A pipa


Abri a caixa já desbotada mais uma vez. Olhei aquelas palavras que há tempos eu guardava como se formassem um tesouro capaz de me salvar um dia e, de novo, suspirei. Gostava tanto delas, não queria deixá-las ou trocar por outras. Eram bonitas, afinal. Tinham sido lapidadas e reorganizadas tantas vezes, eram velhas amigas. Até ali, na calçada da minha casa, dentro da caixa que eu apoiava no meu colo com todo cuidado, até ali aquelas palavras me pareciam tão imponentes. Custava-me admitir o marasmo. Aí o vento que não tinha nada a ver com a história bagunçou meu cabelo. Meu cabelo cobriu meus olhos e precisei erguer a cabeça. Foi quando vi o menino descalço que descia a rua, com um graveto na mão. Não foi uma decisão exatamente, apenas um impulso bruto, como um "sim" impensado. Estendi a caixa. Ele aceitou como quem recebe um doce. Abriu, olhou minhas preciosidades e então me encarou com um olhar de pergunta. Não esperou muito. Fechou a caixa e continuou descendo a rua. Misturou minhas palavras velhas e estudadas com a infância dele, deixando o graveto esquecido aos meus pés. Quando me levantei com o graveto na mão, reconheci uma de minhas palavras na pipa colorida, a pipa que voava e dançava no céu muito azul da rua de baixo.

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