Há flores em tudo que eu vejo


No carro Ulisses comentou como fica feliz ao ver que sua mãe dá sinais evidentes de ter superado a depressão que a assombrou por tempo demais. Contou como gostou de vê-la tagarelando na calçada sobre as flores que enfeitam as pontas de um matinho qualquer. Arthur, por sua vez, deu sinais evidentes de ter entendido tudo; ou de ter entendido o que mais importa:

- É engraçado isso. Quando a gente gosta de alguém é como se ficasse ligado na pessoa. A gente fica feliz se ela tá feliz.

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A plantinha brotou solitária no meio do muro de concreto da casa da minha amiga. Como se não bastasse, há minúsculas florzinhas no topo. O mundo, essa coisa fascinante.

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Há flores em tudo que eu vejo, cantávamos nos anos 80. Os ecos me alcançam. 

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A mesma amiga cuida da orquídea com gelo. Quando se lembra, põe pedras de gelo na base da planta. Hoje vi sete lindas flores enchendo sua sala como se tivessem acabado de chegar da floricultura. Gelo, anotem. Se bem que, né, na casa dela as flores nascem até no muro de concreto.

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Eu me lembro do dia em que mandei rosas pra você. Você me disse que o moço da floricultura fez uma cara engraçada, deve ter estranhado na hora da entrega. O mundo, esse lugar engraçado.

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Há um tipo de abraço que minha filha me dá que me preenche inteira. Ela se pendura em mim, minha coalinha. E ela se empenha no abraço, é algo grande, forte, com atenção. É um abraço feito dessa coisa aí que liga a gente na outra pessoa. É disso que meu filho fala, eu sei. Ele também abraça assim. 

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No meio das páginas do livro que emprestei à amiga foi a flor seca que meu filho me deu um dia. Ela me devolveu a flor, que transferimos para um livro que ela me emprestou. Mas deixei o livro pra trás, porque há outros na fila, e a flor ficou lá. Não quer mais sair da casa onde suas irmãs nascem até no meio do concreto. Compreensível.

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Já vou parar. Mas preciso dizer que no meio da floricultura minha filha brincava com sua amiga e eu me meti, sugerindo: faz de conta que esse é um jardim encantado e vocês vão procurar ninfas no meio das flores. Amanda me deu a real:

- Não, mãe! Essas plantas são tooodas carnívoras!!

O mundo.


2 comentários:

antonio j cerqueira disse...

.. eu tenho quadro psiquiátrico e me preocupei quando você disse q após a fase d depressão você tagarelava, faces da mesma moeda, mas tranquilizei-me no final, digerindo bem uma pequena frustração q poderia ser detonadora, afirmando ser "o mundo" assim mesmo..

Liliane disse...

A troca que vc tem com seus filhos é coisa linda de se ver...

 
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