Rainha



Achou que seria melhor fazer um bolo. Voltou pra casa sozinha, todos ficaram lá. Ela não alardeou para onde ia, não achou necessário. Despediu-se de quem estava por perto, falando baixinho, e saiu sem sequer avisar à família de Lisa. Não torceu para não ser notada, não se perguntou se julgariam sua atitude estranha, não pensou o que a amiga teria achado ou como ela mesma encararia o fato no dia seguinte; simplesmente pensou que seria melhor voltar para casa e fazer um bolo. Atravessou a pequena multidão que se formara na frente da capela, manteve o lenço encharcado sobre o nariz, seguiu seu caminho quase sem enxergá-lo através das lentes molhadas dos óculos de sol. Voltou caminhando pelo bairro. Ao passar pela calçada da escola de música que frequentava com Lisa, esforçou-se um pouco mais para pensar nos ingredientes que usaria.

Ligou o forno como se fosse um autômato, sem olhar exatamente para lugar algum. Abriu o armário e retirou de lá a batedeira, pegou a espátula na gaveta, selecionou os ingredientes que a manteriam ocupada na próxima metade de hora. Fez um cálculo rápido e viu que esperaria o bolo assar, não poderia abandonar a cozinha antes disso. Pegou mais uma folha de papel toalha, reprimiu um soluço e despejou ao acaso os ingredientes na vasilha metálica. Ligou a batedeira.

Gostaria de pensar em algum papo descontraído, uma conversa regada a vinho numa noitada comum. O que veio, contudo, foi como uma música triste. Haviam falado das escolhas difíceis, do rompimento sem cura que a transformara para sempre. Haviam falado dos planos enterrados com pás de conformismo. Haviam confessado suas derrotas, como se fosse preciso, como se não se conhecessem há tanto tempo e não tivesse uma interferido na infância da outra. Então o fio dos pensamentos driblou seus propósitos e resgatou o dia da abelha rainha encontrada no quintal pela pai de Lisa. Lembrou-se do espanto diante do tamanho do inseto cuja beleza silenciou as duas por muitos minutos. Imenso, curvado sob suas patas largas voltadas para cima, mexendo-se em câmera lenta, o bicho pareceu-lhe sagrado, com olhos de alien encarando-as de lá do fundo do pote de vidro. E se lembrou que foi Lisa quem sugeriu devolver a rainha ao jardim para que ela seguisse seu caminho. Nunca saberiam se a abelha ainda disputaria seu lugar em alguma colmeia ou se já havia abandonado sua colônia de milhares de operárias e morreria completa, naquele dia, naquele gramado. Nunca souberam. Nunca sabemos. 

Desligou a batedeira, mas ao enfiar o indicador na massa soube que não levaria o dedo à boca. Não naquele dia, a vida não podia ser vibrante, nenhuma seda seria permitida. Naquele dia seria aridez. Despejou a massa na forma e abriu o forno como quem embarca no ônibus em uma estrada esburacada. Sentou-se diante dele, descansou as mãos sobre as pernas quase dormentes e durante quarenta minutos encarou o imenso olho composto da abelha. Dessa vez, o inseto conseguiu se voltar sobre as patas e, batendo suas asas pesadas como plástico, abandonou o pote e saiu pela janela. Era dia de sol, era hora de sol incandescente, e a rainha sumiu enquanto os olhos das duas meninas se apertavam para encarar a claridade que vinha da rua e trazia para a sala o mundo infinito da abelha. Quando o forno apitou não sentiu o aroma, não provou, não verificou a textura. Fez cálculos novamente e foi para o jardim.

Sem pressa, carregou suas pernas pesadas pela varanda, pegou o vaso verde com a tulipa e foi para o cemitério. Todos já teriam ido embora e ela poderia tentar fazer de conta que iria alimentar as abelhas. Não houve surpresa quando chegou ao jazigo e viu encolhido sobre um cravo o corpo contorcido de uma pequena operária. Depositou o vaso verde com a tulipa sobre a mureta fria e assistiu a noite chegar em silêncio, vinda do infinito.

Recomendando


Réquiem por um fugitivo.
Visita.
Retratos.
Para uma avenca partindo.
Uns sábados, uns agostos.
Noções de Irene.
Do outro lado da tarde.
O ovo apunhalado.


Talvez sejam esses meus contos favoritos no livro O Ovo Apunhalado, de Caio Fernando Abreu (Ed. Siciliano). Talvez não. Talvez eu releia outros e os inclua na lista. Talvez eu nem ligue para a lista e ame o livro inteiro, apenas grata por ter voltado a ler o Caio depois de tanto tempo. Eu não conhecia os contos de O Ovo, pelo menos não me lembrei de já ter lido nenhum deles à medida que avancei pelo livro. Foi tudo primeiro amor. Visita entra definitivamente para minha gaveta emocional de contos queridíssimos: falar dele me emociona, li suas cinco páginas com o livro em uma mão e o coração na outra, subi junto aquela escada para visitar o quarto (vazio?), também passei por aquele piano. Terminado o livro, voltei lá e li o conto outra vez, como quem duvidava de que era aquilo tudo. Era.

O Ovo é de 1975, prefaciado por Lygia Fagundes Telles, posto que o povo esperto logo percebeu os tesouros de Caio. O exemplar que minha amiga me emprestou é uma edição de 1985. Há nessa edição uma apresentação do autor, O Ovo Revisitado, na qual ele quase se desculpa pelas repetições e diz que rever os contos foi como rever a si próprio "Com algum mau humor pelas ingenuidades cometidas". É verdade que há repetições, algumas até meio inquietantes, imagens que voltam como temas em uma ou outra história, mas minha visão dos textos de Caio já está demasiado parcial para apontá-las como falhas. Digo que as repetições são rimas, ecos - e não é esse livro um poema? ;-)

"Eu te disse que estava cansado de cerzir aquela matéria gasta no fundo de mim, exausto de recobri-la às vezes de veludo, outras de cetim, purpurina ou seda - mas sabendo sempre que no fundo permanecia aquela pobre estopa desgastada." 
Em "O Dia de Ontem", conto de O Ovo Apunhalado.

***

O frio intenso que surpreendeu e encantou tanta gente com seus brancos já passou. Hoje o domingo foi ensolarado e tivemos sensação térmica de deliciosos 22 graus. Mais cedo, no entanto, quando o termômetro ainda apontava 9 graus, o telefone tocou. Era uma amiga animada nos convidando para um café da manhã piquenique na Lagoa da Conceição. Não vou dizer que pulamos da cama, porque seria mentira. Mas nos arrastamos para fora dela atraídos pelo azul lindo lá fora, pela promessa de temperaturas em elevação e pela amiga animada. E lá fomos nós tomar café assim:










Amanda, a gata e a cachorra.

Um levou café, a outra chimarrão; cada um abriu suas geladeiras e armários e de lá levou iogurte, mexerica, banana e amendoim; biscoitos, leite, queijos, presunto; um santo passou na padaria mais legal e levou pães e cuca; e todo mundo se deu bem. Recomendo tudo: os contos, a Lagoa, os amigos, a padaria e a cachorrinha da foto. O azul, a geleia de frutas vermelhas e olhar os barcos. Recomendo sair, respirar e se esticar. Recomendo os sábados. 


A amiga e os ecos


Ela olhou a amiga no outro lado da livraria e se perguntou se iria lá trocar uma frase ou duas. O assunto seria óbvio, vai comprar o quê? Seria descomplicado. A hesitação parecida com preguiça estava presente, no entanto. Gostava da amiga. Não era um amor daqueles, mas gostava. Aprendia com ela, achava divertidas algumas histórias que ela contava, admirava a sagacidade. Ora, então por que cargas d'água não ia logo lá bater papo, quem sabe tomar um café no andar de cima? Era só se manter no universo seguro dos assuntos inequívocos e tudo pareceria carinho e tempo morto. Não havia erros. A amiga avaliava com concentração inabalável um exemplar de culinária colorido, espalhafatoso e famoso. Olha aí, já haveria assunto, o pão exótico da véspera, hum, posso te passar a receita se quiseres! Olhou para o livro de contos em suas mãos, será que levaria? Será que queria mesmo aquele papo todo sobre as buscas e os corredores cheios de ecos inexatos? Sim, queria. Foi direto ao caixa. Pagou com cartão de crédito que tinha crédito por causa das escolhas que odiava. Dispensou a sacolinha plástica com timbre da livraria e já saiu lendo a orelha. A amiga já havia saído. Certamente a viu no caixa, de onde estava era impossível não ver. Seguiu sozinha para o café, que tomou lendo e encarando os ecos. Em cada entrelinha lamentou a amizade que se diluía por causa das palavras.

Caio


De meias e encolhida na cadeira, foi-se o livro sobre o Caio (Caio Fernando Abreu - inventário de um escritor irremediável, Jeanne Callegari, Ed. Seoman). 

Está escrito no prefácio que "o perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance". Pode. A vida de Caio, com toda aquela resistência ao que lhe parecia engessamento, cabe num romance. Como cabe também sua jornada rumo ao posto de grande nome da literatura do país. A mim, a biografia apresentada por Jeanne pareceu conversa de amigos, com cheirinho de melancolia e solidão.

O nome dele deve ter me chegado lá pelos idos do curso de Letras (Morangos Mofados, provavelmente, além de contos avulsos retirados de outros livros), certamente associado a outros escritores, como Clarice ou Lygia. E agora foi gostoso ler sobre o mundo em comum desse povo, os pontos de convergência desses nomes, os encantamentos dele diante da grandeza delas e, depois, ali, junto, renomado, reconhecido. Bonito, justo, grande. 

O livro da Jeanne foi como um filme bom, visto numa tarde de chuva, sob a manta do sofá. Um filme que sinaliza no início que haverá tristeza no final, mas que as cenas até lá compensarão a possível dorzinha trazida pela empatia. Aí o filme segue, você percebe referências tão queridas que chega a se sentar no sofá, dá um pause, busca mais um café, pensa a que amigos indicará o filme. Toca o play, volta uma ou duas páginas, uma ou duas cenas, diverte-se com os rumos incríveis da vida dele, com as loucuras e os riscos; tenta imaginar a alegria, o medo, a solidão de ser tão poeta, de não caber em lugar nenhum. Você percebe a grandeza de alma e lamenta tantos amores desencontrados, tanto sonho perdido. Dele. Os seus. O filme segue um pouco mais triste, você volta para baixo da manta. Quando a cena final chega, você lamenta que o filme tenha sido curto, que a dor tenha sido tão grande, que a vida não tenha se prolongado. A dele. A dos sonhos. No fim, há os créditos borrados de lagriminhas. E um monte de texto bom para ser lido e relido.

Apesar do reconhecimento que alcançou ainda em vida, de ter tido a alegria de ver sua obra celebrada, traduzida, premiada, referenciada, apesar de tudo, o livro de Jeanne nos dá a impressão de que Caio andou sempre de mãos dadas com a solidão. Li outro dia que a Lygia F. Telles afirmou que se mantém viva graças à literatura (Lygia está com 90 anos); Caio também escreveu, ao se descobrir doente, que só o que podia fazer era escrever, escrever. Jeanne nos conta que Caio também gostava de flores. No final da vida, quando, já doente, voltou a morar com os pais, teve a chance de se dedicar a um jardim, como quis durante muito tempo. Sobre o girassol pesado demais sobre seu caule, ele diz que a flor não suporta "o peso da própria beleza que engendrou". Caio morreu aos 48 anos. Lendo sobre sua história, acho uma pena que a escrita e a jardinagem não lhe tenham bastado como antídotos e que ele tenha partido tão cedo. Bem que a vida podia ser, de vez em quando, mais parecida com a poesia.

Rio - segunda parte


Nós começamos a planejar uma viagem aos EUA para o ano que vem. Várias razões colocaram os planos em banho-maria e, até segunda ordem, a viagem não deve rolar, pelo menos não na data inicialmente prevista. Enquanto achávamos que iríamos, demos os primeiros passos para a renovação do visto de visitante. Preenchemos os formulários na rede, pagamos a$ taxa$, ligamos para agendar entrega de documentos e entrevista. Descobrimos que precisaríamos agendar um pouco mais tarde, pois os horários de julho ainda não estavam disponíveis. Como os formulários têm validade de apenas trinta dias, precisei preencher tudo outra vez. Em junho, liguei para fazer o agendamento novamente. E aí fui informada de que, como meu visto anterior datava de 2004, eu estava dispensada da entrevista. Bom, a notícia era ótima, mas divergia do que eu havia ouvido antes, então duvidei: tem certeza? Tenho, senhora. Mas... Não se preocupe, senhora, a senhora está dispensada da entrevista, senhora, precisa apenas entregar os documentos, senhora. Muitas senhoras depois, aceitei o que o funcionário estava me dizendo (afinal, ele certamente sabia mais sobre o babado do que eu)  e agendei a tal entrega dos documentos para o período de férias das crianças. Juntamos a fome com a vontade de comer e programamos um curto passeio pelo Rio.

Minutos antes de fechar a mala e partir para o aeroporto, fiquei na dúvida se entregaria os documentos no endereço x ou y. Liguei para o mesmo serviço de atendimento, para tirar a dúvida, e o que se seguiu foi mais ou menos assim:

- A senhora vai entregar os documentos no endereço x. O endereço y é para a entrevista do dia seguinte.
- Ah, perfeito. Mas na verdade, vou apenas entregar os documentos, estou dispensada da entrevista porque meu visto anterior é de 2004.
- Mas quando o seu visto anterior expirou?
Suspense. Ninguém havia me perguntado isso antes.
- No mesmo ano.
- Então a senhora NÃO está dispensada da entrevista.

OLHA. Respira. Bom, vou poupar vocês dos detalhes, mas foram vários e-mails para o atendimento e para o consulado na tentativa de ter a tal entrevista agendada em caráter de urgência, na semana em que estaríamos no Rio. Um troço um tanto irritante, porque, né, segui cada passo que me foi indicado e só não agendei a entrevista porque o funcionário do atendimento me convenceu de que eu não precisava. Enfim. Vários e-mails depois, recebi um telefonema (quando visitava o Planetário, um dia antes de entregar os documentos para análise) de uma funcionária do Centro de Atendimento ao Solicitante de Visto (CASV) me comunicando que, bem, tinha havido um equívoco e minha entrevista seria feita logo após a entrega dos documentos. Oba. E assim foi, mas não sem um detalhe curioso: no momento em que a funcionária que me atendeu no CASV bateu o olho em meu antigo visto, afirmou:

- É, mas você não precisava mesmo de entrevista. 

OLHA. Enfim, de lá seguimos imediatamente para o consulado, onde fomos entrevistados e tivemos o visto aprovado. Fim, seguem férias.

***

Com o lance do visto resolvido, bateu a fome. Tínhamos pulado cedíssimo da cama e mal tínhamos engolido um iogurte no quarto do hotel antes de sair. Como estávamos no Centro do Rio, o mais óbvio era aproveitar e ir conhecer a famosa confeitaria Colombo. Seguimos pela Rio Branco admirando os prédios antigos da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas Artes e do Teatro Municipal, perguntamos aqui e ali, compramos gibis em uma banca e finalmente achamos a confeitaria com a ajuda de uma simpática garota que seguia para o trabalho na galeria vizinha. Estava fechada, mas abriria em vinte minutos. Turista é turista. As crianças se sentaram no batente de uma loja em frente à confeitaria e abriram seus gibis; e assim esperamos. Depois nos fartamos. O lugar não é famoso à toa, a comida que provamos (o café da manhã duplo) estava perfeitinha (a melhor torrada ever), o ambiente é bonito e aconchegante, e tivemos ótimo atendimento (pelo menos no início do dia, com mesas à vontade e garçons disponíveis). Foi mais um dos lugares de que usufruímos sem filas no Rio. Pular cedo da cama em período de férias pode soar como algo para loucos, mas preciso admitir que é um excelente negócio em vários aspectos. Depois do Corcovado vazio e sem filas, e da Colombo quase toda nossa, qualquer grupo de cinco pessoas à minha frente já está me parecendo multidão. :-)

Barrigas cheias, fizemos uma visita rápida ao prédio da Biblioteca Nacional. Por um minuto perdemos a visita guiada que nos deixaria ver todos os ambientes do prédio. Demos uma circulada bem desinteressante por onde tínhamos acesso sem os guias e pulamos fora. 

  
Hall da ...

...Biblioteca Nacional.

Mais uma caminhadinha e chegamos à movimentada Praça XV. Lá pegamos a barca e fomos para Niterói. A primeira coisa que Arthur falou quando contei que iríamos ao Rio foi que gostaria de visitar o MAC, "aquele museu redondo". O dia estava lindo, como todos os dias que passamos no Rio, e o visual estava azul. Mas as crianças estavam mais interessadas nos gibis do que na ponte Rio-Niterói. A chegada ao museu foi aquela festa, porque o prédio é mesmo muito interessante. Depois do MON, em Curitiba, ficamos ali mais uma vez admirando as loucurinhas do Niemeyer. Dentro, porém, a história é outra. O museu nos decepcionou bem. Pequeno, com alguns espaços para exposição vazios, um acervo razoável (com alguns pontos interessantes, mas não muitos), o lugar me pareceu mau cuidado. Bem diferente do Museu do Olho, de onde nem queríamos mais sair, o MAC nos marcou mais por seu exterior maluco do que por seu conteúdo. Mesmo assim, gostamos de ter ido.


Um sem-fim de ponte.

MAC


O dia estava quente, a palavra inverno parecia ficção científica. Almoçamos em Niterói e logo em seguida pegamos a barca de volta. Todos cochilaram, a cama do hotel era uma lembrança atraente. Depois da barca, Amanda dormiu no táxi. Mas foi só chegar ao Parque do Catete, nos jardins do Museu da República, para o sono passar, ela correr, arrancar os sapatos e brincar por horas. Não visitamos o museu. Enquanto as crianças brincavam no parque, a Renata Lins, com quem tenho o prazer de trocar figurinhas de vez em quando na rede, mora por ali. Uma mensagem, uns minutinhos e, ploft, lá estava ela, toda sorriso e papo bom. Sentou-se comigo no meio-fio de um jardim cheio de crianças barulhentas e engatou a conversa. Pouco tempo depois chegou minha tia, moradora do Rio há mais tempo do que sei contar, e por ali ficamos até anoitecer. Naquela noite, duas crianças exaustas e felizes deram zero trabalho para dormir. Os pais, idem. 

***

Os planos para a sexta-feira incluíam brincar no Parque da Catacumba, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Fomos até lá, demos uma explorada básica no parque - que é bem bonito, por sinal - à procura dos monitores que auxiliariam as crianças na atração principal de lá: um conjunto de atividades mais radicais, incluindo escaladas, tirolesas e outras coisas feitas nas alturas. A demora em achar os monitores e a falta de lugares mais amplos para correrias acabou mudando nossos planos e logo seguimos para outro parque, próximo ao Jardim Botânico, o Parque Lage. Acabou sendo um dos passeios mais legais da viagem. Além de bonito, com o paredão do Corcovado à vista de muitos ângulos, o Lage tem várias atrações. Começamos por deixar que as crianças se esbaldassem no playground, cercado por palmeiras e macaquinhos curiosos.


Não vou parar quieto pra foto.

Quando elas desaceleraram um pouco, seguimos as placas e procuramos o solar, um casarão construído por Henrique Lage para sua esposa, há quase cem anos, segundo li no blog da Luciana Misura. No solar funciona uma escola de artes. Tudo é lindo: o parque, o casarão, o pátio interno do casarão com seu visual inacreditável. Nos corredores que cercam a piscina localizada no pátio interno ficam expostas obras feitas pelos alunos da escola de pintura. Há também uma simpática cantina, uma pequena biblioteca, além de uma lojinha de material de pintura e outras salas que, acredito, devem abrigar salas-de-aula. Comentei com o Ulisses que se alguém estudar ali e ainda assim não conseguir pintar quadros lindos, deve tentar outra coisa na vida: jamais poderá alegar falta de inspiração. Para onde quer que se olhe, há um quadro esperando para ser pintado.

O solar dos Lage. 


A piscina básica, com o Corcovado de visu.



Antes de irmos embora, exploramos outros lados do parque e visitamos uma gruta que abriga um pequeno aquário. As crianças se divertiram brincando de esconde-esconde por ali, enquanto aproveitamos para curtir a sombra das árvores imensas e escolher pelo celular um lugarzinho bom pra almoçar.

A gruta dos peixes.

Almoçamos em um restaurante próximo e depois demos uma caminhada ao longo da Lagoa Rodrigo de Freitas. Inverno? Sabíamos que existia, acreditávamos nele. Mas não nos lembrávamos bem como era. Fomos para o hotel, tomamos banho e fomos para o Centro.

Uma escaladinha rápida às margens da Lagoa, para não perder o hábito.


Decidimos visitar a exposição A Herança do Sagrado, promovida pelo Vaticano por conta da Jornada Mundial da Juventude. Sabíamos que haveria uma ou duas telas do Da Vinci e outras coisitas potencialmente interessantes, fomos expiar. Encaramos nossa primeira fila de responsa na cidade. A exposição está em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes e o acesso é gratuito. Ficamos cerca de, sei lá, uma hora na fila, talvez. Do outro lado da rua, enquanto a noite caía, o Teatro Municipal se acendia e minha vontade de visitá-lo aumentava. Estava fechado e fiquei babando. Na próxima, quem sabe.

Águia  no alto da cúpula do Teatro Municipal que não visitei.

Quando finalmente entramos  no MNBA (Arthur e Amanda eram as únicas crianças num raio de quilômetros), Amanda quis saber e-xa-ta-men-te por que, afinal, não poderia fotografar a exposição, ela que fotografa tudo, de maçaneta de porta a obras de arte, de grama seca a orquídeas raras, besouros e xícaras. "Mas eu não vou usar o flash", disse, pacientemente, após ouvir da segurança que o flash estraga as telas. Não teve jeito. Passou rapidinho pelos Da Vinci e Caravaggio e se divertiu mesmo no corredor de esculturas fotografáveis. Quando decidimos sair, Ulisses e eu precisamos esperar o final da sessão de fotografias que as crianças estavam, uh, desenvolvendo. 

Lá fora Ulisses e as crianças comeram pipoca na escadaria do Teatro Municipal, pouco antes de sermos completamente estragados com uma boa dose de mimos. Fomos recebidos por um casal de amigos para um churrasco na casa deles, uma noite de papos e comilança que recebemos como um presente carinhoso. As crianças se encarregaram de tornar a casa deles bem mais barulhenta. Todos juntos, crianças e adultos, babamos com as duas labradores da casa, lindas cadelas espertíssimas e cheias de charme. Enquanto comíamos e bebíamos e falávamos e mimávamos os cachorros, Arthur e Amanda brincaram nas redes e ainda ganharam sessão de filme Disney. Diálogo de hoje aqui em casa:

Vovó: - Amanda, o que você mais gostou no Rio?
Amanda: - Da casa da Deborah. Tinha duas redes e dois cachorros que faziam truques!

Tentamos agradecer, mas, né? Como fazer?

O sábado amanheceu ainda mais quente. Voltaríamos para casa à noite e tratamos de aproveitar as horas da manhã que restaram após arrumação de malas e café. Caminhamos para o Forte de Copacabana, praticamente ao lado do hotel, e lá curtimos aquela vista. Nem entramos no Museu do Exército. Demos uma espiada em uma exposição (interessante) sobre a construção do Cristo Redentor e apreciamos todos os azuis do Rio.



Não podíamos nos demorar muito no Forte, precisávamos desocupar o quarto do hotel. O mimo então alcançou picos imbatíveis. O casal que nos recebera na véspera nos buscou no hotel e nos presenteou com um passeio delicioso pela Floresta da Tijuca. Zummm... e de repente estávamos no meio do mato, subindo subindo subindo. Aviso aos navegantes floresteiros: o restaurante bonitinho lá na meiuca da Floresta da Tijuca não aceita cartão de crédito. Nem choramingamos. Rapidamente descemos e buscamos outro lugar onde comer que, para alegria infinita da Amanda, ficava na cara do playground que ela avistara na subida. Já viu, né.



Brindando com o Ulisses, os lindos e queridíssimos paparicadores oficiais das nossas férias, Deborah e Ricardo. A comida estava boa, a vista era linda e o papo bom demais. 

***

Voltamos pra casa com a sensação de termos passado bem mais de quatro dias perambulando pelo Rio. Com tanta lindeza e gentileza nos cercando, as férias curtas nos pareceram generosamente esticadas. 

Vista Chinesa, Floresta da Tijuca, que faz o Corcovado parecer baixinho. Mais um presentinho do casal Deborah e Ricardo. Com direito a Lua, claro, porque não temos pouca sorte nessa vida, viu.

***

O Rio continua lindo, sim.

Agora estamos aqui, aguardando a tal frente fria mega blaster plus super ultra incrível que, dizem, cairá sobre o sul do país a partir desta madrugada. Dizem que vai nevar na Serra. Que as temperaturas vão bater recordes, que Floripa vai congelar. Que venha, estamos com o coração bem quentinho. ;-) E luvas, por garantia.


Rio - primeira parte


Chegamos ao Rio na tarde da última terça-feira e nos deparamos com um inverno inexistente. Já esperávamos temperaturas bem distintas das normalmente esperadas para Santa Catarina nesta época do ano, de modo que não houve surpresas. Largamos os casacos no hotel e tratamos imediatamente de aproveitar o resto do primeiro dia. Ficaríamos menos de uma semana por lá, era conveniente não desperdiçar tempo.

Começamos pelos Morro da Urca e Pão de Açúcar. A ausência de filas no ponto da Praia Vermelha (certamente por ser final de tarde e a maioria dos visitantes optar por aproveitar a luz do dia para apreciar a vista) foi um excelente início de viagem. Subimos o primeiro trecho banhados pelos últimos raios de luz do dia e lá de cima vimos a noite cair rapidamente. Ver o Rio iluminado não é o mesmo que ver Paris do alto da Torre Eiffel, certamente, mas também tem lá o seu charme. Mostrei a boca banguela da baía de Guanabara para o Arthur, passamos pouco tempo no Pão de Açúcar e voltamos para o Moro da Urca. Tínhamos bastante tempo até o horário da última descida, então aproveitamos para conhecer um pouco da história do bondinho, sua idealização considerada por vários engenheiros uma loucura na época, a instalação do aparato todo, um pouco sobre a ousadia dos escaladores dos dois morros, a badalada história do Teatro do Morro da Urca - tudo explicado em vídeos de curta duração, disponíveis em uma pequeno espaço cultural chamado Cocuruto; talvez o acesso aos vídeos (em iPads fixados à parede) seja complicado em horários mais disputados, mas tudo estava inteiramente à nossa disposição no final do dia. As crianças circularam pra lá e pra cá, brincaram com os antigos bondinhos que estão em exposição em um dos pátios, vibraram ao cruzar o bonde que seguia na direção oposta enquanto descíamos. Devidamente batizados, seguimos para o hotel.

No dia seguinte vimos de nossa janela o sol nascer lindão.


Tínhamos ingressos comprados pela internet para visitar o Corcovado de manhã. Diante da ideia de visitar o Cristo Redentor (tudo é festa), as crianças pularam cedo da cama sem protestar. Mais uma vez, fomos agraciados com a ausência de filas. Seguimos sem trânsito rumo à estação do Cosme Velho e chegamos lá mais cedo do que pretendíamos.

A estação vazia, um sonho.

Nosso voucher nos dava direito a subir no trem das 8:40 (não conseguimos comprar ingressos para mais tarde), mas a moça da bilheteria, onde fomos trocar os vouchers pelos tickets, perguntou se gostaríamos de subir no trem das 8:00. Aceitamos e assim subimos no primeiro trem do dia: o corcovado era só nosso.
  
Lagoa, vista lá de cima.

Circulamos sem aperto, tiramos as fotos que quisemos e, agora sim, vimos o Rio à luz do dia. E constatamos sem muita discussão que a cidade continua mesmo linda. A manhã azul foi parcialmente tomada por uma neblina que logo se dissipou, durando o suficiente para realçar nossa caminhadinha nas nuvens.


À medida que os dias se seguiram, foi se tornando mais e mais frequente avistarmos pessoas com mochilas, bonés ou camisetas da Jornada Mundial da Juventude. A toda hora festejávamos nossa sorte de ter visitado os pontos mais badalados sem qualquer tumulto ou espera em longas filas. 


Com o Corcovado visto e explorado, a brincadeira das crianças passou a ser localizar o Cristo a partir de outros pontos da cidade. E com elas animadíssimas, rumamos para o Jardim Botânico. O Jardim ainda habitava minha memória como um dos lugares mais agradáveis que eu havia visitado em minha primeira ida à cidade, mais de vinte anos atrás. A sensação se repetiu, dessa vez com o ganho gigantesco de ver as crianças se esbaldando em correrias naquele cenário impecável. Escalaram árvores, correram descalços, morreram de calor, descobriram plantas esquisitas, exploraram como quiseram todo aquele verde sem fim.



Planta insetívora, sucesso com as crianças.


Monet não reclamaria.



Árvore maluca que encantou a Amanda.


Havia uma lanchonete que nem era lá essas coisas, mas a gente nem ligou. A parada foi rápida e, picolés devorados, logo estávamos caminhando outra vez. Ao final do passeio, quando seguíamos para a saída do parque, a cereja do bolo: a exposição Genesis, do fotógrafo Sebastião Salgado, apenas. Nem sabíamos dela, um presente-surpresa do Rio para nós. E adiamos o almoço um pouco mais, encantados com dezenas de imagens incríveis tiradas em lugares impressionantes espalhados pelo planeta. Ali, abrigada pelas palmeiras do Jardim Botânico, Genesis nos arrancou ainda mais suspiros. Um luxo, adoramos.



Nossos planos eram almoçar no Leblon e depois seguir caminhando pela orla rumo ao Arpoador, onde estava nosso hotel. Mas estes são tempos incertos e, alienados em nossos deslumbres de férias, não sabíamos da manifestação programada para aquela tarde. Descobrimos a tempo, enquanto almoçávamos em uma esquina supervalorizada qualquer e vimos, espantados, o absurdo comboio da PM fechando ruas e seguindo rumo à praia. Preocupados com o que se seguiria nas próximas horas e naturalmente empenhados e afastar as crianças de qualquer área de riscos vários, mudamos os planos e optamos por passar o resto da tarde escondidos no interior do Planetário, não muito longe dali. 

O Planetário nos proporcionou de tudo um pouco: sessão péssima na cúpula, sessão bacana na mesma cúpula, exposição legalzinha no museu, um encontro bem gostoso e, quando a noite veio, um presentinho sem qualquer planejamento. Primeiro, a sessão péssima: compramos para satisfazer a Amanda ingressos para um filminho infantil sobre o medo do escuro. Ruim com força, zzzzz,.. RONC! Em seguida, após um café que não tomei, porque não havia café na única "lanchonete" do lugar (que, na verdade, fica fora do lugar, mas pulemos os detalhes menos interessantes), encaramos desanimados a sessão seguinte, cujo ingresso compramos para satisfazer o Arthur. Tivemos mais sorte dessa vez e fomos positivamente surpreendidos ao longo do filme, aprendemos um pouco sobre o funcionamento dos telescópios e a genialidade dos primeiros a observar o céu com instrumentos tão mais rudimentares que os moderníssimos de que dispomos atualmente. Satisfeitos, passamos as horas seguintes tagarelando com a Juliana (que cruzou a cidade para nos encontrar, uma querida, e contou tudo aqui). Conhecer a Ju foi a coisa mais legal da tarde. E tudo ficou ainda melhor quando Ulisses descobriu o presentinho: bem naquela noite os telescópios do teto do Planetário estavam abertos ao público para uma espiadela na Lua e outra em Saturno. Amor. Adiamos o jantar e subimos. Depois de tagarelar com a Ju na fila, ouvimos o moço do telescópio explicar que, por não haver atmosfera ou ventos, as mudanças na superfície da Lua são lentíssimas, quando muito. As pegadas do homem ainda estão lá, por exemplo. Amanda ouviu aquilo e deve ter ficado bem impressionada. Em sua vez de espiar, debruçou-se, mirou e foi surpreendida pela beleza daquele queijo enorme:

- Nooossaaaa!  - E, em seguida, lembrou-se do que havia aprendido: - Já achei uma pegada!
:-)

Saturno nos pareceu uma figurinha de álbum, pequenino, mas muito nítido naquele infinito todo, com seus anéis e suas luas. Para quem ainda pretende ter sua própria luneta, foi um pequeno deslumbre.

Com o trânsito complicado por causa da confusão que rolava no Leblon enquanto olhávamos para o céu, fizemos um lanche nas imediações do Planetário e depois seguimos como deu para Ipanema. Juliana se despediu de duas crianças cansadas e se foi. Eu reforcei aquilo que já sentia em nossos papos pelas redes sociais: Ju é uma daquelas almas boas que andam por aí. Sorte nossa ela ter nos brindado com sua presença por algumas horas. Adoramos.

Cenas do próximo post: de volta ao hotel, vi pela internet um pouco do que estava acontecendo no Leblon e agradeço a gentileza dos amigos do Rio que se preocuparam com nossa segurança. A manhã seguinte exigiu esforço extra para pularmos da cama ainda mais cedo. Era dia de entregar documentos e solicitar visto junto ao Consulado dos EUA. Uma pequena novelinha cheia de informações equivocadas e funcionários confusos, outros gentis e solícitos, com final tranquilo. E mais andanças e encontros deliciosos.   

  

Canta, alma


O primeiro ganho das curtas férias, além das horas a mais de sono de manhã, foi terminar o livro que estava lendo. Eu, que já não tenho dado conta de ler livros "em uma sentada só", agora fico feliz quando passo semanas para terminar um mísero Agatha Christinho da vida. Tá valendo. Antes tarde do que nunca, agora sei como se deu a última missão do Poirot e, de brinde, li duas grandes autoras, completamente distintas em seus estilos, de uma só vez: a tradução da edição de Cai o Pano que tenho foi feita por Clarice Lispector. Impressões? Li AC na época certa, lá nos anos 80, ainda adolescente. Ainda gosto, mas não me arrebata mais. Sem dúvida o final é mirabolante e inesperado, mas falta do lado de cá o deslumbre, acho. Não há nada de errado com o texto, com o enredo, eu é que não compro mais as motivações dos assassinos. De qualquer maneira, ler AC traz sempre aquela melancoliazinha de fundo: minha mãe gostava e líamos com pressa para descobrir a identidade do assassino e finalmente poder falar abertamente do livro na hora do almoço. Ela ficaria muitíssimo decepcionada com Cai o Pano, a propósito. Mas não serei indelicada a ponto de dizer por quê. Se spoilers em qualquer livro já estragam a vida de tanta gente, imaginem em um AC. Imperdoável. 

Sai Agatha, vem Jeanne. Comprei o  Caio Fernando Abreu - inventário de um escritor irremediável (Jeanne Callegari, Ed. Seoman) assim que soube do lançamento. Não que seja grande fã do autor gaúcho - na verdade, conheço praticamente nada de sua obra. Mas por vontade de ler um livro escrito pela Jeanne, que comecei a admirar nas redes sociais e em listas de discussões pela internet. Mal comecei e já me vejo nas livrarias fuçando livros do Caio para espiar.


***

Quando eu tinha 17 anos e acabara de concluir o segundo grau, fiz uma viagem de férias inesquecível. Foi a melhor maneira de esperar o resultado do vestibular, longe da ansiedade de acompanhar as notícias que antecediam a divulgação da lista ou de esperar meu nome lido pelo rádio. Acompanhada de minha tia, passei dois meses de vida mansa no Rio, na casa de uma outra tia paciente que me hospedou, apresentou-me a primas que eu tinha visto quando era praticamente ainda um bebê e me deu dicas do que fazer na tal cidade maravilhosa. Eu aproveitei como deu, espantada com os 38 graus às nove horas da manhã, com a beleza absurda da cidade e com a bonança de tanto passeio bacana pra fazer. De praia a festinha de bairro, morro a parque, cinemas e passeios de ônibus sem fim, fiz de tudo. Foi um excelente turning point antes da fase tão cheia de mudanças que se iniciaria depois com a entrada na faculdade. Nunca mais voltei ao Rio. Para mim, a cidade tem se resumido ao Galeão, um ponto de conexão.

Mais de vinte anos depois, voltarei lá agora. Animada é pouco, não define. Serão pouquíssimos dias, nem sei muito bem como me sairei na tentativa de mostrar um pedaço bom para as crianças. Vamos ver no que dá. Dizem por aí que continua lindo.  


Sunny


Você que tem esses vestidos compridos e esse cabelo cacheado; que usa presilhas de flores, tiara de pedrinhas ou coque de bailarina; minha menina dançarina, você que ama meia-calça e inventa códigos para brincar de "vou para uma ilha"; você que pede e me dá sonhos bons todas as noites, que elogia e faz carinho; que faz birra também, você; que colhe pedrinhas e examina aranhas na escada, menina, quero que sempre se lembre que você faz nossa casa mais bonita com suas flores colhidas nas manhãs de nosso bairro. 

Você traz as mãos cheias de cores quando anuncia da calçada que já chegou da caminhada. Você chega e traz um mundo mais bonito com você, todo dia. Porque é isso que você faz, minha pintora: você pinta nossa vida, e o faz em tons de amarelo. Que você é assim, vibrante, intensa, em dó maior. Você, um sol.

Florzinhas no vidrinho. Amanda põe na mesa para o almoço ficar mais bonito. E infla o peito de alegria, enquanto me passa a impressão  de saber o que realmente importa nessa vida.

Soleira


Torceu muito para que ele não tivesse percebido o suspiro incontido ao abrir a porta. Jamais esperava que fosse ele, ali, àquela hora. Completamente desconcertada, falou na voz menos gaguejante que arrancou da garganta:

- Meu irmão saiu.

Ele, livro de química na mão, perguntou com a voz mais tranquila que ela já ouvira.

- Ele ainda não voltou? Pensei que o futebol acabasse às quatro.

Ela, morrendo:

- Não, é só depois das cinco, ele volta com meu pai. 

Ele, morador feliz do universo das pessoas que não estão apaixonadas:

- Entrega pra ele e diz que fui eu que trouxe? Amanhã ele me devolve no colégio. - E, seguro, tranquilo, casual, estendeu-lhe o livro de química.

Ela, implorando aos deuses pra não tremer, estendeu o braço e pegou o livro.

- Pode deixar.
- Tchau. - disse ele, displicente.
- Tchau. - disse ela, já com saudades.

Momentos antes, do lado de lá da soleira, ele se perguntava se ela perceberia sua imensa ansiedade. Durante os quase dez minutos que esperou no hall antes de criar coragem suficiente para apertar o botão da campainha, rezou muito para que todas as outras pessoas da casa estivessem fora. Quando finalmente a porta se abriu, sentiu o coração quase parar diante da figura dela, tão senhora de si, em sua casa, seu ambiente, enquanto ele, perdido em seus desejos confusos, estendia o livro-pretexto. Quando ela disse tchau cheia de charme e fechou a porta, deu um pulo silencioso no hall, ergueu os braços em vitória, a boca escancarada em um silencioso yes!. Ela não percebeu nenhuma movimentação vinda do hall, ainda que estivesse agarrada ao livro e encostada na porta, sem conseguir parar de sorrir. Tão feliz, que quase sentia pena das outras pessoas do mundo.

O mundo maravilhoso dos contos de fadas... oh, wait!


- Posso escolher a história???
- Pode.
- Hum... essa não... essa não... essa não... essa! Do soldadinho de chumbo.
- Vamos lá.

Bla bla bla: o soldadinho de chumbo se engraçou pela bailarina e causou ciúmes no boneco saltitante. O enciumado boneco saltitante atirou o soldadinho pela janela. Que caiu não sei onde e foi parar no esgoto, no mar, na barriga do peixe, pescado, mercado, pia da cozinha da mesma casa. O soldadinho de chumbo planejou sua vingança, escondeu-se e, zás, empurrou o boneco saltitante na lareira. O boneco saltitante morreu queimado e o soldadinho e a bailarina, depois de lamentarem um pouco o terrível acidente, viveram felizes.

Gente. /o\

Meus filhos aprendendo desde cedo que nem tudo que se lê... né? 

Achei útil. 


Miúdos de inverno-verão


No sábado de inverno com termômetros marcando em média 25 graus, Floripa teve engarrafamentos de verão, cerveja gelada de verão, roupas de verão e futebol com pé no chão. Os amigos aniversariantes do sábado de inverno-verão fizeram feijoada. Na feijoada de inverno-verão dos aniversariantes havia panelas do tamanho de banheiras, bolos que fingiam ser panelas, coisas esquisitas e deliciosas no feijão, couve, laranjinha e vinagrete com a pimenta que ninguém me avisou que estava lá e que descobri sozinha, obrigada.

Bolo de aniversário fofo e gostoso, à altura da feijoada de verdade que o antecedeu. 

Como era inverno-verão, teve chorinho, samba e cavaquinho. E árvores.



Arthur em trajes de inverno.

Eu não precisaria ter comprado metade dos brinquedos que andei comprando para os filhos nos últimos anos, bastava ter providenciado uma árvore grandona para o quintal. Durante praticamente toda a tarde da feijoada dos aniversariantes do sábado de inverno-verão, meus filhos estavam aí, em cima da árvore.

***

Hoje levei os meus saguis para o Festival de Cinema Infantil de Florianópolis. Vimos um filme da Estônia, uma animação chamada Lotte e o segredo da pedra da lua. O teatro onde a mostra acontece estava bem cheio e não faltavam atrações para entreter os pequenos antes da sessão. Vídeos, livros e música esperavam por eles no saguão de entrada, além de um mímico fazendo graça. Paguei seis reais por três ingressos, o meu e os deles, e cada ingresso nos deu direito a um saquinho de pipoca e um cupom para participar dos sorteios de livros e bonecos antes e depois da sessão. Já dentro da sala de exibição, o mímico fez um pequeno número de pantomima antes do início do filme. Ao final, o diretor estoniano subiu ao palco e, com ajuda de uma intérprete, respondeu às perguntas das crianças. Tipo:

- Por que você criou os coelhos da lua com três orelhas? [pergunta uma menina com uns 6 anos]
A resposta do diretor:
- Por que não? Eu realmente acredito que eles moram na lua e têm três orelhas. 

A mostra de cinema infantil segue por mais uma semana, com sessões diárias gratuitas (escolas podem agendar e levar as turmas), workshop de teatro para crianças (sábado), sessão de curtas nacionais e internacionais, e por aí vai. Tá tudo no site do festival, espiem lá.

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"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei." (Manoel de Barros, poeta homenageado na mostra de cinema infantil.) 

Pétalas & penhascos


Rubem Alves escreveu que onde ele via a beleza, sua vizinha via o lixo. Assim ele se encantava com o ipê florido, o mesmo ipê que a vizinha mandou cortar porque as pétalas sujavam a calçada. Para mim, eis um resumo possível de toda a ópera. Continuo achando um milagre que a humanidade tenha chegado até aqui.

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Amanda conta toda feliz a piada que aprendeu na escola: 

- O pai de Maria tinha cinco filhas: Lalá, Lelé, Lili, Loló e..??? [faz grande suspense]

Todos respondemos:

- Lulu!

Ela, realizada e feliz:

- Nãããão, é Maria, ora!!


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Eu me lembro como ria mil vezes da mesma piada quando era criança. Saber o final ou antecipar a pegadinha em nada atrapalhava a gargalhada que saía frouxa e autêntica. Hoje contei para o Arthur uma que me fazia rir dia sim, dia não. Ele gargalhou, como eu fazia.

"Um moço queria comprar um burro, mas achou o preço muito alto. O vendedor alegou que se tratava de um burro especial, um burro inteligente. O comprador quis saber o que havia de tão especial, o vendedor explicou:

- Para que ele ande, basta dizer "graças a Deus". E ele anda. Se quiser  parar, diga "iiihhhh", ele para. 

O moço duvidou de que o burro andaria ao som de "graças a Deus". Mas ao montar no animal, constatou que era tudo verdade. "Graças a Deus", o burro andou; "iihh", o burro parou. Pagou o preço pedido, disse "graças a Deus" e seguiu todo feliz. Lá pelo meio do caminho, resolveu que queria um galope mais arrojado e repetiu, empolgado: 

- Graças a Deus, graças a Deus, graças a Deeeus! 

O burro disparou para satisfação do moço que seguia imaginando o sucesso que faria em seu vilarejo. Ficou tão distraído em seus pensamentos que se esqueceu que era necessário desviar do ponto onde havia um penhasco no caminho. Apavorado, à medida que se aproximava do penhasco, falou:

- IIIhhh, me esqueci o que preciso falar para o burro parar!!!

O burro parou, obediente. Aliviado, o moço suspirou:

- Ufa, graças a Deus! - E os dois caíram no penhasco.

Arthur deu risada e só parou para me perguntar qual o bicho favorito do Drácula. 

- Não sei.
- A girafa!!

 Tá, parei.
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Daqui a uma semana terei férias curtas incompatíveis com vontades longas.

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Temos novamente TV a cabo, internet e telefones. Perdi todos os contatos de minha agenda não sincronizada no telefone que estragou. Não digo "telefone velho". Não era velho, mas os prazos de validade atuais são a melhor piada. Do queijo ao telefone, tudo estraga antes do tempo. Mas tem gente que prefere reclamar das pétalas na calçada, fazer o quê? Eu reclamo da minha cabeça oca que me fez deixar de salvar minha agenda. Se subo naquele burro, certeza que corro o risco de cair no penhasco.


 
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