Todos os dias


No filme La Vie d'une Autre, a personagem de Juliette Binoche, Marie, conhece Paul no dia em que completa 25 anos. Apaixona-se e, após uma noite de l'amour l'amour, acorda sem memória, quinze anos mais tarde. E aí descobre que tem um filho e que se casou com Paul, de quem está se divorciando, inclusive. O enredo maluquinho pareceu-me mais interessante ao perceber que, prestes a completar 41 anos, Marie perdera não somente a memória, mas todas as camadas de amargura e cansaço que aqueles quinze anos esquecidos haviam lhe acrescentado. Assim, ela é a mesma Marie que era aos 25 anos - leve, sorridente, ingênua - com um corpo de 41 e uma pilha de problemas práticos para resolver. E não sabe o que fazer para lidar com os pepinos acumulados ao longo de década e meia de muito trabalho. Por se sentir tão apaixonada como na noite de seus 25 anos, não entende o estado atual de seu casamento, aparentemente soterrado sob as pressões da rotina mecânica, devotada à produção e acúmulo de riqueza. Marie não faz ideia de como construiu o império financeiro que comanda, como passou a morar no luxuoso apartamento aos pés da Torre Eiffel, por que as pessoas a tratam com frieza e reverência. E, principalmente, não sabe como seu filho nasceu, como seu pai morreu, por que o homem carinhoso com quem dormira na noite passada a olha com amargura e rancor.

E aí? Acordasse eu agora, às vésperas de completar 41 anos, uma noite após meu aniversário de 25, quão distante me sentiria da vida que observo ao meu redor? É um exercício quase impossível; honestamente, não faço ideia. Mas o filme me fez pensar na leveza que perdemos à medida que os anos se acumulam. Por outro lado, talvez a história de Marie queira justamente nos dizer que não há sentenças definitivas. Afinal ela aposta no resgate das rédeas de sua vida. E talvez não haja mesmo. Eu mesma me sinto mais leve agora do que aos 25, sem sombra de dúvida. Mas há, claro, os sonhos que abandonei, os entusiasmos que perdi ou substituí, a profissão idealizada que não segui, o engajamento que abandonei, os livros que não li. Se hoje eu olhasse em meus olhos de 15 anos atrás, o que faria? Será que olharia com o mesmo espanto com que o marido de Marie a observa quando percebe que ela está mesmo desmemoriada, que voltou a ser a Marie que dança e balança o cabelo?  Aliás, é disso que mais gosto no filme: o olhar surpreso da criança, descobrindo que sua mãe sorri e faz piadas, e o do marido, perplexo diante da namorada entusiasmada que retorna. De minha parte, continuo balançando o cabelo, então não imagino o tamanho do espanto.

O filme é divertido e a reflexão proposta pode ser interessante. Ter a chance de selecionar que carga emocional queremos manter ao longo dos anos seria mesmo um luxo. Pena que o preço seja tão alto: esquecer é como não ter vivido. E o que somos, além da soma que fazemos dos nossos dias? 

To remember


Chego a sentir um carinho de amiga pelo Chopin. Fico torcendo em retrospectiva que ele tenha sido feliz em muitos momentos, em sua vida tão cheia de turbulências. Morro de pena que tenha morrido tão jovem e morro de rir quando leio que tinha medo de tocar em público. Apaixono-me cada dia mais. Vi A Song to Remember e me emocionei com sua turnê, já doente, para angariar fundos para a causa de seu povo perseguido na Polônia. E se me disserem que o filme não é fiel aos fatos, sigo comovida, afinal ele criou aquelas melodias, com ou sem turnê heroica.

Ligo o som e ouço. Vou dormir e fico tentando me lembrar. Dirijo ouvindo. Tento cantarolar no banho. Sonho com ela, Polonaise. Aqui, em gravação antiga, lindamente executada por Arthur Rubinstein, pra esse blog ficar mais quentinho. Enjoy.  



Arthur e a galera do Olimpo


Durante minha infância, havia em minha casa um livro com breves artigos sobre História e curiosidades diversas. "Curiosidades diversas" é o termo que uso para falar daquilo que não me lembro direito: talvez fosse uma mini-enciclopedia de único volume ou um dicionário ilustrado, não faço ideia. A capa dura era branca e azul, não me lembro do título, só me lembro que adorava folhear aquilo. Gostava das gravuras e das legendas, achava aquele livro muito "sabido". Uma das gravuras que costumava me hipnotizar era a de Hércules sustentando a Terra em seus ombros. Outro dia, no twitter, uma amiga ressaltou que quem segurava o Globo nos ombros era, na verdade, Atlas. Mas eu tinha certeza absoluta de que era Hércules, por causa das muitas horas que passei lendo o livro sabido. No fim, descobrimos que a função tinha sido atribuída a Atlas que, por sua vez, pediu uma forcinha ao Hércules. (Atlas, inclusive, tentou dar no pé, deixando Hércules pra trás com o mundo nas costas,  horror, horror! Mas não conseguiu e Hércules deu um jeito de devolver o grande pepino para que Atlas cumprisse seu castigo eterno de sustentar o mundo nos ombros. Depois fiquei sabendo que não se tratava do mundo, mas do firmamento. Seja como for, a representação comum é uma esfera; no livro sabido, a Terra.) 

Quando penso em mim, pequena, ajoelhada no chão e folhando o livro aberto sobre o sofá, acho que a figura de Hércules curvado pelo peso do planeta plano e chato, diferente da esfera dos livros da escola, sinalizava para mim as janelas da fantasia, dos mitos, do mundo infinito da imaginação humana.

Quando o livro Os Doze Trabalhos de Hércules chegou às minhas mãos, com suas ilustrações dos personagens do Sítio passeando pela Grécia antiga, foi como uma continuação do encantamento que aquela gravura do livro sabido produzia em mim (já falei dele aqui, no meme dos trinta livros). O livro de Lobato foi a porta de entrada para as graças da mitologia grega para muitas crianças brasileiras de minha geração. Para mim, ainda é a lembrança que primeiro me visita cada vez que os deuses e heróis da mitologia grega são referenciados no vasto mundo da literatura, da pintura, das artes em geral. É ver uma ninfa, um centauro ou qualquer alusão ao labirinto de Creta e, zás, lá vou eu de volta ao livro azul de Lobato (minha edição tinha capa azul). Mais tarde, é verdade, a primeira versão do filme Fúria de Titãs também passou a alimentar meu inventário de referências mitológicas, mas sempre como segundo momento, como resgate das experiências que o livro de Lobato já havia me dado.

Sem qualquer surpresa, quando meu filho começou a ler, fui logo pensando no momento em que eu colocaria Os Doze Trabalhos em suas mãos também. O momento chegou, fui à livraria, procurei por longos minutos e encontrei, em edição grande e colorida, agora com capa amarela, meu querido tesouro de mitos e deuses impossíveis. Foi quase com ansiedade que presenteei o Arthur. Alguns dias depois, ele me chamou para me "dizer uma coisa". Com tato e um tanto constrangido, confessou:

- Sabe o que é, mãe? Eu... não gostei muito desse livro.

Então eu lhe disse para deixá-lo de lado, parar de ler e ir fazer outra coisa, ora. Que é isso mesmo, nem sempre as pessoas de que gostamos têm os mesmos gostos que nós, e isso não precisa ser um problema. Em meu íntimo, fiquei me perguntando se o livro de Lobato estaria tão datado que não fosse mais capaz de tocar as crianças da geração de meus filhos. No entanto, como ele já havia lido com entusiasmo A Chave do Tamanho, também de Lobato, não encontrei a resposta. Ele voltou ao Harry Potter, não pensei mais no assunto.

Até que, no início deste mês, um amigo deu ao Arthur O Ladrão de Raios, do escritor americano Rick Riordan (Ed. Intrínseca, tradução de Ricardo Gouveia). Pronto. Arthur agora está às voltas com Hermes, ciclopes, Thalia, Hera; e, do seu jeito, vai se familiarizando com o povo todo lá do Olimpo. Mal terminou o primeiro livro, enfiou a cara no segundo volume, O Mar de Monstros, este devorado em dois dias. Ontem, na feira de livros da escola, compramos para ele o terceiro volume, A Maldição do Titã. Enquanto isso, Harry Potter, lido somente até o segundo volume, segue esperando na prateleira, esperançoso.




No carro nossas conversas giram e, aqui e ali, voltam às lendas e mitos dos deuses gregos. Contei a ele sobre Odisseus e Penélope, e ele achou muita graça da esperteza dela em desmanchar à noite a colcha que tecia durante o dia; falei da carruagem de Apolo, uma de minhas imagens favoritas nesse papo todo. E hoje lhe falei de Atlas e Hércules, pensando no meu antigo livro sabido. Enquanto falava, pensava em como eu não sabia do tanto que aquela imagem alimentaria minhas caraminholas e do quanto eu viria a gostar de falar dela com o filho que teria um dia.

Então assim é, pelo Sítio ou por Nova Iorque, todos os caminhos parecem levar ao Olimpo. De quebra, Arthur vai vendo como homens e mulheres de cada tempo histórico se relacionam com a ideia da existência de divindades, e como essas ideias se transformam na medida em que transformamos o mundo e assistimos às mudanças que não conseguimos dominar. E assim, achando graça das manias dos deuses e torcendo pelo herói do livro, Arthur conhece algumas das histórias que influenciaram tantas áreas na cultura ocidental. Como eu na época em que lia Os Doze Trabalhos, ele ainda não tem ideia do alcance da herança grega para nossas artes, nossos nomes, nosso mundo. É tudo meio confuso, meio mágico, engraçado. Acho mitologia a cara da infância. A menina que sou ainda adora e está se esbaldando no assunto com o menino que ensina coisas incríveis a ela todos os dias. 

Os pés descalços e a claraboia


Meu filho gosta de andar descalço. Os chinelos da minha menina também vivem abandonados pela casa. Eu sei o que é, porque me lembro. Não estou bem certa se consigo descrever, mas acho que tem a ver com certa sensação de fluidez. Como se a nudez dos pés nos deixasse mais leves, mais rápidos, mais serelepes. Eles sobem a escada descalços e com os mesmo pés nus escalam o armário do quarto para buscar o jogo lá em cima; as solas empoeiradas carimbam o lençol, a minha roupa, o forro da cadeira. Nos finais de semana em que a preguiça vence, eles passam assim o dia inteiro, experimentando as texturas dos solos de nossa casa em seus pés, enquanto espalham o furacão de suas presenças. 

Não sei bem em que momento eu, outrora tão adepta dos pés descalços, tornei-me a carrasca da encheção de saco, autora do mantra-mor do inverno: "calça o chinelo ou põe um sapameia". Uso narizes entupidos ou espirros esporádicos como desculpa, mas cada vez que falo é como uma traição. Eu sei como é bom. Combina com eles, com os cabelos despenteados, os dentes escovados às pressas, o brinquedo negligenciado pelo gibi, o gibi esquecido embaixo do sofá por causa do videogame, o videogame desligado por causa do lego, o lego faltando peças. Os pés descalços, a vida começando, a infância solta, a casa clara, os sons, o farelo de bolo no bolso. Aqui na vida adulta não dou mais conta do chão gelado nesse maio que não decidiu se é outono, meio verão tardio, um inverno que não sabe se vem. A cerâmica fria é só uma cerâmica fria ou um prenúncio de rabugice? Não sei. Sei que já fui como eles, descalça. 

***

O piano ocupa um espaço muito grande. O cantinho na parede, que agora nem consigo imaginar sem ele, serve-lhe muito bem na largura, na altura, no jogo de cores, no que for. O espaço que ele ocupa, no entanto, vai além da parede, do canto, da janela de vidro que o ilumina. O piano encheu a casa inteira. 

Desde que fui levada a interromper a prática de yoga por causa das alterações nos horários das aulas, venho me cobrando a retomada de alguma atividade física que me impeça de virar uma pessoa definitivamente sedentária. Recentemente, passei a fazer caminhadas no final do dia, seguindo a pé do trabalho para a escola das crianças (o google maps me diz que são 8km, mas acho que é menos que isso - essa sou eu, achando que sei calcular distâncias e que o google maps não tá com nada), numa tentativa de remediar o que ainda não pode ser do jeito que eu gostaria (nada me satisfaz como a yoga). O piano, sinto, tende a agravar o quadro. Não quero andar, não quero nadar, não quero jogar. Quero ficar ali, entregue, a alma descalça como os pés das crianças. 

***

Há coisas por fazer. E há mudanças no trabalho, decisões a tomar, idas e vindas para programar. E há os dias nublados, os pensamentos mais melancólicos que a saudade guarda na manga e saca quando menos esperamos, seja porque o filme tinha aquela atriz de quem ela gostava, seja porque decidi o usar no pescoço o lenço que era dela. Para esses dias, há os pés descalços deles, ligeiros, marcando a casa inteira. E, desconfio, em dias escuros de verdade, o piano pode ser uma claraboia - que a alma sempre tem seus lugares de sol, e a música costuma saber o caminho.

Quem vai querer tocar na banda?*


*Pegunta o Chico, em Saltimbancos.

Passamos as últimas semanas contando os dias. A entrega estava prevista para quinta-feira da semana passada, mas foi preciso se conformar com o atraso. Ontem, no final da tarde, nossa espera acabou. Foi um fuzuê. Recebemos com muita alegria nosso Clavinova e agora nossa sala tem um brinquedão. 

Desde que Arthur e eu começamos a estudar piano, no ano passado, vínhamos treinando em um teclado. Tudo funcionava muito bem, levando-se em conta o nível iniciante dos alunos. Mas foi só avançar um pouquinho (bem pouquinho mesmo) nas aulas para a diferença no peso das teclas começar a interferir no rendimento da prática. Passou a ser comum, por exemplo, eu conseguir executar um exercício com facilidade no teclado, mas ser incapaz de reproduzi-lo no piano da escola de música. As teclas muito mais leves do teclado me davam a falsa sensação de bom desempenho; e as aulas, consequentemente, tinham o rendimento limitado. Agora não tenho mais desculpa e vou precisar enrolar a professora de outro jeito. ;-)

E, ah, quanta diferença! Além da vantagem do peso das teclas, o som do teclado agora me parece aberto demais, metálico demais, enquanto o do piano me parece perfeito. Só falta aprender a tocar. A princípio, cogitamos comprar um piano acústico, então pesquisamos aqui e ali, perguntamos a um e a outro. Vários fatores definiram nossa escolha, e devo dizer que estou muito satisfeita com a opção por um Clavinova. Acho que saio ganhando ao unir o som de um acústico às facilidades de um instrumento digital. Por exemplo, boa parte de minha prática se dá à noite, depois que a casa dorme. O piano digital me permite estudar com fones de ouvido. Fosse um acústico, a família me amarraria ao pé da cama todas as noites.

A diversão já começou. Arthur enche a casa com suas melodias dim-dom-dom de aluno iniciante, muito fofo. E Amanda executa 890 vezes por hora a única minimelodia que o irmão lhe ensinou no ano passado. Eu aplaudo, claro. Ulisses, que estudou piano quando era criança, também anda rondando as teclas e, aposto, logo vai voltar a tocar também.

Ninguém sabe nada sobre o amanhã; tudo sempre pode acontecer e é possível que a música nem ocupe muito espaço na vida de nossos filhos, como saber? Seja como for, o agora, a parte da vida da qual podemos cuidar melhor, está muito mais rica e colorida com a presença de notas e claves ao nosso redor. E eles se esbaldam daquele jeito que as crianças fazem as coisas de que gostam: com entusiasmo e alvoroço, disputando pra ver quem toca mais tempo e adiando a hora do banho com "só mais uma música". Tentei acalmá-los, argumentando que o piano veio pra ficar e não há pressa. Mas quem estou tentando enganar? Hoje me atrasei  toda.



Odisseia


Nos dias em que vejo escancaradas minhas piores falhas, sinto-me triste e pesada. Não é que eu não saiba que elas estão em mim, todos os dias. É só que é muito fácil, na maior parte do tempo, seguir em frente sem prestar muita atenção a elas. Nos dias em que olho para o espelho de meus atos e de minhas palavras e vejo que minhas intenções não bastam, aí sim, sinto-me pequena. É fácil desejar coisas, qualquer um consegue. Mais fácil ainda lamentar obstáculos, somos todos muito versados nessa prática tão... humana? Que seja.

Tenho uma sorte incrível e isso é uma dos fatores responsáveis por meu ceticismo: fosse o mundo gerenciado por um deus moral e bom, não existiria o fator sorte. Bem sei  que não fiz por merecer muitas das coisas e companhias incríveis que me cercam. Não são recompensas por minha devoção ou resultados de conduta exemplar e desapegada. Nada disso. Nunca rezei pelas coisas boas que me chegam. Algumas eu planto, mas outras me são trazidas pela sorte. Nesse mundo tão injusto e confuso, minha vida fácil não deixa espaços em mim para acreditar em um deus que me privilegia dessa forma. E se eu acreditasse, morreria de vergonha, verdade seja dita: agradecer seria o reconhecimento da regalia diante da dor do outro. Então penso que o mundo é injusto porque é injusto e a nau está à deriva; o mundo é lindo, também, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra, e isso é outra história. Do alto de meus privilégios de pessoa saudável, para ficar em apenas um exemplo, olho o mundo com um misto de encantamento e espanto.

Naqueles dias em que as falhas me jogam na cara meu egoísmo e meu comodismo, é ela, a sorte, que me mostra como aquele passeio casual no caminho da biblioteca da universidade mudou minha vida de maneira irrevogável. Olho para meu lado e vejo você. De tanto repetir,  eu sei, parece um mantra, uma oração. Oremos: aprendo com você todos os dias. 

Só que hoje eu queria mais. Hoje eu queria merecer. E eu queria que você soubesse que sei de minhas falhas e que não gosto delas (também sei de meus acertos, acho esses bem legais). E que mesmo que o espelho às vezes insista em me dizer que bons pensamentos não bastam, saiba que continuo apegada a eles. E ainda que as palavras sejam erros, eu preciso delas. Aqui vão algumas que, espero, reflitam um pouco da maior verdade que conheço em minha vida: com você, sempre, pro que der e vier. Em qualquer nau. 

Prioridades


A biblioteca da minha escola era linda. Antigona, com ares de lugar sagrado. Tinha mesas imensas com um silêncio quase absoluto pairando sobre elas. Apenas o farfalhar de alguma página sendo virada ou um espirro intrometido faziam-se ouvir de vez em quando. Não conversávamos; no máximo, cochichávamos beeem baixinho. A bibliotecária era uma freira alemã já de certa idade, com sorriso fácil e uma carinha de silêncio. Andava devagar entre as estantes e sussurrava coisas que eu não entendia muito bem. Sei que um dia, sem falar muito, ela nos deu chocolates alemães maravilhosos. Eu entendi essa parte. 

A biblioteca da minha escola era um templo.

Eu entrava no templo, olhava para cima para ver o teto, as estantes; observava as grandes mesas de estudo; sorria para a freira; respirava feliz me achando muito sortuda. Aí ia até minha estante preferida e pegava um livro da coleção Sabrina. ;-)

Livros fast food, quem nunca? O burburinho em torno do novo livro do Dan Brown já chegou aos meus ouvidos e certamente vou ler com vontade. Mesmo depois da canseira que foi Símbolo Perdido, Brown vai ser sempre o cara que nos deu o Código da Vinci (digam o que quiserem, achei divertidíssimo), então a gente insiste e lê outro, certo? Florença? Divina Comédia? Tamos aí. Tomara que ele tenha usado bem a fórmula "homem culto e bem vestido + moça sabida e viajada = fugas mirabolantes em meio a mistérios incríveis e antigos". Vou reviver minhas visitas ao templo sagrado das Sabrinas, entrar numa livraria cheia de clássicos e livrões que não li e pegar meu Dan Brown. Quem nunca?

***

Enquanto isso, na sala de justiça, sigo lendo o quarto volume das Crônicas de Gelo e Fogo. Realmente, o ritmo da narrativa não se equipara à do terceiro volume. No entanto, como eu já havia sido alertada sobre essa disparidade, não criei grandes expectativas e, honestamente, não estou achando ruim. Mais lento, menos emocionante, banho-maria. Ruim, não. A terceira temporada da série, por sua vez, está eletrizante. Em tempo: odeio cenas de tortura e dispensaria todas as sequências em que elas aparecem. Fora isso, só alegria e boas expectativas.


As bonecas


No meu aniversário de cinco anos, ganhei de presente uma boneca negra. Era de plástico, feita em uma única peça, portanto desprovida de articulações. O cabelo se resumia a elevações no plástico da cabeça que, por sua vez, era chata como uma bolacha redonda. Eu adorei a boneca. E me lembro, sem muitos detalhes, que minha mãe me pediu para que me sentasse junto aos presentes e tirasse uma foto. Obedeci, escolhendo a boneca recém-ganhada para segurar em meu colo. As fotografias de aniversário (uma tradição que minha mãe manteve até meus 15 anos, houvesse ou não festinha de comemoração - e normalmente não havia) eram tiradas por um fotógrafo contratado e não havia muitas chances. Era preciso fazer pose e caprichar, não se mexer, para que a foto a ser revelada ficasse aproveitável, algo impensável para as gerações das máquinas digitais. Acreditem em mim quando digo que uma fotografia era quase um evento. E minha boneca estava lá, eleita em meu colo.


Não sei, sinceramente, que peso isso teve pra mim, uma garota branca, no que se refere à minha visão de mundo no quesito racismo. Não sei mesmo. Acho que teve pouca influência, posto que amigas e colegas negras fizeram parte de minha realidade de menina criada no  colorido interior do Nordeste brasileiro. Ao longo da vida, tive professores, conhecidos, amigos e colegas negros. Então, talvez, a boneca tenha sido apenas uma boneca a mais. Ainda assim, eu me pergunto que papel têm as bonecas negras para as crianças negras. Eu não tenho resposta para essa pergunta, não sei como uma criança negra elabora a onipresença das bonecas brancas e amarelas nas prateleiras das lojas de brinquedos. De cá do meu cantinho de quem faz perguntas, acho cruel. Sem respostas, é uma sensação mesmo. A verdade é que não faço ideia do alcance que uma boneca vem a ter na maneira como uma criança ensaia e elabora suas relações com seu meio. O que não impede que o tom monocromático das prateleiras das lojas de bonecas me incomode.

Minha filha não é lá grande fã de bonecas. Até brinca, eventualmente, mas só até o primeiro bichinho fofinho atrair seu olhar. A seção de bonecas também não costuma ser a que visito primeiro quando penso em comprar um presente pra ela, apesar de já ter, também eventualmente, comprado-lhe uma ou outra boneca. Já comprei outras para amigas dela e, em todas esses eventuais passeios pelos corredores das lojas, não me lembro de ter visto uma boneca negra sequer. É possível que tenha visto, mas não me lembro. Acontece que minha cunhada veio passar o final de semana com minha sogra e trouxe para Amanda uma boneca fofa, grandona, boa de abraçar, de pano e negra. Amanda gostou. Eu adorei. Vou pegar pra mim, vão vendo. De novo, não sei que significado ela terá para Amanda; se, para ela, a boneca recém-chegada tem alguma simbologia diferente de suas Barbies ou outras bonecas brancas e amarelas. Não sei, só faço perguntas. Mas gostei demais. Diferente de minha infância, o universo social de minha filha é composto quase que exclusivamente por crianças consideradas brancas - e eu não sei o que isso representará para suas construções sociais e elaborações reflexivas sobre a organização do mundo em que ela vive. É claro que uma boneca não tem o poder que teria, por exemplo, a presença de crianças negras em uma escola particular em igual proporção a crianças brancas. Etc. No entanto, uma boneca, até onde entendo, propõe-se a representar ludicamente a forma humana, então quanto mais coloridas, melhor. 

É possível que se chame Lotta, a amiga da Lola no fofíssimo seriado infantil Charlie & LolaLotta foi feita por presidiárias de João Pessoa, num projeto apoiado pela comunidade religiosa que minha cunhada frequenta. Agrada-me saber que ela representa uma tentativa de ressocialização e inclusão social, de descoberta de talentos e habilidades, de possíveis ressignificações pessoais. Agradou-me revirar as fotos antigas para mostrar a minha cunhada e a Amanda a primeira foto deste post. Desagrada-me, contudo, o fato de que uma boneca negra ainda tenha tanto significado para mim. Estivéssemos nós em outro mundo, isso sequer seria assunto. Mas vamos em frente, de boneca nova.


Estações


Quando ficava em pé na calçada do outro lado da rua, com as costas apoiadas na parede da casa rosa, muito antiga, não era exatamente por opção. Ela o fazia por necessidade. É que se não ficasse ali depois da aula, em pé na calçada, não conseguiria sequer fazer a lição de casa. Para que o mundo funcionasse direito, era necessário ficar ali todos os dias, por dez ou quinze minutos. Os dias sem vento eram os melhores, mas isso foi só no início do ano. Até meados de abril, importava saber se o vento levantaria a poeira da rua e arrancaria as folhas secas das castanholas do canteiro grande. Se o vento se animava, era preciso segurar a saia do uniforme contra os joelhos magros. Porém, se o dia era morno e o ar era calmo, podia abraçar os livros contra o peito e se concentrar inteiramente em fingir que olhava a rua. Então os dias sem vento eram melhores, o coração podia quase parar de bater em paz, a saia quieta. Só até abril.

Depois que o ano avançou, o inverno veio e passou, que as chuvas de julho lavaram a rua e as férias quase a feriram de morte, depois de tudo isso, ela já nem se lembrava da saia. A essas alturas, o vento era seu amigo e confidente, aquele que, nos dias de mais sorte, lançava-lhe uma mecha do cabelo castanho sobre seu rosto corado, bem na hora h. Tudo que ela precisava fazer era ficar ali, em pé na calçada, no meio da gritaria dos demais alunos que corriam para pegar o ônibus, as costas apoiadas na parede rosa da casa antiga, a timidez expressa no rosto camuflada sob o cabelo, esperando. Abraçada aos livros, coração aos batuques, esperava até ele passar. Depois ia embora, com fome, pronta para contar as horas que a separavam das aulas do dia seguinte.

Quando ele se deu conta, já era setembro e havia violetas roxas na janela da casa rosa. Não foi o fim nem o começo. Ela conseguiu afastar a mecha do rosto, antes que a própria timidez dele o impedisse de dizer qualquer coisa além de um inexpressivo oi. Ele seguiu seu caminho. Ela ficou olhando, o mundo em câmera lenta. E muitos outros dias vieram.

Anos depois, depois de tudo e tanto, enquanto esperavam o metrô, ele disse que já tinha percebido antes, talvez naquele junho. Ela, que tinha um olhar antigo, já tendo conhecido outras esperas próprias e outras esperas dele, sorriu muito tranquila e disse que tinha sido um grande desperdício de tempo. Quando ele perguntou "A sua espera? Ou eu não ter falado com você antes?", ela sorriu sem esperança e despediu-se com um olhar. Sem fome ou pressa, tomou o caminho da rua. Tinha um encontro com o velho amigo vento, que a recebeu na calçada  assanhando seus cabelos e brincando com seu vestido. Ele ficou sem resposta, com as costas apoiadas na parede rosa da estação, esperando.

Dos desenhos que a gente faz


Vamos imaginar que nós dois temos o poder de desenhar um mundo sob medida para hoje. Eu teria um pedido sobre esse desenho: que o mundo fosse povoado por aqueles bonecos-palito que você faz. Gosto deles porque, mesmo sendo bonecos-palito, você consegue torná-los expressivos e engraçados. Como uma representação de pedacinhos da vida: às vezes, coisas simples são incríveis.

Ingredientes do mundo que desenharíamos juntos para hoje:

- manga picadinha no almoço;
- couve-flor, ao invés de brócolis, o fim de uma era;
- uma piscina cheia de amigos;
- uma parque cheio de amigos;
- videogames;
- música, o dia inteiro;
- dança;
- pipoca;
- cinema;
- pilhas de papel para desenhos e planos; e plantas de casa; e projetos de cadeiras com botões de ejetar que nos empurram através de um tobogã com muitas voltas e nos levam à mesa na hora da comida;







- morros para escalar;
- um mundo sem banhos;
- e com dentes que não precisam ser escovados, mas que estejam sempre limpos;
- roupas que se dobram sozinhas;
- camas que se arrumam sozinhas;
- brinquedos que se guardam sozinhos;
- panquecas;
- lasanha do papai;
- suco de cajarola (cajá e acerola);
- aulas no pátio, todas;
- uma biblioteca com estantes que vão até o teto cheias de livros bacanas e gibis irados;
- uma flauta;
- um piano;
- tênis que não fazem calo;
- Nat Geo;



- passagens para lugares legais;
- histórias na hora de dormir;
- filmes na hora de dormir;
- gibis na hora de dormir;
- um copo d'água na hora de dormir;
- qualquer coisa que adie a hora de dormir;
- sua irmã;



- aniversários semanais;
- uma mãe que sempre diz "claro que pode ir a casa do amigo hoje" e "vamos chamar todos os seus amigos para nos visitar hoje";
 - o seu pai, do mesmo jeitinho, sem tirar nem pôr.





E fica combinado que no nosso mundo desenhado todo mundo pode falar alto.

Nosso desenho fica numa folha de papel infinita, podemos acrescentar o que nos der na telha. Vamos imaginar que sua irmã vai deixá-lo colorido, daquele jeito que ela faz. É possível que ela use glitter. 

Mas nem precisaria. Do glitter. Nossa rotina já tem esse brilho que vem dessa sua carinha. Gosto do seu entusiasmo e da sua curiosidade, e entendo a falta de paciência nesse mundo cheio de regras. Vê-lo crescer é também vê-lo aprender a lidar com elas e acho que você está indo muito bem.

Não sei bem como é o tempo no nosso desenho. Às vezes eu queria um botão, daqueles de repetir músicas. Você, de novo, no meu colo, cheio de dobrinhas. Ou você, só mais uma vez, falando supemenecado, ao invés de supermercado. Dar mais um banho na banheirinha branca, mais uma colherada de banana amassadinha, ver de novo o momento em que nadou pela primeira vez. Outras vezes, não. Quero o tempo parado agora, como está. A fase atual é quase inebriante, tanta descoberta, tanta troca, tanta música - nunca vou me esquecer, Arthur. Até nos momentos em que você erra o passo e sai da linha, existe a troca que vem depois: a gente conversa e vejo em seus olhos o menino que cresce do jeitinho que é pra ser, com riscos, ensaios e descobertas. Tenho muito orgulho de fazer parte de sua caminhada, meu amor.

Mas a coisa de que gosto mesmo é quando a gente se abraça e faz jurinhas de amor. E você, pra quebrar o clima, fala com voz de quem tá sendo espremido: "posso respirar?". Hum, engraçadinho.  

Te amo um tanto grande, meu filho. Quero muito que seu aniversário de OITO anos seja um dia pra você guardar em sua memória e em seu coração. Prometo abraçá-lo bastante - não adianta pedir pra respirar, dê seu jeito. 

Sabe o que eu acho? Que o futuro não está lá na frente, esperando por nós. Somos nós que vamos construí-lo, à medida que caminhamos, então o bom mesmo é prestar atenção em cada passo. Pode parecer doido, mas no fundo é uma ideia bem legal. Claro que nem tudo depende de nós, mas sempre podemos contribuir com o desenho. Isso não significa que a gente não possa tentar dar uma espiadinha de vez em quando, uma espiada em forma de sonho. Torço que você sonhe sempre; talvez essa seja a parte mais bacana do desenho. Tomara que você sempre veja, entre uma coisa legal e outra, uma paisagem infinita, cheia de folhas em branco para você preencher com simplicidade, graça e amor. Te amo, Arthur. 




 Feliz aniversário, seu lindo! 


Vai começar


Havia um único cinema na cidade onde passei minha infância. Ficava bem no centro da cidade, onde hoje existe uma agência bancária. Foram lá as primeiras sessões escurinhas de minha vida - e não se falava "que filme vamos ver?", mas "já viu o filme?". Eu tinha cerca de 12 anos quando o Cine São José fechou suas portas.

Não sei se havia sessão todos os dias, mas me lembro da euforia sempre que estreava o inevitável filme anual dos Trapalhões. A sala lotava, o barulho antes do início era ensurdecedor. Hoje fico imaginando como deveria ser minha cara de espantada diante daquele programa tão, mas tão legal. Conseguir um disputadíssimo lugar, ou mesmo se sentar no chão e abraçar os joelhos, espichar o pescoço um pouco pra frente e entrar para o seleto clube lotado das crianças felizes da semana, tudo era um pouco como viajar de férias, como botar os pés para fora do mundo, um pouquinho só.

Eu me lembro de ver Bernardo e Bianca com minha mãe, numa matinê de domingo. Em uma cena pastelão qualquer de um dos muitos filmes dos Trapalhões, lembro-me do alvoroço causado pelo momento em que a criançada via, às gargalhadas de muitos decibéis, ó céus, o bumbum branco de Didi Mocó. No entanto, não é um filme dos Trapalhões ou um desenho animado com ratos fofinhos que primeiro visita minha memória quando penso no Cine São José. É um filme estrangeiro, com pano de fundo religioso e momentos dramáticos, que me impressionou e ficou em mim como algo grandioso e um tanto sombrio. Acho que vi Marcelino Pão e Vinho mais de uma vez, porque me lembro de falar sobre o filme e de vê-lo depois de minha fala, conferindo se tinha contado a história direito. O filme, xodó no coração de minha mãe, contava a história de um garoto órfão que vivia em um mosteiro. Devo ter relatado a umas mil pessoas (ou dez, porque eu certamente não conhecia mil pessoas) a incrível cena em que a grande mão da imagem de Jesus se desprendia da cruz para acolher Marcelino. A grande mão tomando quase toda a tela. Fecho os olhos e vejo de novo. E me vejo, do lado direito da sala, boquiaberta, cabelos arrepiados, olhos arregalados. Uau. Era a cena.

Depois que o cine São José fechou suas portas, em meados da década de oitenta, acostumei-me a morar em uma cidade sem cinema. Era um lugar pequeno, então o kit praça-igreja-padaria-clube me parecia ser o modelo-padrão. Cinema não era assunto, não era programa, não existia, virou história ou parte da programação nas viagens de férias. Assim, durante boa parte de minha infância e adolescência, os filmes da vez eram vistos quase todos na sala de casa, de acordo com os humores da TV aberta. Havia os festivais de cinema nacional, os enlatados estadunidenses, os filmes de Jerry Lewis nas tardes de domingo, os  lançamentos do cinema da safra do ano anterior, os grandes campeões de uma bilheteria para a qual eu não contribuía. Nas férias havia a Sessão da Tarde, os filmes bíblicos (eu adorava a cena de Moisés abrindo o Mar Vermelho, vibrava toda vez), os mesmos Trapalhões do cinema lotado.

Eu não via o charme daquele cinema à moda antiga, com bilheteria na calçada, em uma pequena cidade do interior nordestino; eu não via muitas coisas, sequer me dava conta do manto escuro da ditadura sobre nós. Mas sei que senti uma peninha quando o cinema, que eu nem frequentava mais (os filmes infantis em cartaz foram ficando cada vez mais raros, não sei por que razão), encerrou suas sessões. Antes de ser demolido, ainda ficou ali, cenário somente, enquanto a gente ensaiava nossas próprias cenas reais, indo e vindo pelas calçadas. Depois sumiu e deu lugar a um banco sem qualquer imaginação.

Nunca houve outro.

O cinema da infância de meus filhos tem várias salas de poltronas confortáveis, som de qualidade, assento marcado. É tudo tão diferente. E tão igual. Tem os cheiros de que vão se lembrar, os filmes da categoria "vi com minha mãe", as gargalhadas, as sessões atrasadas (ainda), as cenas que grudam na memória como chiclete na cadeira. Eu conduzia minha cabeça de vento pela calçada, passos apressados para não perder o início (vai que a sessão não atrasa, né); eles chegam pela escada rolante e então seguem com passos igualmente apressados. Nas cabecinhas de vento deles, a mesma expectativa, a mesma alegria pelo passeio, a mesma certeza de que, daqui a pouco, quando apagarem as luzes, vai começar. Vai começar. Shhh! 
 
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