A casa perfumada


"...Nor a thorn nor a threat stain her beauty bright."

"Para a mamãe!" E o sorriso que vem junto quase humilha a flor.

***


Passarinho


Ninho.

Empurrãozinho.


Será?


 Pequeno voo.

Ah, as asas...

***

Em dia de estreias, Ulisses fez sua primeira aula de kitesurf. Ainda não dá pra chamar de passarinho, mas ele chega lá. 

***

Abandonei os planos para o domingo ao ar livre quando a chuva apertou à meia-noite de sábado. Fechei os blackouts da cortina e mandei ver mais um episódio daquela série. Dormiria até as onze da manhã, que delícia. Quando o telefone tocou por volta das oito e meia da manhã, pensei palavrões e virei pro lado. Era o professor de kite, confirmando a aula do Ulisses. Enquanto me perguntava se o tal professor seira um sádico, estiquei o braço, puxei a cortina e mal pude acreditar no céu azul limpíssimo rindo da minha cara. Resgatamos os planos e fomos pro mundo. Semana que vem eu durmo. 

Sinestesia



Quando ela abriu a gaveta e pegou uma folha de papel, a brancura um pouco doce iluminou a sala. Quando abriu a caixa de lápis de cor, cada ponto do espectro salpicou o ambiente de manchas e riscos e sombras de efeito. Ela examinou o tecido da própria saia e de lá retirou duas pequenas flores amarelas, e com elas fez um jardim na parte baixa do papel. Com a grama pronta, pisou lá. E foi. No outro lado era o sonho. Soltou os cabelos, abandonou as sandálias e viu que o ar que pisava era frio e macio. E sem fim. Não escolheu direção alguma, apenas seguiu aleatoriamente grupos de notas musicais coloridas que sopravam e eram o vento e a neblina. Pintou por horas, dançou em todas as cores. Quando quis voltar, fechou os olhos. Depois guardou a caixa de lápis e refez a trança. No armário pendurou a saia com duas flores a menos, para passeios futuros. Então sentou-se ao piano e pintou a sala de poente.

Forno


Às vezes não é preciso ser chuva grossa, daquelas que traziam pequenas enxurradas de água brilhosa na rua lá da infância: uma chuva fina já desenha um sorriso em minha boca. Há também os dias em que nem precisamos do brinde: um café compartilhado, meus pés brincando com os seus sob a mesa, já nos basta. E não é mesmo verdade que nem sempre queremos a dança? Não nos sacia, tantas vezes, o tamborilar dos dedos na coxa, enquanto Morrissey espalha sua melancolia no ar e a gente observa a paisagem que passa?

Pois é assim, às vezes. Não é que eu ache que será um grande evento, capaz de gerar ondas de entusiasmo. Ou que eu veja tudo com lentes de aumento. Nada disso. Apenas acho que as miudezas trazem em si o mesmo pó de que são feitas as grandezas. É tudo estrela, não dizem? Então. Também vai ser bom, como se. Como a chuva fina tocando as folhas na calçada, como o aroma do café fresco, como a voz do Morrissey, there's a light and it never goes out. Vai ser tão bom. 

Mal posso esperar. 

Contas, cor, colar, calor




"Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas da colina.

O colar de Carolina
cobre o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral
nas colunas da colina."
(Cecília Meireles)

***

No Facebook, vi que a filhota da amiga que tá em cidade fria e chuvosa passou a tarde fazendo pulseirinhas. Aqui não temos o pretexto do frio, mas o calor trouxe junto a preguiça. Passei a semana programando um domingo paradão e nem o sol me arrancou de casa. O resultado talvez seja menos vitamina D, mas certamente mais cores e continhas. Os fechos tortos e os nós mal dados são culpa minha; o "design" (para todos os estilos imagináveis) é da pequena. ;-)

A caixinha de coração também é obra dela, que pintou, decorou e agora a encheu de pulseirinhas.



No saquinho, presentinhos para amigas. 

***

Ontem à noite faltou luz em nosso bairro. Reclamamos, achamos as velas, as crianças escovaram os dentes com lanterna em punho. Quando tudo ficou em silêncio, com a casa às escuras, vi que o luar invadia nossas janelas e desenhava formas geométricas no tapete da sala. Senti-me grata. A vida é uma graça. 


O bombom


Houve uma vez uma menina que ganhou uma caixa de bombons. Mal podia acreditar quando recebeu a caixa de tampa dourada e laço de fita. Reconhecendo o nome que tinha visto na TV, já desmanchou o laço sabendo o que seus olhos encontrariam. Sua boca salivou com urgência e um "obrigada" emocionado lhe saltou pelos lábios. Sorriu agarrando-se à caixa, já temendo que alguém lhe pedisse um. Guardou em seu quarto, à vista, ao alcance fácil da mão. Comeu o primeiro como quem viaja pela primeira vez. Foi feliz.

Quando restavam cinco bombons, achou por bem parar. Quis prolongar aquele estado de felicidade simples, poder pensar por mais tempo que tinha bombons finos para comer quando quisesse. Suspendeu a alegria da boca e se contentou com o saber que estavam ali e eram seus. Chegava eventualmente a tocar as bordas do papel brilhoso que envolvia um ou outro. Cheirar, não, era muito perigoso. Até o dia em que o verão ia alto e a menina, que agora tinha o laço de fita no cabelo, resolveu se permitir. E ao abrir o papel laminado colorido viu derretido e disforme o que deveria ter sido um bombom de consistência boa e certa. 

Nunca mais adiou abraços.

Inventário das coisas importantes


Inventário: um abraço no pátio pra secar a lágrima, um afago no braço que significa desculpas, um alerta feito de carinho, ainda que seja um carinho medroso; um sanduíche com mais geleia para abrir sorrisos, uma ajudinha na escovação dos dentes para relembrar uns dias; um presentinho de surpresa, cócegas no lugar do beijo, filme agarradinhos no sofá; uma bala a mais, um banho a menos, pode, sim; colar figurinhas, adiar a tarefa, cafuné; ouvir a mesma piada, a mesma história mil vezes; ler o mesmo gibi; achar o brinquedo embaixo do sofá, comer castanhas antes do almoço, ficar muito bravo; não querer cortar as unhas; desistir do quebra-cabeças, perder o casaco, perder o squeeze, perder o tubo de cola, perder o lápis, botar o dedo na boca; esquecer o lanche na mochila, perder o bilhete, esquecer o recado, não querer ir, falar "deixa eu falar"; nunca mais parar de falar; água antes de dormir, luz acesa, chinelos de cores diferentes; ovos mexidos, suco de cajá com acerola.

Que eu nunca, nunca me esqueça.

***

O melhor de tomar vinho com os amigos: planejar vinho com os amigos.

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Tenho amigas grávidas. Uma planejou tanto, que já havia desistido. Outra tomou um susto. Ambas encararam o desafio de ter mais um filho. Diante da avalanche que isso representa para cada uma delas, foco no que importa e penso nos pés gordinhos que vou morder. Nham!

***

Escolhemos os planos e nos empolgamos feito criança. Aí investimos e saímos por aí preenchendo as lacunas que criamos. Dizemos: hum, preciso disso. À medida que o tempo passa, modificamos os planos e abandonamos algumas lacunas, assim mesmo, em branco. A vida é, em certa medida, um álbum de figurinhas abandonado porque a banca parou de vender os envelopinhos; ou porque os envelopinhos não nos interessam mais. E tudo bem.

***

Pedi desculpas ao meu filho porque achei que tinha errado a dose. E ele, generoso, ofereceu um abraço que foi como uma aurora de verão, pé na areia: morno, colorido, cheio de boas expectativas. Amar um filho pode ser como carregar o verão no peito. Uma linha bonita no meu diário.



Sons e silêncio da maleta de monóculos


Minha mãe mantinha seus monóculos guardados em uma maleta muito antiga. Ficava ali, naquela porta à direita, na parte inferior da estante de madeira. Quando eu era pequena, costumava abrir a porta da estante como se o gesto fosse algum rito de passagem para outra era. Então eu botava a maleta no colo e olhava repetidas vezes cada uma daquelas minúsculas fotografias. Fechava um dos olhos e mirava contra a luz os monóculos coloridos. As horas passavam sem que eu me desse conta, presa que estava ao tempo congelado das imagens. 



Além de registros da primeira infância de seus filhos, minha mãe guardava ali várias fotos suas de outras eras. Eu passava rapidamente pelas minhas próprias fotos de bebê sem cabelo para em seguida me demorar um pouco mais nas dela. Alguma coisa naquelas imagens prendia minha atenção, sem que eu conseguisse nomeá-la. Hoje acho que era um conjunto de impressões agradáveis: minha mãe aparentemente saudável, satisfeita com a própria aparência, elegante, talvez feliz com sua coleção de vestidos. Quando penso no contexto temporal daquelas fotografias, imagino que ela deve ter sido uma pessoa muito vaidosa, num tempo vivido antes de ela se tornar a mãe superprotetora e profissional dedicada, a dona de casa cheia de coisas a resolver, a lutadora ferrenha contra todos os problemas de saúde que a afligiram ao longo dos anos. 

Fotografar o visual com que saímos para trabalhar hoje em dia é algo banal que fazemos com o celular. Mas nos anos sessenta as coisas não eram exatamente assim. Minha mãe não tinha uma máquina fotográfica. Para registrar o que fosse, era preciso chamar o fotógrafo da cidade (ela passou toda sua vida em uma pequena cidade do interior da Paraíba), fazer pose, torcer para acertar. Fico imaginando se ela ficava ansiosa pela revelação, para ver se ficara bonita, se o cabelo estava bom. Será que queria guardar tudo para si, somente? Ou para presentear alguém, com um "oferecimento" no verso? Onde ou com quem estariam as imagens impressas desses monóculos? Eu costumava ver cópias de minha cabeçona de bebê nos álbuns que até hoje guardo comigo, mas várias das fotos de minha mãe elegante e produzida se reduziam aos monóculos. Nunca perguntei a ela sobre as possíveis versões impressas.

Na semana passada as fotos das antigas alunas do colégio me levaram de volta à porta inferior da velha estante escura, hoje convertida em porta superior da minha própria estante branca. Os monóculos agora habitam o silêncio de uma caixa florida, no escritório de uma casa que fica muito longe daqueles cenários onde minha mãe posava para o fotógrafo da cidade onde nasci. Como em minha infância, pus a caixa no colo, voltei meus olhos para a luz e olhei as minúsculas películas. E fiz o que deveria ter feito anos atrás, imprimi as fotos dela. Agora tenho preciosas imagens impressas, cujo principal benefício é o tamanho. Ficou mais fácil observar cada detalhe. De certa forma, ficou maior o silêncio, também.  E, ai, adoro as poses!

Ah, esse olhar... :-)




De longe, minha favorita. Tudo me fascina nessa foto: o semblante dela, com o sorriso leve; o conjunto lenço na cabeça e óculos; o telefone maravilhoso; ela, se achando linda. 

A foto clássica do espelho, com direito a fotógrafo refletido nele. Minhas pulseiras moram nesse porta-joias azul; é impossível olhar para ele e não ser visitada por fragmentos de lembranças de décadas atrás.

A trilha sonora da minha infância.



E há as fotos impressas em seu velhíssimo álbum. Pele de diva de cinema.




Batom.



Em Ponte para Terebin, a orelha do livro diz que aquela é a história de uma caixa de retratos que um dia começaram a falar. Eu sei do silêncio que vem com essas fotos. Ao mesmo tempo, é verdade que elas falam, às vezes até ecoam a voz dela por um segundo. E fico tendo ideias de histórias que poderiam ser contadas sobre cada uma dessas fotos. Quem sabe as invento, quem sabe mesmo eu as escute bem direitinho. Afinal, eu conheço esses olhares e adoro os colares.  

Trança


A cena se repete quase sempre igual: ela se senta na cama, voltada para a janela, perninha de índio, e abre o gibi. Eu me sento por trás dela. Antes, deixo ao alcance da mão o que vou precisar: escova e pente, creme para pentear, caixa porta-trecos com enfeites e badulaques de cabelo. Às vezes providencio também um pouco d'água em um pequeno pote de louça que trago do banheiro, caso eu queira umedecer um pouco os fios, se não tiverem sido lavados naquela hora. Ela vai embora para dentro do gibi, de onde sai eventualmente para protestar com um sonoro "ai" quando me descuido e puxo o cabelo, sempre sem querer. Nunca quero puxar. Adoro pentear seus cabelos, desmanchar os nós, observar a cor que muda lentamente ao longo dos anos, escovar, escovar, escovar. De vez em quando me aproveito de seu mergulho na leitura e escovo mil vezes, exclusivamente pelo prazer do contato. Arrumar. Um poder que, confesso em segredo secretíssimo, eu queria ter. Mas é só uma fantasia passageira, me deixem. Logo passa e me contento com os fios, sei que não me cabe arrumar além deles. Ela vai precisar de seus próprios tropeços. Ali, escovando em silêncio enquanto ela lê balões, penso nisso, na bagunça desgrenhada do mundo, na vida arrepiada. E torço muito por ela, por eles. Torço inteira por eles. E o cabelo sabido no final do dia tem de novo os nós que me avisam: é assim, mãe. Deixa.

Hoje você usou trança e o laço de fita que ganhou da amiga. Em cada perna da trança pus sorriso, sol, picolé, sorriso, sol, picolé, sorriso, sol, picolé. 

***

Fiz muffins para o lanche coletivo do Arthur na escola amanhã, pela semana das crianças e tal. Na falta de gotas de chocolate (nunca me lembro de comprar), improvisei, ralei chocolate amargo, pus aveia, mais iogurte. Deu certo, espero que gostem. Amanda fez bico, não pode comer, são para o mano com exclusividade. Ela e o pai prometem uma manifestação amanhã, nas primeiras horas do dia. Dizem que os cartazes de "queremos muffins para todos" já estão sendo providenciados.

***

Ontem fiz aquele bolo de maçã outra vez, para levar para o trabalho. Ulisses cresceu o olho, Arthur pediu um pedaço para a lancheira. O bolo desapareceu em poucas horas. Hoje fiz o mesmo bolo novamente, desta vez para os de casa. Nota mental: nos dias em que estiver carente de elogios, fazer bolo de maçã com especiarias. Vão por mim.

***

Dias em que, se pudesse, não sairia da cozinha. Seja comendo, assaltando a geladeira ou brincando de assar bolos, minha cozinha é meu reino feliz. Falando nisso, ontem à meia-noite alguém em Breaking Bad fez uma salada. Nível de maria-vai-com-as-outrizice: fui para a cozinha preparar uma salada. Alface, rúcula, tomates coloridos, uva. Azeite. Mais um episódio. 

***

Allende se repete. Mas quais são as palavras que nunca são ditas, como perguntava aquele moço, não é? Eu me repito tanto que há dias em que não sou mais do que ecos. Ecos num poço tão fundo que não enxergamos as moedas. Mas elas estão lá.

***

O que me leva de volta aos gibis. Já perceberam como poço dos desejos rende tirinhas? Todo mundo se repete, tal qual a cena do cabelo sendo penteado.



Para lembrar que é uma ilha


Quando me mudei para Florianópolis, muitos anos atrás, passei algum tempo desbravando a ilha, visitando toda praia, cada trilha, cada canto. Foi um tempo de divertido encantamento. Acho que nunca deixei de enxergar as belezas daqui, mas meus olhos foram aos poucos se acostumando com o azul ao meu redor. Se é verdade que o que antes me fazia suspirar ainda me alegra, também é verdade que ficaram mais raras as interjeições. De vez em quando, no entando, certos passeios me fazem ver que deslumbres combinam com isso aqui. E que sempre cabem ohs e ahs.


Então zarpamos e seguimos os rumos da Lagoa da Conceição. O vento gelado tentou atrapalhar, mas a gente cuida das gargantas inflamadas depois. 










(Eu bem que banquei a mãe chata e tentei impedir os pés na água fria, mas aí vi que estava só sendo uma mãe chata daquelas que tentam... impedir crianças de botar os pés na água fria. E resolvi tirar fotos ao invés de encher o saco.)

(Arthur à caça da folhinha perfeita.)

Amanda cazamiga, curtindo o sol de casaco.

Um brinde grato aos amigos que nos fizeram jogar no esquecimento as correrias da semana que passou. (A linha do horizonte torta tem a ver apenas com o balanço do barco, registre-se...)

Ah, e ainda comi cocada no final. \O/

Dentes pretos e beiços


(caprichei no título, hein? digam lá!)

***

Tenho coisas a contar, mas o tempo é um riozinho apressado. E agora, não. Hoje vou adormecer lentamente, com cafuné. Vou ver o dia amanhã que, dizem, será azul. Vou esperar as fotos que mandei revelar. Vou tecer retalhinhos, alinhavar uns paninhos. Vou. Agora, não. Agora meu tempo é o sossego que encerra uma semana lotada de mais do mesmo, intercalada por pitadas de boas pérolas. Fiz até muffins. E amanhã vamos ver o mar.

***

Há um filme antigo com Michelle Pfeiffer e Bruce Willis em que seus personagens perguntam aos filhos qual o melhor e o pior momento do dia, todos os dias. De vez em quando, faço o mesmo com os meus, no carro, a caminho de casa. Normalmente Amanda responde algo relacionado à aula de dança para o melhor momento, e fica sem resposta para o pior; Arthur faz o mesmo, falando do recreio. Agora há pouco me perguntei sobre minha semana. Tenho uma listinha de piores momentos, todos relacionados ao trânsito ou a detalhes chatos de meu trabalho. Um pote de clichê. O melhor momento, no entanto, salta isolado em meus pensamentos, dançando: as bocas das crianças cheias de muffins, os dentes pretos de chocolate, bochechas arredondadas enquanto mastigam e gemem - hhhuuuummmm, mãe, que delícia!! Que trânsito, o quê. Vidão. 

***

Ao cafuné. Nos próximos capítulos: tecido, barco, fotos.

***

E, talvez, gatos. Amanda quer adotar um gatinho. Eu expliquei que, veja bem, seria complicado, temos os cachorros, o gato pode fugir, etc. Ela esticou o olhar. E o beiço. Suspirei. Vamos pensar, tá? Beiço. Olhar. Suspiro. Estamos pensando. Beiço. Oh, dear.  

Snacks


Perdi o livro. 

:-(

Achei!

\o/

***

A árvore da calçada, a saga: e não eram flores. A coloração avermelhada das folhinhas me confundiu. Mas nasci numa cidade chamada Esperança e ano que vem tem setembro outra vez.

***

Mandei tosar o Floquinho, já que ele estava imundo, com os pelos longos já cobrindo completamente seus olhos. Tinha tomado todas as chuvas da semana passada, e ninguém o escovou. Um simples banho com todos aqueles nós, acho, seria até doloroso - aka comprei a conversa da moça do pet shop. Estávamos cogitando trocar seu nome para Mulambo ou Pano de Chão, então mandei tosar. Como se o cachorro estivesse preocupado com sua aparência, observem. Agora Ulisses me olha e diz "muito bem, Flipper", porque o cão está lindo, cheiroso, de olhos enormes à mostra. E morrendo de frio nessa primavera invernosa.

***

Amanda quer saber do depois. O que há quando morremos? Como é isso de o tempo passar, as pessoas sumirem? A morte, um mistério que nem combina com aquela carinha. Mas ela pensa, pergunta, reflete. Eu não sei, meu amor. E te ofereço sonhos bons e uma cosquinha

***

Os amigos pelo mundo e suas fotos no Facebook. Tanto chão, tanta areia, tanto mar, tanta chuva, tanta montanha, tanta cor, tanto vinho, tanta estrada, tanta roubada, tanto deserto, tanta história, tantas pequenas belezas. As pequenas belezas espalhadas pelo mundo. 

Minha sala sem fotos. Tanto chão, tanta história, tanto barulho, tantos desejos de bem, tanta ternura, tanto espirro, tantas pequenas belezas. As pequenas belezas espalhadas pelo mundo, ao alcance da mão: o bem-querer como projeto de vida.

(A gente se coça, o mapa não tem fim; mas agora não dá. E vamos abraçando o mundo na sala.)

***

Há fotos muito antigas em alguns corredores do colégio das crianças. Quadros com fotografias de formandas do magistério na década de 20, por exemplo. Ontem as vi pela primeira vez, ou pela primeira vez prestei atenção nelas. E me lembrei daquela cena em Sociedade dos Poetas Mortos quando o Robin Williams pede que os alunos se aproximem da velha fotografia dos ex-alunos e ouçam o carpe diem. Está lá o rosto da moça que deu nome à rua onde morei em outros tempos. Não ouvi nada, mas perguntei um monte. Mulheres que estudavam e se formavam na década de 20, acho grande. E me deu uma vontade louca de mergulhar de novo nas fotos antigas de minha mãe, onde ela aparece com aquela mesma pele indefectível, aquele olhar austero e aquela cintura de pilão. Em breve, exposição nesta estrada: a moda dos anos 50/60, by Berna.
 
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