Em sépia


Li Retrato em Sépia (Isabel Allende, Ed. Bertrand Brasil, tradução de Mario Pontes) sem metade do entusiasmo que me carregou ao longo do autobiográfico Paula ou do romance A Ilha Sob o Mar - dois livros que recomendo com tranquilidade. Ainda assim, para mim, fã da narrativa fluida de Allende, a leitura morna ainda teve seus momentos de sorriso no canto da boca.

Retrato em Sépia é a sequência de Filha da Fortuna, publicado dois anos antes. A protagonista de Sépia, Aurora, é neta da protagonista de Filha, a corajosa Eliza Sommers. Mais uma vez, a história transita entre os Estados Unidos e o Chile, mas ao invés dos desatinos cometidos em meio à corrida pelo ouro na Califórnia, pano de fundo da trama de Filha da Fortuna, o que vemos em Sépia é mais contido e com ares de memórias contadas na varanda. Aurora passa a maior parte de seu tempo ao lado da avó paterna, a espaçosa Paulina del Valle, equilibrando-se na vida que escolheram para ela, e faz o caminho inverso ao que sua avó materna traçou em Filha da Fortuna. Em Filha, Eliza sai do Chile no porão de um navio, fugindo da família, para se aventurar em busca daquele que acreditava ser o amor de sua vida e que partira em busca do ouro californiano. Muitos anos depois, em Sépia, sua neta nascida nos Estados Unidos migra para o Chile, sob a asa da outra avó, para enfrentar desafios que me parecem ainda mais assustadores do que a viagem clandestina de Eliza: a rotina e o marasmo da vida caseira reservada às "mulheres da elite" chilena da época. Nada fácil, pessoas. 

Quem lê os livros de Allende se acostuma a fatos grandiosos, personagens que empreendem viagens estupendas ou levam uma vida absolutamente esquisita: seja a apaixonante Clara, em Casa dos Espíritos; ou a escrava Zarité, em Ilha Sob o Mar; mesmo a não tão cativante Eliza tem lá sua dose de aventureira a nos oferecer. Talvez seja por isso que Aurora me pareceu tão sem sal. Não que não me encantem as aventuras da nossa vidinha mundana de cada dia; mas é que abro um Allende esperando personagens cheios de camadas e sustos. Aurora caminha reto demais. Daí que achei a história bacana, mas meio sem cor. Um livro assim, meio sépia. ;-) Mas não adianta, fã é bicho besta e gostei de ter lido. Quem escreveu Paula terá de mim admiração eterna. 

2 comentários:

Caminhante disse...

Então...
Eu já tentei acompanhar a Allende, mas acho que ela abusa de quanto somos fãs dela. Ela começa um livro por ano, sempre no mesmo dia. Acho que alguns deles só foram publicados por causa da fama, são totalmente domésticos. Tenho impressão de que o que sair tá bom, que ela não se preocupa em manter um padrão de qualidade, sabe?

Rita disse...

Ela fala isso, né, de começar um livro todo ano, na mesma data. Acho que é lenda inventada. :-) Mas o mais novo que li dela, Ilha Sob o Mar, é bem melhor que o Sépia. Acho que ela erra a mão aqui e ali, como todo mundo, mas mais acerta; pelo menos no meu placar ainda tá assim.

Beijos!

 
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