No sítio do Biriba


Os pais de um coleguinha da Amanda convidaram a turma para uma visita ao sítio dos avós. Todo mundo se assanhou diante da ideia de passar um dia no meio do mato e soltar a criançada pra correr e gritar sem (muitos) limites. Algumas almas boas se encarregaram de comprar e preparar a comida, e cada família levou uma sobremesa mais gostosa que a outra. As crianças levaram a energia inesgotável delas, e o clima contribuiu com um sábado de sol sob medida. Ou seja, a vida hoje tava boa. 

Seguimos o mapa cedido pelos anfitriões e deixamos Floripa rumo ao interior do interior do interior do interior do Estado. Depois de seguiiiiiir pelo trecho asfaltado do caminho, pegamos 15 quilômetros de uma estrada de chão cercada de mata e morros, numa combinação capaz de inspirar qualquer Monet.
  
Foto torta feita com o celular. 


Depois foi só chegar e soltar as crianças. Havia muito para ver, muita corda para pular, bola para chutar e muita conversa pra jogarmos fora. Ao nosso redor, um sábado.





Enquanto todos exploravam um pouco o ambiente, alguém convocou "vamos ver os bichos?"; o que se seguiu foi:


Na porteira do porquinho ou dos cabritinhos, pose para a posteridade.





Observem que, na foto acima, o Arthur (de camisa vermelha listrada) jã não presta muita atenção às câmeras. É que ele estava observando o morro que se ergue ao lado do cercado. Diante da ideia de escalar até o topo, fui categórica: "nananinaninanão, pode descer." Pois bem, ele atendeu prontamente, enquanto o amigo subia pela tangente. Ou seja... fui voto vencido (eu mesma votei contra, momentos depois porque, né, vamos combinar!) e seguiu-se o bonde dos exploradores. Vários deles subiram e desceram o morro umas cinquenta vezes, como se estivessem no Beach Park e o morro fosse um imenso tobogã. Não teve pra ninguém: bola, bambolê ou cachorro; a estrela do dia foi o morro ralador de joelhos e rasgador de fundilhos.

O pontinho vermelho lá no topo do morro é o Arthur. Um ponto verde-claro a seu lado é o amigo da tangente. O restante da tropa seguiu o bonde.

Amanda, ligeiramente satisfeita com a vida; ao fundo, fora de foco, lááá em cima, Arthur e um amigo, na 59ª subida.

Vem, mãe!

125ª subida do menino-aranha.


Talvez o pônei tenha ameaçado a soberania do morro por alguns momentos, justiça seja feita. De repente, havia fila por todos os lados.


Para andar de pônei.


Para... ovelhar, acho.

E, claro, para chegar ao topo.


Todas as filas valiam a pena (não consultei nenhuma ovelha, é verdade); e não sei do que gosto mais, se da carinha de alegria da Amanda ou da carinha de satisfeita da amiga que guiava o pônei.


Para coroar o dia, fiquei encantada com Biriba, o border collie mais doce do mundo. Enquanto algumas crianças subiam, outras desciam, uns pulavam e outros caíam, vi uns cavalos correndo soltos ao redor do sítio. Corriam pra lá e pra cá, dando voltas e, aos poucos, tomando o rumo de suas baias. Curiosa, olhei em volta, procurando o responsável por aquela correria, quem estaria guiando os cavalos. E era Biriba, pontual em sua tarefa, todo responsável e trabalhador. A mãe do colega da Amanda me contou que, primeiro, Biriba recolhe os cavalos e, depois, cuida das ovelhas, todos os dias. Todo organizado, o lindo. Doce, carinhoso, fã de cafuné, Biriba derreteu meu coração.


E assim, de coração quentinho, barriga cheia e com crianças imundas, pegamos novamente as curvas de terra e voltamos pra casa, imensamente gratos pelos dia de férias que nossas crianças tiveram.




A birra, a colcha e o mundo


A morte do GReader me deixou um pouco fora do ar. Ainda não parei para providenciar outro reader que me permita seguir de perto o rastro de meus sites favoritos, e há tempos não atualizo a lista de blogs na barra lateral deste bloguito. Ou seja, não tô sabendo de muita coisa (incrível como alguns dias longe da blogosfera me deixam com a sensação de estar perdendo os melhores lances do jogo; mas é que há outros jogos, também). 

***

Tenho tido dias de muita leitura offline. Li outro dia em um blog, cujo nome não me lembro, uma mãe fazendo uma lista de conselhos para sua filha. Um deles dizia algo como "ler pode mudar sua vida". Pois então.

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Há muito tempo não traduzo pra valer. Mas eu me lembro de que gosto muito do babado. Tenho pensado sobre, lido sobre, conversado sobre isso. Sobre a entrega que a prática demanda, sobre a alegria de ver um texto nascer a partir de outro - e dos equívocos que rondam a prática de tradução e transformam a rotina de tradutores profissionais em uma montanha russa de prazos absurdos e remunerações injustas. Mas, ah, ando com tantas saudades. Ninguém perguntou, eu sei.

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Na próxima sexta-feira fará um ano que minha Tia Maria morreu. Desde a semana passada me pego pensando que há um ano ela viveu suas últimas semanas, seus últimos dias. Ela tinha 82 anos e um grave problema cardíaco; ainda assim, não a imagino pensando na iminência da morte. Imagino que ela acordou, dia após dia, tomou seus remédios, comeu o que não podia, porque era o que ela fazia, viu seus programas favoritos na TV, rezou e fez muitas palavras cruzadas. E um dia ela não viu a noite chegar. Mas a noite chegou, mesmo assim. E, visto assim, desse ângulo, o mundo parece imenso e nós, minúsculos.

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Quando eu tinha 14 anos, passei umas semanas sem falar com minha tia. Eu tinha ficado muto brava porque ela tinha me proibido de fazer algo que eu queria e me vinguei com o silêncio.  Birra de adolescente pode durar semanas, meses, anos. A minha durou o suficiente para a raiva passar e eu nem me lembrar mais do motivo por trás dela. Mas adolescente que se preza espicha a birra e fiquei lá, de mal. Enfim, enquanto eu perdia meu tempo ficando brava, ela sabia que cedo ou tarde aquilo passaria e se dedicou, por semanas, a fazer um presente pra mim. Eu sei que ela não quis comprar meu perdão, porque ela sabia que não precisava disso e nós duas sabíamos que ela já tinha falado que me faria um presente. Mas, depois da birra, eu apaguei aquele papo da cabeça. Certo dia, quando eu ainda fazia bico cada vez que minha mãe me perguntava quando, afinal, eu voltaria a falar com Tia Maria, eis que ela me aparece com o presente. Ela costurou uma colcha de cama, duas almofadas e duas enormes cortinas para o meu quarto. Eu faria quinze anos em breve e essa seria a decoração que tiraria os ares de infância de meu quarto (ou assim achava eu). Aceitei o presente constrangida, por causa da birra. No dia seguinte, dei o abraço devido e me aninhei nele por bons minutos. Nós duas sabíamos que aquele abraço viria em breve, de um jeito ou de outro, mas foi tão bom do jeito que foi: as peças que ela costurou eram lindas, eu amei as cores, o padrão do tecido, tudo; e ficamos um tempo conversando sobre a escolha dos tecidos, os detalhes da colcha, o formato das almofadas. O assunto rendeu um monte de pretexto para a gente ficar de papo e matar as saudades. As cortinas, a colcha e as almofadas fizeram parte de minha vida por muitos anos, até eu deixar a casa de minha mãe e me mudar para a cidade onde faria faculdade. E, de certa forma, ainda decoram minha história. O amor tem tantas formas de tatuar nossa memória, não é? E visto assim, desse ângulo, o mundo parece imenso e nós, maiores ainda. Eu tive uma tia que costurou uma colcha pra mim. 


Aumenta um pouquinho


A música invadiu minha casa de vez. Desde a chegada dos livros de música clássica das crianças, uma onda musical se apoderou de nós. O Ulisses, que já andava às voltas com a organização de nosso acervo de CDs (convertendo tudo para arquivos em nosso micro), resgatou nossos CDs de música clássica e redescobrimos antigas paixões e deslumbres. As crianças seguem empolgadas: Amanda dá piparotes pela sala e Arthur voltou a praticar sua flauta, além de continuar se dedicando ao piano (ainda treinando em nosso teclado mequetrefe, enquanto o piano não se torna algo viável e palpável - e tocável). Eu continuo ferindo o ouvido deles com minha própria prática, tadinhos.

Nossa nova brincadeira é acionar o som da sala a partir do computador, do iPad ou do celular. O bom da história é visualizar na tela nossas músicas do jeito que quisermos: por álbum, por cantor, por banda, por ordem alfabética, o que vier. Assim, acessível, temos ouvido coisas que há muito não ouvíamos por pura preguiça de procurar o CD ou arquivo. Na onda da coleção de música clássica das crianças, Vivaldi virou nosso xodó e Bach nos arranca muitos suspiros. Hoje recebemos mais um lote dos livrinhos e Arthur me ligou afobadíssimo, todo alegria. Agora temos a Ave Maria, de Schubert, em casa e não preciso mais esperar outra amiga se casar para eu me emocionar, vejam só. (Mas podem continuar se casando e entrando na igreja ao som da Ave Maria, que eu garanto as lagriminhas e a maquiagem borrada.) E estou convencida de que Chopin tinha oito mãos. 

Para quem me perguntou sobre a coleção, adiciono algumas informações: a seleção dos CDs pode ser frustrante se você já tiver em casa um bom acervo de música clássica. Tive a impressão de que a qualidade do som não é a melhor do mundo (não é ruim, longe disso; mas quando ouço outras gravações, percebo uma sutil diferença); além disso, muitas faixas são fragmentos de peças, não as peças completas. Serve perfeitamente para apresentar os compositores às crianças e para nos entreter bastante também, mas quando já conhecemos uma ou outra peça e percebemos o corte, o lamento é inevitável. No caso do Vivaldi, por exemplo, o CD traz apenas um movimento de cada Estação, o que é quase um crime; várias outras peças em outros CDs são cortadas sem dó. Ainda assim, reforço: tem valido muito a pena. Há muita coisa completa também e o propósito da coleção, despertar o interesse da criança pela música, é alcançado com louvor, já que os livros em si são lindos e trazem passatempos e sugestões de brincadeiras - e muitas das músicas, ainda que incompletas, são irresistíveis.

Falta o Ulisses tirar o pó dos pedais e da guitarra e ressuscitar a bandinha dele. Que a gente bem que gosta do Mozart, mas o rock também tem um lugarzão nessa casa barulhenta.

Meu jeitinho


Dia desses eu estava conversando com uma amiga. Ela estava sentada no sofá de minha casa, enquanto eu me encaminhava para a cozinha. Eu tinha a linda intenção de nos servir um pouco de vinho e, por isso, carregava em minhas mãos duas taças. Parei no meio do caminho para falar alguma coisa com ela; Arthur entrou na sala e caminhou em minha direção; eu  me virei e esbarrei nele, quebrando uma das taças em sua cabeça. Foi lindo. (Ele não se feriu, mas não podemos dizer o mesmo sobre a taça.)

Dias antes eu havia quebrado uma irmã da taça na pia, enquanto lavava a louça. Funciona assim: eu lavo toda a louça antes e reservo as taças para o final. Daí lavo as beldades separadamente para evitar acidentes. O bom é que quando eu finalmente lavo e quebro a taça, os cacos não se misturam com o restante da louça. Sou bem cuidadosa com isso. 

Voltando um pouco mais no tempo, eu havia seguido esse ritual aí semanas antes. Tinha secado e organizado umas seis taças sobre a mesa, antes de guardá-las. Resolvi guardar uma panela antes e esbarrei em uma das taças. Foi legal porque foi um evento só, economizei nos xingamentos: quebrei três de uma vez. Mas os cacos não se misturaram com o restante da louça, observem. (Já dizimei um conjunto de doze xícaras ao longo de dois anos. Uma a cada dois meses, uma boa média, fora os copos quebrados no mesmo período. O problema é que na época eu não era tão organizada e os cacos viviam se misturando com o restante da louça. Experiência é tudo nessa vida, não é mesmo?)

No sábado passado eu recebi visitas e não quebrei nenhuma taça. Foi bom,  pude reservar todos os xingamentos e lamentações para a máquina fotográfica que deixei cair e rolar escada abaixo. Quer dizer, rolar não é o termo. Ela quicou em cada um dos degraus. Toc toc tuc tic pou. Não se quebrou, apenas ganhou uma pequena avaria e, dizem as más línguas, perdeu algum tempo de vida útil. A conferir. 

Eu me esforço, juro. Mas acho que entrei duas vezes na fila do estabanamento. Na última vez que eu e Ulisses compramos um conjuntinho de taças, sugeri "vamos levar umas seis?'. Ele sabiamente respondeu "vamos levar umas doze - pra ter umas seis no mês que vem"; ou algo assim. Achei justo.

(Este post poderia ter muitos parágrafos, mas acho que vocês já me entenderam.)



 

No tempo das cortinas


Meu nome era Belinha. Era filha de uma mulher muito pobre que havia sido abandonada pelo marido (ou era viúva) e estava grávida. Morávamos num barraco qualquer em algum canto  esquecido do Sertão nordestino, com pouca mobília e muita sujeira pelo chão. Havia uma cama de molas, um penico, uma cadeira e, acho, uma pequena mesa; talvez um fogão, porque me lembro do caldeirão que "minha mãe" mexia com uma mão, enquanto apoiava a outra nas costas doloridas por causa do enorme barrigão. Ela usava um lenço na cabeça e eu usava um vestido maltrapilho de mangas fofas. Um dia, um retirante bateu à nossa porta pedindo comida e abrigo, e "minha mãe" acabou se envolvendo com ele; não sei de outros detalhes, mas havia um sobrinho de "minha mãe" que, por alguma razão, não gostava muito do moço retirante. E mais não lembro.

Era 1983, eu tinha 11 anos e a peça ganhou o primeiro lugar no festival estadual de teatro em uma gincana cultural promovida por uma instituição pública há muito extinta. Encenamos a peça umas cinco vezes, em diferentes municípios, e eu gostava da brincadeira. Algo na muvuca dos bastidores, quando nos encontrávamos com outros grupos vindos de lugares diferentes, sinalizava que o mundo era um pouco maior do que minha rua e minha escola. Sem falar nos ensaios, quando eu me sentia uma atriz de verdade. Com 11 anos, eu tinha mais cabelo que juízo, mas também tinha mais imaginação que todo o elenco adulto reunido. 

Ao fim da gincana, saboreando a delícia do primeiro lugar (que valorizamos muito, já que superamos companhias mais bem estruturadas que o nosso grupo quase improvisado), minha mãe decretou encerrada minha "carreira artística" porque tinha visto "o estilo de vida dos artistas" e coisa e tal. Eu não sei o que ela viu. Sei que guardei as lembranças (e fotos perdidas em algum lugar do armário) de meu tempo de palco e, principalmente, de bastidores. Não sei do que a minha mãe queria me proteger, mas eu via cores, plumas e fantasias; gente fazendo de conta o tempo todo; era quase como brincar no quintal quando ninguém olhava, só que com luzes, gente olhando e aplausos no final. 

O nome da peça era um primor, Cinco Anos de Seca e uma Paixão. Hahahaha, gente. Devia ser bem boa, já que saiu vencedora, apesar do título. ;-)

Sweet home


Coisas que surgem, vindas de alguma passagem interdimensional, e se espalham pelos cantos da minha casa, sobre as mesas e cadeiras, no tapete da sala, sob as almofadas do sofá, atrás do sofá, no braço do sofá, no encosto do sofá e talvez dentro do sofá, nas camas, na bancada do escritório, no balcão da cozinha, nos degraus da escada, em todo lugar, em cada cantinho; e que eu tiro, jogo fora, organizo, guardo somente para descobrir, no dia seguinte, que elas são como bumerangues:

gibis;
chinelos sem o par;
peças de lego;
cachorrinhos em miniatura;
penal;
lápis de cor fora do penal;
gizes de cera;
pedaços de papel com desenhos incompletos;
pequenos bilhetes com letras bem grandes;
correspondências de bancos (parem, por favor)
réguas;
cadernos com folhas arrancadas;
borrachas;
DVDs;
controles remotos de aparelhos que ficam em outro cômodo;
carregadores de algum aparelho eletrônico cuja bateria dura um dia e meio;
pilhas velhas, que são como coelhos;
palheta de guitarra;
cabos (USB e outros) que nunca encaixam onde você precisa que encaixem;
caixas de CDs vazias;
CDs fora das caixas;
caixas de DVDs;
DVDs fora das caixas;
fones de ouvido;
óculos;
revistas que quase ninguém lê;
alguma pecinha quebrada de um brinquedo que você vai consertar amanhã;
letras de música;
folhetos publicitários;
telefone celular;
chaves;
moedas;
moedas;
moedas;
moedas, todos os dias;
canetas;
recibos da locadora;
peças de quebra-cabeças;
comprovantes de operação com cartões de crédito;
exames médicos;
a regra de algum jogo de tabuleiro;
receituários médicos;
tubos vazios de mistura para bolha de sabão;
listas de compras que eu fiz e esqueci de levar ao mercado;
livros infantis;
cartinha de algum jogo tipo Trunfo;
rolhas de vinho;
tiaras da Amanda, como se ela tivesse cinco cabeças.

Não é exatamente uma bagunça. Chamemos de efervescência, burburinho. Chamemos de ninho.


"Sometimes I'm dreaming..."


"You make me feel like I'm young again."

Quase perdemos o voo, claro. O irmão do Ulisses, inclusive, perdeu o dele lá em BH, e chegou em Sampa horas depois do previsto. Já começou emocionante nossa jornada. Ver o Cure ao vivo faltava no meu currículo de deslumbres. Check.

Cinquentão, Robert Smith atrasou o início do show em uma hora. Bom, eu queria vê-los desde o final dos anos 80, então esperei sem reclamar muito. Outros quarentões e trintões estavam por toda parte, a noite era nossa. Também havia muita gente mais nova, mas certamente boa parte do público de ontem coleciona histórias sobre o primeiro vinil da banda, a saída do guitarrista tal, o vídeoclipe favorito, etc. Olho nossas fotos e vejo nossas caras sorridentes cercadas de gente grisalha. Amor demais. A noite estava começando, o céu de São Paulo estava camarada, nós estávamos lá, a postos. E lá ficamos nas mais de três horas em que a energia da banda nos deixou, a todos, impressionados. Dizem que havia 30 mil pessoas no show. Eu era, de longe, a mais feliz. \o/

Como disse nosso amigo (que já havia visto a banda dois dias antes no Rio, mas estava lá com a gente outra vez), imagine ouvir 40 músicas deitado no sofá da sala - já é muita coisa. Ao vivo, é um desbunde. Deu tempo de fazer tudo: fotografar à vontade, imortalizar o fato de que ele cantou Pictures of You pra nós, na filmadora da máquina fotográfica, ficar na ponta dos pés para vê-lo virar a cabeça daquele jeito que ele faz, grudar os olhos no telão durante as canções mais lentas; deu tempo de sentir os olhos se encherem d'água ao som de Just Like Heaven, cantar aos berros Inbetween Days, dançar Why Can't I Be You, Hot Hot Hot, Mint Car, ou se balançar ao som de Lullaby, Push e Lovesong (desculpa, Adele, você não deveria ter feito aquilo com essa música); incluir A Forest na lista das preferidas porque a música funcionou incrivelmente no palco; deu tempo de sentir saudade das amigas que ouviam junto The Caterpillar; deu tempo de ficar rouca e sentir dor no pé; de dizer "ele não vai tocar Close to Me, né", para, no segundo seguinte, ouvir os primeiros acordes da música, grata pelo talento desse cara descabelado aí da foto. 

Now I have my pictures of you, Bob.

Robert Smith praticamente não conversou com o público, apenas disse obrigado em português algumas vezes e fez dancinhas maluquinhas, ninguém precisa de mais. Sua voz continua a mesma dos discos dos anos 80, o que considero um feito e tanto. Ao final do show, mal tínhamos voz para berrar junto no hino Boys Don't Cry, ou pés para dançar ao som de Killing an Arab (a quadragésima canção da noite), enquanto ele ainda esbanjava vigor e derramava sobre nossas cabeças saltitantes o mesmo som irretocável de sempre. Um fofo, o tiozinho.

Foi assim, perfeitinho. Just like heaven.

   

Deep



E aí há os dias em que somos navios velhos esquecidos no fundo do mar. Um quase silêncio cheio de corais.

***

Um dia eu tive preguiça de dobrar o lençol e argumentei que ele era muito grande. Então minha mãe inventou uma música de dobrar lençol grande e cantou comigo. Muitos anos depois, ela ainda se lembrava da música e falou dela poucos dias antes de morrer.

Não há um dia em que eu arrume a cama sem me lembrar disso.

***

Minha filha me mandou uma carta "pelo correio". Ela escreveu o que queria, fez um desenho, transformou o papel do desenho num envelope, fechou com bastante cola e pôs a carta na caixa de correspondência do portão. Depois me avisou que tinha carta pra mim. Então hoje recebi uma carta, à moda antiga (tudo bem, não teve carteiro, mas valeu mesmo assim). Dizia para eu não esquecer de costurar a fronha.


***

Eu não sei costurar. Sei pregar botões, fazer alinhavos bem mequetrefes. Mas gosto de bordar. Acho relaxante (quando dá certo, claro) e o prazer de ver o trabalho pronto quase se equipara ao de tirar um bolo do forno. Talvez. Bom, não bordo muito. Na verdade, quase nada. Só sei fazer ponto cruz, porque os outros pontos que aprendi no colégio de freiras, na sexta-série, habitam a zona incerta das memórias fora de foco. Fui acometida pela síndrome do bordado em minha primeira gravidez e limpei as babinhas do Arthur, um bebê muito fofo cheio de dobrinhas, com toalhinhas que bordei apoiando-as no barrigão. Mas passou e nunca terminei de bordar aquela toalha verde. Um dia. Antes, preciso dar um jeito de costurar a fronha. E, claro, sou clichê e tenho o sonho de fazer uma colcha de retalhos.


***

Um livro de contos é uma colcha de retalhos. Assim como uma família, uma receita ou as canções no meu pendrive. Tudo, enfim.

***



O Cure tem uma canção que fala de fotografias. De tão vistas, diz a letra, parecem reais. Tenho retalhos assim. 


There was nothing in the world
That I ever wanted more
Than to never feel the breaking apart
All my pictures of you 

Algumas canções do Cure estão tatuadas em retalhos que guardo como quem guarda, sei lá, joias? Algumas memórias são as minhas joias. Gosto de tudo na banda: todo aquele preto, os cabelos absurdos, a maquiagem do Robert Smith posando de menino tristinho. As músicas, sure. Havia um programa de clipes nas tardes de domingo, em algum canal da TV aberta no final dos anos 80. Eu via o clipe de Close to Me, com os integrantes da banda presos em um guarda-roupas que despenca do abismo rumo ao fundo do mar. 

Quase silêncio em corais de colônias coloridas.


 

De tecido leve e delicado


O terceiro volume das Crônicas de Gelo e Fogo foi, seguramente, o livro com as maiores viradas no enredo que já li. Para o bem ou para o mal, a história deu voltas que me deixaram zonza. Tenho lido e ouvido por aí que os livros seguintes, volumes quatro e cinco, não chegam aos pés do fuzuê dos três primeiros. Não me espanta. Manter o ritmo do terceiro livro ao longo de outros dois volumes seria mesmo um feito e tanto. Resta torcer para que eu me mantenha interessada nos rumos de Westeros mesmo assim. Sigamos. Tenho amigos muito maus que a toda hora me indicam um livro imperdível. Dado o tamanho da minha lista de pendências e o pouco tempo de que disponho atualmente para enfiar a cara nas páginas, considero um desperdício ler algo que não me segure pela mão e me embale da forma devida. Portanto não hesitarei em saltar do barco se Mr. Martin desafinar demais. Mas seria uma pena e eu sentiria saudades.

***

É uma coisa isso, né. O tempo. Não sei se pela idade (que ele, o tempo, me deu) ou por constatação óbvia (que ele, o tempo, permite), encasquetei com a ideia de que trabalhamos demais, demais. A pergunta que não quer calar: pra quê, cara pálida? Em minha cabeça ressoa imediatamente aquela velha máxima (de quem, mesmo?): ame seu trabalho e não terá que trabalhar um dia sequer - mais ou menos isso. Torço muito que meus filhos se acertem com isso aí. Demais, todos os dias. Que não lhes amarre o relógio, não. Mas os mistérios. 

***

Toda vez que meus filhos avançam nas aulas de natação e passam para um novo nível tenho vontade de ligar para minha mãe. Já falei disso aqui outras vezes, que isso é outra coisa que o tempo faz com a gente, esse negócio de histórias repetidas. Só repete quem viu de novo, acho; e tenho visto muitos desses dias em que, calada ou falando sobre outras coisas, penso em como ela receberia com alegria certas notícias miúdas. Gosto cada vez mais delas, das notícias miúdas.

***

É que é mesmo uma alegria quando a gente percebe que o tal tecido da vida é cheio de traminhas delicadas e é isso que faz a renda bonita. Cada voltinha, cada detalhe, a brisa que balança suavemente a barra do tecido leve. A vida é leve e delicada, é preciso carinho e cuidado. E trabalhar menos.

***

O tempo voa, diz a canção daquela moça da voz boa. Ainda ontem eu andava pelo campus, livros na mão e caraminholas na cabeça. Mas o que importava mesmo eram as baladas e as aulas de literatura. Disso eu já sabia.

***

Um amigo das antigas veio nos ver. Andava sumido - ou nós andávamos sumidos, dependendo de quem olha - e tem sido muito bom botar os papos em dia. No tempo das aulas de literatura nossos encontros tinham balada no Recife Antigo, ele, Ulisses e eu. Hoje sentamos no chão da sala com as crianças para jogar Pictureka, falamos sobre filhos e a vida no Canadá. Ou sobre a vida em Floripa, aquela banda e casas vitorianas. Quando brindamos, falamos em amizade, da boa, feita daquele mesmo tecido fino e bem cuidado. Tão bom. É verdade aquilo que dizem sobre o tempo e os amigos e a distância e tal. Não importa.

***

Foi em abril do ano passado que perdi aquela conexão. Um ano já. O tempo voa e é preciso trabalhar menos (estou repetindo, eu sei). Nem que seja para olhar a planta na janela e pensar na tia querida que se foi, no quanto ela também contribuiu para a beleza das minhas tramas miúdas.





 
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