Quando chove


A maior preocupação de Juliana era a chuva. Tentava em vão proteger o vaso com a mão que sobrava livre, enquanto com a outra apertava como dava o objeto de barro contra o peito. Sempre achava que o 303 demorava a passar, mas nunca, certamente nunca na vida havia demorado tanto como naquela tarde fria - mais fria do que o necessário, vamos combinar. Ninguém esperava aquele frio e aquela chuva naquela época do ano, todos sabem. Ninguém, muito menos ela, ali na parada de ônibus, agarrada ao seu troféu. Bem, não era bem como se tivesse ganhado um prêmio, mas era inegável que havia certa dose de triunfo diluída no meio de todo aquele susto. O ônibus não vinha. O vento, esse era o maior problema. Fosse só uma chuva fina, seu casaquinho de linha daria conta de abrigar a flor. Ou nem o faria, afinal flores gostam de chuvas. O vento, não. Era uma ameaça verdadeira àquela haste tão fininha, tão parecida com sua esperança no início do dia. Que bom que agora, no final da tarde, ela era mais forte do que a flor; cabia a ela proteger seu presente, resguardá-lo de todo mal. Pois quem não sabe que bastariam pingos trazidos pelo vento para derrotar aquela porção de cor que se erguia da terra prensada no vaso? Bastariam, e por isso Juliana se contorcia um pouco para arquear as costas de modo a barrar o vento. O 303 apontou na esquina. 

Não foi o moço alto de casaco marrom pesado e molhado a ameaça mais forte. Foi a moça desastrada com sua sombrinha horrorosa que por pouco não decepou a haste verde que sustentava as outras cores - as cores das pétalas da flor que, com o coração aos gritos, havia recebido dele. Quando saltou na sua parada, o frio que rasgou seu rosto ao dobrar a esquina incomodou menos do que a sombrinha da moça desastrada, então nem reclamou. Apenas fechou um pouco mais a mão em concha, contando apreensiva os passos que a separavam da segurança de sua sala quente e com teto. Por precaução, não desgrudou os olhos do vaso enquanto ele esperava na calçada, impassível e úmido, até que ela encontrasse a chave na mochila. Voltou a pegá-lo como quem tira um bebê do berço e entrou em casa. 

Triunfante e perdida, Juliana retirou a bandeja de cerâmica do centro da mesa e a substituiu pela flor mais importante do mundo. Tomou banho, escreveu um bilhete e se deitou, exausta, sem fome. Adormeceu muito antes do horário habitual, tamanho seu alívio. Mal tinha entrado no primeiro sonho quando a primeira pétala cumpriu seu ciclo, sucumbiu às intempéries de sua curta vida e caiu muda sobre a terra prensada no vaso de barro. E como era apenas uma pétala, nunca desconfiou da avalanche que ajudou a criar em sua última tarde de chuva.

 
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