Trança


A cena se repete quase sempre igual: ela se senta na cama, voltada para a janela, perninha de índio, e abre o gibi. Eu me sento por trás dela. Antes, deixo ao alcance da mão o que vou precisar: escova e pente, creme para pentear, caixa porta-trecos com enfeites e badulaques de cabelo. Às vezes providencio também um pouco d'água em um pequeno pote de louça que trago do banheiro, caso eu queira umedecer um pouco os fios, se não tiverem sido lavados naquela hora. Ela vai embora para dentro do gibi, de onde sai eventualmente para protestar com um sonoro "ai" quando me descuido e puxo o cabelo, sempre sem querer. Nunca quero puxar. Adoro pentear seus cabelos, desmanchar os nós, observar a cor que muda lentamente ao longo dos anos, escovar, escovar, escovar. De vez em quando me aproveito de seu mergulho na leitura e escovo mil vezes, exclusivamente pelo prazer do contato. Arrumar. Um poder que, confesso em segredo secretíssimo, eu queria ter. Mas é só uma fantasia passageira, me deixem. Logo passa e me contento com os fios, sei que não me cabe arrumar além deles. Ela vai precisar de seus próprios tropeços. Ali, escovando em silêncio enquanto ela lê balões, penso nisso, na bagunça desgrenhada do mundo, na vida arrepiada. E torço muito por ela, por eles. Torço inteira por eles. E o cabelo sabido no final do dia tem de novo os nós que me avisam: é assim, mãe. Deixa.

Hoje você usou trança e o laço de fita que ganhou da amiga. Em cada perna da trança pus sorriso, sol, picolé, sorriso, sol, picolé, sorriso, sol, picolé. 

***

Fiz muffins para o lanche coletivo do Arthur na escola amanhã, pela semana das crianças e tal. Na falta de gotas de chocolate (nunca me lembro de comprar), improvisei, ralei chocolate amargo, pus aveia, mais iogurte. Deu certo, espero que gostem. Amanda fez bico, não pode comer, são para o mano com exclusividade. Ela e o pai prometem uma manifestação amanhã, nas primeiras horas do dia. Dizem que os cartazes de "queremos muffins para todos" já estão sendo providenciados.

***

Ontem fiz aquele bolo de maçã outra vez, para levar para o trabalho. Ulisses cresceu o olho, Arthur pediu um pedaço para a lancheira. O bolo desapareceu em poucas horas. Hoje fiz o mesmo bolo novamente, desta vez para os de casa. Nota mental: nos dias em que estiver carente de elogios, fazer bolo de maçã com especiarias. Vão por mim.

***

Dias em que, se pudesse, não sairia da cozinha. Seja comendo, assaltando a geladeira ou brincando de assar bolos, minha cozinha é meu reino feliz. Falando nisso, ontem à meia-noite alguém em Breaking Bad fez uma salada. Nível de maria-vai-com-as-outrizice: fui para a cozinha preparar uma salada. Alface, rúcula, tomates coloridos, uva. Azeite. Mais um episódio. 

***

Allende se repete. Mas quais são as palavras que nunca são ditas, como perguntava aquele moço, não é? Eu me repito tanto que há dias em que não sou mais do que ecos. Ecos num poço tão fundo que não enxergamos as moedas. Mas elas estão lá.

***

O que me leva de volta aos gibis. Já perceberam como poço dos desejos rende tirinhas? Todo mundo se repete, tal qual a cena do cabelo sendo penteado.



3 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Olha, você escreve tão bem que eu sinto até os cheiros. Ainda não comecei a sentir os sabores, mas caso isso aconteça te aviso e você passa a ganhar dinheiro com uma espécie de dieta literária...

Patricia Scarpin disse...

Meu sonho é comer esse bolo feito pelas suas mãos, amora. <3

simplesmentefluir disse...

Você escreve, divinamente, bem!!Me vi também a pentear os cabelos da minha neta, uma odisseia maravilhosa!!Quando leio suas tirinhas me sinto transportada para um mundo mágico, onde o amor é tão palpável...lindo! Obrigada!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }