Sal


As primeiras páginas de Sal (Letícia Wierzchowski, Ed. Intrínseca) me estenderam uma canga na areia, abriram o guarda-sol e esvaziaram a praia. Fiquei ali quase em êxtase, observando o mar, o promontório, o farol louco, a grande casa branca; a família Godoy, o tapete tricotado de Cecília, a Penélope reinventada de Letícia. Sal tem cenário de filme, personagens cativantes e uma história capaz de fazer o leitor não se importar com o vento nos ouvidos. Enquanto estive sentada na areia me familiarizando com as várias vozes que narram a boa história, fui eu mesma me apaixonando por um, odiando outro, tecendo meus próprios pontinhos na trama que fui criando com o livro. Eu teria ficado na praia até a noite cair e nem notaria os pernilongos, não fosse um detalhe: acho que a Letícia também se apaixonou por um dos personagens. Talvez se tivesse coincidentemente se apaixonado por aquele que me fisgou, eu realmente teria devorado o livro sem piscar. Mas pisquei, ali pela metade, porque a paixão de Letícia por um deles deixou de lado, talvez por tempo demais, outros que eu não queria abandonar na areia. É esse meu único "porém" em relação a Sal: personagens que eu gostaria de ter "ouvido" por horas e páginas a fio (Sal é um romance polifônico) se calam por tempo demais, enquanto o mesmo ponto de vista já conhecido se repete e ecoa por páginas demais, in my humble opinion. Sem falar naquele outro que, ah... não posso. Ainda assim, Sal entra pela porta da frente para minha estante. Vai morar entre os meus queridos, assim como moravam no baú de Ernest, o faroleiro, os muitos livros que ele comprava de segunda mão, lia e compartilhava com Ivan Godoy. Sal está cheio deles, os livros. São muitas as referências a clássicos da literatura mundial, quase uma espécie de homenagem aos que passaram pela praia antes de Letícia (tudo bem, esse pode ser outro "porém": aqui e ali, bem de leve, tanta referência parece sobrar, escapar pelas margens). É também um livro o objeto que muda o rumo da história dos Godoy, o livro lido por Julius do outro lado do mar, e escrito por Flora, filha de Ivan, irmã de Orfeu, Eva, Lucas, Julieta e Tiberius - mas aí já acho que você deveria sentar na areia também.  

1 comentários:

K disse...

Depois de uma resenha dessas Sal passou para n°1 na minha fila de livros para ler. Obrigada,
Emma

 
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