Praia



Uma casa com areia na varanda, onde o vento salgasse a rede embalada pelo eterno ensaio das ondas. Que o café sobre a mesa fosse um pouco forte. Que se sentassem na areia, lá perto da água, para ver as pinturas do sol; que o olhar se perdesse nos pontos prateados das primeiras horas do mar. Que alguém se ocupasse em sentir a areia fria invadindo os chinelos e em pensar no mundo feito de conchas e encontros. 

Que o mundo me parecesse sempre assim, terra e um sem fim de oceano, horizonte, curva, além; brisa, assobio, respingo. Que eu visitasse aquela casa. E visse barcos e pensasse nos peixes e na pele curtida dos homens do mar, para nunca deixar de me lembrar de que o mundo é de marés. Que eu finalmente aprendesse com elas a não impor grandeza demais. Que eu aprendesse a esperar menos. Que meus espantos fossem bons: ondas, luar, gaivota - não essa velha ferrugem dos meus medos mais antigos. Que eu conseguisse arrancar as raízes, puxando-as com tranquilidade de dentro da areia fofa e fria no início do dia. Que eu confiasse. E fechasse os olhos e os ouvidos, sem medo, para deixar vibrar as vozes do meu peito. E depois, tranquila, salgada, descalça e sem pressa, eu me deitasse ali, no teu peito travesseiro.

E ao contrário da poeta, que abriu o mar com as mãos para naufragar o sonho, que eu resgatasse do fundo dele, lá onde o barulho da superfície não confunde as almas, meus olhares antigos, aqueles que desenhavam horizontes. 


Reinos


Porque passaria na locadora depois da aula, pus os DVDs na porta do carro - não no porta-luvas ou no banco de trás, para não correr o risco de me esquecer deles, mas na porta da motorista mesmo. Fui à aula. Depois de ferir os ouvidos da minha professora de piano mais uma vez, tomei um café com uma amiga e fui ao mercado comprar carne. Comprei a carne. Peguei o carro e fui pra casa. Entrei na garagem, desliguei o carro e abri a porta; e só então me lembrei dos DVDs. Saí de casa de novo e fui à locadora fazer a devolução. Filmes entregues, voltei pra casa. Tomei banho. Fomos para o melhor lugar da cidade nesses dias frios: o edredom. E fomos nos aninhando naquela felicidade simples por aquele momento em que nada mais resta a fazer, o dia acabou, é só relaxar. Ligamos a TV do quarto para ver algum episódio repetido de algum seriado em algum canal. 

- O que será que vai passar?
- Sei lá. Deu certo lá no café?
- Sim, foi ótimo. 
- Conseguiu passar no mercado?

E só então me lembrei da carne. Ele saiu do edredom e desceu pra salvá-la de passar a noite no porta-malas, onde fatalmente seguiria para meu trabalho na manhã seguinte, e foi guardá-la no freezer.  Não sei o que passou na TV, porque dormi.

***
 
Antes de entrar na minha casa, as visitas percebem que o cachorro comeu parte do tapete. Se alguém me pergunta porque não substituo o velho e surrado tapete mordido, respondo que o Floquinho ainda não acabou. E que só ganha sobremesa quem come tudo.

***

A tarefa da escola para o Arthur era levar uma azaleia ou um hibisco. Fomos ao quintal colher a flor, e os olhinhos da Amanda estampavam uma inveja tão linda:

- Eu também vou ter essa tarefa depois?  

- [Abraço.]

E só agora passa pela minha cabeça que eu poderia ter colhido outra flor para ela levar também, vejam vocês. Nem memória, nem timing

***

Na manhã ensolarada houve passeio pelo bairro. Arthur e Amanda voltaram esbaforidos, entraram em casa correndo em disparada: estavam fugindo dos temidos orcs. Logo se abrigaram no Centro da Terra, que fica na sala, especialmente à sombra da grande caverna que os protegeria dos famigerados dinossauros (não me perguntem pelos orcs), ou seja, no sofá. Fugiram e correram e lutaram bravamente até a hora do banho. Amanda então subiu as escadas rumo à grande cachoeira e se banhou com cuspe mágico de dinossauro. É um cuspe limpinho, que já vem com sabão. Durante o banho na cachoeira de cuspe, ela brincou com o galho-mangueira e me alertou para que tomasse cuidado com a planta carnívora que está ali disfarçada de privada. É preciso estar sempre alerta, uma casa com crianças tem muitos reinos.


Pipoca



Tomara que daqui a muitos anos você ainda se lembre da belezinha que foi você e suas amigas vestidas de babados, com maria-chiquinhas que realçam os rostinhos cheios de meninice, enchendo o palco; que você se lembre de que fizeram bonito e dançaram direitinho; que se lembre de que você gostou muito do pacote completo, incluindo ensaio, bastidores, maquiagem de bailarina e pizza depois; mas, principalmente, que nunca se esqueça de como você estava feliz, pipocante e sorridente, porque era a própria imagem da alegria - bem essa que eu adoraria que você carregasse sempre no seu peito, sua linda. Parabéns pela estreia. Que você dance enquanto quiser, tirando da dança um motivo a mais para enfeitar o mundo com aquele sorrisão e toda aquela pipoquice.




Mar e gaveta


Um pouco cansada de nadar na superfície, queria um futuro de profundezas. Vou vasculhar minhas gavetas velhas, quem sabe guardei um cilindro de ar dos tempos em que achava bonito não saber o que seria quando crescesse.

***

Estou lendo uma biografia escrita por alguém com uma experiência de vida tão radicalmente diferente da minha que quase tudo é aprendizado. Gosto desse deslocamento forçado, ainda que seja efêmero e dure o tempo das viradas de páginas. Alguma coisa fica depois que fecho o livro, sempre. Por ora, eis o que fica: a beleza de sermos, a um só tempo, minúsculos e enormes. Eis outra coisa que fica: deriva. O mundo é um lugar louquíssimo.

***

Se você ralar cenoura e beterraba, refogá-las no azeite e misturá-las ao arroz já cozido terá um arroz colorido e muito saboroso. Acrescente brócolis de vez em quando e coma arco-íris no almoço. 

***

O maior medo é encontrar o cilindro de ar e guardá-lo de volta. Acho que encolhi.

***

Temos um imóvel à venda, um apartamento de dois quartos, montado, mobiliado, equipado, arejado. Sou tão ruim de negócios que se alguém me pergunta "como é o apartamento?", respondo "é bem lindinho". Devo ser pior do que um corretor que certa vez alegou ser o melhor corretor do mundo. Exatamente assim. O melhor do mundo. Foi até nossa casa, conversou durante umas duas horas com a gente, tomou café e se prontificou a encontrar exatamente o imóvel que procurávamos. Nunca ligou. Nunca, nem uma vez, nem que fosse pra dizer "tá difícil". Mas eu tô falando a verdade, o apartamento é bem lindinho.

***

E há aquele outro aprendizado, que vem do que está do lado, ao alcance da mão. Ter filhos. E eu ainda me meto a abrir gavetas, vejam vocês.

***

- Mãe, o que é "agrônomo"?
- [Explicação quadrada.]
- Hum. Vou ser isso aí quando crescer.
- Beleza.
- Não, mudei de ideia. [suspiro] Tem tanta coisa legal pra se fazer na vida, né?

A gaveta infinita das crianças.  


Uma Ponte para Terebin


Adiei o quanto pude, mas terminei a leitura de Uma Ponte para Terebin (Letícia Wierzchowski, Ed. Record). Eu não queria acabar, fechar o livro pela última vez. Segui devagar pelas últimas páginas, com um misto de satisfação por ter lido aquela narrativa e tristeza por me despedir dela. De consolo, fica o fato de que a história contada ali não terminou; o livro, pode-se dizer, não tem um final ou uma solução que encerre o convívio do leitor com seus personagens. Posso imaginar a sequência dos anos na vida deles, olhando para a história do mundo após a Segunda Guerra. Afinal, seus  personagens habitaram e habitam o mundo real, e suas vidas migraram para as páginas do livro através do talento para vesti-las em palavras que tem sua autora.

Eu me lembro de algumas situações em que li o início de uma história em uma livraria e saí de lá com o livro embaixo do braço por querer muito saber como se desenrolaria a sequência. Foi assim com Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago, por exemplo. Como sair dali sem saber como cargas d'água o moço no carro lidaria com a cegueira instantânea, no meio do trânsito? Teria sido assim com Terebin, se o livro não tivesse chegada às minhas mãos emprestado por uma amiga. Caso eu tivesse lido a orelha do livro numa livraria, muito provavelmente teria saído de lá com ele:

"(....) Uma ponte para Terebin é uma romance sobre a vida e sobre as travessias sem volta. Um romance sobre a liberdade e sobre o preço que é preciso pagar por ela. Mas, acima de tudo, Uma ponte para Terebin é a história de uma caixa de retratos que, um dia, começaram a falar."

Então é assim, mais do que observar, Letícia ouve as fotografias de sua caixa de retratos. E nos conta a história da família de seu avô, Jan, imigrante polonês que se mudou para o Rio Grande do Sul na década de 1930, onde se casou com uma brasileira e com ela teve filhos, construiu uma casa e viveu sua história. Mas trouxe com ele a Polônia dentro de si, onde ficaram seus pais, avós, irmãos, sobrinhos, a casa de sua infância, seus amigos. Para Jan, não era possível acompanhar as notícias da guerra, que explodiu em 1939, pelos jornais e pelo rádio. Não era possível contentar-se com palavras como "centenas", "milhares", "bombardeios", "refugiados", "avanço", "invasão", porque ele tinha seus próprios rostos e nomes no meio da guerra. Sem saber que destino tinham as cartas que enviava desesperado à família na Polônia, Jan deixou Porto Alegre e embarcou como voluntário para a Europa. Com sorte, voltaria depois de algum tempo, com boas notícias de sua família e de sua terra novamente livre, para viver a vida que sonhara quando havia deixado a Polônia anos antes.

Uma Ponte para Terebin é a história da esposa Anna, que fica com o pequeno filho Janeczek em Porto Alegre e com ele enfrenta as angústias de ouvir a guerra pelo rádio, ela que agora também tinha um nome e um rosto por lá; e que enfrenta sem o marido os sustos com a saúde frágil do menino. E é também a história da guerra, onde os termos como "milhares" nos doem mais, porque seguimos com o rosto de Jan e dos seus. Os capítulos intercalam relatos sobre a jornada de Jan pela Europa e outros sobre a corajosa espera de Anna; por vezes são as fotografias da caixa de retratos da autora que nos falam, e seus bisavós nos contam dos poloneses de Terebin, dos incêndios, das terras tomadas, das expulsões, dos assassinatos, da fome, do desespero, das famílias separadas em minutos que durarão para sempre, das fugas pela madrugada rumo ao medo; ou então quem nos fala é o irmão de Jan, preso, escravizado, fugitivo, sobrevivente nos esgotos de Varsóvia, contando páginas tão tristes que temos vontade de abraçar a Polônia. Ler sobre o Gueto de Varsóvia conhecendo um nome que seja de alguém que vivenciou todo aquele horror aperta o peito ainda mais. Eu abraçava o livro.

O que Letícia não encontrou nas fotografias ou nos documentos que pesquisou, o que não ouviu dos relatos nas entrevistas que fez, preencheu com imaginação e sensibilidade. Uma Ponte para Terebin é, portanto, um romance, não exatamente uma biografia. É uma história bem contada, em tom carinhoso, com linguagem bem costurada que soa bonita em blocos onde a simplicidade do calor da tarde dá as mãos às dores mais fundas. Para mim, a Polônia é agora mais que um pedaço colorido no mapa, Letícia é uma autora para ser lida e a Segunda Guerra ficou ainda mais áspera. 

Quero ter meu próprio exemplar de Uma Ponte para Terebin. Quero tê-lo na estante, para que um dia meus filhos leiam, para que Ulisses leia, para que eu possa emprestar aos amigos.

***

Procurei no livro alguma passagem para citar aqui, mas lá ia eu digitando a página inteira. Citar alguns eventos mais tocantes poderia tirar o sabor da descoberta para algumas pessoas. Então fico quieta, relendo.


Dia de descobertas


Na nossa sala há um ventilador de teto e um lustre preso a ele. Hoje descobrimos que se você ligar o ventilador na velocidade máxima e jogar uma almofada nele, o lustre pode se desprender por alguma razão indefinida - tipo, a franjinha da almofada pode agarrar no gancho que prende o lustre, ou algo assim - e despencar no chão. Também descobrimos que se isso ocorrer no momento em que houver na sala duas crianças, inclusive as mesmas que jogaram a almofada, pode-se dizer que é um caso de muita sorte o fato de nenhuma das duas crianças estar embaixo do lustre no momento do despencamento. Descobrimos, ainda, que o despencamento gera um barulho muito alto de vidro grosso espatifado e que os corações dos familiares das crianças podem bater a ritmos impensáveis. E, por fim, descobrimos que o evento despencante também gera choros arrependidos e olhares assustados, seguidos da questão "vai ter um castigo, não vai?".

***

Não houve castigo. O susto evidente e o falatório que se seguiu foram considerados suficientes. E o alívio sentido ao percebermos o "quase" da história gerou abraços ao invés de castigo. Não sei o que teria sido da cabeça que por acaso tivesse recebido a pancada do lustre. Dia do ufa.   


Para uma amiga


Das formas de amar: de mãos dadas. 


Nem com Paris


Quando Mario Vargas Llosa apresentou os supostos motivos por trás do comportamento da personagem Lily em Travessuras da Menina Má (Ed. Alfaguara, Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), já era tarde. Eu já não nutria qualquer empatia por ela e, consequentemente, também sentia certo repúdio pelo protagonista Ricardo, carpacho de Lily. Muitas coisas me incomodaram ao longo do livro, lamento dizer. Eu queria ter gostado de Menina Má. Foi o primeiro romance que li do autor peruano (já havia lido Cartas a Jovem Escritor, sugerido por uma amiga, e tinha achado interessante, sem ser apaixonante) e eu esperava descobrir um nome que me deixasse ávida pelo restante de sua obra. Bem, não aconteceu, e agora vai ser mais difícil eu me dispor a ler outra coisa do peruano. Talvez se o famoso Casa Verde cair no meu colo, quem sabe; no entanto, enquanto Menina Má for minha referência de Llosa, hum, sei não.

Nem tudo é ruim, claro. Mas criei birra até dos elementos com os quais simpatizei. Por exemplo, boa parte da trama se passa em Paris. Beleza, é bacana reconhecer os cenários e reconstruir as sequências do enredo em nossa cabeça sabendo mais ou menos como são os ares do lugar. Ainda assim, Llosa deve ser muito apaixonado por Paris, a tal ponto de sua exposição da cidade no livro ser, se isso é possível, exagerada. Não sei se me faço entender, mas a todo momento (a todo momento, mesmo) aparecem referências a restaurantes, ruas, teatros, lojas, prédios, museus, pontes, o rio, etc, numa overdose de localização geográfica que até para quem adora a cidade soa saturado, sobrando. Talvez eu não tivesse essa impressão se a história em si fosse arrebatadora (o que não achei, de jeito nenhum) ou se a linguagem do escritor fosse algo envolvente ou munida de belas imagens - o que também não achei. Então o que li foi uma história cheia de idas e vindas que não me cativaram, descrita em um estilo que chamarei de seco, apinhada de referências geográficas que me pareciam meio deslumbradas. À medida que avancei na leitura, fui vendo mais do mesmo, em diferentes lugares do mundo - Londres, Tokyo, Lima, Madrid - a ponto de eu lamentar cada retorno do caso eternamente confuso dos dois protagonistas. Sei lá, faltou paciência. Para completar meu desconforto, Llosa cria algumas expectativas que se resolvem de forma nada supreendente, e alguns fatos que talvez funcionassem bem em um conto parecem meio rasos demais para um romance que, acredito, propõe-se grande.

Embora possa parecer o contrário, gostei de ter lido (mas gostei mais de ter terminado, hohoho), porque, seja como for, aprendi alguma pouca coisa sobre a história política do Peru (história meio abandonada ao longo do livro, mas vá lá, não parecia ser esse o propósito central mesmo), o que serviu, ainda que de maneira ínfima, para diminuir um tiquinho minha profunda ignorância em relação à história dos países da América do Sul.

É engraçado esse negócio chamado leitura: não acho difícil que muitas pessoas gostem e até se encantem com o livro. Se alguém me disser que adorou, vou entender - os elementos estão lá: pano de fundo histórico (bom), história de amor (sempre bom), cenários em cidades incríveis (bom), protagonista com comportamento fora do padrão (promete), uma história que se estende pela vida inteira do narrador (pano pra manga, bom), viagens, golpes, hippies, vida loca. No entanto, em linguagem extremamente técnica: faltou o tchan. Não me fisgou e ainda me arrancou "aff" em vários trechos. 

Tudo bem, c'est la vie, como certamente diria o protagonista Ricardo, às margens da Pont Neuf, mirando o Sena, antes de ir almoçar num restaurante em Passy e voltar para um descanso em seu apartamento na Rue Joseph Granier, para mais tarde buscar o amigo no Charle de Gaulle, com quem seguiria para uma visita rápida à Notre Dame, antes de ir à Ópera e terminar a noite no Marais, falando sobre o Louvre. Mais ou menos assim. ;-)

Dos desaforos e outras belezas



- Arthuuuur!
- Oiiiiii!!
- Não tá esquecendo nada, não?
- Nã-ão.
- Tá, si-im. Você não tirou o prato da mesa.
- Affff.... já vou. [tira o prato]
- E não terminou seu suco.
- Affff.... [toma o suco]
- E não...
- Ai, mãe, tá bom...
- E não me deu um abraço. [ganho um sorriso e um abraço]
- E não disse que sou linda
- Aí você já tá querendo demais!
- o.O

Não é um desaforo? Estou decidindo se confisco o videogame ou cancelo o cinema. Ele que me aguarde. ;-)

***

Pensando seriamente em contratar alguém para tomar as decisões mais difíceis por mim. Esse negócio de pensar tá cansando minha beleza. Ponderar, então, socorro. E ainda por cima ser sensata e acertar? Ah, não. A vida adulta deveria ter férias quinzenais na infância, só pra recarregar.

***

Quando o que mais te motiva a terminar o livro é o próximo da fila.

***

Amanda é dos exageros, seu mundo é over, plus, big size. Dramática, melancólica de vez em quando, vive dos suspiros e assombros, suas narrativas são emolduradas por seus olhos arregalados, sua fofice é muita, a brabeza também. E assim também são algumas reações alérgicas. Um mísero mosquito causa estragos que duram dias, inflamam, coçam, sangram, marcam, somos a alegria da fábrica de band-aids. Quando voltamos das últimas férias, sua perna parecia a perna do Popeye. Por causa de uma única picada, que cheguei a temer que fosse de aranha, a panturrilha ficou incrivelmente inchada e dolorida. Já vi sua mãozinha redonda como um pão por causa de um borrachudo (mosquito pretinho que toca o terror aqui em Floripa). Essa semana o beijinho indesejado foi na pálpebra esquerda. Chegamos a levá-la ao consultório médico para uma conferida se realmente se tratava de uma picada de mosquito, porque o troço parecia mais grave, tememos pela saúde de seu olho. Felizmente, era mais do mesmo. Apenas seu corpinho refletindo a personalidade. ;-)

***

O frio voltou num sábado molhado e preguiçoso, com comidinha feita pelo marido e aquele vinho mais querido. Um dia sob medida para me lembrar que aquelas decisões difíceis não deveriam sequer arranhar a superfície. Anotei, voltei a encher a taça e tomei um gole lento em homenagem à sequência boa dos dias.

***

Quando eu era pequena, minha relação com meu pai era meio esquisita e o dia de amanhã nunca significou muita coisa. Mas minha mãe se importava com datas e sempre comprava um presente para eu dar a ele. Eu dava, ele nem ligava, ela ficava satisfeita com a tarefa cumprida. Vá lá. Aqui em casa digo que deveria ser a data mais comemorada, porque considero Ulisses um paizão, bla bla bla. Mas a verdade é que ele, assim como eu, não liga muito para essas datas também. São as crianças que me pedem: mãe, vamos comprar um presente pro papai, vamos vamos vamos. 

Tão melhor assim. 

Escrevo isso sem rancores, mesmo. Meu pai foi meu pai do jeito que soube ser e hoje olho para aqueles tempos com mais serenidade do que um dia supus possível. Olha, merecia outra taça. E ainda tá friozinho. Né? Fui. 



Graça


A breve história é real. O nome é fictício. 

Conheci Graça anos atrás, em uma viagem de férias. Diarista na casa onde fiquei hospedada, era simpática e sorridente. Trabalhou na casa de meu amigo por muitos anos, até ele se mudar da cidade onde morava. Ela passou, então, a trabalhar na casa do irmão desse meu amigo.

Graça era separada há muito tempo, tinha três filhos já crescidos que ela criou sozinha. Atualmente, tinha um namorado, um relacionamento que não ia lá muito bem das pernas, ao que parece. Eu não sei muitos detalhes da história ainda, mas a cunhada do meu amigo comentou que recentemente ela havia falado do receio de se separar de seu atual companheiro/namorado devido às ameaças que ele fazia cada vez que ela mencionava a separação. No sábado passado, Graça desapareceu.

Ontem, quarta-feira, a polícia encontrou o corpo de Graça em cima da cama de seu companheiro, na casa dele. A casa estava fechada, ele está desaparecido. Graça foi sufocada ou estrangulada, ainda não sei. O corpo está no IML e acho que hoje os filhos poderão fazer o sepultamento.

A morte de Graça não será notícia, acredito. Mas eu queria registrar que me lembro dela. Que há dias em que a dureza do mundo se aproxima muito da gente e o foco nos parece solto, borrado. Que sinto muito pelos filhos, pelas pessoas que conviviam com ela e gostavam dela. 

Que era simpática e sorridente. Certamente deixará saudades, longe das notícias. 


Bilíngue


- Vocês não me entendem! Parece que eu falo outra língua! 

Amanda, cinco anos.


What for?


A previsão disse chuva, o céu disse sol. A cama disse fica, o parque disse vem.

Então fomos, para ver o sol pratear o dia.



Para seguir a luz.

Para ensaiar para a vida...


...e olhar as coisas de outro ângulo.


Para espiar outros começos.



Para querer bem.



 Vou...
...pescar.

Para escolher o salgado...


...ou o doce.

Para colher infância.


Para ser grata e viver de amor.





Mistérios


As aulas voltaram, mas meu filho teve febre e placas na garganta. Achou graça e perguntou se eram de proibido estacionar. Ele tem vencido praticamente todas as partidas de Uno e diz "sou quente!". Os dias também esquentaram e têm sido azuis. Da janela do meu trabalho tenho várias vistas, todas me levam de lá. Os ciclistas me causam inveja do passado, quando eu deveria ter tempo e não pedalava. Tá, eu pedalava, mas não o suficiente. Jamais pedalarei o suficiente. Os carros não me dão inveja, só me lembram da pressa. A água me dá vontade de desenhar, mas logo passa, que as vontades sem talento morrem rápido. Os montes lá no fundo me lembram de filmes. Assim, genericamente: parecem longe, postos ali para servirem de cenário de filme ou livro triste. Eu li um livro quando era pequena, da biblioteca da escola, que falava de uma garota de cabelos vermelhos que tinha uma amiga difícil na escola. A escola dela também era difícil, talvez um internato; se não estou enganada, a menina havia sido mandada pra lá em represália a alguma coisa. Não me lembro do título nem da capa, mas sei que era velho, com papel amarelecido e folhas grossas. E uma história boa com duas garotas num colégio difícil. E o cabelo vermelho. Meu cabelo já foi vermelho, eu gostava de pintar. Agora não gosto mais, tenho preguiça da obrigação de retocar. Estou ficando cheia de cabelos brancos; ainda não sirvo para "grisalha", mas chegarei lá. Ou não, dizem que o tonalizante é mais prático. O problema é que minha preguiça é ainda mais prática. Ontem vi um tutorial de maquiagem maravilhoso, feito por uma garota linda e talentosa que se transformou na imagem de uma diva de cinema em alguns minutos. Adorei, mas o que gostei mesmo foi do sotaque inglês dela. Se ela tivesse ficado horrorosa, eu ainda teria gostado. Mas não ficou. Falando em transformação, a planta que compramos viçosa e grande mirrou e se transformou num espectro do que foi antes. O chão da sala perto do sofá fica coberto de suas folhas que caem podres, seus galhos aparentemente foram tomados por um fungo. É a terceira planta que vemos morrer no mesmo vaso. Na primeira culpamos a própria planta, a segunda já não teria vindo bem da loja e não sobreviveu nem à mudança de lugar do vaso. Agora começamos a olhar atravessado para o vaso. Temos uma árvore da felicidade no canto oposto da sala. Linda, enorme, altiva, tem ignorado o sofrimento das companheiras de sala. Tem sido assim: a felicidade observando os perrengues. As pequenas plantas que moram no parapeito da janela viram essa semana a abelha rainha caída no quintal. Marido chamou a filhota e eles colocaram o bicho num vidro. Eu fiquei impressionada com a beleza da abelha, nunca tinha visto uma rainha. Enorme, colorida, cheia de detalhes. Amanda usou lupa, mas nem precisava. Soltamos no gramado da frente da casa, mas não sabemos se ela conseguiu voar, ninguém voltou lá pra ver depois. Eu voltei pra ver a febre, havia cedido. E aí ele perdeu várias partidas de Uno, os mistérios dessa vida. 
 
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