Fim de férias com alguma emoção dispensável


O céu amanheceu completamente azul no último dia das minhas férias para garantir que me lembrarei dele amanhã quando estiver enclausurada em minha sala no trabalho. Recebi a despedida de bom grado e fui à praia com as crianças. Arthur e Amanda estrearam bem suas pranchas de bodyboard, com tombos e caldos de batismo, umas duas ondas perfeitinhas e muitas outras nem tanto, risadas, frustrações e promessas de mais. O vento incomodou um pouco quem estava na areia, mas quem é louco de reclamar em dia tão lindo, certo? Eu. E reclamei bastante. 

A tarde já ia bem avançada quando cresci o olho para a tigelinha de açaí da garota da cadeira ao lado e convidei Amanda para experimentar uma comigo - teria convidado Arthur também, mas ele só sai da água em caso de fome extrema ou gritos histéricos da mãe. Ela detestou, cuspiu a  primeira e única colherada no mar e comi tudo sozinha. Uma hora depois, mais ou menos, recolhi a pequena bagagem - cadeiras, guarda-sol, bolsa com os cantis de água, bolsa de brinquedos da Amanda, a bolsa grande de praia (com roupas das crianças, bonés, protetor solar, óculos de mergulho e de sol das crianças, lenço de papel, essas coisas) e toalhas úmidas e cheias de areia. Caminhei, ou melhor, me arrastei do jeito que deu até o chuveiro próximo ao estacionamento e lá nos livramos da areia entranhada em nossos pés e chinelos, e também nos bumbuns das crianças. Fiz uma troca ninja de sunga e biquíni molhado por cueca, calcinha e bermudas nos dois e caminhamos, ou melhor, nos arrastamos para o carro. Joguei a tralha Coloquei as coisas no porta-malas, com exceção da bolsa grande de praia, que coloquei no banco de trás, entre as crianças, e fomos para casa dirigindo por entre as sombras das árvores que o sol de final de dia lançava sobre a estrada. Cenário lindo, criançada satisfeita, carro sujo de areia, tudo perfeito. 

Enquanto as crianças tomavam banho, limpei e lavei as três bolsas e os brinquedos, separei roupas sujas, pus os cantis na cozinha, etc. Depois que tomei meu banho decidi comprar pão e procurei por minha bolsinha, que eu tinha levado para a praia dentro da bolsa grande, mas não encontrei. Revirei a casa e o interior do carro, sem sucesso. Aí fiquei daquele jeito. Dentro da bolsinha havia uma outra bolsinha de moedas, minha CNH, um cartão do banco, um cartão de crédito, pouco dinheiro e o celular. Quando encontrei o celular no quarto, respirei aliviada: se ele estava ali, a bolsa também estaria. O alívio durou trinta segundos, tempo que levei para me lembrar que o telefone tocara na praia e eu o tinha colocado de volta solto na bolsa grande. Daí me lembrei da compra do açaí e cismei que tinha deixado a bolsinha na banca. Era uma possibilidade real, porque eu não conseguia visualizar o momento em que teria guardado a bolsinha de volta na bolsa grande. Outra possibilidade seria ter deixado a bolsinha cair enquanto sacava bonés e óculos do fundo da bolsona na hora de abandonar a areia. Ou no chuveiro, quando retirei da bolsona a muda de roupa das crianças. Ou eu poderia ter sido roubada enquanto estava na água com eles. Ou. Ou. Ou. O fato é que a bolsinha sumiu. Desconsolada, sentei diante do computador e acessei o site do DETRAN, já antecipando a canseira que seria retirar a segunda via da CNH, e liguei para o 0800 do banco para cancelar um dos cartões. Cinco números de telefone diferentes depois, cancelei o cartão. Ainda restava um, mas antes de providenciar o segundo cancelamento pensei que precisava fazer um B.O. e chorar a perda que mais me entristecia. A bolsinha de moedas que era da minha Tia Maria e a outra bolsinha maior, que pertencia à minha mãe. 

Estava nesse estado de desânimo e com aquela cara que vocês podem imaginar quando Ulisses entrou em nosso closet e de lá gritou "ô, Rita, a bolsa tá aqui". E desceu as escadas com a bolsa de minha mãe na mão, espantadíssimo com minha falta de noção, "não é essa?". Era. Gritei como quem festeja um gol e só acreditei porque a bolsa estava em minhas mãos e dentro dela meu cartão cancelado, meu outro cartão, algum dinheirinho, minha bolsinha de moedas, tudinho. Eu tinha colocado em meu armário de roupas, escondida sob uma camiseta dobrada e uma bolsinha de óculos quando limpava as bolsas antes do banho.

Agora estou comemorando o fato de que depois de amanhã é dia de receber o salário que não vou poder movimentar porque cancelei o cartão e o desbloqueio do novo só deve ocorrer daqui a sete dias. Feliz da vida, com minhas duas bolsinhas muito queridas. Fim de férias. 




Das misturas doidas que dão certo


Foi Ulisses quem começou. Estava zapeando o controle da TV numa noite qualquer e parou em um canal que mostrava um diálogo interessante numa produção com ares de ser coisa boa. Sabe quando a gente bate o olho e acha o negócio bem feito? Assim. Foi vendo e decidiu ir até o fim do filme. Só que não era filme, a história de repente se interrompeu e ele viu que estava, na verdade, assistindo a um episódio de um seriado da HBO, um tal de Game of Thrones.

Os meses se passaram e toda noite de domingo era a mesma coisa: na hora dos episódios da segunda temporada, Ulisses não estava pra ninguém. O máximo que eu ouvia era "Rita, você tem que assistir...". E eu dizia "é, amor?". Às vezes eu até ia ver e não entendia lhufas, logo levantava para ir até a cozinha pegar um chocolate. Até que um dia parei para ver, lá pela reta final da segunda temporada. Deve ter sido um martírio para ele, tadinho. Porque eu, obviamente, não conhecia os personagens e a toda hora me confundia, quem estava tramando contra quem? E fazia perguntas elaboradíssimas do naipe de "Mas ela não é do mesmo castelo?" ou "Esse moço não é aquele outro moço?". Enfim. Mesmo trocando nomes e perdida na geografia das terras ao sul da Muralha, fui fisgada também. Então descobrimos que todos os episódios das duas primeiras temporadas estavam (ainda estão) disponíveis na NOW da NET. Fiz o dever de casa e passei várias madrugadas vendo/saboreando os episódios. Ulisses, claro, viu tudo de novo comigo. 

Vi as temporadas enquanto lia Anna Karenina. E foi só o Tolstói parar de falar para eu me agarrar com o primeiro livro da série, na semana passada. Hoje devo começar o segundo e não paro de agradecer ao Ulisses. Mal podemos esperar o início da terceira temporada da série da HBO, anunciada para final de março.

Gosto de tudo. Dos personagens. Há alguma caricatura: a rainha muito má, o herói muito justo; em Game, contudo, eles não se prestam ao previsível. Tudo pode acontecer, inclusive com o leitor que, ah, há de se apaixonar por cínicos, torcer pelo usurpador e aplaudir o bruto - às vezes em uma mesma página. Dos diálogos. Foi o que me cativou de vez, enquanto via a série na TV. O texto de Game é bom com passagens ótimas, com vários diálogos que convidam à releitura. Do enredo. Impecável, pelo menos até onde conheço a história. A trama é envolvente, a história empolga com suas mil perspectivas e ninguém sobra. E a ambientação, claro. Quase um personagem, as terras ao redor de King's Landing nos transportam para, olha o clichê, um mundo mágico, com várias sequências que nos fazem adiar o jantar e querer férias de cinco meses.

Game of Thrones é um grande samba do crioulo doido que deu certo. Há reis e suas fortalezas incríveis, florestas mágicas e lobos gigantes (todo meu amor por Winterfell), dragões e nômades selvagens, zumbis e cavaleiros da noite, verões que duram décadas e invernos ainda mais longos, frotas que cortam águas impossíveis, espadas, sangue e guerras absurdas. Há garotos comandando exércitos e meninas mudando o rumo de tudo. E você, livro na mão, feliz. Mesmo para quem passa longe da chamada literatura fantástica, Game of Thrones tem ingredientes para agradar. As tiradas de Tyrion Lannister ou a jornada incerta de Arya Stark, por exemplo, já nos pegam pela mão. Vou indo, de carona nos corvos que tudo sabem, quero ver tudo. Rumo ao livro dois. 


Ondas


Organizar o material escolar das crianças, com tudo que a tarefa implica, não é exatamente um sacrifício pra mim. Gosto da função de mexer com tesouras e etiquetas, do gostinho de material novo. É engraçado ver o entusiasmo das crianças que, de repente, numa semana de praias e passeios, começam a desejar a volta às aulas. Hoje, no entanto, o bicho pegou. Não sei se porque passei praticamente o dia inteiro envolvida com a coisa; ou se porque eles estavam especialmente agitados com tanta canetinha e folhinha e livrinho e mochila e papelzinho, ufa!; sei que cansei. Uma dorzinha de cabeça insistente me rondou na reta final e comecei a ficar tonta por causa das mesmas vozes que, horas antes, me faziam dar risada. Daí pro mau humor foi um pulo e por pouco, controlada que sou, não joguei as sacolas de livrinhos e canetinhas pela janela #drama. Mas fiz um lanche e resolvi todos os males, sabe como é.


***

Para iniciados --> Nível de envolvimento com o Livro Um das Crônicas de Gelo e Fogo: chamo Ulisses de Khal e digo que me chame de "lua da minha vida", hohoho. É pra rir mesmo, fiquem à vontade.

***

Não é exatamente falta de assunto. É, antes, um assunto sobre o qual pouco se fala. Ou sobre o qual muito se fala, baixinho. É também um assunto que gostaríamos de ver esgotado, passado, superado. Vivo tempos de paciência ou de tentativa de. Vivo tempos de aprendizado, de torcida, de espera. Vivo tempos de mãos dadas, de longas caminhadas e de planos teimosos. Ou seja, vivo.

***

Levei as crianças à praia novamente. O mar, que na véspera cuspia peixes mortos na praia e berrava alto com suas ondas metidas, ontem estava tranquilo como uma piscina e tão sereno como eu gostaria de estar. De cada quatro horas gastas na praia, Arthur passa quatro dentro d'água. Ontem, então, esbaldou-se na calmaria verde, só interrompida por ondas carinhosas e brincalhonas. De vez em quando, eu com ele. Mas não sou páreo para sua sede de mar e, a certa altura, fui para a areia observá-lo. E vi um menino bronzeado e espoleta assim: feliz. Arthur combina com aquelas ondas mansas (com as bravas também, diga-se), ele se entrega àqueles mergulhos "dentro da onda" e tenho medo de perguntar se ele gosta mais de mim ou de "pegar jacaré". Pensei em prancha e acho que rola. Vamos ver.

Enquanto isso, Amanda coleciona conchas. De repente, um berro choroso na areia:

- Minhas conchas estão se mexendooo!!

E então expliquei que só devemos catar as conchas abertas, minha flor, que já foram abandonadas por seus ex-moradores. E devolvemos juntas os pobres bichinhos ao mar; já estavam desesperados dentro do baldinho de plástico amarelo.



E a concha


Seguindo os planos, fui à praia com as crianças. Como prêmio por ter ignorado o céu pesado que anunciava chuva a qualquer momento, tivemos um final de dia azul e dourado. Quando a fina neblina de fato nos salpicou com seus pinguinhos de agulha, já estávamos com o pé na areia, Amanda já fazia bolinhos com ela e Arthur já tomava o quinto capote das ondas. Ou seja, ninguém ligou. Logo depois o sol chegou com seu abraço morno e a tarde ficou perfeitinha. Com o coração mais leve pude ver pequenas certezas meio relevantes, como o fato  de que é um tremendo privilégio morar tão perto do mar. Podemos ver muitas coisas nele, podemos ver calmarias e sentir ventos bons, por exemplo. A praia estava quase vazia, um oásis. Aceitei feliz e grata o beijo das ondas em meus pés, as risadas infinitas das crianças, os pés enterrados na areia fresca, as perguntas quase sendo levadas pelo vento. Às vezes um quase já é muito bom.

O problema é que, na volta para casa, quebrei a conchinha azul que Amanda achou e guardou cheia de cuidados.

- Desculpa, amor, foi sem querer! Fui secar, mas ela é tão frágil...
- Não tem problema, mãe. 
- Ah, Amanda, sinto muito.
- Tudo bem, mãe. Eu ainda gosto de você.

Ufa. :-) 


A neve


Há uma neve espessa caindo no hemisfério norte, eu vi. Olhei, achando bonito, uma foto cheia de branco e árvores sem folhas e pensei: estou assim. O inverno pode ser duro, implacável, romântico ou longe. Também pode ser dentro, com corações desfolhados e a neve. Estou inverno. Devo ir à praia amanhã, só para vocês verem como as aparências enganam. Outra forma de dizer é assim: vou à praia com as crianças e quero muito, também é verdade. O que sei é que quando estiver lá na areia e sorrir sob o sol, nem vão notar o inverno. Só eu sei da neve. 


A melhor gaveta


A bagunça do escritório já tinha alcançado níveis assustadores há várias semanas. Contas pagas, contas perdidas, correspondência de bancos (parem!), cartões de natal profissionais (parem!), rascunhos de desenhos esquecidos, folhas amassadas, extratos de passagens aéreas de viagens já feitas, receitas médicas, bulas de remédio, canhotos de contas pagas, o inferno.  Eu vinha adiando a arrumação deliberadamente, aguardando o início das minhas curtas férias de janeiro para poder rasgar papel, limpar gavetas, folhear livros, encontrar documentos perdidos, essas coisas. Minha casa navega por níveis razoáveis de organização, levando-se em conta que nela moram uma criança de sete e outra de cinco anos, um marido adepto da religião "Roupa Suja Fora do Cesto nos Salvará" e eu que, convenhamos, gosto de coisas organizadas, mas passo longe de qualquer coisa merecedora do rótulo de perfeccionista. O escritório, contudo, avança facilmente para um nível acima na escala da bagunça um dia depois de ter sido arrumado. O que é isso, meu povo? Por que cargas d'água papel e livro desorganizam tanto um ambiente? De onde vem tanto papel?

Gosto de arrumar a estante, de verdade. Hoje, contudo, precisei buscar forças sabe-se lá onde para suplantar a preguiça monstra dessa segunda-feira. Respirei fundo, dei dois espirros e me joguei no meio do furdunço. Depois de ponderar por longos três minutos, decidir jogar fora pilhas de material velho que, não me perguntem o porquê, tinha decidido manter comigo por mais um tempo. Dispensei material escolar das crianças (fiz um filtragem radical e mantive comigo alguns poucos exemplares de tarefas deles), material acadêmico que não consulto há dez anos e que dificilmente voltarei a consultar, papel, papel, papel, notas fiscais de coisas que nem me pertencem mais, recibos, lembretes, caixas e caixas de nada. A única pergunta que me intriga é: como não fiz tudo isso na faxina passada? A resposta é simples: eu fiz, sim. Só que naquela vez minha disposição no quesito "ah, vou guardar por mais um tempo" estava mais evidente. Hoje não. Vou usar? Não? Fora.  Agora tenho uma pilha de livros acadêmicos para doar e muito lixo para mandar embora amanhã na coleta dos recicláveis. Tchau e bênção.

Ainda assim, aqui estão eles, os velhos resistentes. Livros que não me interessam mais, mas que permanecem agarrados à possibilidade de que, um dia, possam despertar interesses nas crianças. Ou aquele livro didático de inglês que me traz a lembrança de outros tempos, juntamente com os dicionários que não consulto mais porque tenho versões atualizadas online. Para ter o que jogar fora na próxima faxina, deve ser.

Por dentro, o ritmo é mais ou menos o mesmo. Tenho conseguido me desfazer de velhos grilos, mas dizer que me desfiz de todos eles não seria honesto. Então mantenho alguns, parcamente alimentados, para jogar fora na próxima faxina. Enquanto isso, vou entendendo que nossas gavetas internas não têm fundo. Sempre cabe mais um espanto, mais um susto, mais uma alegria ou um amor maior. O mofo assanha minhas alergias, dores antigas ainda me espetam, é verdade. Mesmo assim, vou prestar mais atenção à gaveta das folhas em branco e todo o universo que cabe dentro dela. Quem sabe.    



As saudades que não sentirei de Anna


Sabe aquela sensação de que tudo em nossa volta é silêncio e o único mundo que importa e que de fato existe é aquele do cenário do livro que lemos? Sabe quando a fome nos lembra que, na verdade, nosso mundo fica fora daquelas terras distantes e que precisamos comer pelo menos um pedaço de pão antes do próximo capítulo? Sabe o que é gritar diante de uma cena bem escrita, ou levar as mãos à boca para conter o grito? Sabe quando a gente fecha o livro de repente e olha para o nada, torcendo para que aquilo não esteja mesmo escrito ali porque aquele não é o destino que queremos para nossa heroína? Pois é. Não senti nada disso lendo Anna Karenina.

Oh, dear.

Foram três meses de leitura. Tudo bem, não foram três meses de leitura ininterrupta, mas vá lá. Mesmo me considerando uma leitora lenta, sei que dessa vez a demora teve muito a ver com o distanciamento que senti em relação à maior parte do livro. Devorei os primeiros capítulos e logo percebi que minhas expectativas estavam bem equivocadas. Tolstoy foi o segundo autor russo que li, minha única referência até então resumia-se ao incomparável Dostoiévsky. E se tenho em minha wishlist várias obras do autor d'Os Irmãos Karamazov (se não leu, corra), vai demorar até que eu renove minha vontade de ler Guerra e Paz, outra celebrada obra de Tolstoy. Desorientada como só eu sei ser, julguei que por pertencerem ao mesmo tempo histórico e por serem conterrâneos, eu enxergaria em Tolstoy traços do vigor que tanto gostei no pouco que li de Dostoiévsky. Anna Karenina, no entanto, mostrou-se um livro mais leve e de trama bem menos robusta (o que, por si só, não comprometem um livro para mim, diga-se de passagem); o que de fato me irritou um pouco foi a recorrência de suspenses que descambam no vazio. Confesso que quase larguei a leitura, mas segui agarrada à ideia de que, espera, não é possível, devo ser arrebatada a qualquer momento. 

Não aconteceu, infelizmente. É verdade que os acontecimentos finais me fizeram mergulhar com mais gosto na leitura e o destino da protagonista é descrito com aquela fluência dos grandes mestres da escrita. Não estou dizendo, portanto, que se trata de um livro ruim. Mas, ah, foi um amor platônico que se dissolveu à medida que a história desfilava diante de mim, tantas vezes enfadonha, outras tantas decepcionante em seus momentos de expectativa frustrada. 

Há um nova adaptação para o cinema vindo por aí e tenho a impressão de que a história pode render um belíssimo filme. Vou conferir, certamente, ansiosa para ver na tela o que eu quis ver enquanto lia uma das obras mais celebradas da literatura mundial: uma versão mais enxuta e dinâmica. Afinal, há elementos ótimos no enredo: a mulher adúltera na Rússia do século XIX, o destino cruel reservado para quem ousava quebrar regras e apostar na própria felicidade, personagens atormentados por conflitos de fé, etc. Espero, honestamente, ser uma espectadora mais satisfeita que a leitora entediada que fui nos últimos meses. 

Sei que Anna Karenina é queridinho de vários amigos que leram o livro, mas sejam gentis com os xingamentos, okay? :-) Dessa vez não rolou.

***

Dito isso... Winterfell, venimim!! \o/ 



Do que cresce junto

    

Ele ainda adora melão. Aos poucos vai absorvendo a ideia de que lugar de toalha molhada não é em cima da cama. Honrando minha mania de reclamar, acho que ele tem visto TV demais. Dou os descontos que julgo devidos, converso sobre os pitis, falo da paciência. Falo da paciência com um menino de sete anos, imaginem o sucesso da conversa. É entusiasmado e falante. Canta no chuveiro, dança no quarto, fala alto, quer o mundo. Espero que no futuro ele se lembre dessas férias como as férias dos bichos, dos safáris, dos programas NatGeo vistos juntos, espichados no sofá. Talvez haja TV demais, mas também há carinho demais na mãozinha que passeia em minha canela enquanto o leão persegue a zebra; ou nos abraços enroscados enquanto o Bob Esponja se esmera na risada esquisita. Arthur gosta de companhia e fico me perguntando se sabe do que sinto enquanto ele, com sua mão na minha, espia curioso o grande tubarão branco na tela da TV. Acho que não sabe, mas nem precisa.

Ela anda mais menina, menos bebê. Filosofa mais do que eu gostaria e às vezes o entendimento de que tudo tem fim arranca lágrimas que lavam aquelas bochechas. Toda flor morre, o sol um dia acaba, até as pedras. Buás sem fim. Abraço como se meu coração também tivesse braços e digo que não é tempo para isso, minha menina. É tempo de planejar como montar a casa de bonecas, de experimentar um sanduíche diferente; ou de pintar. E ela pinta flores lindas e me ensina a desenhar rosas. E me ensina a querer tanto o bem de alguém, tanto. Acho que ela sempre vai se lembrar dessas férias como as férias dos bichos, dos seus queridos pinguins. Hoje ela quis brincar de casinha, quis montar uma casa de livros. E nos sentamos, no chão de seu quarto, e com seus livros montamos uma casa cheia de janelinhas e divisórias. E ela dizia: e aqui é o quarto dela [da boneca], na poesia. Minha vida com ela também é ali, na poesia. Ela nem sabe, mas nem precisa.

Eles estão crescendo e ver isso de pertinho, todo dia, é o sal de tudo. Hoje estão bronzeados do sol do final de semana. As pernas cada dia mais compridas têm o tom de um verão com mais nuvens do que deveria, mas que ainda pincela a pele. Cada dia tem um tom, cada birra tem um timbre, cada risada faz um afago na alma. E há esse amor que cresce com eles.







Mimos que amamos


Quando ilustrei um post com a pintura Amendoeira em Flor, do Van Gogh, queria mandar um recadinho para um casal de amigos que estavam babando com a chegada do segundo filhote. Minha cunhada viu e curtiu, poque também gosta do quadro. Meses depois, ela teve a chance de visitar uma exposição com obras do pintor holandês e viu o quadro ali, "em pessoa", e se lembrou de mim. Essa semana ela veio nos ver. Veio trazer colo e luz para sua mãe, minha sogra, e trouxe na bagagem um par de xícaras de que gostei demais.

Adorei o presentinho.

No post em que usei o quadro, falei que desejava uma vida com muito pontos de luz ao bebê que estava chegando. Temos tido dias assim, com pontos de luz. Tudo há de dar certo.

***

Em momento de pouca luz, apesar do sol vivíssimo lá no alto, caí na piscina de mau jeito e machuquei o cóccix. Digamos que meu andar já foi mais charmoso e que estou experimentando posições não ortodoxas para ver televisão. Lindo de ver. 


  

A vila


Existe em algum lugar uma pequena vila muito antiga com ruas largas, levemente enladeiradas. Fica em uma região quase rural e vários de seus quarteirões são repletos de árvores velhíssimas, muito altas, cujas copas se encontram lá em cima e se deitam pelo chão em sombras compridas todo fim de tarde. Os tempos são outros e o carteiro ainda passa quase todos os dias. Os telefones das casas tocam com certa frequência e o cheirinho de pão quentinho sempre se espalha pela rua central às três da tarde, pontualmente. A padaria tem pequenas mesas para duas pessoas e há sempre alguém com um café e um jornal, ou um chá e um livro triste. É possível interromper a leitura para olhar pela parede de vidro e ver quando as nuvens mais escuras se aproximam.

Por causa das árvores, o verde escuro predomina. Nos dias de chuva, o balanço fica cheio de folhas que o vento traz em rodopios pelo parque. O balanço tem correntes de ferro e minhas mãos se sujam com uma ferrugem seca. Tudo me parece velho, mas perfeitamente conservado. A ferrugem não evolui, apenas permite que a gente se lembre de que aquelas árvores e tudo que as cerca já estão ali há  muito tempo. De uma maneira não muito óbvia, há certo conforto nisso.

Tenho uma casa nessa vila. Há dias em que acrescento o litro de leite deixado na soleira da porta, uma tempestade de escurecer mundos ou um gato gordo e preto bem lindo na varanda. Na maior parte do tempo, contudo, só as ruas enladeiradas e as árvores velhas me bastam. Sempre vou sozinha e fico lá pelo tempo que der. Depois volto levemente mais tranquila. É minha casa no campo, talvez. Ou só um pedacinho de infância com grandes poderes.

Summer clouds & colours


Como boa amante da chuva, não vejo nos dias nublados uma aura ruim. Nuvens não costumam alterar meu humor ou me deixar melancólica; pelo contrário, uma boa chuvarada costuma me alegrar e servir de desculpa para café com bolo e conversa jogada fora. A primeira semana de 2013, contudo, com seus quilômetros sem fim de nuvens brancas que tornaram o azul do céu uma lembrança quase velha, me deixou um tanto desapontada. Admito, mesmo com todo meu amor pelas chuvas de verão, que cheguei a me zangar cada vez que abri a cortina do quarto e, manhã após manhã, Floripa me deu o mesmo céu branco e cinza. Em minha semana de recesso do trabalho, com as crianças em férias e uma enorme necessidade de luz (em vários níveis), eu quis muito os dias de sol que não tive - e que certamente virão na próxima semana, quando estarei trabalhando enfiada numa sala com ar-condicionado e papel. Daqui a duas semanas, terei férias novamente, por curtos dez dias. Será a segunda chance de o verão me dizer que ainda me ama.

***

Tenho andado de montanha russa todos os dias. Sem parque.

***

Contra os males da vida, comprei sorvetes. Pretendo comprar uma sorveteira e me aventurar em receitas alheias, mas, por enquanto, ainda compro os sorvetes. Os amigos do Arthur vieram e me mostraram como se brinca com céu branco e tudo. Até o sol, vejam bem, veio espiar por algumas horas, pelo buraco da fechadura das nuvens, e viu uma criançada barulhenta e boa. Eu queria cor e elas me deram bochechas rosadas, cachinhos castanhos, olhinhos sorridentes em muitos tons, vários queixos banhados em cobertura de morango e chocolate. As mães e os pais me deram horas de boas risadas e trouxeram o lembrete bom de sempre: amizade é o antídoto. Quando voltou a nublar, nem vi.

É assim que se encara aquele céu nublado lá atrás.

"Você está sob meu poder, você está sob meu poder, tic tac, tic tac" - diz o sorvete hipnotizador.

Pode até não ter sol, mas tem sorvete.

***

Meu verão tem livros que nunca termino de ler, além de episódios de séries de TV vistos quatro vezes porque sempre adormeço em algum ponto. No dia seguinte, retomo o mesmo episódio para adormecer em um momento diferente da trama. Divertido. Vou construindo a história em mosaicos e tudo me parece muito bom. É uma boa metáfora para o momento atual de minha vida: em férias até dos planos, vou fazendo tudo em pequenas porções, sem muitas cobranças. Deixemos os prazos inadiáveis para março ou para quando o coração se acalmar. Roupas dormem à espera do ferro de passar que nunca ligo, Floquinho precisa de banho e não lavei a garagem. Mas dei comida ao peixe e comprei tomates. 

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Sem adormecer, vi o francês Até a Eternidade (Les petits mouchoirs). Com um elenco bem afinadinho e a beldade Marion Cotillard na tela, dei risadas e chorei lagriminhas previsíveis com a história, um pouco divertida, um pouco dramática, dos personagens perdidos em suas férias confusas, ainda que tão planejadas. Férias com algum pesar, olha, parecia sob encomenda. Recomendo, para rir e se emocionar, nem que seja um tiquinho. E tem o litoral da França, com todo o sol que não está aqui. Alguns dias depois, o cara da locadora recomendou Protegendo o Inimigo (Safe House), com Denzel Washington. Na primeira cena do filme, falei "uia, Cape Town!". E era mesmo. Foi bom rever pedacinhos da linda cidade sul africana na tela, poucos dias depois de chegar de lá. Como bichos bobos, ficamos caçando lugares familiares e vimos até a rua do nosso hotel. A trama nem convence, mas tinha Denzel e a gente curtindo o cenário.

***

Remédios antidepressivos deviam ser como aquele analgésico que varre a dor de cabeça vinte minutos depois da dose. Melhor, depressão devia ser como mitologia grega, algo absurdo, fantástico, com hidras de muitas cabeças e minotauros perdidos em labirintos:  uma grandiosidade que não chega a assustar realmente. Ninguém devia ter de enfrentar isso de verdade. Torço muito por minha sogra, que conheci sorridente e forte, uma contadora entusiasmada de histórias. O sol há de voltar.

***

E para mais cor, sorrisos amarelos de quem tem a brincadeira interrompida pra foto. E um dourado que prova que céu nublado também  bronzeia.

"Sorriam!" "Ai, deu, mãe."


Of shades and patches


Passadas todas as expectativas que rondam a virada do ano, cá estamos nós em mais um 02 de janeiro, olhando a vida nos olhos. O verão de Floripa resolveu esfriar os bigodes e agora temos tardes de vento frio, vejam vocês. Crianças em férias, seu Sol, tenha dó. Enquanto elas se viram com jogos e correrias pela casa, eu me viro com pensamentos que enfrentam o vento e saem janela afora. É ruim ver alguém de quem gostamos enfrentar abalos em sua saúde, é muito ruim. Não importa o que digam os anúncios de felicidade irrestrita para as festas de final de ano, pessoas adoecem em dezembro e nossos laços de afeto não tiram férias. Ironia dos mundos é ver a depressão bater à porta na semana em que sorrisos parecem uma sentença. Aos trancos e barrancos, do meu jeito desajeitado e às vezes tão confuso, seguro a mão de meu marido e admiro sua dedicação para ajudar, mais uma vez, sua mãe a se reerguer. A depressão tem cores horríveis, mas o amor também sabe pintar. Eu acredito.

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Então queremos um ano de conquistas e superação. Quando o sol se lembra de que é verão, Amanda trata de fazer a parte dela, nadando pela primeira vez sem boias e sem apoio piscina afora. E a cara de "eu posso" nos faz olhar pra frente. 


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Minha amiga ligou e conversamos por horas, como se não existisse o skype. Reveillons se acumulam, nossos filhos crescem, impérios caem e a gente ali, entendendo a outra, talvez completamente. Sempre acho que ela é a inspiração para aquela canção da abertura de Friends.

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Acabei de inventar uma meta para o ano novo: tomar tento.

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Karenina: ainda. Ah, Tolstoi, aonde você quer chegar, querido? Anda logo, que decidi ler as Crônicas de Gelo e Fogo

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Chorei tanto que alguns telefonemas na noite da virada foram meio ridículos. Os vazios têm essa mania irritante de se expandir na última semana do ano. Finjo que não estou vendo, mas minhas viagens de final de ano eram, via de regra, para encontrá-la.  Saudade é um bicho de pernas grandes e braços largos, desobediente e impetuoso. É preciso agir com naturalidade, fazer cara de paisagem e lavar a louça, atender o filho. Quando não dá, existe o choro, a fuga para o quarto, as árvores na rua me ouvindo pela varanda, além do novo ano que se avoluma diante de nós, com contas a pagar, decisões a tomar, tanto pra falar e tentar ouvir. Chama-se vida e não quero escapatória, quero os saltos, todos eles. O ano novo começou.

     
 
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