Quando


Quando você põe a Amanda nos ombros e a conduz pela casa como se vocês dois fossem um. Quando vai ao mercado comprar molho de tomates e volta com molho de tomates, vinho e orquídeas. Quando você prepara uma comidinha tomando vinho e me passa sua taça no meio da cozinha. Quando joga cartas Pokémon com o Arthur e é como se fossem dois meninos. Quando fala do novo esporte e o olho brilha. Quando pega o violão e canta canções antigas com sua voz bonita, embalando minhas memórias de nossa história já comprida. Nossa história longa, cada dia mais. Cada dia mais um pouco, um linha a mais em nosso enredo quando você me abraça com vontade. Quando você sorri da vida porque sabe. Quando você me ouve dizer que adoro nossa muvuca diária e responde com um suspiro de alegria. Quando corre comigo para buscar as crianças, levar as crianças. Quando planejamos ou mudamos os planos. Quando espera meu silêncio, quando percebe. 

Quando você me olha e meu mundo é tão maior. Quando. Eu me lembro do quanto eu quis tudo isso. E de como sou infinitamente feliz por estar em sua vida. 

Minha mão na sua, te amo sempre. Feliz aniversário, meu amor.

Musicão


Abraçada. É assim que me sinto desde ontem, desde as horas que se seguiram ao pré-lançamento de Contos do Poente. As demonstrações de afeto chegam de todos os lados. Sinto-me numa festa boa, daquelas bem animadas, onde só toca musicão. Sou eu dançando, conversando, dando risadas. Hoje recebi carinho vindo de tantas partes do meu mundo que oceano nenhum significa distância grande demais. 

Emocionada, agradeço.

É verdade que já estou me acostumando a esse lance das boas vibrações. Como andei comentando no Facebook, nosso livro tem apresentação da escritora e tradutora Fal Azevedo e prefácio da jornalista Jeanne Callegari. Mas por mais acostumada que eu fique, sempre hei de sentir esse calorzinho no peito. Sempre. 

***


Sabem onde mais a festa anda animada? Na caixinha do contosdopoente@gmail.com. Os exemplares ainda não estão sendo enviados, mas as entregas logo começarão. E há pedacinhos de gravuras da Joana Faria pintando na página do livro no Facebook, só pra dar um gostinho.  :-)

Contos do Poente


Acho que foi a Luciana quem me achou. Um dia fez um comentário por aqui, em algum post perdido, no dia seguinte, de novo, e mais um. Quando fui ver, ela tinha um blog vermelho de que gostei muito, e no meio do troca-troca de comentários a sensação foi de reconhecer uma velha amiga. O facebook ainda não era o ponto de encontro dos papos como tem sido ultimamente, muito do nosso convescote (para usar uma palavra de que gosto cada vez mais) se dava mesmo nas caixas de comentários.

Da Joana, não sei. Não sei como chegou, onde encontrei, quem me indicou. A internet tem essas coisas de caminhos entrecortados por desvios vindos sabe-se lá de onde, e isso não importa muito. O que importa é que me vi lá no blog da Joana como quem se perde em um museu: eu me sentei num daqueles bancos duros e largos, esquecida da hora. Algo nos traços das meninas longilíneas em suas gravuras me enlaçou por lá, fiquei também. Um dia um comentário, outro, uma conversa mais contida, mas ainda assim uma alegria. 

Quando o convite da Joana chegou, Luciana e eu dissemos sim: um livro de contos ilustrados. Eu preciso registrar que me senti profundamente honrada desde o momento em que recebi o convite. Estar em um projeto de mãos dadas com a Luciana a convite de artista tão talentosa como a Joana? Como não vibrar?

Do sim aos textos. O processo de criação do conjunto de contos idealizados por Joana tomou vida própria, como é típico da linguagem escrita, essa aventura. Nosso projeto tomou forma, ganhou volume e protagonistas por quem nos afeiçoamos, além, claro, de gravuras inspiradoras. É uma alegria enorme anunciar o lançamento de meu primeiro livro de contos, em tão deslumbrante companhia. Eis aí os Contos do Poente, pela Editora Sinergia, do grupo Ediouro.  




Como Luciana e Joana andam do lado de lá do Atlântico, Contos do Poente terá lançamentos, no plural. No dia 12 de dezembro, às 19 horas - e aqui já deixo o convite aos amigos e leitores de Florianópolis - estarei no lançamento na Livraria Nobel, no piso térreo do Floripa Shopping. Será um prazer imenso vê-los lá para livros, abraços e... convescote. Em fevereiro, Luciana deixará Lisboa por algumas semanas e virá ao Brasil, quando faremos lançamento no Rio e em São Paulo; tenho planos para lançar também em Campina Grande, no mesmo mês, espero que tudo dê certo. Assim que tivermos datas exatas e local definido, divulgaremos; divulgaremos também a data da vinda da Joana ao Brasil para lançamento com a presença dela. 

Contos do Poente, com projeto gráfico lindo, já está em pré-venda para pedidos online. São dezoito contos, uns meus, outros da Lu, todos ilustrados pela Joana. Os pedidos podem ser feitos pelo e-mail contosdopoente@gmail.com, para entregas a partir do dia 17 de dezembro, ao custo de R$36,00 mais frete de R$6,00. Logo também estará disponível em sites de e-commerce (detalhes em breve), com preço a ser definido pela editora e seus parceiros comerciais. E todo mundo já pode dar uma espiada na página do livro no Facebook.

***

Escrever é perigoso, dizia ela, dizemos nós. Escrever é lutar com o limite da palavra ou surpreender-se com o alcance dela. Escrever é dançar com parceiros invisíveis ao som das muitas músicas que nos chegam sabe-se lá de onde, e que tocamos com dedos tensos ou soltos, mas sempre com o coração aos saltos. Saltos em cores, cores de poente. Minha mão, estendida a vocês: quem quer dançar?



Na janela


Acho graça da influência que os gibis têm na linguagem da minha filha de 6 anos. Vira e mexe suas brincadeiras são verbalizadas com palavras e onomatopeias típicas das histórias em quadrinhos. Quando se junta ao irmão em alguma batalha contra zumbis, por exemplo, ouço com frequência:

- Sai já daqui, seu zumbi1 Soc, pof, paft!!

Dali a pouco ela me sai com:

- Ronc! Minha barriga tá roncando. 

Mas só hoje vi essa influência tomar ares de fofice da boa. Vendo a gradinha de metal em cima da mesa, ela perguntou:

- Mãe, pra que essa gradinha?
- Ah, é só pra eu apoiar o bolo quando tirar do forno, pra ele esfriar mair rápido.

E os gibis ganharam voz:

- Você não bota o bolo na janela?

:-) Achei fofo. Ela certamente estava pensando na mãe da Magali, mas eu me lembrei mesmo das tortas da Vovó Donalda (ainda existem?). 


Some other name



"O, be some other name!
What's in a name? that which we call a rose
By any other name would smell as sweet;"
Romeu & Juliet, Act II, Scene I

Tenho dois sobrenomes e circulo pelas redes sociais com um terceiro, emprestado pelo marido. Sou @Rita_Paschoalin no twitter, mas quem espia meu perfil por lá logo vê ao lado minha identificação como Rita Medeiros. Meu endereço de e-mail é composto por um deles, o perfil do Facebook por outro. Nada intencional, apenas certa displicência que, até aqui, não tem gerado mais do que comentários intrigados de alguns amigos virtuais, na linha "indecisa?". 

Quando Ulisses e eu decidimos viver juntos, nenhum dos dois mudou de nome. Peguei seu sobrenome emprestado para o perfil do e-mail porque outras combinações com meus próprios sobrenomes estavam indisponíveis. Acontece que no Facebook continuei Rita Medeiros. Pois bem, agora resolvi mudar o nome do meu perfil naquela rede. A mudança tem um propósito bem específico: garantir identificação imediata com o novo projeto, no qual adotei o nome Rita Paschoalin. Que novo projeto? Conto já, não demora. Fiquem ligadinhos. ;-)

Remanso


Limpei a casa e varri a calçada. Escolhi as músicas, ensaiei a valsa, preparei a comida e comprei a bebida, afastei os móveis, escolhi as velas. Armazenei gelo, selecionei toalhas com desenhos delicados e guardanapos macios. Pus um vestido confortável, guardei os sapatos, caminhei em silêncio pelo chão limpo e frio. Abri as janelas grandes para a brisa entrar, espalhei almofadas e bandejas coloridas com pequenos mimos. Na parede, os quadros mais bonitos. Olhei tudo. Pus meu olhar em cada canto e o deixei ali, à espera dos convidados. Tomara que todos venham e falem e dancem e brindem e participem. O fim de tarde se aproxima e esperar é bom. Dizem mesmo que é o melhor da festa, e aqui já não posso concordar. Mas esperar é bom, sim. Quase tranquila, da janela fito as cores do horizonte.

Daqui a pouco a campainha vai tocar. 

Próximo post


Não é abandono de blog, não é preguiça, sequer é falta de assunto. É um misto de verão chegando e crianças chamando e o tempo passando. E o próximo post. 

Brisa


O verão chegou essa semana com manhãs muito claras e portas escancaradas. O calendário talvez consiga se impor e frear um pouco a afobação das temperaturas; é possível, contudo, que o mormaço que nos cerca já arme sua barraca, para o bem e para o mal. Penso nas providências e na preguiça, na areia e nas chuvas passageiras, e que é preciso prevenir a brotoeja na pequena, manter curto o pelo do cachorro, comprar uma sunga de praia para o pequeno; é preciso se concentrar para não derreter ideias e manter a esperança de que o vento virá. Também é de bom tom ouvir o alvoroço matinal dos passarinhos na varanda, meu deus, que gritaria. É necessário fazer sorvete. É bom abrir as janelas, arejar o coração, andar devagar de chinelos. É imprescindível tomar suco de cajá bem gelado e se lembrar de trazer para dentro da alma a luz dos dias longos. 

Quando saio do trabalho há uma lua quase redonda me olhando lá do alto do céu ainda pálido. Pisco-lhe um olho e, ingrata, quase faço pedidos. Sigo pela rua banhada pela luz da tarde antes que estrelinhas miúdas acenem na noite quente. O ano já vai terminar, observem. Faz calor aqui, dentro dos planos. Tomara que a noite traga uma brisa que cure anseios e aceite perguntas.

Um tio Flor


Uma das coisas boas da infância é, certamente, picolé. Mas há também o gibi, o momento de colar a figurinha no álbum e a visita do tio que conta piadas. Eu tive um tio engraçado, que não era bom em contar piadas, exatamente, mas era bom em fazer rir mesmo assim. Não que sempre falasse coisas engraçadas, ele simplesmente sorria e contagiava, parecia enxergar seu mundo com leveza; ou, ao menos, parecia querer enxergar assim. Falava com voz muito grave e antecipava a risada com um olhar meio atravessado, enquanto comprimia os lábios para daqui a pouco liberar o riso frouxo. Bom, é essa a marca que guardo dele. Há a tia carinhosa da voz linda, havia minha Tia Maria do melhor abraço e de tanto mais, há muitos tipos de tios nessas famílias grandes e espalhadas. 

Meu tio engraçado se foi ontem. Certamente era mais do que isso, mesmo pra mim, sobrinha distante. Era também carinhoso, gentil, bom de conversa. Sempre o achei fisicamente muito parecido com meu pai, embora tivessem personalidades tão distintas: onde um era silêncio, o outro era o papo rolando fácil. Minha tia me falou hoje que ele andava triste nos últimos dias, aparentemente a última consulta médica não tinha sido animadora. Vou tentar não fixar essa imagem; ao invés disso, quero me lembrar sempre de sua voz de Nelson Gonçalves, em sua fala rápida intercalada por risadas. Vou guardar na lembrança seu abraço forte e carinhoso, de um carinho que me fazia bem lá na infância. Suas visitas eram relativamente raras, mas sempre barulhentas e divertidas. Era sempre bom, como picolé e gibi.

Que foi de risos nossa amizade, tio Paulo Flor. Obrigada por isso.

Em sépia


Li Retrato em Sépia (Isabel Allende, Ed. Bertrand Brasil, tradução de Mario Pontes) sem metade do entusiasmo que me carregou ao longo do autobiográfico Paula ou do romance A Ilha Sob o Mar - dois livros que recomendo com tranquilidade. Ainda assim, para mim, fã da narrativa fluida de Allende, a leitura morna ainda teve seus momentos de sorriso no canto da boca.

Retrato em Sépia é a sequência de Filha da Fortuna, publicado dois anos antes. A protagonista de Sépia, Aurora, é neta da protagonista de Filha, a corajosa Eliza Sommers. Mais uma vez, a história transita entre os Estados Unidos e o Chile, mas ao invés dos desatinos cometidos em meio à corrida pelo ouro na Califórnia, pano de fundo da trama de Filha da Fortuna, o que vemos em Sépia é mais contido e com ares de memórias contadas na varanda. Aurora passa a maior parte de seu tempo ao lado da avó paterna, a espaçosa Paulina del Valle, equilibrando-se na vida que escolheram para ela, e faz o caminho inverso ao que sua avó materna traçou em Filha da Fortuna. Em Filha, Eliza sai do Chile no porão de um navio, fugindo da família, para se aventurar em busca daquele que acreditava ser o amor de sua vida e que partira em busca do ouro californiano. Muitos anos depois, em Sépia, sua neta nascida nos Estados Unidos migra para o Chile, sob a asa da outra avó, para enfrentar desafios que me parecem ainda mais assustadores do que a viagem clandestina de Eliza: a rotina e o marasmo da vida caseira reservada às "mulheres da elite" chilena da época. Nada fácil, pessoas. 

Quem lê os livros de Allende se acostuma a fatos grandiosos, personagens que empreendem viagens estupendas ou levam uma vida absolutamente esquisita: seja a apaixonante Clara, em Casa dos Espíritos; ou a escrava Zarité, em Ilha Sob o Mar; mesmo a não tão cativante Eliza tem lá sua dose de aventureira a nos oferecer. Talvez seja por isso que Aurora me pareceu tão sem sal. Não que não me encantem as aventuras da nossa vidinha mundana de cada dia; mas é que abro um Allende esperando personagens cheios de camadas e sustos. Aurora caminha reto demais. Daí que achei a história bacana, mas meio sem cor. Um livro assim, meio sépia. ;-) Mas não adianta, fã é bicho besta e gostei de ter lido. Quem escreveu Paula terá de mim admiração eterna. 

Há flores em tudo que eu vejo


No carro Ulisses comentou como fica feliz ao ver que sua mãe dá sinais evidentes de ter superado a depressão que a assombrou por tempo demais. Contou como gostou de vê-la tagarelando na calçada sobre as flores que enfeitam as pontas de um matinho qualquer. Arthur, por sua vez, deu sinais evidentes de ter entendido tudo; ou de ter entendido o que mais importa:

- É engraçado isso. Quando a gente gosta de alguém é como se ficasse ligado na pessoa. A gente fica feliz se ela tá feliz.

***

A plantinha brotou solitária no meio do muro de concreto da casa da minha amiga. Como se não bastasse, há minúsculas florzinhas no topo. O mundo, essa coisa fascinante.

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Há flores em tudo que eu vejo, cantávamos nos anos 80. Os ecos me alcançam. 

***

A mesma amiga cuida da orquídea com gelo. Quando se lembra, põe pedras de gelo na base da planta. Hoje vi sete lindas flores enchendo sua sala como se tivessem acabado de chegar da floricultura. Gelo, anotem. Se bem que, né, na casa dela as flores nascem até no muro de concreto.

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Eu me lembro do dia em que mandei rosas pra você. Você me disse que o moço da floricultura fez uma cara engraçada, deve ter estranhado na hora da entrega. O mundo, esse lugar engraçado.

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Há um tipo de abraço que minha filha me dá que me preenche inteira. Ela se pendura em mim, minha coalinha. E ela se empenha no abraço, é algo grande, forte, com atenção. É um abraço feito dessa coisa aí que liga a gente na outra pessoa. É disso que meu filho fala, eu sei. Ele também abraça assim. 

***

No meio das páginas do livro que emprestei à amiga foi a flor seca que meu filho me deu um dia. Ela me devolveu a flor, que transferimos para um livro que ela me emprestou. Mas deixei o livro pra trás, porque há outros na fila, e a flor ficou lá. Não quer mais sair da casa onde suas irmãs nascem até no meio do concreto. Compreensível.

***

Já vou parar. Mas preciso dizer que no meio da floricultura minha filha brincava com sua amiga e eu me meti, sugerindo: faz de conta que esse é um jardim encantado e vocês vão procurar ninfas no meio das flores. Amanda me deu a real:

- Não, mãe! Essas plantas são tooodas carnívoras!!

O mundo.


Quando chove


A maior preocupação de Juliana era a chuva. Tentava em vão proteger o vaso com a mão que sobrava livre, enquanto com a outra apertava como dava o objeto de barro contra o peito. Sempre achava que o 303 demorava a passar, mas nunca, certamente nunca na vida havia demorado tanto como naquela tarde fria - mais fria do que o necessário, vamos combinar. Ninguém esperava aquele frio e aquela chuva naquela época do ano, todos sabem. Ninguém, muito menos ela, ali na parada de ônibus, agarrada ao seu troféu. Bem, não era bem como se tivesse ganhado um prêmio, mas era inegável que havia certa dose de triunfo diluída no meio de todo aquele susto. O ônibus não vinha. O vento, esse era o maior problema. Fosse só uma chuva fina, seu casaquinho de linha daria conta de abrigar a flor. Ou nem o faria, afinal flores gostam de chuvas. O vento, não. Era uma ameaça verdadeira àquela haste tão fininha, tão parecida com sua esperança no início do dia. Que bom que agora, no final da tarde, ela era mais forte do que a flor; cabia a ela proteger seu presente, resguardá-lo de todo mal. Pois quem não sabe que bastariam pingos trazidos pelo vento para derrotar aquela porção de cor que se erguia da terra prensada no vaso? Bastariam, e por isso Juliana se contorcia um pouco para arquear as costas de modo a barrar o vento. O 303 apontou na esquina. 

Não foi o moço alto de casaco marrom pesado e molhado a ameaça mais forte. Foi a moça desastrada com sua sombrinha horrorosa que por pouco não decepou a haste verde que sustentava as outras cores - as cores das pétalas da flor que, com o coração aos gritos, havia recebido dele. Quando saltou na sua parada, o frio que rasgou seu rosto ao dobrar a esquina incomodou menos do que a sombrinha da moça desastrada, então nem reclamou. Apenas fechou um pouco mais a mão em concha, contando apreensiva os passos que a separavam da segurança de sua sala quente e com teto. Por precaução, não desgrudou os olhos do vaso enquanto ele esperava na calçada, impassível e úmido, até que ela encontrasse a chave na mochila. Voltou a pegá-lo como quem tira um bebê do berço e entrou em casa. 

Triunfante e perdida, Juliana retirou a bandeja de cerâmica do centro da mesa e a substituiu pela flor mais importante do mundo. Tomou banho, escreveu um bilhete e se deitou, exausta, sem fome. Adormeceu muito antes do horário habitual, tamanho seu alívio. Mal tinha entrado no primeiro sonho quando a primeira pétala cumpriu seu ciclo, sucumbiu às intempéries de sua curta vida e caiu muda sobre a terra prensada no vaso de barro. E como era apenas uma pétala, nunca desconfiou da avalanche que ajudou a criar em sua última tarde de chuva.

Reinos


Amanda brinca com as amigas pela casa e é como se elas estivessem em outro reino. Não nos enxergam, não nos procuram. Ficamos ali, mães e pais, batendo papo e bebendo café no reino do aqui. Lá, vozes distantes, risadas, gritinhos. Num raro momento em que os dois reinos se cruzam, pergunto à menina que corre esbaforida pela sala à procura de algum brinquedo:

- Oi, amor, do que vocês estão brincando?

E ela responde, abrindo os braços num gesto dramático de diva de ópera:

- De Deusas da Vida!!!

***

Um passarinho pousou na minha janela e me trouxe um segredo. Tem tons avermelhados que soprarei ao vento. Já já.


A pipa


Abri a caixa já desbotada mais uma vez. Olhei aquelas palavras que há tempos eu guardava como se formassem um tesouro capaz de me salvar um dia e, de novo, suspirei. Gostava tanto delas, não queria deixá-las ou trocar por outras. Eram bonitas, afinal. Tinham sido lapidadas e reorganizadas tantas vezes, eram velhas amigas. Até ali, na calçada da minha casa, dentro da caixa que eu apoiava no meu colo com todo cuidado, até ali aquelas palavras me pareciam tão imponentes. Custava-me admitir o marasmo. Aí o vento que não tinha nada a ver com a história bagunçou meu cabelo. Meu cabelo cobriu meus olhos e precisei erguer a cabeça. Foi quando vi o menino descalço que descia a rua, com um graveto na mão. Não foi uma decisão exatamente, apenas um impulso bruto, como um "sim" impensado. Estendi a caixa. Ele aceitou como quem recebe um doce. Abriu, olhou minhas preciosidades e então me encarou com um olhar de pergunta. Não esperou muito. Fechou a caixa e continuou descendo a rua. Misturou minhas palavras velhas e estudadas com a infância dele, deixando o graveto esquecido aos meus pés. Quando me levantei com o graveto na mão, reconheci uma de minhas palavras na pipa colorida, a pipa que voava e dançava no céu muito azul da rua de baixo.
 
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