Natal de carrossel


É Natal nas páginas finais de Catcher in the Rye

Engraçado quando um pequeno trecho traduz para nós a sensação que o livro como um todo nos causa. Há um momento em Mrs Dalloway em que o narrador descreve o ambiente de um restaurante, cada um dos clientes sentados em suas mesas. A riqueza da descrição não vem de detalhes, mas da percepção do que há por trás de cada figura - o olhar de raio x do livro inteiro. Ou a chuva de Macondo, que já valeria aquele outro livro. Ou as falas de Tyrion Lannister, naquela saga. Ou qualquer frase de linda ironia da Lygia, em qualquer de seus textos. De Catcher in the Rye (J. D. Salinger, ed. Little, Brown and Company), guardarei com saudosismo as duas páginas em que o narrador se detém nas memórias que Holden Caulfield guarda de suas visitas ao Museu de História Natural em sua infância. De alguma maneira, está ali o espírito outsider de Holden, sua visão da infância ainda fora dos moldes sufocantes que nos esperam lá na frente, seu espírito livre e, ao mesmo tempo, imerso em profunda, irremediável melancolia. Tudo no museu de sua infância seria para sempre igual, precioso, conservado em toda sua beleza e fascínio, a cada visita. "The only thing that would be different would be you."

Mas é Natal nas páginas finais. E assim como Holden oscila entre a beleza de sua irmã no carrossel e o medo de sequer chegar ao outro lado da rua, chegou o dia 24. Com lembranças boas como carrossel de criança e saudades tão grandes que nos tiram o chão. O Natal com minha filha implorando para abrir os pacotinhos ao pé da árvore, mas sem minha mãe para celebrar. O Natal com meu filho me acordando fascinado "é Natal!". O Natal dos amigos distantes e dos amigos que abraçarei à noite. O Natal com panetone que nem gosto muito, mas que minha mãe adorava - e que meu filho devora com os olhinhos fechados. O Natal que se repete e que, dizem, deveria nos renovar. Então que seja assim. Vou subir no carrossel.

Feliz Natal, queridos amigos, leitores, amores. 

6 comentários:

Grazi disse...

Feliz Natal para você e toda sua família.

Felicia Luisa disse...

Feliz Natal, Rita; um grande beijo em toda a sua família.

Caminhante disse...

Pra vocês também!

Clara Lopez disse...

Espero que seu Natal tenha de paz e alegrias,
beijo,
clara

Lunna disse...

Venho aqui vez ou outra desde que a descobri através da Luciana (borboleta) e, engraçado é que o silêncio quase sempre me abraça, mas hoje fiquei com essa sensação de desconforto diante de uma realidade estranha. Não me lembro de ter lido um livro em que o Natal estivesse ali em suas páginas. Estanho, mas real. Talvez eu não tenha dado por ele, até porque é uma data que me escapa. Não sei. Vou rever minhas notas aqui em minha mente.

Bacio e que os últimos dias de 2013 lhe permitam os primeiros de 2014...

Silvia disse...

Boas Festas e Bom Ano são os meus votos, beijinhos

 
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