Das nuvens


De todos os dias possíveis para receber o primeiro lote dos livros enviados pela editora, a entrega deve ocorrer mesmo nesta segunda-feira, dia 09. Se o correio for pontual, será no dia 09 que vou sentir de novo aquela vontade de correr para o telefone e ligar para você e contar que, ei, chegou. Vou ficar muda imaginando sua vibração e corujice, vou quase ouvir o milésimo boa sorte, a centésima manifestação de apoio e carinho. 

Vai ser no dia 09, como se a vida, por meios que nem ouso tentar desvendar, quisesse colocar um band-aid na data. A chegada às minhas mãos dos primeiros exemplares de meu livro é, afinal, algo a se comemorar. Mas dia 09 de dezembro tem sido como um sino de um velho mosteiro a me lembrar das dores grandes, das partidas definitivas, do quão difícil foi saber que você não lutaria mais. Exatos três anos depois de você ir embora, devo receber nesta segunda, impresso e colorido, meu primeiro livro. Não poder enviar um exemplar a você, com dedicatória borrada por lágrimas de alegria, é algo tão grande que não sei nomear. Sua ausência paira sobre as histórias que escrevo desde 2011 como um céu sempre nublado: às vezes sinto o vento com cheiro de chuva, outros dias ouço os ecos de nossas conversas como trovões em minha alma. E há aqueles momentos em que fecho os olhos para me embalar pela certeza de que você abriu espaço para os arco-íris que tento pintar.

O lançamento está agendado, há um banner na vitrine da livraria, anúncio no site do shopping. Os amigos festejam comigo, recebo carinho de toda parte. Aventuro-me no mundo da escrita cheia de receios e aberta ao enorme aprendizado que a experiência tem me trazido, e sinto-me feliz por fazer parte de um projeto no qual acredito acompanhada de gente boa e talentosa. No entanto, falta sua voz, sua crítica, seu texto favorito, sua corujice. Aqui dentro, onde há muito habitam a saudade e as boas lembranças, mora agora a dor de cotovelo por não poder compartilhar esse momento com você. Meus dezembros têm tido poentes saudosos e toda flor de quase verão me faz pensar em você. "A vida segue" não é exatamente um consolo; é mais uma constatação de que há respostas que nunca virão e dores que se mesclam com nossa pele. Já é 09 de dezembro outra vez e ainda acho seu cabelo tão bonito. 

9 comentários:

Camila disse...

Exatamente: não é um consolo, é uma constatação. Um beijo, Rita <3

Rita disse...

Beijocas, Camila.

Nilma disse...

Simplesmente.Lindo!!!
Bjssss

Angela disse...

Estao nos meus pensamentos. Um beijo.

simplesmentefluir disse...

Rita, é maravilhoso como você consegue transformar a dor em poesia. Um grande beijo.

Deh disse...

Olha, nem sei o que dizer, isso tudo (sobretudo ""A vida segue" não é exatamente um consolo; é mais uma constatação de que há respostas que nunca virão e dores que se mesclam com nossa pele") calou fundo fundo.
Um beijo!

Marcia disse...

Bittersweet day. Mas que seja celebrado porque tenho certeza que sua mãe iria querer uma grande celebração neste dia. Do seu livro e da memória apesar da saudades. Um grande abraço.

Lílian Paschoalin disse...

Como você sabe, sou bem menos propensa a crer nos acasos... Deus já te abençoou muito nessa vida - e continua. Quanto aos porquês? Bem, nem todos os porquês pertencem a nós, pelo menos por enquanto. Assim eu creio. Um beijo, um abraço grande e uma linda semana prá você! <3

Felicia Luisa disse...

Rita,

eu te mando um grande abraço. É o abraço de uma desconhecida, eu sei, mas espero que ainda assim sirva de aconchego.

 
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