Easy Weekend


Meu corpo pediu repouso e dei a ele um final de semana em câmera lenta. Li um pouco, escrevi menos, toquei. Meu momento de maior agito deve ter sido montar um quebra-cabeças do Charlie & Lola. Nada de reuniões para jogatinas com os amigos, meu jogo de tabuleiro do sábado chuvoso foi Candy Land com a Amanda. Para o domingo eu tinha planos radicais de fazer brigadeiro com ela, mas não havia leite condensado em casa; na volta do mercado, o dia já estava se despedindo e ela estava envolvida em alguma caça ao tesouro com o irmão. Só me restou fazer um rápido bolo formigueiro para o café com eles. O que, de verdade, é sempre bom: acho que o bolo formigueiro vai ter para meus filhos um papel semelhante aos bolinhos de nata que minha mãe fazia quando eu era bem pequena. Será uma lembrança de "comidinha que a mamãe fazia" de um jeito muito bom: doce, morninho, com olhares compridos pedindo mais e o papai brincando de que vai esconder o bolo pra comer sozinho. Faço o brigadeiro outro dia.

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Enquanto preparava o bolo, comentei com o Ulisses que vi no mercado o pacote com 100g de rúcula sendo vendida por mais de sete reais. Se eu quiser comprar um quilo de rúcula, preciso de mais de 70 reais. Um quilo de carne dita "de primeira" custa, no mesmo mercado, algo em torno de 31 reais, que já é caro. Acho que não entendo nada de custos de produção. E não vai haver rúcula na salada até eu dar uma passada no outro mercado.

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Eu tenho a sorte de ter amigos que fazem coisas muito docinhas. Uma amiga havia lido uma tradução de The Catcher in the Rye em português (O Apanhador no Campo de Centeio) e tinha um exemplar em inglês "sobrando" na estante dela. Há umas duas semanas, ela me deu esse exemplar, a docinha. Como estava lendo outra coisa, dei uma rápida passada de olhos nas duas primeiras páginas e o pus num canto bagunçado da estante, furando a fila. Uns três dias depois, reconheci, em português, o teor dessas duas primeiras páginas no Facebook da tradutora Denise Bottmann. Pelo que entendi, ela está traduzindo a recém-lançada biografia de Salinger e brincou de traduzir parte de Catcher. A partir daí, seguiram-se em seu perfil diversas conversas em torno de Salinger e seu famoso livro. Ou seja, o universo conspirando... não, nada disso. Só uma coincidência engraçada. Foi só eu ganhar o livro e quase todas as vezes que visitei o FB esses dias vi alguma referência a ele ou ao seu autor. Assim que terminar Sépia, da Allende (que está bem mais ou menos), vou ler o tal. 

Outra amiga docinha: ela vai ao lugar onde trabalho resolver alguma coisa. Como sabe que trabalho lá, aproveita e me leva uma trufa. Ela me liga. Aí eu não estou lá. Eu não estou no trabalho no momento em que a amiga vai lá me dar uma trufa. Só eu, viu.

E eu, azeda: errei o ponto da mousse, de novo.

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Nosso pé de manjericão subiu no telhado. Bem agora quando o de tomate tá carregadinho. Terá sido uma crise de ciúmes?

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As crianças me contam entusiasmadíssimas sobre os incríveis feitos deles no jogo tal. Eles falam com os olhos arregalados, as mãozinhas desenhando no ar os zumbis e sei lá mais o quê; Arthur fala alguma coisa da incrível gruta que Amanda fez; eles falam, falam, falam e eu não entendo nada. Nada. Mas adoro o jeito que eles falam. E tô achando graça do pai deles que vai lá mandar desligar, olha a hora, já jogaram muito, aí senta junto e jogam mais um monte, os três. Vou me manter á distância, para garantir que alguém vai desligar o negócio.

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Tá bom, tá bom, eu me rendo: dei uma espiada em Breaking Bad. Ainda não estou chamando de A Melhor Série, mas já entendo o barulho. E é sempre bom ter cartas na manga para finais de semana de molho, certo? Além de, claro, poder participar das conversas animadas sobre a série. Ou não: sei que agora está no ar o último episódio da última temporada, bem na hora em que vou publicar o post. Aí ninguém vai ler. La vie.

19



Eles se sentaram num banco da praça, bem em frente à parada do ônibus dela. O ônibus só passava de hora em hora, mas ela não reclamaria disso naquela noite. Ela carregava a bolsa a tiracolo e um livro didático que usaria na manhã seguinte para preparar aulas. Ele tinha aquele olhar que tirou tanta coisa do lugar. Chegaram de mãos dadas e assim permaneceram por um tempo, até que se abraçaram e ele passou a mão no cabelo dela. Trocaram algumas carícias no ritmo suspenso em que vinham tocando a vida há algumas semanas. Conversaram também, não lhes faltava assunto. Era como se.

Ele disse que alguns gestos eram como marcos, iniciavam histórias. Ela entendeu aquilo como um aviso, talvez ainda não fosse a hora para ele. Não combinava muito com a situação, pelo menos não com a situação dentro dela, mas não havia nada que ela, prontíssima, pudesse fazer. E no entanto ele fez o gesto. E quando o beijo acabou, ela pressentiu as muitas linhas da história que se estenderam à sua frente, no tempo que ainda nem estava ali.

O ônibus passou.

Na manhã seguinte, sentada sozinha na sala de seu apartamento cheio de móveis tubulares, ela olhou o livro aberto por um longo tempo. E quase perdeu o ônibus que só passava de hora em hora para ir ao trabalho.

Faz 19 anos.


Sem ribalta


Ontem minha professora de piano me comunicou a data em que os alunos da escola irão fazer o tradicional recital de final de ano. Sorri e respondi que estarei lá, na plateia, vendo o Arthur, se ele quiser tocar. Ela então me perguntou se eu mesma não iria participar. Foi uma pergunta retórica, ela já sabe a resposta. É claro que não. Ela, generosa e cumprindo seu papel de tutora entusiasta, insistiu sem ser indelicada, dizendo que ah, seria tão legal. Não, não seria.

Quando eu era pequena, adorava participar em todas os eventos em que a palavra "palco" estivesse presente. Poderia ser qualquer coisa: recitar, dançar, representar, ler, rezar, anunciar, fazer mímica. Era no palco? Eu era voluntária. Adorava aquilo. Mais do que o dia da apresentação propriamente dita empolgavam-me os ensaios. Eu gostava dos bastidores, dos biombos, dos escuros, das marcações de texto, dos exercícios de voz. Saboreava a espera, o burburinho, as escolhas dos figurinos e montagens. Para mim, estar no palco era um complemento divertido da preparação que normalmente levava semanas de encontros incríveis. Em uma ocasião, lembro-me de que os ensaios eram noturnos, porque o professor de música que conduzia a muvuca só tinha disponibilidade de tempo à noite. E eu, algo parecido como uma pré-adolescente, achava o máximo ter compromissos à noite. Adorava os ecos do auditório, os corredores escuros do colégio, as salas de aula silenciosas enquanto decorávamos falas e ensaiávamos passos. Nenhuma diversão poderia ser mais saborosa do que aquilo. 

Nunca precisei enfrentar a timidez em situações assim. Eu podia ter vergonha de sorrir para um garoto, mas era só chegar minha vez de entrar no palco e lá estava eu, confortável.

Mas com o piano, não.

Com o piano tudo é íntimo. É como um tapete velho, um porta-retratos meio quebrado, um conjunto de louça com peças que não combinam: o conforto habita os limites da casa. Se alguém não muito próximo espiar, pode rolar certo constrangimento. Faço meus exercícios quando posso, brinco com canções de que gosto e que consigo executar do jeito que dá. Nada disso, contudo, é proporcional ao prazer que sinto. Já falei e repito, o piano é um brinquedão; faço com ele aquilo que seria o propósito-mor de um brinquedo, eu me divirto. Contudo, depois de quase um ano de aulas, acho que já consigo ter alguma noção do quão limitado meu desempenho sempre será. Quando ouço o Arthur tocar, vejo a leveza com que seus dedinhos deslizam e tocam notas suaves com suavidade, notas fortes com entusiasmo, como tem de ser. Meu toque, ao contrário, é quadrado, quebrado, igual. Divertido pra caramba, mas não serve pro palco. Sem lamentações, vou espichar as nuanças da palavra amadora: nenhum profissionalismo, muito amor. 

Além do mais, não me falta plateia. Marido anda provando seu afeto, os filhos não reclamam, os cachorros não choram. E até a pior das hipóteses é bacana: qualquer hora levanto o Chopin do túmulo, olha que ganho para a humanidade! Até já imagino o que ele vai falar: Ritinha, querida, vai lavar a louça, vai. (É possível que ele fale em polonês, portanto não vou entender e vou continuar martelando as teclinhas. Mas só em casa.)

 

O silêncio e as bailarinas


No domingo passado fomos ao teatro ver algumas apresentações de um festival de dança. Um grupo de três bailarinas do interior de São Paulo apresentou uma coreografia intitulada Degas, ao som de um dos movimentos da Primavera de Vivaldi. Tutus, pernas, braços, voltinhas, passinhos. No meio da coreografia, silêncio. Um problema qualquer no sistema de som interrompeu a música. Todos na plateia prenderam a respiração (eu, pelo menos, prendi). As bailarinas? Dançaram ao som do silêncio. Como se os violinos continuassem enchendo a sala, continuaram executando seus passos e seus bailados de braços, enquanto nós, apreensivos, ouvíamos os toc toc das sapatilhas de ponta (ou sapatilha de caixinha, com diz a Amanda) no tablado do palco. A alguns segundos do final, a música voltou, obviamente fora do tempo da coreografia. As bailarinas a ignoraram e seguiram o script como se fossem bonecas em uma caixinha de música. Só hesitaram quando, finda a coreografia, a música seguiu, e uma delas fez uma cara de "meu, essa música não vai parar nunca?" Foram, claro, aplaudidas como se fossem heroínas. 

Na mesma tarde Amanda dançou com seu grupo de dança da escola. A música não parou e elas se sacudiram bem lindas. Eu tirei fotos péssimas e aplaudi como se fosse uma... mãe. Assim, daquelas corujas, sabe? Pois então.

***

Ontem revi duas grandes amigas com quem não conversava há um tempão. Precisamos organizar um sistema de senhas para ver quem falava primeiro, porque, olha, coisa boa é ter assunto, viu. E ouvidos atentos. E frase interrompidas por mais histórias. E aquela velha certeza de que amigos estão ali entre as melhores coisas da vida, junto com chocolate e cobertor. Não houve silêncio algum.

***

Status: tentando encher a alma com tantas janelas quanto as que vejo na tela do computador. Para arejar as ideias e deixar o vento bagunçar o cabelo.

***

Ando tentando não me distrair com o silêncio. Quando as ideias se calam, tento fazer como as bailarinas e seguir em frente. Não consigo, claro. Tropeço, erro o passo. Teimosa, sigo treinando. Quem sabe? 

Uns dias e uns torcicolos


A semana me atropelou e mal vi. Pisquei e eis a sexta-feira outra vez. 

Eu tinha 

uma amiga para quem telefonar, 
um evento para tentar espiar e 
uns textos para ler. 

A amiga já deve ter voltado para a cidade dela, nem cheguei a visitar a página do evento e sequer abri os textos. 

No outro lado do espectro, meu filho teve febre e fez o primeiro exame de sangue da vida dele, enquanto minha filha teve o primeiro torcicolo da vida dela. Fui a três consultórios médicos e um laboratório em quatro dias, cheguei atrasada mais vezes do que minha chefe deveria achar bacana, busquei filho mais cedo na escola, essas coisas. Para deixar tudo mais engraçado, a médica disse que não seria necessário jejum para o exame, informação negada pela recepcionista do laboratório - o Arthur não estava em jejum, claro. Tudo bem, nada demais, voltamos amanhã, moça. É óbvio que chovia torrencialmente no momento da viagem perdida ao laboratório e, quando saíamos de lá, Amanda correu e se jogou dentro do carro, batendo a cabeça no banco e fazendo o torcicolo. Tudo bem concatenado; vejam que foi uma semana corrida, mas organizada no quesito "uma lambança gera outra". Eu não teria dado grande importância ao caso se, dois dias depois, não tivesse visto Amanda incrivelmente torta, com os ombros desalinhados e a coluna em S. Cheguei a ficar assustada, mas o quadro regrediu direitinho.

No meio do caminho havia uma aniversariante com o pescoço torto. Seis anos, miladyCom o pescoço reto outra vez, há chances de ela participar da apresentação de dança agendada para domingo. Se a previsão do tempo se confirmar, será um dia de dilúvio e haverá atenções redobradas ao voltar para o carro, só por precaução.

By the way, se chover metade do que tem alardeado a previsão, terei guelras na próxima segunda-feira.

Allende me espera, paciente, na cabeceira.

No meio de alguma correria, em uma manhã de sol que parece longe no tempo, observamos que a árvore da calçada mostra sinais de floração. Há botões, pela primeira vez em seus sete ou oito anos de vida. E olhares. E uma chuva que parece nunca passar para eu saber o que será desses botões. De tanto espiar e tentar adivinhar o que virá, que cores terão, que ares trarão, não tardo a ser eu a do torcicolo. Vão vendo.


A menina arco-íris


(Um ano atrás)

Gibis e corda. 
Cachos e bichos.
Tomate-cereja e lápis de cor.
Vestidos e pé no chão.
Sonhos bons e canções no chuveiro.
Charme e pose pra foto.
Máquina fotográfica e pipoca.
Tiaras, pintadas por você, no cabelo.
Desenhos, pintados por você, na porta da geladeira. E no chão. E no carro. E no meu bolso.

Você pensa, reflete, seu olhar se perde, mas logo você solta aquela gargalhada e corre com os pés pretos, sujos de infância, pintando meu mundo, virando meu coração do avesso. Seu mundo é movimentado, colorido e barulhento. Meu mundo é mais movimentado, colorido e barulhento por causa de você. E é tão bom. E eu te amo tanto. E você brilha tanto, minha pequena. Seis. Nenhum dente mole ainda, mas não tenha pressa. Você ainda cabe no meu colo e eu adoro quando você finge que é um coala e eu sou seu pé de eucalipto. Só mais um pouquinho, menininha. 

Seu sorriso faz aquela coisa de espichar nossos corações pra fazer caber tanta ternura. Seus caminhos hão de ser coloridos, minha flor. 

Feliz aniversário. Oba, de novo!   

Westeros na minha casa


Não achei tão divertido quanto Colonizadores de Catan, mas é bom também. O visual é lindo, amei o design das cartas e de todas as peças. No tabuleiro, claro, Westeros. Cada jogador adota uma Casa (fui Stark e me dei mal, pobre Winterfell) e tenta avançar pelo continente. O primeiro a conquistar sete castelos ou aquele que tiver mais castelos após dez rodadas é o vencedor. Há milhares de detalhes que podem interferir no sucesso de cada lance; não há dados, valem sua estratégia e o que as cartas reservarem para o grupo em cada turno. Além de controlar o avanço dos inimigos e conquistar suprimentos para os exércitos, é preciso disputar as regalias de quem ocupa o Trono de Ferro, conquista a espada ou detém o poder do Corvo que tudo vê. E, claro, ficar atento aos selvagens que podem cruzar a Muralha a qualquer momento.





De puro aço valiriano, poderosa.


Lannisters & Baratheons

Um Greyjoy metido ameaçando meu cavalo Stark.

O que pega é o ritmo do jogo: é preciso planejamento e negociatas a cada turno, portanto, tal qual War, uma partida pode levar horas. A nossa levou cinco horas e quinze minutos, aproximadamente. Dormir? Para os fracos (quase dormi; minha capacidade de planejar ataques bélicos às duas da manhã é altamente limitada, pude perceber). Talvez o jogo tenha sido projetado para se parecer bem com a série de livros: a gente se pergunta se vai ter fim. Pretendo jogar a próxima partida durante o dia, com os olhos bem abertos, e me vingar do massacre dos Baratheons que, dessa vez, levaram a melhor. Deixa eles. They know nothing.


Infiel - e um pequeno planeta girando no infinito


Talvez o fato de eu não saber me expressar bem acerca de Infiel - A história de uma mulher que desafiou o islã, da escritora somali Ayaan Hirsi Ali (Cia das Letras, tradução de Luiz A. de Araújo), reflita o quanto ainda não elaborei todas as sensações que sua leitura me causou. Vou tentar, mesmo assim, mais como exercício de concatenação das ideias do que como expressão delas. É possível que eu me empolgue e acabe falando demais, então se você pretende ler a autobiografia de Ayaan e tem alergia a spoilers, talvez não seja um boa ideia ler o post. Nem sei se faz muito sentido falar em "spoilers" quando se trata de biografias (afinal a história dela virou assunto jornalístico), mas fica o aviso. Normalmente escrevo sobre livros que leio revelando quase nada do enredo, mas não sei se consigo me expressar sobre esse livro em particular sem tocar em determinados detalhes da trajetória da autora, e isso pode ser visto como estraga-leitura por alguns. 

Ao longo dos primeiros capítulos, era comum eu resgatar imagens que vi na TV nos anos 90, de crianças somalis desnutridas, sentadas no chão em abrigos improvisados, fugindo com suas famílias de conflitos civis e da fome. Aquelas imagens resumiam a Somalia para mim e essa é uma das razões pelas quais gostei de ter lido Infiel, pela chance de dar alguns nomes e histórias àquelas figuras em minha memória. Não que os relatos tenham me causado qualquer alegria, longe disso; mas acho útil pensar num quadro maior, com mais personificação. Aquelas crianças enfrentavam a crueldade das infinitas caminhadas pelo deserto, carregadas por pais e mães desesperados em busca de abrigos que os protegessem da morte e do ódio de classe e de clãs inimigos. As imagens que eu via na TV e que tanto me chocavam eram certamente dos abrigos de fronteira, onde eles paravam exaustos depois de uma longa fuga, e onde ficavam à mercê dos controles corrompidos das imigrações. O horror era muito maior do que eu supunha diante do noticiário e, por causa de episódios descritos no livro, penso nelas agora com contornos um pouco mais nítidos. Há um pano de fundo, um país abandonado, cidades, casas, salas, vizinhos, hábitos. Há, portanto, mais empatia e espanto.

Em Infiel, o drama dos refugiados, que a toda hora me fazia perguntar "que mundo é esse?", dividem as páginas com passagens da infância de Ayaan. Filha de um ativista político respeitado por muitos e perseguido por outros tantos (seu pai foi preso político durante muitos anos), Ayaan fala, sobretudo, da vivência de sua fé como garota muçulmana na capital somali, Mogadíscio, no Quênia e na Arábia Saudita. E ainda que não falte dor nas experiências pessoais de Ayaan, é a inquietação que a distingue. Ayaan desafiava, desde muito cedo, um dos maiores tabus para as mulheres de seus grupos sociais: ela fazia perguntas. Para além de seguir as tradições que herdou de sua família e de seu clã, ela queria compreendê-las. Por que devo cobrir meu corpo? Por que os homens não precisam fazê-lo? Por que não posso sentir desejo? Por que não posso olhar nos olhos dos homens? Por que preciso repetir orações que não compreendo? Por que orar cinco vezes ao dia, sempre posicionada atrás dos homens, nunca ao lado? 

Conforme visitava comunidades mais ou menos apegadas a princípios mais radicais do islã, mais ou menos evidente ficava seu desconforto com a necessidade de entender e interpretar o conjunto confuso de leis que regiam as relações pessoais e sociais de seu mundo. Em dado episódio, ela conta do sufoco que sua mãe passou quando chegou à Arábia Saudita, mas seu pai não estava lá como combinado. Sozinha com as crianças, ela não podia ir ao mercado. Até que passou a ir com o filho, um rapazote de dez anos, que fazia as vezes de seu protetor, visto que mulheres não podiam andar sozinhas por aí. A situação se prolongou e ela passou a sair sozinha, amargando olhares de reprimenda e toda sorte de insultos por onde passava, o preço pela ousadia de comprar comida sem um homem ao lado. O incômodo experimentado por Ayaan em situações assim era a semente dos conflitos de fé que enfrentou no futuro e que acabaram por transformar sua vida radicalmente.

É inegável que um dos elementos mais chocantes do livro, para mim, pelo menos, seja o tema da clitorectomia. Sendo ela mesma uma vítima da prática que mutila milhares de meninas todos os anos, Ayaan nos dá uma visão aterradora do assunto. Quase parei de ler o livro. E ainda que ela faça questão de ressaltar que a mutilação nem sempre está vinculada à fé islâmica, ela aponta que muitas comunidades muçulmanas encontraram na ideia de "pureza" da mulher terreno fértil para propagação da famigerada tradição.

Mesmo que, lendo o livro, eu tenha a impressão de que Ayaan tenha desde sempre adotado uma postura revolucionária, foi a partir de seu casamento que sua vida mudou definitivamente. Ou melhor, a partir da recusa em aceitar o marido escolhido para ela. Refugiada na Holanda, rompeu com seu clã e sua família ao se negar a acatar o papel de esposa obediente. Pagou um preço alto ao se rebelar: enfrentou profundos conflitos emocionais e sentiu muita culpa, foi renegada pelo pai, levou vergonha ao seu clã. O contato com a liberdade de expressão que encontrou na Holanda, contudo, gerou espaço para que aquelas sementes questionadoras germinassem. E ela nunca mais foi a mesma.

Para Ayaan, questionar sua posição de mulher, e portanto de pessoa submissa, era o mesmo que questionar sua fé. Aos poucos as palavras do alcorão começaram a lhe parecer vazias, tamanho o contraste com o mundo que ela encontrou nas relações sociais na Holanda: as mulheres eram livres e trabalhavam, apaixonavam-se e o demonstravam, faziam sexo, trabalhavam no que queriam; os homens não se descontrolavam diante de braços de fora; as meninas não eram mutiladas e mesmo assim se tornavam mulheres respeitadas e donas de suas escolhas; os homens participavam da educação das crianças em casa, dividiam as tarefas domésticas. E ninguém morria fulminado por um raio. Uma palavra possível para descrever a postura de Ayaan diante de sua nova vida é deslumbre. E eu penso no que ela passou nos primeiros anos de sua vida e compreendo muito sua postura. No entanto, confesso que fiquei um pouco desapontada com os rumos que tal deslumbre tomou. Porque Ayaan sabia melhor do que ninguém quão alto foi o preço que pagou por suas escolhas revolucionárias. Mas em certo ponto do livro ela começa a criticar os refugiados que, ao contrário dela, não romperam com suas tradições. Como se não tivesse sido um ato verdadeiramente heroico tomar as decisões que ela tomou, virar alvo de execração em nome de sua liberdade. Ayaan cresceu aprendendo que o bom muçulmano não se rende aos valores dos "ímpios"; ao se libertar desses preceitos, passou a criticar de forma muito incisiva aqueles que não o fizeram e que, na Holanda, insistiam em se manter ligados às tradições e à fé.

Como pessoa cética que sou, e que acredita que, no cômputo geral da história da humanidade, as religiões e a crença no além causam mais mal do que bem, entendo perfeitamente o rumo que Ayaan percorreu até se tornar ateia, acho até bem natural. Ainda assim, não sei bem como encarar a postura que ela adotou em relação aos muçulmanos. Mais tarde eleita deputada, ela chegou a propor o fechamento das escolas muçulmanas na Holanda. Sua alegação era que não havia espaço para debate dentro do islã e que meninas e mulheres continuariam sendo segregadas e subjugadas mesmo vivendo em um país livre e democrático. Confesso que fiquei um pouco surpresa com tal postura adotada por alguém com enorme admiração pela liberdade. O ser humano é mesmo um bicho complexo.

Todo o tom da parte final do livro me pareceu muito maniqueísta: ocidente, bom; países islâmicos, ruim. E ainda que eu partilhe da mesma opinião dela em relação a vários pontos, especialmente no que diz respeito à posição da mulher em determinados contextos, não deixei de me surpreender com a ingenuidade de alguns de seus argumentos. Para Ayaan, que hoje vive nos Estados Unidos, este país seria o líder da liberdade ocidental. Irônico, no mínimo, se pensarmos no papel que governos estadunidenses tiveram em ditaduras na América Latina décadas atrás, para ficar em apenas um exemplo. Da mesma maneira, ela praticamente não faz menção ao papel das colonizações europeias no continente africano e não raro se refere aos holandeses com um simplista "pessoas boas". Considero notável o engajamento de Ayaan na luta pelos direitos das mulheres no mundo islâmico; mas sinto arrepios com a forma como ela se pronuncia sobre o assunto na reta final de seu livro. Ainda vou pensar muito sobre isso e, diferente de Ayaan, não acho que haja respostas simples e diretas para um conflito de tamanha grandeza.

É verdade que o livro me deixou com mais perguntas do que respostas, mas isso não é necesariamente ruim. Não sei bem como me posicionar a respeito da intervenção em comunidades onde se pratica a clitorectomia, por exemplo, e admito que é tão mais fácil viver sem pensar nisso. Qual o papel da comunidade internacional nesse debate? Como proteger as meninas da mutilação? Não faço ideia. Por ora, olho para minha filha de quase seis anos, idade em que milhares de meninas são mutiladas em nome da honra, e penso na loucura que é esse mundo. A palavra que me ocorre é sorte - eu jamais diria algo como "graças a Deus", o que, para mim, levantaria imediatamente a pergunta: quem olha pelas mutiladas? Sigo achando que estamos mesmo à deriva.

Calçada e quintal


Na noite passada minha mãe surgiu numa calçada em festa, em meio a grandes grupos de pessoas que se cruzavam subindo ou descendo a rua. Alguns andavam de skate, outros seguiam cantando com alegria, braços para o alto. Não reconheço ninguém. Ela veio caminhando em direção a uma casa de pessoas que, no sonho, eu conhecia. Trajava um vestido na altura dos joelhos, com tecido laranja de flores miúdas; andava com elegância e tinha o cabelo indefectivelmente arrumado. Ela me deu um sorriso silencioso e cúmplice, dobrou à sua esquerda e entrou na casa. Fui à sua procura, mas ela estava em algum cômodo que não pertence ao meu mundo, não sei, não soube. Após alguns quadros desconexos, estava ela de novo na calçada. Absolutamente serena, como se aquela algazarra que a cercava não tivesse o poder de tocá-la. Eu deveria ter ficado ali, mas fui embora para outro sonho. Eu conhecia as pessoas agora, e minha filha corria perigo. A certa altura, eu percebia que havia entendido mal e que ela estava ali na mesa, desenhando, ainda que eu pudesse sentir a atmosfera do medo. Quando o despertador me salvou, eu quis a calçada da balbúrdia. Saí da cama, lavei o rosto e os pensamentos, sorri e senti saudades. Antes de sair para o trabalho, beijei os meus, incluindo a pequena cacheada que acordou segura e pedindo cócegas. Depois pus perfume no pescoço e guardei as imagens daquela calçada no peito. Foi um dia bom, com vontade de abraço.

O tal sorriso cúmplice: algo para trocar com minha filha, vida afora.

***

Além dos sorrisos aos montes, minha filha agora planta tomates...





... que, enquanto não habitam nossa salada, estão em boa companhia lá pelo quintal de setembro. Um quintal como nossos dias:

Com cor...

...minúsculas belezas...

...algum lugar comum...

... às vezes um pouco de saudade solitária...

... e um tanto bom de alegria.

Infinito e além


Há flores na jardineira lá do canto, a mesma que foi inundada naquelas chuvaradas. A orquídea da sala tem dois botões tímidos. A árvore da calçada, que dizemos por aí ser um ipê, mas há controvérsias, está se despindo mais uma vez - e há corujas por lá, posso ouvir. O cachorro precisa ser tosado, porque as temperaturas subiram. E tem aquela lua sorrindo. Ganhei três partidas de Catan em um único final de semana, o que significa uma coisa apenas: ando jogando muito Catan. A amiga de longe vem me visitar. O longe dela já foi meu perto, então ela vem e traz consigo um jeito, o sotaque, os assuntos; traz um pedaço de mim, de certa forma. Fizemos picnic no parque: deveria virar lei. Minha filha mais nova vai fazer seis anos. 

- Mãe, como é mesmo o nome daquela coisinha pra ver longe?
- Binóculo?
- Nãããão!! Aquela, que a gente precisa girar pra ver direito?
- Luneta?
- Não, mãe! Aquela, aQUEla, que tem purpurina, que cai assim e brilha e é tão lindo, a gente vê bem longe...
- Puxa, filha, não faço ideia..

O pai gritou lá da cozinha:

- Caleidoscópio!

E ela:

- Isso!! [suspiro] É tão lindo, né?

Minha filha vê o infinito no caleidoscópio e acha lindo, sem saber como é linda a carinha dela dizendo isso.

***

Falaram do filme As Vantagens de Ser Invisível lá no Facebook. Peguei pra ver. Agora engrosso a voz da turma: se ainda não viu, veja.

***

Ulisses botou as músicas do Pixies no som do carro. Na trilha sonora da nossa história, Pixies ocupa lugar de honra, ao lado dos Smiths. Ouvir as músicas daquele tempo agora é assim: olhar para o lado e sorrir, com o coração quentinho, ele aqui comigo, no presente que eu sonhei pra gente (mentira, nem nos melhores sonhos). [e soam os violinos... não, guitarras]  

***

Status: tentando forrar o caminho com leveza. É necessário. Fiz até bolo de maçã. Mas já acabou.  


Menu


Desci pensando que comeria umas torradas com requeijão e tomaria um suquinho. Seria de bom tamanho, porque a conversa estaria ali, anyway. No entanto, vi a panela no fogo e os champignos sobre o balcão, e logo adivinhei um prato quentinho de massa. Você pegou as taças. Brindamos ao lado do fogão, cercados pelas risadas que vinham da sala. Recolhi as canecas que não receberiam mais o café do fim do dia, troquei pratinhos por pratos maiores, sentei à espera do complemento, observando seus movimentos, o queijo, o fettuccine. Quando o cheiro convocou todos à mesa, brindamos e conversamos com bochechas cheias de alegria. Tinha sabor de querer. E um leve toque de gratidão. 

Você achou que deveria ter feito um pouco mais. Mas olhei ao redor, naquela cozinha, e senti que não precisava de mais nada.   

Envelopes de afeto



Um bolo de limão siciliano deixa o dia mais perfumado, vão por mim. Usei uma receita do TK, substituí o sour cream por creme de leite mesmo e deu tudo certo. Fofo e azedinho, cresceu e ficou bem lindo. Um bolo de afeto: tirei a receita de um blog que adoro, usei a fruta mais cheirosa do mundo, minha filha me rondou e lambeu a forma, pus fatias fofinhas nas lancheiras, levei um pedaço para dividir com amigas queridas no trabalho.

Sem que vocês me peçam mais detalhes, o dia foi difícil. Quando alguém de quem gostamos enfrenta desafios, de certa forma remamos junto. Mas há aqueles desafios imensos em que nos sentimos um tanto impotentes, incapazes de fazer mais do que torcer e emprestar o ombro. Pode não ser pouco, um ombro pode fazer muita diferença, mas, ah, a gente gostaria de fazer tão mais que isso. E o bolo, que parecia capaz de perfumar o dia inteiro, foi comido por caras tristes, pensativas, torcendo. 


E aí uma outra amiga cruza comigo no corredor e me presenteia com um sachê de chá de maçã. Esquentei um pouco d'água e descobri que o chá era tão perfumado quanto meu bolo saindo do forno. Minha amiga não sabe, mas sua pequena gentileza foi um afago, um cafuné em forma de envelopinho vermelho.

Eu acredito nas luzes do fim do túnel, de verdade. O problema é que ainda não sei como transformar minha crença em afago. Eu tento e mando um pedaço do meu coração nas mensagens que vão pelo celular e que, espero, levam junto meu amor e minha torcida. Meus pequenos envelopinhos vermelhos, cheios de carinho. 


Menos leite, menos remédios


Desde que parei de tomar leite (mas não de consumir produtos com leite na composição, pelo menos não por enquanto), deixei de ser acometida pelas repetidas sinusites e infecções de garganta. Assim, sumiram. Troquei invernos com até três doses de antibióticos em um espaço de 2-3 meses por invernos sem antibióticos (foram dois invernos sem leite até aqui). Os resfriados e gripes que quase invariavelmente se convertiam em faringites e laringites agora são apenas resfriados e gripes - além de menos frequentes. Antes de abandonar os copos de leite diários, minha ficha em uma clínica otorrinolaringológica de Florianópolis já ia tão extensa que o último médico que me atendeu mostrou-se espantado e queria dar início a um longo tratamento com vacinas e remédios tais. Pretendia dar uma controlada na rinite alérgica que, segundo ele, estaria ali de mãos dadas com tantos eventos infecciosos. Ouvi aquilo, achei que fazia sentido, mas deixei pra depois. Algum tempo depois, por motivos que nada tinham a ver com minhas alergias respiratórias, consultei uma nutricionista funcional.

Já na longa entrevista feita na primeira consulta, o consumo de leite virou assunto e me vi tentando resgatar memórias de minha alimentação na infância para entender melhor como meu organismo se comporta em relação a alguns produtos. Minhas alergias respiratórias não seriam, a princípio, o foco da conversa com a nutricionista, mas ela se mostrou interessada no assunto quando leu minhas respostas ao questionário que respondi antes da consulta. Foi a primeira vez que alguém fez perguntas direcionadas ao tema "comida" e iniciou uma pequena investigação em meus hábitos alimentares com a intenção de amenizar minhas crises alérgicas. Ao contrário de todas, absolutamente todas as consultas que fiz com diversos otorrinos, em que, em dez minutos, eu 1) descrevia os sintomas; 2) abria a boca e botava a língua pra fora; 3) recebia uma receita com um antibiótico e um anti-inflamatório; dessa vez fui convidada a fazer pequenas alterações na alimentação para, quem sabe, diminuir a recorrências dos processos infecciosos. Dois invernos depois, ainda comemoro o fato de não ter mais precisado recorrer aos remédios. Nenhum médico especialista em garganta fez mais pela minha garganta do que a nutricionista; nenhum otorrino jamais me fez sequer uma pergunta sobre minha alimentação - não quero com isso dizer qualquer coisa sobre quão competentes são esses médicos; mas, né, cabem questionamentos sobre alguns aspectos de nossa medicina tradicional, não cabem? E a quem duvida dos tratamentos ditos "alternativos" à medicina tradicional, espero que não torçam para que uma laringite ferrenha me derrube. ;-) Se houver necessidade de remédios, tomarei, oras. Mas, se puder, melhor sem eles.

Cada vez que um resfriado me pega, fico me perguntando se o ciclo vai se quebrar e dessa vez uma laringite vai me deixar sem voz e com dor. Ainda não aconteceu. Estou agora às voltas com um ciclo de gripes e resfriados rondando minha casa; todos sucumbiram, eu inclusa. Ontem, depois de um final de semana em que praticamente não parei de tagarelar (duas festas infantis, churrasquinho, rodada de Catan), cheguei a pensar que minha garganta iria pifar de vez e que a tosse está um tanto esquisita. Vamos observar. Por enquanto, vou de chá de hortelã adoçado com mel. Bem longe do leite.



 
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