Allegro


Recebi ontem o primeiro lote da coleção Música Clássica para Crianças (ed. Folha), com os primeiros cinco volumes: Mozart, Bizet, Vivaldi, Bach e Beethoven. Minha professora de piano me mostrou um dos livros e fiquei com vontade, achei que fosse uma boa forma de apresentar aos pequenos parte da vida e da obra de alguns nomes do mundo da música. Eles receberam o presente com grata surpresa, reviraram os livros e disputaram qual CD ouviriam primeiro (cada volume vem com um CD com várias peças, ou fragmentos delas, compostas pelo músico da vez).

A apresentação dos livros é bem atraente, eles adoraram. As histórias são curtas e trazem pequenas informações sobre cada compositor (eu esperava mais nesse aspecto, na verdade) e são seguidas por atividades e sugestões de brincadeiras envolvendo as faixas dos CDs ("faça o desenho mais lindo do mundo ao som da sonata tal", óin). As pequenas histórias são recheadas de informações que as crianças, acredito, acham mesmo muito relevantes, como o fato de que Mozart era famoso também por sua gargalhada - e aí, claro, lembrei-me do furor causado pelo filme Amadeus, nos anos 80, vencedor de uma penca de prêmios Oscar e que, para minha geração, imortalizou a risada do ator Tom Hulce na pele de Mozart. Amanda já se encarregou de pintar uma enfeitada Carmen e o piano de Beethoven, enquanto Arthur ficou se perguntando porque tanta gente queira morar em Viena. 


O fio condutor são os irmãos Dó e Mi que viajam no tempo e no espaço, visitando as terras onde viveram as crianças que mais tarde se tornariam grande nomes da música vida afora. Em um dos livros, por exemplo, eles se escondem no quarto dos irmãos Bach para ver como Sebastian acordava de madrugada para copiar as partituras que seu irmão não lhe emprestava. (Mas que praga esse irmão do Bach, não?)

Quando eu era criança não havia discos de música clássica em minha casa e meu contato com ela se resumiu, por muitos anos, a um programa de rádio nas manhãs de domingo, Clássicos Eternos. Durava uma hora, cada programa dedicado a um compositor. O apresentador fazia uma breve introdução sobre vida e obra do escolhido, anunciava as peças que seriam apresentadas naquele dia e mandava ver. Não havia intervalos, o que era uma bênção, e minha torcida era para que o compositor do dia fosse alguém "conhecido". Os dias de Vivaldi e Bach eram os mais festejados, outros eu ouvia mais embalada que curiosa e a outros eu torcia o nariz. Só muito mais tarde comprei meus primeiros CDs, vi alguns concertos, lamentei saber tão pouco sobre algo tão lindo e que me arranca tantos suspiros. Espero que meus filhotes se esbaldem bem mais que eu. E, claro, vou junto, que não sou boba e já surrupiei o CD do Bach pra ouvir no carro. Continua meu favorito, by the way.


Na cama, na rua, na fazenda ou numa casinha de bits

Num dia qualquer da semana, a caminho da escola ou na volta dela, Arthur e Amanda leem gibis ou o que houver para ler dentro do carro.

[silêncio lá atrás, musiquinha rolando, Ulisses e eu conversando miolo de pote]
Arthur: - Ai, tô enjoado, vou ler depois. [larga a revistinha e começa a cantar]
Amanda: - [silêncio]

Quilômetros depois:

Eu: - Amanda, flor, deixa pra ler em casa. Sei lá se ler com esse balanço não vai fazer mal pros seus olhinhos...
Amanda: [silêncio]
Eu: - Amanda?
Amanda: [silêncio]
Eu: - Amandaaaa...
Arthur: - Amanda, a mãe tá falando!
Amanda: [silêncio]
Ulisses, Arthur e eu: - AMANDA!
Amanda: - Oi?

Daí ela larga o gibi e os dois lá atrás começam a conversar. E a rir. E a cantar beeeem alto. E a brigar, eventualmente. E a gritar mais. Até que:

Eu: - Ai, gente, pelamordedeus, dá um tempo, pega um gibizinho aí pra ler, vai.

Então ontem consultei Dra. Internet para saber se a história de que ler no carro em movimento faz mal à visão é mito ou verdade. Ela me disse que é tudo crendice; o Sr. Bom Senso me mandou procurar mais, mas eu fiz ouvido de mercador porque gostei da resposta e dei minha pesquisa por encerrada. Portanto, nos dias de trânsito ruim, fome, chuva e pouca paciência os gibis são meus pastores e nada me faltará. E a retina nem descola.

***

Devo ter lido 80% das páginas dos meus Sidney Sheldons e Agatha Christies no ônibus a caminho da escola. Dar aquela revisada básica de última hora para a prova de Geografia, em pé, no ônibus lotado, então, era um clássico - muitos nomes de rios que fizeram toda a diferença no meu futuro profissional foram memorizados no ônibus. Não raro eu tomava susto: mas já chegamos?! Hoje em dia preciso ser firme na hora de botar os dois na cama: só um gibi e deu, já tá tarde. Mas, é claro, eles burlam e quando vou dar aquela última espiadinha na Amanda ela não está lá, mas no quarto do irmão, sentada no chão,  lendo o segundo gibi. Ele vai logo se defendendo: "eu tô na minha cama", mãos ao alto, numa das quais está um gibi, claro. 

Já eu continuo carregando meus livros por onde vou, sempre tentando aproveitar qualquer minutinho chorado para avançar um capítulo que seja. Leio enquanto o bolo assa, em qualquer fila, no estacionamento do trabalho enquanto o Ulisses não me encontra lá, onde der. Mas o tempo me abana lá da esquina e eu, que já li livros inteiros a bordo, às vezes cochilo depois da primeira página, no posto de gasolina, enquanto abastecemos o carro. Morro de raiva e desgosto.

Geralmente leio antes de dormir e vejo com tristeza que cada vez avanço menos e o sono me pega antes do final do capítulo. Acho que vou me levantar depois da primeira cochilada e me juntar às crianças no chão do quarto do Arthur, quem sabe (há mesmo os dias em que demoro a ceder: levanto, tomo água, vou ao banheiro e, na volta, leio mais três ou quatro páginas).

Meu consolo é que os livros respondem atualmente por apenas uma parte do volume de leitura, já que também tenho ótimos momentos lendo textos incríveis na internet - gente, como vocês escrevem! - e é verdade que há noites em que as leituras marcadas ao longo do dia (aquele texto que o amigo indicou pelo Facebook, mas você não pôde ler mais cedo; todos os blogs bons, etc.) roubam tempo da leitura daquele romance bacana. Mas aí não acho que há que se falar em perdas, gosto mesmo dessa democratização dos encantos. Tempos bons esses em que belezas nos chegam por vários caminhos, inclusive o cibernético. Enquanto eu não começar a cochilar em cima do teclado, tá tudo certo.

Os bichanos que não terei


Minha filha adora gatos. Ela  nunca teve um, mas sabe que quando nos mudamos para nossa casa atual, eu grávida dela, havia aqui uma gata. Bilica, a gata, pertencia aos antigos donos da casa e foi deixada de herança para nós. Por alguns dias, ela rondou a casa analisando a rotina dos novos moradores, escondeu-se em nosso quarto, sondou o astral do ambiente. Mas não houve chamego ou cama nova que a fizesse decidir morar conosco. O golpe fatal veio com a chegada do Roque, nosso cachorro que ganhamos de presente. Bilica sumiu para nunca mais voltar. 

Amanda nos ouve contar essa história e faz bico como se Bilica tivesse sido sua. Quando visita a amiga, brinca com a gata amarela dela e volta para casa me pedindo uma. 

Roque já mordeu Floquinho, nosso outro cachorro, duas ou três vezes. Floquinho vive provocando o Roque. Os dois já são amigos (Floquinho chegou bem depois do Roque, no Carnaval do ano passado), mas é preciso ficar de olho nos momentos mais, digamos, animados. Um felino, pressinto, seria problema. Acho mesmo que seria inviável: mais um bichano cujo sumiço Amanda lamentaria, a julgar pelo alarido que o Floquinho faz cada vez que um gato desavisado cruza a rua ou ronda o muro do vizinho.

O problema é que eu tive gatos e me lembro de como eu adorava as fofices daqueles focinhos. Eu sei do que Amanda fala quando se derrete pela gata da amiga. Mas, né. Dois cachorros. Sem condições. Lamento. 

Arrebatamento

Quis encontrar uma palavra para falar de você e a que me veio foi arrebatamento.

Quero controlar a conta de luz e limitar o consumo de açúcar. Quero beber com moderação, atravessar a rua com cuidado, aparar as unhas e memorizar a escala de Fá para evitar erros bobos. Quero observar a postura, usar pouco detergente e não carregar no sal. Vou tentar digitar corretamente, manter o armário em ordem, a gaveta minimamente arrumada, os documentos em pastas separadas. Normalmente só leio um livro por vez e acho que não preciso de tantos casacos. 

Mas com você, não. Com você quero o arrebatamento. Segurar sua mão, fechar os olhos, respirar fundo com um sorriso nos lábios, certa, segura, inteirinha pensando assim: amo sem fim, todos os dias. Deixo as medidas para as miudezas.

Em outros mundos


(Juro que vou tentar não falar mais do que devo.)

Fechei a boca com uma das mãos para conter o quase grito de "nãão!". Depois fechei os olhos e balancei a cabeça, não podia ser verdade. Abri os olhos e olhei de novo. Era. Abaixei a cabeça e apoiei a testa sobre a mesa, arrasada. Suspirando, voltei a me sentar com a coluna ereta, fechei os olhos novamente, abri, levei uma mão à boca mais uma vez. Estupefata. Abandonei aquilo, dei uns passos pela sala, espiei a janela. Que pena, que pena, eu pensava. Voltei a me sentar e senti as lagriminhas se assanhando. Sequei os olhos, torci a boca com aquela expressão que a gente faz quando nada nos resta a não ser encarar a decepção. Resignada e ao mesmo tempo com raiva, voltei a abrir o livro e continuar a leitura. Ainda resta muita história pela frente.

O terceiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo tá acabando comigo.

Ulisses, que já passou por aí, tentou me consolar, sem spoilers. À medida que avanço na história, ele se sente livre para comentar os fatos comigo. Hoje me disse que chegou a ter pena de algumas expectativas que criei, tamanha a reviravolta no enredo. Mas sou forte, né. Vamos em frente. 

***

"Através da neblina da chuva, os castelos pareciam assustadores e misteriosos, como algo saído de uma das histórias da Velha Ama, mas não eram Winterfell." 

As Fadas Amiguinhas


- Mãe, posso escrever um livro?
- Pode, quantos quiser.
- Você me ajuda?
- Claro, com prazer.
- Êba.

Enquanto eu procurava e dobrava duas folhas A4, ela pegou a cadernetinha de notas dela e escreveu boa parte da história. Depois eu numerei as páginas e tracei as linhas com régua (portanto, a organização careta é culpa minha, não dela). Daí ela transcreveu as frases, até a página 6, quando se cansou e me pediu que concluísse a transcrição. Ela escrevia e eu desenhava, ela escrevia e eu desenhava. Fiz as ilustrações (adoro chamar meus desenhos toscos de "ilustrações", é um up generoso) até a página 7 (a última página foi desenhada por ela), sempre seguindo seus comandos: é seu o design do vestido da bruxa, das cestinhas, das bolinhas que representam o poder da varinha e os colares mágicos das fadinhas. O livro foi feito há três dias; hoje ela completou com a capa e eu usei laços de fita para prender as páginas. Ela coloriu e fim.

Arthur contribuiu com ideias de detalhes para os desenhos, mas achou a história curta e disse que a ideia dos colares com pequenos corações pendurados já está presente em um filme da Barbie. Ela se defendeu da acusação de quase-plágio dizendo que no filme é diferente. Ele também chamou atenção para o título, muito parecido com outro livro que ela tem, A Fada Amiga, ao que ela respondeu enfaticamente que o dela se chama Asssssss Fadasssss Amiguinhassss, o que não é a mesma coisa. :-)

Quando concluiu a ilustração da última página, ela quis saber se venderíamos o livro. Eu disse que não, mas que ela poderia mostrá-lo aos amigos e tal. E assim é. O primeiro livro da Amanda. Diz o texto, integralmente criado por ela, com exceção dos pontos de exclamação sugeridos por mim:

"Era uma vez (ou "era uma veis") quatro fadas.
Elas moravam numa casa cheia de flores.
Um dia, aconteceu uma tempestade.
Era a bruxa malvada!
Elas correram, mas a bruxa alcançou!
Mas não enfeitiçou as fadinhas.
Porque seus colares eram mágicos!
E a tempestade passou. E um arco-íris surgiu."








Parabéns, Amandinha. Que seja o primeiro de muitos. E, se for o único, já acho que sua "carreira" de escritora, aos cinco anos de idade, é rica e merecedora de muitos elogios.



Para amar os livros


Essa semana houve troca-troca de livros na escola dos meus filhos. Arthur e Amanda selecionaram aqueles que já não queriam mais e, na troca, trouxemos outros para casa. No meio desses, um em especial nos conquistou imediatamente após a primeira passada de olhos. Um livro antigo, publicado pela primeira vez em 1993, do escritor e artista plástico mineiro Marcelo Xavier, editado pela Formato. Chama-se Asa de Papel e justamente por ser muito antigo talvez vocês me perguntem "mas só agora, Rita?". Pois é, só agora. E vejo que o livro é um tremendo sucesso, vencedor de vários prêmios e indicado para tantos outros; nosso exemplar faz parte da 6ª tiragem da 27ª edição e data de 2009... Uma das boas coisas de o mundo ser grande: saber que nunca chegamos perto de ver tudo e, portanto, sempre podemos tropeçar em coisas lindas espalhadas por aí. 

As ilustrações são feitas a partir de fotografias de pequenas esculturas em massinha e o efeito é lindinho. Quem assina a fotografia do livro é Gustavo Campos, mas os personagens e cenário foram moldados pelo autor do texto. O texto... um pequeno exercício de delicada poesia, um convite irresistível ao mundo da leitura. Encantador. Todo mundo já conhecia? Arthur leu e releu sorrindo e Amanda soltou vários "uaus".





 


Para ler, admirar, amar os livros e entender que com eles podemos voar.


(Fuçando um pouco a net, vi que Marcelo tem outros títulos publicados. Um deles entrou para minha lista de desejos só pelo nome: Se Criança Governasse o Mundo. Com ilustrações também feitas de massinha, quero pra ontem.)  



Como gelatina


Amanda, minha filha de cinco anos, escreve cartinhas para mim e me entrega saltitante, com um sorriso todo animado e os olhinhos cintilantes. Eu me derreto. Aí escrevo bilhetinhos de amor e escondo na lancheira. Qualquer dia vou pedir para a professora filmar a carinha dela quando chega a hora do lanche, ah, vou.

Não sei quanto a vocês, mas eu sou "gostosa como gelatina".

Adoro o desenho de nós duas no cantinho.

Todo mundo ganhou cartinha hoje. Segundo ela, o pai é fofo como um travesseiro e legal como um aniversário, e o mano é  doce como uma balinha e legal como um brinquedo. Vou guardar essas cartinhas para sempre na mesma caixa onde guardo as cartas que durante anos troquei com minha mãe. Porque sim.  

A tempestade


Acordei com o sonho ainda ecoando nas batidas do meu peito. No segundo seguinte, outro trovão explodiu. Caía um aguaceiro barulhento lá fora e a escuridão se quebrava em clarões repentinos. Um jorro d'água descia apressado pela calha quebrada, batendo com força sobre a mureta da sacada. Enrolada no lençol, abri a porta e recebi de bom grado a lufada de vento úmido que me lambeu. Um raio cortou o céu, iluminando a rua, e me deixou ver as folhas escuras que por um momento brilhavam nas árvores, e eram como olhos espreitando minha presença. Um segundo depois, o estrondo do próximo trovão sacudiu meu corpo. A chuva, que já caía brava, aumentou ainda mais sua força, despencando pesada sobre o mundo, sobre minhas lembranças de você, sobre o sonho que ainda estava ali. Vi o convite do rio raso que se formava e descia a rua, carregando folhas e pequenos galhos, sem rumo; vi os pingos grossos iluminados pela luz do poste; vi a névoa que se formava rente ao chão. Voltei os olhos para o quarto tomado pela penumbra e vi a cama, onde me esperavam os mesmos sonhos de sempre. Encolhida sob o lençol já molhado pelos pingos que o vento distribuía na sacada, pensei que voltar a dormir significaria de novo você, de novo sua voz tão nítida, outra vez sua mão na minha, seu jeito de passar a mão no cabelo. Uma gota morna desceu pela minha face. Voltei a olhar para a chuva que inundava a cidade. Os clarões se repetiam, mas lamentavelmente os trovões se afastavam e logo haveria quase silêncio outra vez. Logo a chuva perderia suas forças, como ondas enormes que por fim se cansam e acalmam a maré. E eu voltaria a dormir, voltaria ao reino que você dominou. Mas ainda havia a chuva e seus sons e um pequeno rio que improvisava caminhos; e eu quis diferente, eu quis esses outros sons, outras vozes, quis ser de novo a menina que inventava danças. 

Então apoiei as costas contra o vidro molhado da porta e vi a chuva cantar cada vez mais baixinho até se calar; e vi o céu se abrir sobre a cidade limpa, banhando-a com as primeiras cores da manhã. Com o corpo cansado e um alívio de criança que não teve pesadelos, ouvi os primeiros passarinhos que visitaram as árvores e suas folhas de viço renovado. Um beija-flor minúsculo rondou minha sacada examinando a samambaia, apressado, leve. Vindo de longe, o barulho de algum córrego relembrava com suas águas engrossadas a chuvarada que tinha lavado as ruas, tetos e quintais; a chuva que levara tanta coisa embora. E ver o dia chegar me fez ser leve também. Como um passarinho que aproveita o ar lavado da cidade para espalhar suas asas por aí. Eu quis, de verdade. E foi assim que andei descalça pela rua naquele dia, seguindo os caminhos improvisados pelo pequeno rio, ensaiando; e na noite que se seguiu, dormi por horas e horas um sono tranquilo, sem sonhos. Estava pronta.


Um reino distante ali na esquina


Eu precisava fazer um prato da culinária árabe para uma festa. Como de costume, optei por uma sobremesa, porque gosto de deixar o mundo mais doce (mentira, porque não sei fazer outra coisa). No link de "receitas árabes" que me passaram, havia um bolo de maçã com especiarias. Hum. Bolo de maçã com canela é algo que deixa a casa perfumada e minha barriga feliz, então pensei que seria uma boa ideia. Acontece que desconfiei da receita e fiquei com medo de não acertar a mão. Então optei por outra receita de bolo de maçã do blog da Pat e adicionei, por minha conta e risco, as nozes e a noz moscada. Também comprei cravo, mas esqueci de botar. That's me.

Vou dividir a receita com vocês, porque o bolo ficou delicioso, e em seguida vou contar da aventura que foi prepará-lo.

A receita da Pat está aqui; a que segue tem pequenas alterações e é minha "adaptação-para-dizer-aos-amigos-que-é-uma-receita-árabe". Salaam a' Laykum.

Ingredientes

Para a massa do bolo:

115g de manteiga sem sal
150g de açúcar (usei cristal)
2 ovos, ligeiramente batidos
1 colher (chá) de extrato de baunilha
210g de farinha de trigo
1 colher (sopa) de fermento em pó
185g de iogurte natural
40g de nozes trituradas
1 colher (chá) de noz moscada

Para a cobertura:

2 maçãs tipo gala, descascadas, sem cabinhos ou miolo, finamente fatiadas
35g de manteiga sem sal
50g de açúcar refinado
1 colher (chá) de canela em pó

Modo de preparar:

Na batedeira bata bem o açúcar e a manteiga. Adicione os ovos, bata bem, e acrescente a baunilha. Misture a farinha e depois o iogurte. Desligue a batedeira e acrescente as nozes, a noz moscada e o fermento, mexendo delicadamente. Transfira a massa para uma forma de aro removível previamente untada (eu forrei a forma com papel manteiga e untei o papel também). A receita da Pat manda arrumar as fatias de maçã por cima da massa, mas eu enfiei as fatias na massa; na próxima vez, vou experimentar como manda a receita da Pat, porque acho que o bolo ficará ainda mais bonito. Salpique com o açúcar e a canela (usei uma peneirinha para espalhar bem) e derrame a manteiga derretida por cima de tudo. Fica tão lindo e cheiroso que já dá vontade de comer o bolo cru.

Assei por 45 minutos, a 180ºC. Fique de olho; a receita da Pat fala em uma hora de forno, mas o meu assou bem antes disso. A casa inteira ficou perfumada. :-)

Mas não foi assim, na tranquilidade. Quando o bolo estava lindão, entrando no forno, foi que me dei conta que não tinha colocado o fermento. Olha. A Amanda, que estava por ali brincando de me ajudar, perguntou: "você não vai chorar, né, mãe?". Imaginem minha cara. Não tive escolha: retirei todas as fatias de maçã lindamente cobertas de canela e devidamente melecadas de manteiga, adicionei uma colher de fermento - ali mesmo, na forma - e mexi do jeito que deu. Recoloquei as maçãs, dei de ombros e enfiei o bolo no forno. Contei aos amigos que nas Arábias é assim que se faz. Para quem gosta de bolos úmidos, ficou na medida, certamente por eu ter "enterrado" as fatias de maçã, ao invés de arrumá-las sobre a massa. Pois bem, esse é o meu "bolo metido a árabe".



Rá. 


A comilança foi na casa de amigos festeiros que adoram uma festa temática. Já tivemos edições japonesas, mexicanas, nordestinas (lembra, Luciana Borboleta?), luau, sempre com alguns estereótipos divertidos, quem nunca? :-) É tudo sempre um pretexto para se reunir e dar risadas e, de quebra, eu experimento umas comidinhas bem gostosas. Estavam lá homus, kibes, kaftas, esfihas, couscous marroquino e várias outras coisas que comi antes de aprender a dizer o nome. Tudo lindo e muito saboroso e eu já estava com saudades das aulas de árabe. E, claro, fiquei muito feliz em ver que o bolo de maçã com especiarias fez sucesso também.





O pessoal caprichou na decoração e achei muito fofo nossos nomes em grafia árabe nos esperando na chegada. Nem a chuvarada que despencou no início da noite, obrigando a (talentosa) anfitriã a remover a tenda armada na parte externa da casa, desanimou o pessoal que cruzou o deserto para vir à festa.


 








A festa deve ter avançado noite adentro, mas nós voltamos para casa mais cedo, já que tínhamos levado as crianças. Quando saímos, o forró, essa tradição árabe milenar, estava só começando. ;-) Ma salaama!

O primeiro bolo da minha filha


Minha filha de cinco anos adora me ajudar na cozinha e quase sempre há o dedinho dela nos bolos que faço. Há sempre o dedinho dela na massa crua do bolo, também, claro, especialmente se for de chocolate. Há semanas ela me pedia para fazer um bolo só dela e hoje foi o dia de sua estreia. Escolhi uma receita bem simples - junta todos os ingredientes, bate, assa, pronto - pus os aventais em nós duas e fui com ela para a cozinha mais uma vez.

Minha função era ligar o forno, ajudar a espalhar a farinha de trigo na hora de untar a forma, ligar a batedeira e dar uma forcinha na hora de pesar os ingredientes. Ela se apoderou da receita, leu direitinho o que precisava usar e só derramou um tiquinho de farinha. A maior alegria foi quebrar os ovos com o garfinho, tic tic na casca que "nem corta o dedo, né?". Também precisou de ajuda para encaixar os batedores da batedeira e para raspar as laterais da tigela com a espátula de silicone (a ideia é aproveitar a farinha que gruda ali, mas ela mais lambrecava do que limpava e aí dei uma ajudinha). Ela se sentiu muito importante cada vez que perguntei "e agora, o que vai?" e sempre conferiu direitinho a receita antes de me informar.

Depois de pronta a massa, também me encarreguei de transferi-la para a forma untada, por causa do peso da tigela. Mas aí ela nem se importou e também não deu a mínima aos meus comentários sobre o tempo de forno, porque, a essas alturas, já estava lambendo a espátula.

O bolo cresceu, ficou lindo e muito gostoso - tirar do forno, claro, foi  minha função também. Depois do almoço, ela, o irmão, meu marido e eu, todos saímos de casa com uma fatia, seja na bolsa, num potinho ou numa lancheira. Foi a primeira vez que optamos por usar chocolate com menos açúcar e mais cacau para a receita desse bolo; acho que foi uma boa mudança, ele ficou mais leve e saboroso.

(Foto meia-boca tirada com o celular às pressas porque já estava na hora de almoçar e sair correndo.)

Apesar de eu ter tido meus momentos na cozinha quando criança, algo se perdeu depois e demorei um pouco até redescobrir como cozinhar pode ser tão prazeroso. Tomara que Amanda cultive esse gostinho pelas colheres e panelas ao longo de sua vida. Parabéns, florzinha. 

O Arthur, que também já me ajudou diversas vezes na cozinha, será o próximo a fazer um bolo pra chamar de seu. Aguardemos.



O garfo


Todos os dias pela manhã, vindo de algum sítio das redondezas, o leiteiro entregava dois litros de leite muito gordo. Antes mesmo de ele tocar a campainha, o barulho das garrafas já denunciava sua chegada. O moço vinha com suas garrafas de vidro verde e se eu fechar os olhos posso ouvir direitinho o barulho do leite sendo despejado dentro da leiteira: blof, blof, blof, blof, o peso aumentando e eu apoiando a leiteira no joelho; até o último jorro mais fininho, que caía sem muito barulho. Aí a gente fervia o leite. Em oitenta por cento das vezes, a gente perdia o timing, o leite crescia espumoso e se esparramava para fora da leiteira - era o pior tipo de sujeira no fogão, eu odiava com todas as forças. E eu olhava desolada para a leiteria toda suja por fora, aquela mancha de leite ressequido, quase um símbolo da minha infância - não adianta chorar. Quando o leite esfriava, a gente retirava a nata grossa e amarela que se formava no topo e a armazenava na geladeira. O fim mais óbvio era a manteiga da terra, a coisa mais gostosa do universo inteiro, três vezes. A alquimia me fascinava porque eu detestava nata - chegava a coar o leite em peneirinha fina para que nada daquilo migrasse para minha xícara; mas era só descongelar a bendita, bater com colher de pau cheia de vontade por uns tantos minutos, cozinhar por outros tantos e, voilá, a melhor manteiga. 

Mas havia outro fim, não muito frequente, para os muitos potes de nata armazenada dia após dia em minha casa: minha mãe fazia bolinhos de nata. Não sei como se faz, apesar de ter acompanhado o processo diversas vezes. Faz tanto tempo. Eu adorava e era simples assim: vou fazer bolinho de nata, ela dizia, e eu já era feliz. O último ato antes de levar os bolinhos ao forno, e disso me lembro com o coração dançando, era fazer sulcos no topo deles com um garfo. Essa era a minha função: ela os moldava, mas cabia a mim a honra de pressionar levemente um garfo sobre os bolinhos e dar a eles a forma final (havia mais gente na cozinha, mas não vejo os rostos, não mais; vejo apenas farinha pela mesa, bolinhos brancos na forma, o garfo em minha mão). Enquanto os bolinhos durassem, eu os comeria de boca cheia, feliz. Se minha memória não mente agora, minha mãe deve ter feito bolinhos de nata para meu aniversário de cinco anos. E a julgar pela nitidez da cena em minha cabeça, garfo pressionando os bolinhos, deve ter feito outras vezes também, mais tarde.

Eu cresci e ela parou de fazer os bolinhos e a nata passou a ser totalmente destinada à manteiga da terra. Nunca perguntei sobre a receita. Já comi outros em alguns momentos, numa ida qualquer ao Nordeste, certamente feitos a partir de receita diferente. O problema é a idealização. Temo fazer os bolinhos e não sentir o mesmo sabor daquela época. Eu poderia perguntar a alguém da família, talvez a forma mais simples de resolver o impasse, mas isso não garantiria o resultado. Porque, na verdade, nenhuma receita garantiria o resultado impossível que eu gostaria de alcançar. Eu queria o bolinho na boca, os olhos fechados e aquela voz de novo. Talvez eu tente. Só talvez.

Aí me ocorreu que o sabor pode nem importar muito. Que tudo que preciso é pedir à Amanda e ao Arthur que me ajudem com o garfo, pressionando os bolinhos. E tudo estará aqui, esse amor.
 

Pede cachimbo


O calor como despertador que nos faz esticar o braço em busca do controle do ar condicionado; passarinhos voando alto no céu sem nuvens, gritando que a manhã já ia longe; os cachorros sujando o jardim, a mangueira, o besouro tonto, o bebê do vizinho na calçada, o café tarde sem bolo, mas com suco de laranjas doces espremidas na hora; os dedos perdidos no piano e a melodia tão linda merecia uma execução melhor, mas é o que temos pra hoje; os filhos espalhando todos os brinquedos da casa em todos os cômodos da casa; o balanço, o almoço, a massa que não combina com carne de siri; a passagem comprada pelo computador, a música da banda na cabeça; o livro cada vez mais pesado, os olhos cada vez mais pesados, o cochilo, o calor; o bolo que cresceu demais, o jogo de tabuleiro, o vinho esquecido, o café em seu lugar; a purpurina espalhada no tapete, o cachorro comendo o tapete novo, a dor nas costas; o filme lindo que vi há muito tempo de novo na TV, mas é tão triste; o blog sem post, os e-mails que vou ler depois, o celular esquecido; o calendário; o beijo de boa noite, os gibis lidos na cama; ele e ela, tão grandes já; um convite, um livro que voltou, um bebê que vai nascer; um domingo sem telefonemas para minha mãe, mais um; uns planos; um dia tão simples, tão comum, tão azul e verde. Juntos, nós. E apesar dos vazios entre as estrofes ou do título que poderia ser melhor, eu acho que tudo se encaixa, como em um poema que a gente gosta de reler.

O lanche


Cheguei em casa e vi uma "bandeja" de isopor com várias folhinhas e outros pequenos pedaços de plantas. A bandeja estava colocada ao lado de uma das plantas da sala, apoiada sobre a boca do vaso e a terra. Achei aquilo esquisito e fui lá ver de perto. Peguei a bandeja, vi que era isso mesmo, vários pedacinhos de folha e talos. 

Eu: - Gente, o que é isso?
Amanda: - Não joga fora, mãe! É o lanche da lagarta.

O lanche da lagarta. Com bandeja e tudo. Meu coração ficou até quentinho. Meu lado adulto sem poesia explicou a ela que a lagarta provavelmente não iria visitar a bandeja pra comer as folhinhas, mas ela pediu que deixasse ali e eu deixei. No dia seguinte, sugerimos que ela espalhasse as folhinhas pelo jardim, aumentando as chances de a lagarta achar o lanche. E assim foi. 

Mas eu sei que folhinha na bandeja é mais lindinho. Só faltava o chá, gente. Só faltava o chá.

 
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