Dicas de viagem: Catan e Carcassonne


Esta semana me trouxe duas pequenas boas novidades no quesito diversão. Um casal de amigos nos apresentou os jogos Colonizadores de Catan e Domínio de Carcassonne. Vocês todos já devem conhecer. Mesmo assim, vai que há na área algum desavisado como eu, deixo aqui a dica. Nossos amigos, donos dos jogos, estão intimados a abandoar todos os demais compromissos sociais pelas próximas semanas ou meses, até que compremos nossos próprios exemplares. Aí eles continuarão sendo intimados, mas terão a opção de virem de mãos vazias. Nível de empolgação: dormir pra quê?

Coisa de que gosto é uma mesinha redonda com um bom jogo de tabuleiro, um vinhozinho ou um cafezinho, chocolate ou qualquer outra coisa mastigável para manter a boca ocupada, vidinha suspensa para a gente bolar estratégias mirabolantes, xingar os dados, jogar conversa fora, discutir o preço das ovelhas, erguer mosteiros e fortalezas.

(Domínio de Carcassonne Imagem daqui)

Carcassonne é um jogo-dominó. As peças vão sendo dispostas na mesa, uma por vez, e gradualmente formam um cenário com vilas, grandes cidades medievais, estradas, mosteiros e os campos que os cercam. Toda partida gera um cenário diferente. Cada jogador, se quiser, vai ocupando as localidades e estradas à medida que elas surgem; e avança na pontuação quando consegue completar uma unidade (uma estrada, uma vila, ou uma cidade). É preciso pensar estrategicamente para estudar as chances de completar as unidades e, assim, somar mais pontos. As partidas duram em média 40 minutos e o jogo é indicado para crianças a partir de oito anos e para adultos desocupados ou que não façam questão de dormir (quero férias, já, de novo).

Carcassone é bem legal, mas Colonizadores de Catan já ocupa em meu coração uma vaguinha privilegiada. Brincando de fazer comparações entre vícios velhos e atuais, Catan tem, a meu ver, várias vantagens em relação ao War, por exemplo. Em primeiro lugar, a fé de que a partida uma hora acaba. Porque jogar War é legal, mas após cinco, seis horas de partida sem nenhum vencedor no horizonte, a gente começa a bocejar. Uma partida de Catan também pode se prolongar bastante, mas as que  joguei até agora duraram cerca de duas horas e renderam muitas surpresas e viradas de jogo. Em segundo lugar, todos os participantes se mantêm envolvidos nas rodadas de Catan, o tempo todo. Os dados de meu adversário podem me beneficiar e as negociações podem se dar entre quaisquer participantes a qualquer tempo, já que quem detém a vez de jogar pode trocar recursos com qualquer jogador que esteja disposto a negociar. No War, caso você não esteja atacando ou sendo atacado, pode cochilar ou morrer de tédio até que os outros três ou quatro participantes resolvam suas pendências e chegue de novo sua vezzzzzz...zzzz...zzz de jogar os dados. Não estou cuspindo no prato que comi, hohoho, ainda considero War um jogo legal, mas meus olhos agora brilham por Catan.




(Colonizadores de Catan - Imagem daqui)

Em Catan ninguém ataca ninguém. O objetivo é acumular recursos para colonizar a ilha, construir estradas que nos permitam erguer nossas aldeias e cidades, até atingirmos a pontuação que nos torne vencedores. A ideia é simples, mas a dinâmica e a apresentação tornam as partidas bem divertidas. Quando você lança os dados, eu presto atenção e torço para que sua jogada resulte em recursos para mim; é preciso sorte nos dados (seus e dos adversários), lábia para negociar e estratégia para fazer o melhor uso possível dos recursos disponíveis. Uma delícia, quero jogar pra sempre.

São necessários pelo menos três participantes para uma partida (quatro, no máximo), então tomara que o Arthur goste (temos jogado tarde da noite, ele ainda não experimentou). Caso contrário, nos dias em que os amigos não puderem jogar, Ulisses e eu precisaremos ensinar o negócio ao cachorro e isso pode ser difícil. Enquanto não compro os jogos, estou pensando em perder a chave de casa na hora dos amigos irem embora. Né? Aí, já que eles vão ter que ficar mesmo, a gente joga mais uma.

(Enquanto passeio por Catan e Carcassonne, avanço mais lentamente por Westeros, mas ainda estou por lá também.) 


Final de semana no Beach Park



Troquei umas folgas aqui e ali, arrumei uma malinha com 17 tubos de protetor solar e fui. Com marido, filhos e outras quatro famílias fui ao interior do Ceará, no município de Aquiraz, a 27 quilômetros de Fortaleza, visitar o tão falado Beach Park. Voltamos roucos, bronzeados e com os narizes entupidos. Também voltei me achando a última bolacha do pacote porque, né, encarei tobogãs que no primeiro dia do passeio me fizeram dizer "é ruim, hein".

Eu já sabia (ou suspeitava) que o Beach Park seria um bom programa para fazer em família, mas não imaginava que fôssemos, todos, nos divertir tanto. Basicamente, eu me molhei, gritei, fechei os olhos apavorada, senti frio na barriga, descobri que sou mais medrosa e mais corajosa do que sabia, subi escadas carregando boias e desci água abaixo gritando, molhada, descabelada e morrendo de medo. As crianças fizeram tudo isso em dobro, só que sem sentir medo algum, aqueles lindos.

O Beach Park não é famoso à toa. Para quem gosta de um tiquinho bom de adrenalina, curte um sol daqueles na testa (sem sofrimento, porque afinal ficamos molhados o tempo todo) e quer fazer um passeio sob medida para agradar a família toda, eis um ótima pedida. A maioria dos brinquedos é classificada não por faixa etária, mas por altura. Há alguns obviamente projetados para agradar aos pequenos, mas, no final das contas, o que define mesmo se você está apto ou não a usá-los é a sua altura. E a coragem. Ou a falta de juízo. Em todos os brinquedos, salva-vidas e instrutores rigorosos e bem treinados (ou pelo menos foi essa a impressão que tive) auxiliam e sorriem discretamente quando veem alguém apavorado como eu. 

Comentei com uma das amigas parceiras de sobe-e-desce que, quando eu era mais nova, costumava ser uma garota destemida e fã de montanhas-russas. Enquanto eu falava isso, lembrei-me de umas férias passadas no Rio em que, juntamente com uma prima, entrei sete vezes na fila da antiga montanha russa com dois loopings (o auge do radicalismo naquela época), no antiquíssimo Tivoli Park. Só paramos de andar naquilo porque minha prima passou mal. Agora, quase nada resta dessa afobação toda - e o Tivoli nem existe mais. Diante dos tobogãs do Beach Park, eu era uma pessoa olhando pra cima e pensando "será??" 

Em um dos brinquedos, cheguei a sair duas vezes da boia antes de despencar lá de cima (ui, só de me lembrar, sinto medo de novo); só encarei a loucura porque Amanda, minha filha de CINCO anos, já estava na boia e insistiu: vem, mãe! Olha, a maternidade não é para os fracos. Eu fui. Fui, fechei os olhos, cravei as mãos nas alças de apoio, prendi minhas pernas sobre as da Amanda e implorei  sugeri que as amigas pusessem as delas sobre as minhas, gritei com um bebê com fome e despenquei. A queda deve ter durado dois segundos, mas, né? Morre-se em menos que isso. E é claro que a praga da boia girou de tal maneira que minhas costas ficaram voltadas para o nada, aumentando ainda mais a sensação de que eu ia cair num abismo sem fim. No meio da despencação toda, abri os olhos para ver se Amanda ainda estava na boia e ela estava afastando os cabelos da testa. Tinha largado as alças. Se eu quisesse muito largar as alças, não teria sido capaz. Amanda se incomodou com o cabelo no olho enquanto eu achava que meu coração ia sair pela boca. Minha amiga explicou: Amanda não tem filhos. Deve ser por aí. É verdade que o mesmo brinquedo a assustou no dia seguinte e nós duas descemos pelas escadas enquanto a galera mais destemida deslizava ribanceira abaixo, mas isso não tira o mérito da minha pequena corajosa que bem que teria se aventurado em outros tobogãs se sua idade e altura permitissem. E é claro que Ulisses e os amigos vão morrer dizendo que eu não me esforcei nem um pouquinho para que ela mudasse de ideia (o que me obrigaria a descer de novo), ao que respondo: é verdade. Ulisses, aliás, conseguiu me convencer a encarar alguns dos tobogãs mais altos e desceu com meus berros invadindo seus tímpanos, coitado.

Foi tudo muito bom e agora engrosso o time de quem recomenda o parque. O lugar é grande o suficiente para abrigar muitos brinquedos, adequados a faixas etárias e a níveis de coragem variados. Se você for muito fã das alturas, pode curtir uns três ou quatro dias por lá sem se cansar. Nós curtimos dois dias inteiros e foi de bom tamanho, mas pretendo voltar quando Amanda for maior e capaz de usar muitos brinquedos que, dessa vez, só o Arthur, Ulisses e eu aproveitamos. Isso não quer dizer que ela não tenha curtido também. As atrações para os pequenos são tão divertidas quanto as destinadas aos maiores - sem falar que são uma ótima forma de gente corajosa como eu praticar em minitobogãs antes de se aventurar nos grandões, mas não espalhem isso por aí.

Tudo já estava muito bom, mas o parque ainda fica na linda e imensa praia de Porto das Dunas, um daqueles cantinhos que o planeta reserva para nos lembrar que é lindo. O mar é um pouco agitado, mas suas águas mornas e limpas são um convite bom. A lua também deu as caras e nossas noites não ficaram devendo nada aos dias de sol. Para completar, estávamos no Nordeste e aliviei certas saudades culinárias. Comi tapioca quentinha com manteiga derretida e Ulisses se acabou no queijo de coalho. Quando a primeira colherada de cuscuz com leite entrou em minha boca, fechei os olhos e por uns segundos foi como se eu tivesse 17 anos outra vez, a mesma garota que não tinha medo de loopings ou alturas. Mas o cuscuz se acabou e o tobogã me meteu medo outra vez.


Não tenho muitas fotos, a máquina ficava na segurança seca do hotel enquanto eu me descabelava molhada o dia inteiro. Mas vou guardar comigo as lembranças desses dias que passaram tão rápido em ótima companhia, cercada de crianças corajosas e sorridentes. No último dia, Arthur, que, junto com seus amigos, brincou em tudo que sua altura permitia, me intimou: mãe, desce comigo no tobogã vermelho! Vi aquela carinha feliz e bronzeada, respirei fundo e fui. Descer as alturas várias vezes com ele foi a melhor parte do passeio; é verdade que na primeira descida ele reclamou que o deixei surdo com tantos gritos, mas nas descidas seguintes me comportei melhor e, depois de tudo, agradeci por ele ter acreditado que eu conseguiria. Não é só disso que precisamos de vez em quando? ;-) Quem sabe na próxima encaro os mais radicais que, dessa vez, observei lá de baixo, enquanto a turma (quase) toda deslizava. Quem sabe. 

(Na falta de fotos do parque propriamente dito, fiquem com uma que reflete o olhar da Amandinha sobre o ambiente.)


Bis


Na semana passada levamos o Arthur à oftalmologista para consulta de rotina. Depois do sucesso da última consulta não esperávamos outra coisa que não a confirmação de que tudo andava bem; talvez alguma correção no grau dos óculos, nada mais. Infelizmente, não foi o que aconteceu. O exame apontou que o olho esquerdo sofreu ligeira perda na acuidade visual nos últimos meses. Como até os nove anos a visão da criança ainda está em desenvolvimento (o Arthur fará 8 anos em maio), é hora de nos manter atentos e não deixar que o sucesso conseguido com o tratamento que ele faz desde os dois anos de idade sofra um grande retrocesso. Precisamos retomar o uso do tampão, por algumas horas, todos os dias. 

Não foi uma notícia fácil de digerir. Tínhamos comemorado o final do tratamento com o tampão, jogado todos fora e o parabenizado pelo esforço e pela vitória. Isso em outubro passado. Agora, tão pouco tempo depois, precisamos voltar duas casas no tabuleiro. Passei dias mastigando o assunto, fiquei triste, duvidei do diagnóstico. A força veio do próprio Arthur que, mesmo um pouco desapontado, disse que não quer que um olho seja mais fraco que o outro. Até onde posso perceber, ele aceitou bem o novo desafio e já começou a mais uma vez se acostumar com o visual piratinha por algumas horas do dia. Não será necessário ir à escola com o tampão. A estratégia agora é permitir que o olho esquerdo recupere a leve perda que sofreu nos últimos meses e garantir que ela não volte a acontecer. Algumas horas por dia com o olho direito tampado, por alguns meses, deve bastar para que tudo se resolva.

Olhei para o Arthur e disse que sinto muito, que gostaria que não fosse mais necessário usar o tampão. Mas disse também que ele tem sorte em ter a saúde dos olhos acompanhada de perto, valorizada demais. Disse ainda que a vida tem disso, desafios que testam nossa capacidade de resolver as coisas. E que ele vai, mais uma vez, sair vitorioso de tudo isso. Disse porque é verdade e porque quero que ele saiba em seu coração que eu também gostaria que fosse diferente e que entendo que o tampão o incomoda. Mas que todo o esforço vai valer a pena para ter aqueles olhos lindos trabalhando direitinho para que ele possa enxergar as belezas por aí. E vou repetir muitas vezes que cada vez que eu disser "Arthur, tá na hora do piratinha" é com amor que vou falar.

Acho que preciso de mais colo que ele, ainda que esteja firme e forte ao seu lado. Minha  missão agora é encontrar tampões bonitos e coloridos que tornem as horas-pirata menos incômodas. Talvez eu mesma compre folhas de E.V.A. bem lindas e os confeccione, algo não muito difícil de se fazer.

É isso. Vumbora pra frente. A gente gosta de comemorar, então vejamos pelo lado bom. Daqui a meses, quando tudo acabar, a gente comemora tudo outra vez. Ah, sim.

Sunday afternoon




(daqui.)

E daqui de casa. 



 


    
Etc., por horas.

 ***

Desde sempre Ulisses queria uma tomada na sacada, onde fica a esteira elétrica. Para evitar a função de esticar o fio lá para dentro do escritório todas as duas vezes por ano em que usa a esteira. Aí um dia ele aproveitou que um moço viria aqui consertar sei lá o quê e pediu  pra ele resolver isso aí. O moço fez, bateu bateu bateu, furou furou furou, passou fio passou fio, instalou a tomada. Problema resolvido. Mas o Ulisses se esquece que isso já foi feito e aí estica o fio pra dentro do escritório, com se a tomada nova não existisse. Ele é assim. Mas agora tanto faz, porque a esteira queimou mesmo. Problema resolvido.

***

A gente se joga na cama do Arthur pra ler gibi, Arthur, Amanda e eu. O Arthur adora ler em bando. Mas adora porque assim ele tem com quem dividir as historinhas engraçadas. Não consigo ler duas páginas seguidas sem parar para ouvir "hahaha, olha essa, mãe!". E lê a história dele pra mim; ou me mostra a tirinha do final do gibi, com uma das mãos escondendo o último quadrinho, fazendo suspense. A prova de que mãe é bicho tolo é que acho isso lindo - e até estranho quando consigo ler uma historinha toda em silêncio.

***

Quando fui a Nova York, anos atrás, comprei para minha mãe uma caneca cor-de-rosa. Era de um tom fechado, um rosa profundo, quase cereja. Uma cor linda. Tinha o desenho de uma pequena flor e o nome da cidade. Um souvenir clichê para que ela tomasse leite se lembrando de mim. Ela não tomava. Guardou a caneca no armário da sala e seguiu tomando seu leite num copo de vidro. Esse era o jeito que ela tinha de mostrar que valorizava o objeto: preservá-lo, não usar. Depois que ela morreu, eu trouxe a caneca para minha casa. E, do meu jeito, valorizei cada café tomado nela. Rotineiramente, café após café, revivi o dia em que entrei na loja de lembrancinhas em Manhattan e escolhi a caneca mais linda; e me lembrei do lugarzinho no armário da sala de minha mãe em que a caneca morou por anos. Essa semana a caneca caiu no chão e se quebrou. Ela nem usava, penso eu. Mas não adianta. Quebrou-se e fez eco aqui dentro. Várias canecas no armário, é a dela que se quebra. Brinquei de jogo do contente e busquei um pensamento que me tirasse do banzo. Achei. A sala onde morava a caneca fica naquela casa. Que não está mais à venda. Arranquei a placa. Foi-se a caneca, fica a sala.  


O pote de amêndoas encalhado


A pessoa decide fazer um prato X. Abre a geladeira, retira de lá o que precisa, assobia uma canção, pega utensílios na gaveta. Quando abre o armário descobre que o ingrediente central do molho acabou. Sem tempo de ir ao mercado, revisa os planos e saca lá das gavetas mentais uma outra receita, muda a canção e se põe toda faceira a preparar outro prato. No meio do caminho, já lá pela terceira melodia, decide experimentar aquele condimento esquisito e adicionar um pouco de vinho pra ver no que dá. E dá numa coisa linda, colorida, saborosa, que todo mundo vai comer rezando e elogiando.

Essa pessoa não sou eu. 

Pra começo de conversa, não sei assobiar. Mas o que pega mesmo é ser dependente de boas receitas. Se a receita for ruim, não vou saber, a não ser depois que o prato estiver pronto. Perdi todas as aulas de criatividade na cozinha e só cozinho alguma coisa com a receita de lado, conferindo se o correto é mesmo 157g ou 159g de manteiga. Vai que dá errado e vou ficar pensando se não foi culpa dos 2g de diferença, né? Não arrisco muito. Diferente de mim, Ulisses entra dançando na cozinha, saca um punhado de carne moída, uns tomates e meio copo d'água (além de outras coisinhas, sei lá o quê) e, vinte minutos depois, temos lindos sanduíches com hambúrgueres feitos por ele, lambrecados com molhos feitos por ele a partir de receitas inventadas ali, na hora. Ou pega um peça de peixe e, 40 minutos depois, serve o melhor prato do mundo, com um molho que nos faz acreditar em paraíso. Inventado por ele também. Sei fazer nada disso, não. Mas, justiça seja feita, já melhorei bastante. Já acrescentei castanhas de caju em uma receita que só pedia castanhas do Pará. \o/ Revolucionário. 

Pois bem. Aí um dia eu vou ao mercado e compro amêndoas. "Vou fazer um bolo", penso. Os dias passam, faço outros bolos e me esqueço das amêndoas. Outro dia arrumo o armário e coloco o pote de amêndoas bem na frente, em evidência, para que eu trate logo de usá-las. Até que começo a ficar irritada com o pote que, ora, nunca sai dali. Então quando ontem vi o bolo sueco que a Patricia publicou, pensei "é agora".


Hoje mal terminei o café da amanhã, pus a mão na massa. Não sei assobiar, mas Adelle estava berrando no som da sala; juntei-me a ela, retirei o bolo do forno cinco minutos antes do tempo sugerido na receita (fiquei com medo de queimar bolo tão leve) e voilá. Deu certo, foi-se o pote de amêndoas. A julgar pela foto do TK, meu bolo cresceu um pouco menos, mas ficou bem fofo. Perfeito para tomar com café pretinho e quentinho. Sirvo fazendo cara de quem sabe cozinhar, vocês precisam ver. :-)


Mirante


Por falta de asas, botei minha saia mais rodada e minha blusa rendada. Subi descalça as costas do morro, pisando e sorrindo sobre a grama úmida e fria. Foi bom alcançar a árvore quase no topo. Pude me apoiar no tronco e, com as costas arqueadas para recuperar o fôlego, ouvir o silêncio da tarde com mais atenção. Depois voltei a estufar o peito e dei os passos finais até o cume. E aí pude ver. A cidade lá embaixo, o céu quase cor-de-rosa, a estrada (de longe, tão linda), o verde todo. Pelos meus pés eu sentia o planeta, meus cabelos lambendo minha testa me mostravam a direção do vento, meu coração acelerado me dizia quem eu sou. Mas era a lembrança de você que me fazia sorrir inteira. Fui ali olhar de longe e vi que não estou errada: é tudo imenso. Ainda me sinto como quando vi meu nome escrito com sua caligrafia no encarte do CD que você mandou pra mim. 

Quarta-feira de cores



(...)
Quem me compra este 
formigueiro?

E este sapo que é
jardineiro?

E a cigarra e a sua
canção?

E o grilinho dentro
do chão?
(...)  
Cecilia Meireles



 Mudinhas



Terra fofa.

 Ajudinha.



 

Mãos, cachos, dedinhos verdes, unhas pretas.

 
 Água fresca.

E o tempo que virá, tic tac, tic tac...




Gelo & Fogo e os filmes das nossas cabeças (e o pote de paçoca)


2013 trará às telas do cinema pelo menos dois filmes baseados em livros que li recentemente: The Great Gatsby (com o maravilho Leo DiCaprio, ator que não me canso de admirar e que - e nisso concordam comigo vários amigos e amigas que também o admiram - é a prova mais contundente de que a premiação do Oscar é tantas vezes absurdamente injusta) e uma nova versão para Anna Karenina (minha relação com o livro não é lá de grandes amores, mas quero muito ver o filme). Não costumo exatamente comparar a maneira como as histórias são contadas na literatura e no cinema, posto que as linguagens desses dois universos são tão incrivelmente distintas que qualquer comparação pode trazer considerações deveras irrelevantes. Para dizer o mínimo, enquanto o cinema nos oferece cores e rostos, sons e gestos, timbres e música de fundo, na literatura construímos nós mesmos o background das histórias que lemos. Cada um de nós sabe do cenário e das matizes que nos cercam no sofá ou na cama enquanto nossa mente filma as páginas. E cada leitor faz do livro uma produção diferente, única. Mesmo assim, gosto de ver produções cinematográficas baseadas em histórias que já filmei em meu sofá, nunca valorando o filme pelo tanto que se aproxima da forma como eu mesma li o livro, mas sempre apreciando como uma forma de arte se comunica com outra. 

(Não acho que os próximos parágrafos contenham spoilers, mas se você é extremamente sensível a eles, talvez seja melhor evitar o resto do post.)

E assim foi minha leitura do segundo livro d'As Crônicas de Gelo e Fogo - A Fúria dos ReisFinda a leitura, agora vejo que a segunda temporada da série antecipou elementos do terceiro livro e pôs em evidência elementos que nos livros são meramente sugeridos; também caprichou na carga erótica que no livro praticamente inexiste e suprimiu elementos mais místicos e fantásticos. O saldo, para mim, é duplamente positivo: gosto do livro, gosto da série. Claro que sempre posso dizer que gostaria que passagens do livro construídas sobre sonhos e visões de Bran Stark fossem lindamente transpostos para a telinha; posso achar apelativas as repetidas cenas no bordel de Lorde Baelish; ainda assim, livro e série, para mim, seguem, cada um em seu reino, coerentes e muito bem editados. Com exceção do Drácula, de Bram Stoker, acredito que essa tenha sido a primeira vez que li um livro cuja história já tinha visto adaptada nas telas. A partir daqui, devo seguir de mãos dadas com os dois. Pretendo mergulhar imediatamente no terceiro volume, mas sou leitora lenta e aguardo o final de março para começar a acompanhar a terceira temporada na TV.

Eu adoro ver Peter Dinklage em cena. É como se o Tyrion do livro se erguesse das páginas para a TV, perfeito. Prefiro o Joffrey que inventei em minha cabeça (se é que a gente pode "preferir" um Joffrey em algum nível) e a TV ainda não mostrou a mata dos lobos que tenho visitado em meu sofá. Ainda assim, quer a série siga próxima ao livro ou dê outros contornos ao enredo, tenho ótimas expectativas quanto às próximas temporadas, levando em conta o elenco até aqui impecável. Quanto aos livros, vai ser difícil me decepcionar, acredito. Sorrio satisfeita quando antecipo semanas e meses de diversão e fantasia, torcendo que meus filhos encontrem na leitura o mesmo tipo de experiência que Ulisses e eu temos tido ao longo dos anos. Como diz o autor Martin, pela boca de um de seus personagens, um leitor vive mil vidas antes de morrer. No meu caso atual, vejo duas séries também. 

"Uma dúzia de grandes incêndios enfurecia-se sob as muralhas da cidade, onde barris de piche ardente tinham explodido, mas o fogovivo reduzia-os a simples velas numa casa em chamas, flâmulas laranja e escarlate que tremulavam sem significado diante do holocausto jade. As nuvens baixas capturavam a cor do rio em chamas e cobriam o céu em tons mutantes de verde de uma beleza fantasmagórica".

As cenas de batalha e combate da série são boas. Mas há detalhes que surgem à minha volta enquanto leio passagens como essa que só aparecem na versão que filmei pra mim. E naquela outra que você filmou pra você. E nas tantas outras que os milhões de leitores ao redor do mundo constroem cada vez que viram mais uma página. Uma pena que a gente precisa comer, trabalhar, tomar banho, essas coisas sem graça. Tudo bem, comer tem bastante graça, mas sempre se pode levar o pote de paçoca para o sofá, né? 


Lilás


Queria um versinho lilás.
De uma cor que pinta o céu
quando, logo após a chuva,
o sol reaparece
no morro lá de trás.

Queria um riso de menininha.
De um tipo que você faz,
em sua boca pequena,
com aquele barulho 
de risada dobradinha.

Então fiz creme de amora,
sem saber se você gostava.
Usei frutas fofinhas 
e encontrei versinho e riso
na cor que você adora. 


***

Tá, o versinho não é nenhum Cecilia Meireles, mas o creme é bem bom. Vi a receita aqui e mudei umas coisinhas. Não sei se é tempo de amoras, mas as que vi no mercado ontem estavam gritando de tão lindas. 

Ingredientes

Para a calda:

300 g de amoras (usei 200g, mas 100g a mais me parece o ideal)
1/2 xícara de água
3 colheres de sopa de açúcar cristal

Para o creme:

2 xícaras de leite
2 colheres de sopa de farinha de trigo
4 colheres de sopa de açúcar cristal
300g de creme de leite (a receita fala em creme de leite fresco, mas usei o comum e tudo deu certo)

Modo de preparar

Comece pela calda. Reserve 4 ou 5 frutinhas para decorar. Coloque as outras amoras em uma travessa refratária. Acrescente o açúcar e a água e leve ao forno por 30 minutos, a uma temperatura de 160ºC. As amoras vão amolecer bem, mas não vão se desmanchar. Dei uma leve amassadinha com um garfo para "bagunçá-las" um pouco mais.

Faça o creme. Dissolva duas colheres de farinha de trigo em meia xícara leite. Acrescente o restante do leite, o açúcar e o creme de leite e leve ao fogo brando até que a consistência do creme permita que você veja o fundo da panela, ou quase isso. Acrescente a calda e continue mexendo até obter coloração homogênea e a mesma consistência que o creme tinha no momento em que você acrescentou a calda. Despeje na travessa que pretende usar para servir e deixe esfriar completamente. Decore com amoras inteiras e leve à geladeira. Tem sabor leve e foi muito elogiado. E, de quebra, a cor é linda. :-)



Todo ano tem


As lembranças mais remotas que tenho dos carnavais são de um tempo tão longe que nem parece que a menina em minha memória sou eu. Faz muito, muito tempo. Eu morava na cidade onde nasci e minha mãe não gostava mais da folia. Lá do fundo da minha infância, eu achava a festa um pouco exagerada, sentia certa aflição. Talvez fosse só vontade de brincar na rua como tanta gente grande fazia, talvez. Não sei. 

Eu me lembro de um baile matinê no clube da cidade. Não sei quem conseguiu convencer minha mãe a ir, mas ela foi e me levou. Vestiu-me com uma saia vermelha de crochê e uma camiseta branca; eu usava uma peruca e uma máscara com lantejoulas purpurinadas que me fazia lacrimejar. Ou talvez não fosse a máscara o problema para meus olhos, mas a fumaça dos cigarros e do gelo seco naquele ambiente meio escuro e lotado, com som muito alto. Havia um cheiro esquisito no ar, de bebida e suor. Não foi o melhor carnaval da minha vida. 

Naquele tempo, havia por lá a mania irritante de jogar talco ou maizena nas pessoas e durante os dias da festa era comum ver todo mundo pela rua coberto de pó branco dos pés à cabeça, gente cheirando a álcool e aparentemente muito feliz, de uma felicidade que eu não captava muito bem. Aí a noite chegava e tudo que eu experimentava do carnaval eram os sons das charangas batucando pelas ruas, além das chamadas para o desfile das Escolas de Samba na TV. Eu escolhia uma escola pra torcer e dois dias depois era como se a festa nem tivesse existido.

Aí eu cresci.

Tenho uma pequena coleção de ótimas lembranças relacionadas ao Carnaval propriamente dito e aos carnavais fora de época que um dia começaram a se multiplicar pelo país. A primeira micareta de que participei foi um jorro de empolgação por aqueles trios arrastando multidões. Eu adorava. Até hoje algumas canções tradicionais do carnaval de Salvador são capazes de me arrepiar e me lembro nitidamente que o primeiro deles foi como uma grande conquista. No ano anterior, eu tinha visto cenas da festa pela TV com um grupo de amigos da faculdade. Ninguém tinha viajado para brincar, não havia carnaval em nossa cidade e nossa diversão foi se reunir para rodinhas de violão e jogos de tabuleiro. Alguém olhou para  a TV e profetizou que no ano seguinte estaríamos lá e assim foi. E foi incrível, louco, arrepiante, cansativo e calorento. E bom demais. Repeti a dose até decidir passar o carnaval em Olinda e aí minha definição de carnaval divertido mudou. Descobri que sou capaz de gargalhar quatro dias sem parar. Olinda será para mim, sempre, a referência do carnaval popular, irreverente e desbocado, uma muvuca de fantasias louquíssimas, uma grande amostra de criatividade e bom humor. The best, oh yes. Aí deu.

Saí do Nordeste e nunca mais brinquei carnaval. Ou tentei brincar, mas não foi lá muito bom. Certa vez levei um pirata e uma baianinha para um bailinho infantil, mas o som altíssimo me deixou com pena das crianças e não sei se vou repetir a dose tão cedo. 

Nunca saí em escola de samba, nunca vi de perto um desfile. Eu acho aquilo tudo lindo e grandioso e sei que a empolgação é só uma questão de se aproximar o suficiente para ouvir a bateria. Quem sabe um dia? Agora não. Agora o Carnaval que tenho é aquele que minha mãe sempre sonhou pra mim, hahaha, em casa, livrinho aberto, crianças por perto, almoços atrasados, filminhos da locadora pela estante, café com preguiça. Sei que as crianças vão crescer e provavelmente experimentar a fruta. E sei que vou torcer para a quarta-feira chegar e vou dizer que não precisa tanto, todo ano tem. Ou vou eu mesma organizar o baile. Ou levar todo mundo pra subir ladeira. Não sei. Que venha. Eu espero. Todo ano tem.

Boa folia, gente.

***

O pessoal do site Blogueiras Feministas fez um post sobre a licença paternidade. O Ulisses contribuiu com as entrevistas e tem lá uma foto em que ele segura nossa Amanda quando ela era ainda um bebê fofucho. E tem outros pais com seus filhotes, todos torcendo por uma licença mais ampla que traga benefícios para as famílias. Entre um ziriguidum e outro, espiem lá. :-)

Pra conquistar o espaço


Quando cheguei em casa, cada um tinha um foguete. O do Arthur foi feito com folha colorida A4, enrolada e adornada com base triangular, umas pontas na parte superior, escotilhas desenhadas (foguete tem escotilha?). Simples, mas bem "eficiente". O da Amanda era cor de rosa e menor, feito com um providencial rolinho de papel higiênico. 

Acontece que eu sabia que não havia rolinho de papel higiênico "vazio" disponível na casa. 

- E onde você conseguiu esse rolinho? - perguntei. Duas carinhas começaram a trocar olhares de SOS.
- Hummmm... no banheiro. - ela respondeu.
- Tinha acabado o papel higiênico, Arthur? - perguntei.
- Hum, não. 
- Ah, é? E aí?
- Aí a gente desenrolou o papel e jogou na privada.
- Arthur, você sabe que poderia ter entupido a privada jogando muito papel lá dentro de uma vez, além de...
- Não, não, não, a gente rasgou em milhões de pedaços, deu um trabalhão, levei um milhão de anos!

Pra "reciclar" o rolinho do papel higiênico, vocês entenderam, né? Teve papo sobre desperdício e o conceito de "reciclar", fiz uma cara de brava danada, mas é verdade que o foguete ficou bem bonitinho.

Dia 06


No dia 06 de fevereiro de 2002 minha Tia Maria registrou em seu diário que ganhou uma "surpresa de aniversário". Além dos nomes que participaram da "surpresa", não há maiores detalhes registrados. Entre outras pessoas, estavam lá minha mãe, meus tios e eu. Ela estava completando 72 anos e era a mesma Tia Cebolinha que me divertia nos anos 70, 80, 90. Era sorridente, passava a mão no cabelinho que caía sobre a testa, ria das próprias piadas, tinha olhos muito azuis por trás dos óculos. De quaisquer óculos - ela tinha muitos, espalhados pela casa e, segundo ela, isso era bom - "sempre acho um, se precisar". Eu sei que não era verdade, ela nem sempre achava, mas não vamos nos apegar a detalhes. Ou vamos. Eu gosto dos detalhes nas histórias de que me lembro e que têm Tia Maria como personagem. São quase sempre engraçados e dignos de relato. Como a agulha que ela guardava espetada no colchão da cama onde dormia. Agulha no colchão, gente. Tia Maria.


Hoje ela faria, então, 83 anos. No ano passado, eu não estava lá. Mas meus tios e primos estavam e comemoraram com ela, partiram bolo e tiraram muitas fotos. Eu babei com as fotos no Facebook, liguei pra ela e nos afofamos pelo telefone. Ela era linda, gordinha, baixinha, booooa de abraçar. A pele era a mais macia de todas, quem abraçava sabe. Meses depois ela nos deixou e hoje a gente fica assim, achando o dia 06 de fevereiro menos fofinho.

Com muitas, muitas saudades.  

Random


Tem muita coisa acontecendo na minha vida agora. Coisas grandes e pequenas, boas e outras nem tanto. Algumas bem tristes, outras tão bonitas. Há as imprevisíveis, que me dão sustos e há as que eu já sabia, mas que me assustam também. Ao fundo de tudo, o cotidiano e suas exigências marcadas em calendário.

Em fases assim, de mar mais agitado, navego mais devagar, se o dia permite. Tenho olhado muito pelas janelas que me aparecem pelo caminho, bem fujona. Eu queria crescer um pouco mais e ser capaz de cuidar melhor. De mim, inclusive. Ou de me expressar com clareza, para não gerar dúvidas indesejadas. (Mas, né, as palavras, coitadas.) Ou de ter mais autoconfiança e não esperar tanto que me digam que "é assim mesmo", porque eu já sei que é assim mesmo.

***

As crianças são um arco-íris. Amanda queria ter um sabre de luz e chorou porque o maribondo ficou sem casa. Arthur gargalha e o som que sai de sua boca cheia de dentes é uma rede na varanda. Aí o humor se rebela e tenho dois adolescentes que cruzam os braços em protestos veementes. Mas a varanda ainda é boa. Então aviso com cara de urgência que  eles falaram tanto que os beijinhos vão cair no chão - aí eles correm para depositá-los em minhas bochechas. Arco-íris.

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A caixa lacrada de projetos mirabolantes vibrou como um telefone. Talvez eu a abra, nem que seja para jogar mais coisas lá dentro.

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Nossos cachorros estão aos poucos se tornando amigos. Aos poucos. Talvez a paz reine se eu comprar espelhos para o pequeno. Ele acredita, mesmo, que pode enfrentar o grande. O grande já o abocanhou três vezes. Nas duas últimas ele, o pequeno, resmungou, rosnou e quis mais. O grande já estava recolhido calado em sua casa, obediente às ordens de meu marido, e o pequeno ainda latia na base do "vai encarar??". Cachorro sem noção, temos um. Ele não entendeu que só está vivo porque o grande tem bom coração. Ou já entendeu e está se divertindo.


***

Daí naquele momento de muita fome eu reclamo. Nossa, como é ruim sentir fome. No segundo seguinte, digo "isso não é nada, fome mesmo passou a Arya". Juro que digo, como se a Arya fosse real. Do mesmo naipe, acho que quando os esqueletos dos Lannister vierem à tona e a galera perceber que está morando sobre o chão de Westeros, a sensação será ainda maior do que a causada pela descoberta dos ossos de Richard III. Eu ficaria o dia inteiro largada no sofá lendo As Crônicas, se pudesse. Só largaria o livro para comer, porque já basta a Arya com fome. Onde vende noção?



Voltas


Não saberia dizer ao certo por quanto tempo ficou parada na calçada olhando para a casa do outro lado da rua. Talvez meia hora, dez minutos. O tempo era outro, passado em batidas no peito e voltas na cabeça, nenhum relógio saberia. Viu retratos em movimento, como em um tumblr improvisado de sua infância. Viu os vidros coloridos da janela e lá dentro os risos e os choros, tudo abundante. Viu o jardim que nem estava mais lá. Era um de raízes fortes e por isso ainda o via. Viu até o quartinho do quintal, aquele com camas de molas. Viu as fachadas antes de cada reforma, a vassoura varrendo o pó, os acenos varrendo a alma. Viu sua própria cara de tola olhando a lua, sentada ao pé do portão branco, e viu o cabelo assanhado pelo vento frio de uma noite qualquer de domingo, no mesmo portão. Viu a garota assustada, a afoita e a corajosa. Viu o telefone vermelho, o lustre da sala, o diário na gaveta. Esforçou-se para não olhar para cima, mas sabia que deveria. Foi quando a respiração ficou mais curta e o peito virou chumbo. Viu a placa de vende-se. Quando a primeira lágrima caiu na calçada suja de fuligem, o filho chamou com sua voz de vida que segue. Estava em outra casa, em outra cidade, para sempre com os pés naquele mesmo jardim. Para sempre. 
 
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