Pra fazer feliz


Minha filha foi dormir bem triste esta noite. Estava arrasada porque o passeio com a turma da escola durou apenas um dia. Ela queria mais, queria ter dormido no hotel mais uma noite, fazer outra festa do pijama, brincar com os amigos por mais tempo. Eu suspirei e tentei explicar que, olha, a gente nem tá de férias, que tal celebrar o fato de que conseguimos fugir por um dia no final de semana e se lembrar das brincadeiras com alegria, ao invés de ficar lamentando... aí parei. Parei porque vi seu olharzinho de menina de cinco anos, vivendo seu final de semana especial com muita emoção e pouca ponderação, como tem de ser em sua idade. E tentei corrigir minha própria visão, em vez de agir como se houvesse algo de errado no que ela estava sentindo. Tentei me colocar no lugar dela e entender que ontem foi uma noite incrível e diferente, que ela nunca antes havia viajado com a turma e que, no mundo dela, esse foi mesmo um evento digno de deixar saudades doloridas naquele coraçãozinho. E aí fiquei com ela um pouco, deitada em sua cama, brincando com seus cachinhos e simplesmente fazendo companhia. Eu sei que não tive o poder de substituir a presença das amigas e que devo ter dito coisas que não ajudaram muito a aplacar a saudade. Tudo que pude garantir é que ela encontrará todo mundo amanhã na escola e que todos poderão falar um monte sobre o final de semana. Disse que isso é uma coisa legal, que quando falamos sobre algo bacana é como se pudéssemos viver um pouquinho aquilo de novo. Não sei se funcionou como eu gostaria, mas ainda arranquei um sorrisinho antes de dar dez beijinhos de boa noite.

É engraçado. Nós aceitamos o convite para o final de semana pensando nela e no irmão, em como eles curtiriam e adorariam essa escapadela. Não imaginei que no final do período colocaria na cama uma menina tristonha e com olhinhos molhados. 

*** 

Passarinho fotografado por ela no início do passeio.

Amanda costuma dizer que, quando crescer, vai vender as fotos que faz. Sobre as últimas fotos, ela hoje me informou:

- Mãe, eu não quero ganhar dinheiro. Vais ser baratinho. Só quero deixar as pessoas felizes. 
- :-)

Ata


Eu tinha um cartão postal de Londres que trazia na frente algo como "Eu sei que não tenho escrito muito"; e atrás, "E daí? Shakespeare também não...". Pois então.

A pauta do blog (pra usar o vocabulário da moda) costuma ser espontânea, vai do humor do dia ou das gracinhas ditas pelas crianças, da receita que deu certo ou das ideias que atravessaram fora da faixa, dos planos, das andanças. Nos últimos dias, o tempo de que disponho para ficar em frente ao computador tem sido dedicado a ler sobre o momento animado pelo qual passa nosso país, tentando entender um pouco mais, organizar as ideias, fundamentar da melhor maneira possível meus pitacos. O formato mais dinâmico das trocas no Facebook acaba suplantando a disposição para trazer uma ou outra conversa pra cá. Mas não é silêncio, é só que o papo anda um pouco mais concentrada na sala ao lado. 

***

As aulas de piano, os momentos de prática em casa, a Amandinha tocando Minha canção com um dedo só, o Arthur tocando a introdução de Lago dos Cisnes, eu olhando muda para a partitura de Tristesse, do Chopin, sem saber o que fazer com os dedos: nunca antes na história dessa casa um dinheiro foi tão bem gasto. Não é preciso virtuosismo, talento ou "jeito pra coisa". Temos a empolgação e os ouvidos generosos que damos uns aos outros. Como um recreio no parque, é divertido, e isso basta.

***

Os integrantes do Movimento Passe Livre: para inspirar nossos filhos. Cada linha que leio sobre os avanços das discussões em torno da mobilização urbana, do questionamento inédito  (para muitos de nós) no país sobre a soberania dos carros nas ruas, cada vez que vejo a ideia do passe livre ganhando terreno, penso neles, com gratidão. A discussão é quase infinita e os ajustes, inumeráveis, mas todo avanço será sempre devido ao grito pelos vinte centavos e aos muitos diálogos que eles tentaram antes disso.

***

Tudo segue, Ulisses fez hamburger e minha filha ainda pede que lhe coloque sonhos bons na cabecinha antes de ir dormir. Sonhos bons, todos os dias na pauta.


Listen


Hoje alguém falou na minha timeline do Facebook que estava se sentindo "uma sucuri engolindo um boi informacional" (oi, Jeanne, tudo bem?), tamanha a quantidade de informações por minuto nas últimas semanas. De fato, não tem sido moleza digerir tantas opiniões desencontradas, tantos dados e retratos da grande movimentação no país por esses dias - falo exclusivamente da internet, não tenho visto os jornais na TV ou lido qualquer revista impressa. Torci muito por um saldo positivo da barulheira do último dia 20, que me pareceu tão confusa e, apesar de muito próxima no tempo, estranhamente distante do dia 17. Se os grandes saldos positivos para o país de fato vierem, saberemos. Para mim, pessoalmente, já chegaram.
  
Na primeira vez que ouvi as palavras "passe livre para todos", ri, simplesmente. E julguei, do altar colossal da minha falta de informação, que se tratava de alguma peleja exagerada de adolescentes empolgados. Aí fiquei em silêncio quando me dediquei por algumas horas a buscar um pouco de informação sobre o assunto.  

Tenho gostado desse silêncio que me faz apoiar o queixo sobre as mãos em frente à tela e ler com humildade. E se me permitem a ironia, fico impressionada como tanta gente consegue emitir opiniões seguras sobre assuntos acerca dos quais conhecem tão pouco. Como eu, quando ri da ideia do transporte público gratuito. De repente todo mundo tem opinião embasada sobre a PEC 37, por exemplo. Embasada no barulho. Bom, vai ver que só eu sou lenta mesmo.

Tive um professor no mestrado que gostava de nos lembrar da importância de questionar nossas certezas e da sabedoria que há em reconhecer que nunca sabemos muito. Por mais que saibamos, ora, há tanto mais além do nosso campo de visão. Sempre há. Nos últimos dias, vejo pessoas (amigos, jornalistas, colunistas, pitaqueiros de plantão) que considero muito bem informadas, engajadas em seus respectivos campos de atuação, com visão crítica afiada, questionando-se o tempo todo, revisando suas certezas e aceitando suas limitações; perguntando "será?". Ou pelo menos exercitando a cartilha de observar, refletir e estudar antes de se pronunciar. Por outro lado, aqui e ali, vejo o esbravejamento de quem se baseia em ecos somente. Aprendo com as várias nuances dos dois grupos, sem saber direito onde me situo - sem qualquer pretensão de me tornar uma pessoa "bem informada" (não dou conta, claro), luto pelo menos para não cair na armadilha tentadora do esbravejamento.  

Não acho pouco, tomara que eu consiga.

Multi


Vou abrir uma loja de cartolinas. \o/ (não vou)

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Hoje é a grande noite da festa junina no Nordeste. Em outros tempos, eu teria hoje uma roupa nova, um programa definido com alguns amigos para mais tarde, e as ruas de minha cidade estariam barulhentas por causa dos fogos que, aqui e ali, marcariam a véspera do dia 24. Hoje é domingo, então é provável que a grande muvuca da canjica e das pamonhas na cozinha de minha casa já tivesse acontecido ontem, sábado, dia de comprar milho na feira local. No café da manhã de hoje, eu teria comido canjica geladinha, temperada com canela. Minha mãe insistiria para eu provar a pamonha, eu diria que não. E comeria mais um pedacinho de canjica. Longe em tantas dimensões, quase um outro mundo.

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O silêncio da minha rua deixa mais espaço para os barulhos da alma.

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Antes de iniciar a leitura do quinto volume das Crônicas de Gelo e Fogo, vou agathachristieniar um pouco. E enquanto o quarto volume dos Olimpianos não chega pelo correio, meu filho voltou à saga de Harry Potter. Eu e ele, no intervalo.

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Status: estudando. 

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The winter



Nunca antes?

And, hey, the winter begins. 

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Numa canção que o Chico fez para o filme Saltimbancos, ele diz "não sou eu quem repete essa história, é a história que adora uma repetição, uma repetição, uma repetição". 

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Por favor, Chico, esteja errado. 

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Status: torcendo.

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Alguém no FB comentou que tão pedindo pra fechar o Congresso Nacional e acabar com os partidos. É pela democracia e contra a corrupção, vocês sabem. Espero que seja só alguém alarmista ou mal informado.   

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Enquanto isso, na sala de justiça das coisas desimportantes, o tempo passa. Eu gostaria que a experiência viesse junto e me trouxesse sabedoria e, principalmente, paciência e voz mansa. Hoje, contudo, eu só queria um pouco da ingenuidade tranquila da minha menina que se preocupa com que cor pintará o telhado da casa de palha desenhada no papel. Nem que fosse só por hoje, para ganhar fôlego e encarar a curva fechada à direita.

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Eu tenho enorme admiração pelos jovens meninos e meninas do Movimento Passe Livre. Ontem, quando anunciaram que o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo seria revogado, eu disse que adoraria passar um café para eles, uma maneira tola de dizer que queria agradecer pela aula de civismo que eles nos deram. Hoje, agora, lendo as notícias que pipocam nas redes sociais sobre os manifestos país afora, tenho vontade de pegá-los no colo. Acho que eles vão precisar de muito consolo. Eu vou. 

Sons de junho



Pode parecer estranho, mas talvez a aparente ausência de pauta some a favor. Para qualquer causa que se olhe, lá está ela, dona política. A correria que nos impomos para manter o sistema funcionando não nos deixa tempo para pensar no... sistema que nos leva a nos impor a correria...  e a engrenagem do Chaplin nem parece tão velha assim. Talvez seja justamente a pauta ampla e irrestrita, difusa, indefinida e, por isso mesmo, acolhedora, que leve tanta gente a parar um pouco ruas e algumas engrenagens, e se lembrar de que é preciso encarar a política e repensar o sistema, as prioridades, o respeito pela coisa pública. Olhando bem de perto, a pauta está lá: é o público, a retomada da noção de que uma democracia se faz ouvindo o povo - e não somente nas urnas. É claro que nem é preciso fazer concha com a mão junto à orelha para ouvir os brados diários por mais respeito vindos de quem precisa de transporte público decente, por exemplo (e todos nós precisamos, ainda que muitos de nós não percebamos). Mas é bom saber que ainda há o grito coletivo.

É claro que a pauta difusa cobra seu preço, e vejo gente gritar contra coisas que apoio, ou pedir outras das quais discordo. Mas sejamos otimistas e chamemos a isso de conversa. Que a conversa cresça, que o barulho vire música e seja como a serenata dos gatos dos Saltimbancos: longa, animada, revolucionária de verdade. O caminho é longo, aproveitemos a disposição para caminhar. 




Desperdício



Você se lembra dos tamancos vermelhos? Foi com eles que prendi duas das pontas da toalha. Não era xadrez, mas tinha uma estampa de florzinhas miúdas que cabia no modelo de piquenique que eu conhecia. Nas outras pontas usei uma sacola com das maçãs e o livro que você tinha me dado, aquele do Bryson. O vento estava mais observando do que soprando, mas julguei que fosse melhor prevenir. Eu me lembro que dei uma olhada panorâmica no parque antes de desamarrar as pontas do paninho que usei para enrolar nossos pães. Nessa hora pensei que talvez você tivesse razão quando escolheu aquele parque em vez do que eu havia sugerido. Mesmo com maiores chances de crepúsculo com ventos frios, o visual do alto do monte verde valia o risco. Olhei e vi um grupo de skatistas e um casal com problemas, não mais que isso. Era uma terça-feira. Enquanto praticamente toda a cidade se irritava no tráfego, cumpria metas ou pagava contas, nós brincávamos de clandestinidade romântica e marcávamos encontros no parque. Eu não tinha avisado a ninguém, e isso dá a medida do quanto eu me sentia diferenciada. Mais do que isso, eu me sentia quase vanguarda. Um piquenique em dia útil. Nem do vinho me esqueci.

Quando você me ligou, no dia em que cancelamos o cinema, lembra?, eu percebi no momento em que você disse "sou eu".

- Alô?
- Sou eu. Podemos deixar o cinema para outro dia? Queria só ficar em casa e conversar.


Eu já sabia no "sou eu". Enquanto você falava, meio sentado, meio deitado no sofá, com cara de derrotado, eu só pensava que poderíamos ter resolvido tudo por telefone mesmo. Sua cara de derrota tinha lá suas razões de ser, você vinha perdendo há anos. Em todas as vezes que percebi sua insistência em se agarrar às escolhas de sempre; cada vez que vi em seus olhos que o previsível lhe era mais caro; cada passo dado na mesma direção; todas essas vezes eu soube. Você não seria capaz, não cortaria tantos laços assim. Não é que você não quisesse, eu sei, nós sabemos. É que é preciso mais, é preciso firmeza no olhar. Você não arrumaria aquela mala, nunca sequer sairia de férias no inverno. Tão igual. Você parecia uma figurinha repetida. E quando parou de verdade para pensar em nosso futuro juntos, quando espiou pelas frestas e viu os escuros, fez igual ao dia do piquenique: você não veio. 

O vento veio. Mais frio e sarcástico do que eu poderia esperar, fez lombadas na toalha de flores. Deixei as frutas para as formigas, levei apenas meus tamancos. Deixei o livro e o vinho, e liguei para o trabalho me desculpando pela falta. Anos mais tarde, no dia do cinema, dei meu coração às formigas e lamentei o desperdício de antes. Afinal, era um Bryson e o vinho era um pinotage. Mereciam mais.

Les impressions


Paysage d'eté - Pierre Auguste Renoir (1898)

E não tem minha vida com você momentos imprecisos de beleza e luz? Não são nossas histórias feitas de pinceladas de silêncio e cores? Não temos, também, nossos traços aparentemente distraídos? 

Minha vida com você é uma parede de telas impressionistas. Quanto mais de perto olho, mais me espanto.

Ímpeto


Arrumou a trança, alisou os fios teimosos no alto da cabeça, mordeu o lábio, encolheu os dedos dos pés dentro do tênis, fechou os olhos por um momento, rezou uma prece inventada, fingiu verificar as horas no relógio de pulso, corou com medo que alguém percebesse. Suspirou. Não havia muito tempo para hesitações. Teria não mais de trinta segundos entre o sinal do recreio e o momento em que ele desapareceria na sala dos professores. Odiou a amiga que se aproximou para comentar alguma coisa sobre a prova. Dispensou-a quase rudemente, garantindo que a encontraria na cantina em seguida. Foi por um triz. O sinal tocou. Sentiu que as pernas desobedeciam, mas insistiu e, com ares que julgava serem os de uma mulher de negócios, mas que eram, na verdade, os de uma menina com medo de barata, caminhou na direção dele. Chegou a balançar a trança num ato de extrema ousadia. Não adiaria mais, revelaria tudo. Até que. No meio do pátio, talvez por bruxaria, a coordenadora surgiu como uma chuva em dia de piquenique. E do alto do mundo dos adultos insuportáveis, aproximou-se do professor meio segundo depois que ela já havia balançado a trança e chamado o nome dele. Solícito, ele pediu que a coordenadora aguardasse um momento e se voltou para a dona da trança. Tinha um olhar paternal. Encolhida, perguntou com voz de criança a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

- A primeira questão vai ser anulada?

Nem ouviu a resposta. Minutos depois, comeu seu pão de queijo na cantina, surda para a amiga, ouvindo somente sua própria voz jurar que jamais amaria alguém outra vez. Na vida. 

Panquecas


Uma das coisas de que mais gosto em matar as saudades é segurar na sua mão. Sentir sua mão quente e grande envolvendo a minha enquanto a gente caminha pelo estacionamento, seu braço roçando no meu, a gente falando dos últimos acontecimentos. A essas alturas, você deve saber que me interesso por qualquer coisa que você queira me contar, mas me perdoe, eu estava mesmo concentrada no seu braço roçando no meu. Bom, há várias coisas que faço sozinha, então me concentrei nelas nesses dias. Mesmo assim, detesto quando você viaja. E foram só dois dias, é tão ridículo. Vai ali e volta. Pá, pum. Pois eu fico com saudades como se. Mas o bom é que, na volta, eu presto mais atenção na sua mão segurando na minha. E é bom, como quando a gente aumenta o volume para curtir melhor a música. Matar as saudades é aumentar o volume e ouvir melhor aquilo que já sabemos como é. Porque sim, porque a melodia é boa.

Quem bom que você chegou. As crianças não deixaram nenhuma panqueca, mas a gente faz mais. 

Dos pacotes


Eu tenho certa preguiça de ir às compras. "Ir às compras" raramente é um programa pra mim. Via de regra, só vou às compras quando preciso comprar alguma coisa, mas aí deixa de ser um "programa" e passa a ser uma tarefa, né? Nem tudo é tédio, no entanto. Eu gosto de escolher roupas para as crianças, por exemplo, gosto bem. Mas, salvo uma exceção aqui, outra ali, normalmente faço isso cerca de duas vezes por ano, quando as variações marcantes de temperatura e o tamanho dos bracinhos-que-logo-serão-brações e perninhas-que-logo-serão-pernonas exigem. Não chega a ser um sacrifício entrar em uma loja para escolher roupas, mas anda longe de ser meu programa favorito. Quando o assunto é supermercado, a relação é de amor e ódio. Já tive fase de curtir passeios preguiçosos pelos corredores, tecendo longas elucubrações sobre a marca da geleia. Já tive fases de compras pela internet, tudo para não precisar sair de casa e ter de escolher a laranja. Agora estou em uma fase meio-termo: vou, faço as compras da semana sem muito mimimi, mas tento ser o mais precisa possível e terminar tudo em menos de uma hora. Há uma coisinha no universo das compras, contudo, que adoro. O pacote que chega pelo correio.

Não é uma delícia? Escolher pela internet, pagar com o cartão e receber, dias depois, o pacotinho esperado. Meu marido, há muito adepto das compras online, compra de tudo sem sair de casa, sapatos, livros, eletrodomésticos, o que for. Ontem recebemos a louça que ele comprou para a mãe dele. Outro dia chegaram o fogão e a TV. Livros, então, há muito não chegam às mãos dele nos balcões das livrarias. Alega que o preço online é imbatível e se recusa a pagar mais. Eu ainda sou daquelas que se deixam seduzir pelos volumes empilhados nos stands das livrarias e, volta e meia, sucumbo ao apelo da presença imediata, pago mais e volto pra casa com embrulho na mão. Para as crianças, impacientes como só elas, também prefiro comprar nas livrarias. Sei o que é olhar, folhear, querer, levar. Então deixo. Ulisses, não. Pede pela internet. Ontem Arthur ganhou o quinto volume da série que anda lendo, entregue pelo carteiro. Teve gostinho de surpresa a "doutrinação" do pai para que ele também vire adepto das compras que chegam depois de dias de espera. Chegou junto com as duas caixas de louça.

Mais tarde recebemos outro pacotinho. Por ser inesperado, causou aquele frisson que só eles, os pacotes inesperados entregues  pelo correio, sabem causar. Acho uma graça como eles nem parecem fazer força: ficam ali, parados, retangulares, envelopados sobre o balcão que divide a sala e a cozinha, enquanto nós os fitamos cheios de perguntas. O que é isso? Que horas chegou? Pra quem é? Quem mandou? Você comprou alguma coisa? Eu não, vê pra quem é. Era pra mim. Quer dizer, era o que o envelope dizia. Rita Medeiros sou eu. Então, feliz da vida com meu direito natural de abrir um pacote que tem meu nome, fui logo rasgando o envelope branco enquanto verificava quem era o mensageiro da alegria. Era a Fal. A do Drops. Aí rasguei com gosto. 

Não era pra mim. 

Era para as crianças. Um livro com capa cor-de-rosa de letras coloridas, uma história a ser descoberta e a alegria que os livrinhos inesperados trazem. Imediatamente transferi o direito de fuçar o objeto surpresa para Arthur e Amanda que, curiosos (quem é Fal? é pra gente? posso ler?), abriram, recitaram o título, disputaram a posse. Assim que percebi as letrinhas pretas na contracapa, pedi que me deixassem ler para eles as dedicatórias. E vimos os desenhos, a letra e o carinho da Fal. Conhecemos parte de sua família desenhada na dedicatória (uma mãe, um cachorro, seis gatos) e decidimos, juntos, que a Fal é legal. Amanda comunicou solenemente que o marca-páginas fofo é dela e que ela vai ler primeiro. E assim é.



O livro é o Dizzy, da autora britânica Cathy Cassidy. A Fal traduziu o livro para a editora Fundamento, pegou um exemplar, encheu de dedicatórias e desenhos de gatos pensando nos meus pequenos e mandou pra eles. A gente agradece, falando dela no jantar.

- Mas ela tem seis gatos??!
- Como assim, ela traduziu?
- Ela é sua amiga, né?
- Por que ela mandou um livro pra gente?
- É Fol ou Fal?
- O cachorro dela é bonitinho.
- Que fofa, né?

E num é?

***

Nem sei se o interesse da Amanda vai se manter, por enquanto. Talvez a história seja elaborada demais para seus cinco anos. Talvez ela não entenda muitas palavras e largue o livro difícil de lado. Eu não quis interromper a empolgação e deixei que ela experimentasse o prazer de se sentir dona do objeto livro, todo lindo e colorido. E hoje ela entrou no pátio da escola abraçada a ele. Escreveu seu nome na primeira página e me disse que já estava "na página 13". Suspeito que ela deve ter largado o livro na mochila para ir pular corda, feliz da vida. E que de vez em quando, ao abrir a mochila para pegar um lápis de cor, tenha espiado os desenhos de gatinhos pretos que a Fal fez. Se o fez, aposto que sorriu. De um jeito ou de outro, um livro é sempre um bom amiguinho.

***

(Dei uma espiada na história agorinha e vi que é mesmo elaborada demais para ela. Acho que, por enquanto, ela vai mesmo se prender aos gatos pretos. E como livro não tem prazo de validade, não há pressa.)

***

Arthur viu o marca-páginas no capítulo 5. "Amanda, você já tá no capítulo 5??!" "Ah, não. O marca-páginas caiu, eu num sabia em que página tava. Aí botei em qualquer uma." :-) 
 

Curitibando


Em todas as vezes que fui a Curitiba, fiz uma espécie de bate-e-volta. Ora um show de rock, ora chatices burocráticas de algum concurso, sempre espiando a cidade rapidinho, sem tempo de gostar ou desgostar muito. Nesse final de semana voltamos lá com um pouco mais de tempo para uma olhada mais cuidadosa. De lá voltamos com ótimas impressões. A cidade nos pareceu organizada, larga (o termo "grande" também serve, mas é da amplidão que falo, das avenidas largas e sem fim) e, acima de tudo, muito mais verde do que supúnhamos. Em minha cabeça, era Curitiba do frio, agora é Curitiba verde. 

O motivo maior de nossa visita era o casamento de uma prima que, nordestina como eu, mudou-se para Curitiba mais ou menos na mesma época em que vim para Floripa (aquela prima que faz coisas gostosas, de quem já falei aqui). Foi uma ótima oportunidade para rever meus padrinhos, pais dela, alguns primos e primas, conhecer seus filhos que ainda não conhecia, rever outras "crianças" que já viraram adultos, dançar, comer comida boa e conversar à vontade. Minha madrinha mudou de endereço, mas permanece a mesma pessoa carinhosa de sempre, ainda é bom abraçá-la e ouvir suas histórias. Sua casa continua ponto de encontros barulhentos, sempre com crianças brincando por perto, enquanto sua voz ecoa pela casa, distribuindo carinho e acolhendo. A todo instante eu tinha a impressão de que ela falaria o nome de minha mãe, como eu ouvia quando ela nos visitava em minha infância. A voz da minha madrinha traz o som do passado, tem tom de férias visitando primos. E, claro, ouvi inúmeras vezes que Amanda é a minha cara, uma miniRita. Eles, que me viram crescer, podem falar, né. Quem sou eu para discordar. ;-) 

Então fomos ao casamento, comemos os doces mais lindos, dançamos e brindamos. Arthur estava muito elegante em seu primeiro terno, Amanda feliz em seu vestido rodado. Nem a temperatura, que despencou na noite do casamento, conseguiu abater a animação geral. Usei o frio como pretexto para comer mais doces e tudo se resolveu. E vou contar uma coisa pra vocês: sabe o que acontece quando a gente vai à casa da mãe da noiva um dia depois do casamento? Come todos os doces outra vez, enquanto joga conversa fora com o pai da noiva. Olha, tenho muita sorte nessa vida, viu. No meu caso específico de sorte extrema, os doces vieram depois de um almoço da melhor qualidade, que esse povo tem restaurante e saca do babado. Amém.

Entre uma visita e outra à casa de minha madrinha, aproveitamos para conhecer alguns pontos da cidade. Vimos quantos parques e bosques conseguimos, e gostamos de todos. Começamos pelo Bosque do Papa, uma das várias áreas verdes da cidade, com área de reserva da Mata Atlântica cortada por pequenas trilhas boas para caminhadinhas. Em uma das clareiras do bosque, há um memorial dedicado ao povo polonês. O destaque fica por conta de algumas casas de madeira que, segundo li, foram construídas por imigrantes poloneses seguindo um sistema tradicional em sua terra natal, com troncos encaixados. As casas não foram construídas onde estão, mas transportadas para o bosque quando da instalação do memorial e decoradas conforme o costume dos poloneses do século XIX, época da chegada dos primeiros grupos de poloneses a Curitiba. São um mimo, o lugar é uma graça. Amanda tirou várias fotos.



De lá fomos por essa trilha aí em cima rumo ao Museu Oscar Niemeyer, localizado atrás do bosque. O museu foi, para mim, o ponto alto de nossas andanças turísticas. O MON me surpreendeu. Eu não sabia que era tão grande, nem tão... legal. Tá, tudo bem, dei sorte, as exposições estavam boas demais. Mas o local em si já é bem agradável e certamente o visitaremos para outras exposições cada vez que voltarmos a Curitiba.

Eu não conhecia praticamente nada da obra do artista gráfico holandês M. C. Escher. Já tinha visto suas gravuras mais badaladas por aí (formas que se transformam), mas nem ligava o nome à pessoa. A exposição de muitos de seus trabalhos está no MON desde abril e fiquei muito feliz com nossa sorte, foi um achado. As crianças gostaram, há pontos interativos - mas não só por isso. A forma como Escher preenchia o espaço do papel é fascinante. Além das famosas transformações, ou metamorfoses, os efeitos em 3D e as incríveis ilusões de ótica encantam adultos e crianças. Há várias composições com auxílio de espelhos e pontos côncavos e convexos que nos deixam por longos minutos diante das obras tentando decifrar como o artista criou aquilo que nossos olhos estão enxergando. Outras vezes, não: apenas o talento incrível de quem explorava o espaço do papel como se fosse mágico. A exposição pode ser fotografada, sem flash. Eu me esbaldei.


Arthur encolhendo Amanda.


Há uma sala na exposição reproduzindo o ambiente desenhado por Escher nessa gravura. Em um canto da sala, uma esfera metálica como a do desenho; ao nos posicionarmos diante dela, podemos ver exatamente o ambiente do desenho, com todo o efeito "espichado" dado pela superfície da esfera; a semelhança nos detalhes é incrível.



Somente depois de fotografar e observar  por um tempinho o crânio no centro do olho, percebi que a imagem de cima é um reflexo no espelho. Cega, eu.  


As duas fotos acima são do mesmo quadro. Dependendo do ângulo de onde olhamos, os bichos trocam de cor. Acho fofo. 

Depois do universo majoritariamente preto e branco das gravuras de Escher, o contraste das cores da pintora e escultora paulista Leda Catunda foi muito bem vindo. Amanda aprovou o colorido todo, e eu também. 


Parece pintura, mas não é. Cores penduradas em tirinhas.


A fome chegou e decidimos ir embora, mas Arthur queria ver o interior do grande olho do museu. Seguimos as placas, passamos por uma sala dedicada ao Oscar Niemeyer e sua impressionante produção artística, e então encontramos o olho. O que seria uma passadinha rápida se esticou por muitos outros minutos, já que está lá uma exposição dedicada a um curitibano ilustre, o compositor, poeta, escritor, tradutor, professor, ufa, Paulo Leminski. Ficamos por ali lendo trechos de entrevistas, poemas, escritos vários, enquanto as crianças brincavam com uma pequena montagem interativa dedicada a elas.

Dentro do olho.

Ele e eu.


Arthur, e o olho que não cabe na foto. 



Famintos, almoçamos no primeiro restaurante aberto que encontramos (não foi fácil, já era meio da tarde) e seguimos para outra área verde, que a gente gosta de mato. Fui feliz da vida, porque lá encontraria uma "amiga da internet", uma dessas almas boas com quem a gente se acostuma a trocar figurinhas pelos blogs e FBs da vida. Tive a honra de fazer uma caminhadinha pela estrada da bruxa no Bosque Alemão na companhia da Caminhante-mor, a responsável pelo blog Caminhante Diurno, velho parceiro aí na lateral deste bloguito. Depois a gente comeu até ficar triste, claro. O Bosque Alemão tem um quiosque com tortas ótimas e um oratório dedicado ao alemão Bach. Bom, na parte térrea do oratório, a gente se senta e come. O oratório é um espaço destinado a concertos musicais (a gente ficou lá tentando adivinhar para que o espaço servia, além de abrigar mesinhas do quiosque); então, serve para apreciar concertos, mas a gente "usou" pra comer mesmo. A Caminhante nos contou que as ruas do bairro onde fica o bosque têm todas nomes de compositores, então o Bach não é o único homenageado do pedaço. Quando voltamos para o lugar onde tínhamos deixado nosso carro, vimos que tínhamos estacionado bem na rua Frederic Chopin, o atual campeão de audiência em nossa casa e queridinho da Caminhante também. Num tô dizendo que Curitiba é toda organizadinha? ;-)

No dia seguinte, levamos as crianças (as nossas e o filho da minha prima) para passear no Barigui. A temperatura subiu, passei calor e as crianças tomaram picolé como se verão fosse. Amanda fotografou cada passarinho, cachorro, florzinha, pato e capivara do parque, vão vendo. Ela diz que vai vender as fotos quando crescer. As de flor, acho, vão custar cinco reais. Façam suas reservas.






Depois de mais comilança e papos bons na casa da minha madrinha, demos uma breve circulada pelo centro da cidade e lá fomos nós para o meio do mato outra vez. Encerramos nossas andanças no lindo parque Tanguá. Não sei se ainda tem alguém aí lendo esse post imenso, mas, se tiver, saibam que o parque é bem bonito, animadinho (vimos vários grupos de "jovens" - ai, como me sinto velha escrevendo isso, mas enfim - tocando violão, andando de skate, batendo papo). Há algumas subidas e descidas, um túnel cavado num paredão de rocha (ex-pedreira? talvez) e um mirante que vale muito a visita. O parque me pareceu bem grandão, não acho que vimos tudo. Mas gostamos bem do pedaço que vimos. 

Fim de dia no mirante do Tanguá.

Curitiba verde.


E, claro, voltamos pra casa com um delicioso bolo de rolo. ;-) E voltamos por uma estrada linda, morrendo de pena de quem viajava em sentido contrário. Tanto na ida como na volta, vimos engarrafamentos impressionantes. Curitiba não deve ser um destino muito popular em feriados. Intriga da oposição, certamente.




  
 
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