, contosdopoente@gmail.com, e tem promoção de aniversário até 31/12: R$30,00. \o/ O livro segue à venda também nas livrarias indicadas aí na lateral do blog.)

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As férias me acenam da esquina. Não sei se vocês concordam, mas 2014 merecia férias em dobro. Alguém? Vamos fazer uma petição?


Hiatos e janelas


O período eleitoral foi uma espécie de hiato nas minhas leituras literárias. Uma amiga me disse que eu não estava sozinha: à parte as notícias sobre a campanha, o máximo que ela conseguiu ler no mês passado foram best sellers de narrativa plana e enredo dinâmico cuja leitura praticamente deslizasse diante dela. Quanto a mim, deveria ter adiado a leitura de Terra Sonâmbula, do Mia Couto (Cia das Letras), livro que certamente merecia mais do que consegui dar em termos de atenção e apreço. Mas insisti, lendo meia página de vez em quando, sentindo um distanciamento em relação ao livro que talvez não experimentasse em outras épocas. Quando virei a última página hoje, foi como se tivesse lido uma espécie de resumo do livro. Acho que vi as belezas, afinal elas saltam das páginas do Mia, mas sei que poderia ter me aproximado mais da história. Quem sabe um dia eu volte a ele.

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Iremos ao Nordeste em breve. Eu sei que não é época da canjica de lá, aquela amarelinha temperada com canela, mas não quero nem saber. Nem que eu tenha que visitar todas as padarias por onde passar, hei de matar minha fome. Meus filhos já se assanham para rever os primos, eu já sinto o cheiro da velha casa, já vejo os caminhos dela. É um pouco como voltar pra casa, ainda que de certa forma eu tenha espalhado minha morada pelo mundo. Morar é um negócio engraçado, uma via de duas mãos. 

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Então houve essa gripe teimosa que parecia não querer ir embora. Houve a resistência, não queria remédios. Só me entreguei porque senti tamanho desânimo que a birra ficou menor que a falta de paciência. Duas consultas médicas depois (que somadas não chegam a dez minutos), tenho drágeas de tamanhos variados e um nariz que bem merecia ser trocado. Fazia tempo que não me sentia doente e não havia nenhuma saudade, mas aparentemente meus anticorpos tiraram uma soneca. Em que momento coloquei a consulta com a homeopata no rol das coisas eternamente adiáveis?

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Minha alma andou gripada as well. Costumo manter a gaveta de mágoas bem trancada, ou pelo menos acredito que seja assim na maior parte do tempo. Daí que num descuido ela se abriu e atacou alergias antigas. Acho que estou dando uma limpeza, mas reconheço que algumas manchas são resistentes demais. Não quero deixar aquela mágoa nova juntar mofo também. Melhor manter a vida arejada, vou tentar abrir mais uma janela.



Do mundo que não é de fadas ou heróis


Alguém me mostrou uma piadinha de mau gosto envolvendo a Dilma e me advertiu: 

- Não vai ficar chateada, hein

Eu não fiquei chateada. A pessoa não entendeu nada.

Eu não vou votar na Dilma porque eu a adore. Eu não vou votar nela por ter me esquecido dos problemas e das politicagens, dos conchavos e de Belo Monte. E não vou votar na Dilma porque o governo dela tenha me favorecido de alguma maneira. Não é nada disso.

Eu pertenço a uma determinada categoria profissional. Como sou do serviço público federal, as decisões que afetam diretamente meu poder de compra e meu estilo de vida são tomadas pelo governo federal. O governo Dilma não foi bom para minha categoria: não negociou com abertura e clareza quando mais precisamos, não cedeu às pressões de nossos sindicatos, não ouviu nosso apelo por uma urgente reestruturação de nosso órgão, assinou medida provisória que nos prejudica. O peso disso tudo em meu voto: zero. Eu não voto por mim, nunca votei. Não será agora. 

Eu não voto na Dilma, exatamente. Eu voto na diminuição da pobreza e na distribuição de renda, principalmente. No grosso caldo de complexidade que é a gerência de um país, essas são minhas prioridades. Não é que eu não ligue para a educação ou para a saúde, ou para as fronteiras ou a questão ambiental, ou para o salário do servidor público ou o PIB. Eu penso na fome, antes de tudo isso aí. E não acho nem de longe que os governos do PT são os únicos com o olhar para o problema. Apenas acho que os governos Lula e Dilma priorizaram a questão como nunca antes. Houvesse agora uma oposição inteligente e articulada, comprometida com os ganhos sociais dos últimos doze anos e com propostas viáveis de melhorias nos campos onde o governo Dilma mais pecou, teria meu voto. Obviamente, meu caro Watson, não é o caso. Olho para o outro lado da disputa e vejo nada que se assemelhe ao que espero para quem ainda está à margem. Vejo um discurso pobre e decorado, velhos e conhecidos grupos salivando para voltar ao poder e à farra do desmantelamento do que é público, apadrinhados pelo que há de mais podre na nossa combalida imprensa.  

Foi pelos "poréns" do meu voto que não adesivei meu carro, não troquei meu avatar, não gritei de bandeira na mão. Meu voto não é apaixonado, não é leve. É um voto necessário para tentar evitar o que vejo como um gigante retrocesso. Mas essa sou eu, você que faz a piadinha de mau gosto com a Dilma não precisa se preocupar comigo. Em seu lugar, eu estaria mais preocupada com você mesmo. Com você que acha que o Aécio vai "salvar" o Brasil. Desculpa, meu: não olhe agora, mas... não existe "salvar o Brasil". A eleição é um capítulo da política, não resume tudo. Seus brados de salvar o país só mostram o quão pouco você entendeu da História enquanto editava a piada chula com a presidenta. Se eu for falar em salvar, vou falar em salvar da fome. Isso pode ser feito e está sendo feito há doze anos. Lindamente. 

Eu vibrei com os governos Lula e Dilma em vários momentos. O último foi na semana passada, quando a ONU anunciou a saída do Brasil do mapa da fome. Eu vibro com as cotas e as universidades coloridas e multiplicadas pelo interior do país, com todos os programas na área de educação; vibro com o Mais Médicos; com as moradias do Minha Casa; eu morro de amores pelo bolsa família; eu fico feliz com o baixo índice de desemprego, porque afinal esse é um fator gigantesco no combate à pobreza. Nada disso me impede de ver os desgostos, as cessões vergonhosas às bancadas retrógradas do Congresso, a troca de favores, o descaso com as comunidades afetadas pela construção de Belo Monte. Eu vejo e lamento e sofro. E peso e acredito que minha escolha é a escolha possível. É o que temos para hoje.

Se Never ganhar amanhã, vou ficar feliz por morar em um país onde empolgados "salvadores" podem comemorar sua vitória. Quem viveu ou leu sobre a ditadura sabe o valor de um momento desses - o fato de que muitos eleitores de Never gostariam de ter a ditadura de volta é apensa uma ironia perversa, deixa pra lá. E vou continuar me engajando no que acho justo, votando por quem mais precisa. Vou torcer para que os danos sejam mínimos. Se Dilma ganhar, vou dizer "ufa" e voltar a fazer as críticas que precisam ser feitas. Meus filhos, de 7 e 9 anos, já entenderam que não existe governo perfeito e que nosso voto em Dilma não faz parte de uma torcida de futebol. O Arthur até faz piadinha - não chula - com a Dilma, e rimos juntos. Amanda, sendo Amanda petralhinha, queria bandeirinha no carro, claro. 

Portanto amanhã, ainda e de novo, é 13.


Nosso primeiro acampamento


No início éramos três ou quatro montinhos: o povo aqui de casa, dois casais de amigos sem filhos e um outro amigo com o filhote. A ideia contaminou outros casais cheios de filhos de tamanhos variados e ontem fomos todos, seis famílias, para o meio do mato. Alguns com vasta experiência, outros, estreantes como nós (até já acampei uma vez ou outra muitos anos atrás, Ulisses idem, mas nada que se compare à delícia de encher o carro de tralha e ver nos olhos das crianças a expectativa bailarinando). Seria um Dia das Crianças pra ninguém botar defeito. E foi. Tratem logo de comprar suas barracas, ou desenterrar as velhas ou nos convidar, quem já for do babado. Porque, olha, adoramos esse negócio. o/

Como seria nossa primeira experiência no ramo, optamos por um camping bem estruturadinho - quando digo "meio do mato", portanto, leia-se "borda do mato" porque na real a civilização estava logo ali. Nem saímos da ilha de Floripa. O que é ótimo: já que gostamos demais da brincadeira é muito bom saber que há um camping por perto. O que não impede nossa animação por outras opções mais distantes, mais hard core, mais meio do mato mesmo, aguardem. :-)

Chegamos no meio da tarde de sábado. Não sei exatamente que imagem Amanda e Arthur faziam da palavra "acampamento", mas fosse ela qual fosse logo ficou evidente que a realidade superou as expectativas. De repente a cidade virou floresta, eles cataram seus binóculos, viraram melhores amigos da outras crianças que aos poucos chegavam e se esqueceram de que um dia dormiram sob um teto de alvenaria.

Escolhendo o lugar da barraca. "Aqui tá bom."

Minha intenção era fotografar o passo a passo, mas precisei ajudar o Ulisses e quando dei por mim a barraca estava montada. De modo que o passo a passo tem dois passos: esse e...

... esse. Né fácil?

Enquanto isso as crianças exploravam o espaço, os outros iam chegando e se instalando.

Amanda e a nova amiguinha observando pássaros.

O que elas viam: gralhas azuis enormes e lindas e que se aproximavam sem cerimônia. Delícia. 

Bando.

Tudo era absolutamente rústico: com umas pedras que encontramos no local, moldamos este artefato primitivo para coar café.

As horas seguiram em meio à comilança. Camping com churrasqueira, vão vendo, Ulisses e outro explorador radical fizeram hambúrgueres, outro fez churrasquinho, alguém levou um arroz delicioso, Ulisses levou sorvete, comemos bolo, marshmallow assado no espeto e o que mais botassem na nossa frente. Vou falar pra vocês: que coisa maravilhosa. Recomendo com força dez vezes. Quando a noite caiu, os temidos pernilongos faltaram, vejam só. Até sacamos o repelente e nos prevenimos um pouco, mas quem optou por ficar sem não se incomodou. Tem mais mosquito na minha casa, juro. Vai ver eles estavam de folga, olha que sorte. Lá pelas nove da noite, peguem as lanternas! Hora da trilha rumo à praia. Falei que o camping fica perto da praia? Pois. E aí sei que minhas crianças jamais se esquecerão da experiência. Lamentei de verdade as nuvens no céu, porque quando estávamos a meio caminho entre o camping e a praia, Ulisses sugeriu que apagássemos as lanternas. Se houvesse um céu estrelado, teria sido um deslumbre. Restou-nos a escuridão absoluta, momentânea, o burburinho da criançada ali no meio do mato escuro, coisa mais gostosa. Quando chegamos à praia, incomodamos os siris e pouco depois voltamos para as barracas.

Gatos noturnos.


Quem tem lanterna, vem.

No meio da noite, rumo à praia.

Com uma mão, ilumina; com a outra, fotografa.

O coitado do siri. 
  
Depois da caminhada, alguns foram para o banho (num banheiro rústico que a gente construiu, claro), outros foram comer mais, outros foram jogar dominó, as meninas foram explorar todas as barracas da região e outros se dedicaram a atividades típicas de destemidos exploradores. Como dormir, por exemplo. E aí, amigos, lembram das nuvens que nos impediram de ver as estrelas na caminhada da praia? Pois bem, elas despencaram num aguaceiro impressionante, acompanhado de uma sinfonia de raios e trovões linda de se ver. A chuvarada se prolongou noite adentro e chegou a espantar os "moradores" de uma barraca (não do nosso grupo) que literalmente levantaram acampamento no meio da noite e se mandaram pra cama quentinha em outro lugar. Em nosso grupo, alguns experimentaram diferentes níveis de, digamos, orvalho no interior das barracas e pequenos arranjos foram necessários (coisa pouca, como sair no meio da tempestade para empurrar a barraca mais pra lá, esticar daqui, secar dali). Nossa recém-comprada barraca passou no teste do dilúvio com louvor. Nenhuma gotinha, nenhum orvalhinho. O sono só não foi intocado porque a trovoada, queridos, acreditem, não estava para brincadeira. Eu, que não sabia do orvalho alheio, adorei a experiência. Como não havia vento, não senti medo e curti de verdade aquela barulheira toda sobre nossos colchões infláveis cheios de lençóis quentinhos e com duas crianças gostosinhas do nosso lado. Quero de novo, muitas vezes. Fotos da chuva não disponíveis, sorry.

O dia amanheceu com aquele cheiro bom de mato molhado e com, claro, muito mato molhado. As gralhas voltaram a nos cercar, assim como um lindo gavião que sobrevoou minha cabeça logo ali pertinho.

Procurem. 
    
Depois de mais comilança no café da manhã, optamos por não ir à praia. A temperatura mais baixa do que o esperado tornou a quadra de areia mais atraente. Ainda houve quem topasse uma partida de Catan enquanto outros empacotavam tudo. Desarmamos as barracas e nos mudamos para o lado menos selvagem do acampamento, munido de churrasqueira, quadra, playground e mais mato. Alguém instalou um balanço improvisado de corda e teve até fila. Durante horas a criançada se sujou de areia, a galera mais velha se entupiu de comida e tratou de planejar possíveis acampamentos futuros. Tudo seria perfeito não fosse a formiga ter decidido picar o pé da Amanda. Por alguns momentos, temi que a picada fosse de algum outro bichinho, talvez aranha, tamanha a gritaria. Mas tudo ficou bem e deve mesmo ter sido um beijinho de formigão. 





Stress.

A melhor frase veio das crianças dentro do carro na volta pra casa: "queria que hoje fosse ontem". Se tudo der certo, em novembro tem mais. 




O ato político de botar pra dormir


Hoje tive um papo sobre o afeto. Falávamos de mim, mas enquanto eu falava pensava mesmo era em mais gente. Pensava no mundo. Fui falando do meu umbigo e me dando conta de como o afeto é fundamental para a construção daquele mundo melhor que tanto gostamos de idealizar. Vejam que inventei a roda. Pois bem, o afeto, essa novidade velha. Não que eu tenha começado a pensar nisso hoje, mas verbalizar coisas tem o poder de colocá-las em evidência, como bem sabemos. Então hoje fiquei pensando que abraçar é um ato político. Envolver uma criança em um ambiente de afeto e deixar muito claro que ela é merecedora de carinho podem ajudar a formar adultos bem resolvidos e seguros. Pessoas bem resolvidas e seguras tendem a ser pacientes, acho eu. Tendem a saber ouvir e a gostar da troca. Quem gosta de troca tende a gostar de aprender e encontra prazer nas descobertas. E, principalmente, receber beijinhos, cócegas e sussurros de amo você pode fazer com que alguém se torne uma pessoa terna, do tipo que alimenta grandes carinhos. Como o carinho por aquele que não é espelho. Abraçar crianças, quem sabe, pode ajudar no aumento da empatia.

Hoje prolonguei os carinhos na hora do "boa noite, crianças", dei mais cheiros no cangote. Por um mundo melhor.  

Vai chegar


Tenho um casal de amigos que terá um bebê a qualquer momento. Ela anda por aquela reta final da gravidez, quando dormir é uma aventura, a mala está pronta e o humor anda uma loucura. O último mês de uma gravidez, como dizem, pode durar um século. Será o primeiro filho deles e, portanto, vamos falar de um século e meio. Eu, aqui, longe, torcendo, mal posso esperar. Imaginem. Hoje acordei cantarolando uma velha música do Toquinho, pra eles.

Voa coração
que a minha força te conduz
que o sol de um novo amor
em breve vai brilhar
Vara a escuridão
vai onde a noite esconde a luz
clareia seu caminho e acende seu olhar
Vai onde a aurora mora
e acorda um lindo dia
colhe a mais bela flor
que alguém já viu nascer
e não se esqueça de trazer força e magia
o sonho a fantasia 
e a alegria de viver.

Voa coração
que ele não deve demorar
e tanta coisa mais
quero lhe oferecer
O brilho da paixão
pede a uma estrela pra emprestar
e traga junto a fé
num novo amanhecer
Convida as luas cheia, minguante e crescente
De onde se planta a paz
da paz quero a raiz
e uma casinha lá onde mora o sol poente
pra finalmente a gente
simplesmente ser feliz

Tenho fugido das idealizações em torno da maternidade, daquele discurso perverso que rotula toda mulher como mãe em potencial e, portanto, exclui todas as tantas e infinitas possibilidades. Essa minha amiga, contudo, escolheu ser mãe. E ela será a mãe que só ela será, diferente de mim, da minha mãe, da mãe dela. E o pai será o pai que só ele será. E isso parece tão óbvio, mas é imenso. Então não quero dizer a eles que sei o que vão sentir, porque ninguém sabe. Eu já disse muito isso, é verdade. "Você vai ver quando ele nascer!". Bom, eles vão ver, mas do jeito deles. Torço apenas que seja tudo feito de felicidade, coisa pouca. ;-) Quanto a mim, queria mesmo era sentir o cheiro do pezinho. 

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Status: tentando decidir (ou perceber) se a minha pouca disposição para rebater argumentos forçados e desonestos reflete amadurecimento ou um retumbante fracasso na arte de conversar. 

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Um livro do Mia Couto traz belezas tamanhas que a chuva fina que cancela o passeio de bicicleta parece menos trágica. O sofá aceita as estradas que "suportam distâncias", um menino com vestes "da cor do caminho", um caderno com histórias que põem os tempos em "mansa ordem". Penso que ler Mia Couto seja algo a se fazer devagar, num sábado igual a esse, de céu cinza e chuva silenciosa. Nada deveria perturbar a melodia triste que brota das páginas generosas de Terra Sonâmbula. Ler Mia é um descobrimento quietinho, com alguma cerimônia, como quem espera a lua que logo sairá de trás do morro. O encanto é garantido.

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A Joana Faria, ilustradora de Contos do Poente, participará da Crafty Fox Market, em Londres, na semana que vem. Eu iria a pé, se pudesse. A Joana tem lugar de honra em minha torcida pelo sucesso, por ser uma pessoa incrivelmente talentosa, claro, mas também por esbanjar bom gosto, inteligência e simpatia. Em Londres na semana que vem? Corre lá. Não sei quando vou corrigir a terrível falha de ainda não ter me encontrado com ela pessoalmente, apesar de termos lançado um livro juntas - o mundo maravilhoso da internet! Espero que não demore muito. Vem pra Floripa, Jo!

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Escrever é triste, diz um bom blog por aí. Digo: escrever é, antes, um silêncio. Preciso varrer as palavras e o mundo para longe de mim. Só então consigo encarar de frente o medo e o abismo. Só em silêncio posso segurar firme o lápis de desenhar histórias. Quero todas as tristezas, as buscas, as perguntas espantadas de surpresa, presas na garganta. Quero longe de mim as respostas fáceis, as certezas, o barulho de quem grita que já sabe. Quero uma escrita feita das palavras que ouço quando o mundo se cala.

Reizinho


A primeira vez em que ouvi falar da biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo Cesar de Araújo e lançada em 2006 pela Editora Planeta, foi em 2013, quando o livro já havia sido recolhido das livrarias por força judicial há cerca de seis anos. Vejam que garota antenada. Foi na época em que o assunto invadiu as redes sociais por causa das controversas manifestações dos integrantes do grupo Procure Saber. Durante vários dias, minha TL trocou ideias em torno da decepção por ver figuras como Caetano e Djavan falando da importância da autorização prévia para lançamento de biografias, amparados pelo tal artigo 20 do Código Civil, alegando direito de proteção à privacidade. Muitos queixos caíram. O assunto quase virou o único tema das conversas quando Chico Buarque atacou o biógrafo de Roberto Carlos alegando não ter dado uma entrevista mencionada na tal biografia - e logo desmentido pelo vídeo e pelas fotos da entrevista. Muitos corações se apertaram. Foram semanas animadas nas redes sociais, cheias de piadas sobre Chico, "liberdade mais ou menos" e quem te viu, quem te vê. E posteriores perdões ao Chico, claro (que, diante da comprovação da entrevista, se desculpou com o autor).


Dificilmente eu compraria a biografia proibida na época de seu lançamento. Não que não goste de ler biografias, bem pelo contrário - gosto muito. O que falta é interesse pela história do Roberto Carlos. Ainda que eu reconheça seu valor para a história da música brasileira, a relação fica por aí: reconheço, mas não é minha praia. No entanto, por causa da celeuma que invadiu meu Facebook em 2013, o novo livro de Paulo Cesar, O Réu e o Rei (Cia das Letras) me saltou aos olhos na livraria. Algumas amigas vinham falando sobre ele, tecendo elogios ao livro, e foi ele a minha escolha para presentear um amigo em seu aniversário. Por impulso temperado pelas conversas de 2013 acabei comprando um exemplar pra mim também. Ainda bem.

Adorei.

O Réu e o Rei conta a história pessoal de Paulo César com Roberto Carlos: o amor de fã, a infância do menino pobre que ouvia as músicas do ídolo pelo alto-falante da praça, a expectativa ano após ano pelos novos sucessos do ídolo de milhões de brasileiros. Fala da trajetória do garoto baiano que migrou para Sampa e Niterói, de como conseguiu conciliar trabalho e duas faculdades. E de como se tornou o historiador que ganhou destaque com seu primeiro livro sobre a história da música brasileira, Eu Não Sou Cachorro, Não, lançado em 2002 pela Editora Record. O foco central de O Réu e o Rei se volta, claro, aos bastidores do processo movido por Roberto Carlos que culminou na censura à biografia Roberto Carlos em Detalhes.

O livro é saboroso. Os eventos da história pessoal de Paulo Cesar retratados no livro têm os ingredientes das boas histórias: teimosia, inocência, os pés no chão e os olhos voltados para o mundo, a aventura, a pobreza e a superação; o interior do Nordeste de décadas atrás, suas janelas e praças. As muitas entrevistas feitas durante a preparação da biografia que viria a ser proibida rendem páginas e páginas de relatos interessantíssimos. As entrevistas com Tom Jobim, Caetano, Tim Maia (hilário!), Chico e tantos outros são coroadas pela surpreendente história da aproximação do autor com o discretíssimo João Gilberto. Um deleite. 

Aí chegam os capítulos que tratam do processo. Se a intenção de Roberto ao recorrer à Justiça para proibir a biografia escrita pelo seu fã era proteger sua imagem, nunca houve maior tiro no pé. Os detalhes da preparação da biografia, das tentativas de entrevistá-lo e acima de tudo dos recursos usados para proibir o livro revelam, para mim, a encarnação da arrogância. Não acredito que exista nas páginas de Roberto Carlos em Detalhes nada capaz de manchar mais a imagem do cantor do que seu comportamento ao tentar impedir a circulação do livro. O relato da audiência de conciliação que resultou no acordo que tirou o livro do comércio é um exemplo constrangedor da operação da Justiça brasileira. Uma aula de como não fazer. Para quem acompanha a carreira do cantor, os relatos em O Réu e o Rei podem causar uma tremenda decepção. Para mim, que nunca antes havia gastado dois segundos de meu tempo para ler nada sobre ele, foi, ainda assim, uma surpresa e tanto. Não fazia ideia do quanto o chamado Rei se aproxima muito da imagem que tenho de meninos mimados e "cheios de razão". Um reizinho, por assim dizer.

Se eu fosse vocês, lia. Talvez haja um tiquinho de maldade em minha recomendação especial aos fãs do cantor, mas acho que vale a pena conhecer os bastidores dessa história. Quem gosta das canções, acho eu, não irá deixar de gostar por causa dos arroubos do rei - aliás, a proibição ao livro do Paulo Cesar é reincidência. Roberto Carlos já tirou de circulação outra biografia e tentou impedir a publicação de uma dissertação de mestrado tratando da Jovem Guarda. Olha, que teimoso, esse menino.

Há muita história boa em O Réu e o Rei  e achei a narrativa muito bem amarrada. O passeio nos leva dos anos 1960 até o início desse animado 2014. Na caminhada, vamos conhecendo pequenas anedotas envolvendo grandes nomes da música brasileira, mas também revisitando momentos da história musical do país. Aprendi um monte e vi que poderia ter aprendido muito também lendo a biografia proibida. As carreiras dos meus próprios ídolos da MPB se cruzam muito mais com a de Roberto do que imaginei em minha ignorância. Aprendi, também, que meu marido era fã de Roberto, dos grandes sucessos da era de ouro do Rei, lá pelos anos 70. Isso não está no livro, claro, mas foi impossível não falar de Roberto o tempo todo enquanto lia a ótima história de Paulo Cesar. Infelizmente, não teci muitos elogios ao rei, mas virei fã do réu.

***

Roberto Carlos em Detalhes segue proibido nas livrarias do país, mas dizem que bomba nas de Portugal (Roberto Carlos chegou a cogitar o veto por lá, mas aparentemente descobriu que o mundo é maior do que seu umbigo), em audiolivros, em versões piratas, no mercado, digamos, alternativo. Dizem que quem quiser ler, assim, com vontade, consegue. ;-)


O cofre e o verdadeiro tesouro


Amanda sendo Amanda:

- Filha, que tal a gente tirar as moedas do seu cofrinho velho e transferir tudo para o novo?
- Isso!

Aí ela me pediu para que eu pegasse um objeto que estava lá em cima, na prateleira alta. E de lá de um cantinho secreto tirou a chave. Abriu o cofrinho, que continha:

- Algumas moedas;
- Algumas cédulas;
- Dois grampos de cabelo;
- Um pedaço de papel de bala amassado;
- Seis tubinhos de purpurina;
- Cinco pedrinhas do jardim. 

Ela espalhou o eclético conteúdo sobre a cama. Transferimos as moedas e cédulas para o novo cofrinho. Depois ela recolocou pedras, grampos e purpurina no velho cofrinho, fechou, trancou e voltou a colocar a chave no esconderijo secreto.

- Não conta pra ninguém o lugar da chave, mãe. 

O cofrinho novo tá por aí, pela casa, pra quem quiser pegar e brincar com ele. É lindo, um bichinho fofo, um cofre-brinquedo com a barriga cheia de moedas e cédulas. O cofre antigo, com o tesouro de pedras de jardim, grampos e purpurina, tal qual a velha canastra da Emília, tá no quarto, protegido, com a chave guardada no esconderijo secreto. 

Os valores. Que amor. 

A menina que pinta o sete



Você ainda me pede para colocar sonhos bons em sua cabeça antes de dormir. Eu passo os dedos por sua testa e faço desejos de borboletas e areia da praia. Aí você retribui. Ganho voltinhas dos seus dedos em meu rosto e toques suaves das suas mãozinhas sobre minhas pálpebras fechadas enquanto recebo os sonhos que você me dá. É nosso pequeno ritual de tantos anos já. Dia após dia vou vivendo a alegria e o gigantesco privilégio de ver você se transformar nessa menina incrível. Meu bebê, minha pequena sereia, minha garota dos cachos mais lindos. Que seu mundo seja um balanço divertido.

***

É você, a menina que pinta o sete.













É você, a menina que ilumina como o sol e traz as cores mais bonitas dos nossos dias. Obrigada, meu amor. Desejo que seu dia seja como essas fotos, pura luz. Seu aniversário é um dos nossos dias favoritos, e celebrá-lo é doce como brigadeiro. Te amamos "do tamanho do universo, dez vezes". 

Contos & casos (e histórias da Amanda)



Aí houve o dia em que convidei um casal de amigos para ver o jogo aqui em casa. Convite aceito, todos felizes. No dia do jogo, que seria no final da tarde, fomos almoçar na casa de outro casal de amigos. Almoço bom, todos felizes. Fica aí um pouco mais, o jogo já vai começar, olha que legal. Ficamos. Os amigos, aqueles outros, esquecidos, vieram ver o jogo aqui em casa e deram com a cara da porta. Não sou uma pessoa legal? Eu convido e me esqueço que convidei. Sabe qual é a prova de amor? Eles continuam meus amigos. Até já aceitaram outro convite meu e dessa vez eu fiquei em casa. Todos felizes. 

***

Tenho lido, aqui e ali, uns contos do Tchekhov. De vez em quando acho que virei duas folhas de uma vez, mas não. É o conto que acabou mesmo, assim, abruptamente. Não sei se ainda vou me deparar com algum texto arrebatador na coletânea que escolhi. Por enquanto, se alguém gritar "Tchekhov!", respondo "Saúde!".

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Compramos uma mesa de ping pong. Não pensei que fosse tão divertido o negócio. Fim de dia, banhos tomados, eu de pijama, Amanda de sereia, Floquinho meio perdido, ping pong ping pong. Arthur vai aprender, Amanda também. Tá, eu também. Por enquanto, Ulisses passeia humilhando a todos. Deixa ele.

***

Minha tia tinha hábitos peculiares. "Guardava" agulhas enfiadas na toalha da mesa ou nas almofadas do sofá, vejam que prático. Também guardava moedas na gaveta de talheres, como já contei aqui.  Além de escolher lugares estranhos para guardar coisas e ser viciada em palavras cruzadas, minha tia gostava de dar presentes. Guardo comigo alguns mimos que ganhei dela, geralmente em datas não especiais. Um terça-feira qualquer, um sábado em que estávamos juntas, por nada eu ganhava um agradinho. Tenho um espelho pequeno de levar na bolsa, um anel dos tempos em que vendeu joias, uma pulseira que trouxe da Espanha em sua aventura pela Europa. Mas gosto especialmente da colherinha de café. E não é porque veio da Suíça ou porque é mais prateada que as outras da gaveta. Não é porque tem o metal trabalhado. É porque é única, né. Uma colher de presente. Quem mais? Só minha tia viajava e voltava com uma colher de presente. Uso para servir o açúcar, porque acho que combina. E a saudade vem como vinham os presentes dela, sem escolher data.

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The Killing: primeira temporada boa, segunda temporada sofrível, terceira temporada bacanérrima. Não sei o que esperar da quarta, mas já sei que detetives não contratar para resolver qualquer caso. Vou te contar, hein.

*** 

Retomar as aulas de yoga foi uma das coisas mais legais que fiz por mim este ano. Empatada com não bater boca por causa das eleições e não voltar a tomar leite (outro inverno sem faringites, yeah).

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Histórias da Amanda

A menina e o campo encantado

"Era uma vez uma menina que encontrou um campo. Era um campo estranho cheio de pássaros, borboletas, gatos da mata, bichos estranhos, besouros voando, não era um campo normal. Era um campo encantado, árvores falando e folhas secas cantando. Ana achou estranhou acabou caindo no sono. Caiu um pozinho na cabeça de Ana. Ana se transformou em um gato. Um gato falante. Ana quando acordou deu um miado, achou estranho quando se olhou ficou assustada e falou sou um gato, um gato que fala e saiu correndo e miando daquele campo engraçado."

Iara

"Aparece um gato selvagem para pegar o passarinho. O pássaro teve que se esconder em algum lugar. A Iara vai ajudar o pássaro. A Iara chama alguns peixes para distrair o gato enquanto Iara fala o que o passarinho deve fazer - Voa passarinho. O pássaro obedecendo Iara voou - muito bem passarinho, mais alto. O gato chateado com Iara pulou na água, Iara foi para o fundo das águas brilhantes e soltou seu canto e encantou o gato. Iara levou o gato para casa e o pássaro para o ninho, fim."
  

"Drama, drama - DRAMA, até que você não suporte mais"


(O título do post é uma frase usada alguns anos atrás em chamadas do canal Warner para anunciar temporadas de suas séries classificadas como "Drama". Ulisses e eu morríamos de rir da apelação. A frase poderia ser usada para anunciar o livro de que falo aqui.)


***

Depois de várias semanas lendo a conta-gotas, terminei minha leitura de O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini (Ed. Globo Livros, tradução de Claudio Carina). A impressão que fica é a de que um novo termo precisa ser criado para classificar esse livro. Sugiro "drama dramático nível master" - pra que tanto sofrimento, Hosseini, meu filho?

Quem molhou as páginas de Caçador de Pipas com lágrimas descontroladas e  conheceu a história das mulheres retratadas em Cidade do Sol, do mesmo autor, já deveria esperar dramão no terceiro livro do cara. E eu esperava. Ainda assim, é de se perguntar quanta desgraça e tragédia cabem em menos de 300 páginas. Se escritas por Housseini, olha, o sofrimento transborda as margens, invade a contracapa e deixa o leitor meio cansado. Ao menos um sorriso, um fato feliz, nem que fosse em meio parágrafo? Nananina ninanão. Leia e lamente. Sofra, leitor, reconheça soluçando que o mundo é um lugar injusto. Ok, vá lá, acabo de me lembrar de duas frases felizes ali pelo capítulo um ou dois. Não deve haver mais do que isso.

Dado o recado de que o vale de lágrimas não tem fim, vamos ao que resta: a história não é ruim, alguns personagens são interessantes. E gosto da variedade de cenários (Afeganistão, França, Estados Unidos, Grécia) e de épocas (sei lá quantas décadas, umas seis, talvez). No entanto, a não ser que venha por aí mais um volume de sofrimento, fiquei com aquela sensação incômoda de personagens abandonados. A narrativa que vai e volta no tempo nem sempre resgata aquele personagem mais interessante, que some da história quando aparentemente tanta coisa ainda poderia acontecer com ele. Cheguei ao final do livro perguntando "e Fulano?", "como assim?". Li os agradecimentos procurando por um sinal de que a sequência será lançada no ano que vem para alegria da editora - porque, né, o menino é bom de vender livros. Não vi nada que indique sequência. Levando em conta os  personagens não tão interessantes, é uma boa notícia.

Não tenho nada contra histórias tristes, quem me conhece sabe. :-) Acho que beleza e tristeza rimam mesmo, muitas vezes. Dessa vez, contudo, bateu aquela sensação de que o drama se perdeu um pouco no vazio. Talvez a categoria "personagens que sofrem" não se sustente sozinha sem algo maior que o sofrimento apenas. Em Caçador de Pipas, por exemplo, a dor acarreta uma sequência de eventos transformadores, a história cresce. Em Silêncio, não. O sofrimento gera, adivinhem, mais sofrimento.

Ridícula que sou, chorei no final. Admito que tentei me conter pensando "não, não vou chorar com esse livro apelador, não é possível". Pfff, até parece que tenho chances. Chorei no momento mais tocante da história, quando a narrativa se aproximou daquele tom de Caçador de Pipas, aquele jeito de mostrar a beleza das coisas miudinhas. Quase perdoei Housseini pelas chacinas, abandonos, amizades despedaçadas, violência, crianças doentes e sozinhas, sonhos enterrados em um segundo de vacilo, guerra, solidão. Quase. Sequei as lágrimas rapidinho.

 
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