Sons e silêncio da maleta de monóculos


Minha mãe mantinha seus monóculos guardados em uma maleta muito antiga. Ficava ali, naquela porta à direita, na parte inferior da estante de madeira. Quando eu era pequena, costumava abrir a porta da estante como se o gesto fosse algum rito de passagem para outra era. Então eu botava a maleta no colo e olhava repetidas vezes cada uma daquelas minúsculas fotografias. Fechava um dos olhos e mirava contra a luz os monóculos coloridos. As horas passavam sem que eu me desse conta, presa que estava ao tempo congelado das imagens. 



Além de registros da primeira infância de seus filhos, minha mãe guardava ali várias fotos suas de outras eras. Eu passava rapidamente pelas minhas próprias fotos de bebê sem cabelo para em seguida me demorar um pouco mais nas dela. Alguma coisa naquelas imagens prendia minha atenção, sem que eu conseguisse nomeá-la. Hoje acho que era um conjunto de impressões agradáveis: minha mãe aparentemente saudável, satisfeita com a própria aparência, elegante, talvez feliz com sua coleção de vestidos. Quando penso no contexto temporal daquelas fotografias, imagino que ela deve ter sido uma pessoa muito vaidosa, num tempo vivido antes de ela se tornar a mãe superprotetora e profissional dedicada, a dona de casa cheia de coisas a resolver, a lutadora ferrenha contra todos os problemas de saúde que a afligiram ao longo dos anos. 

Fotografar o visual com que saímos para trabalhar hoje em dia é algo banal que fazemos com o celular. Mas nos anos sessenta as coisas não eram exatamente assim. Minha mãe não tinha uma máquina fotográfica. Para registrar o que fosse, era preciso chamar o fotógrafo da cidade (ela passou toda sua vida em uma pequena cidade do interior da Paraíba), fazer pose, torcer para acertar. Fico imaginando se ela ficava ansiosa pela revelação, para ver se ficara bonita, se o cabelo estava bom. Será que queria guardar tudo para si, somente? Ou para presentear alguém, com um "oferecimento" no verso? Onde ou com quem estariam as imagens impressas desses monóculos? Eu costumava ver cópias de minha cabeçona de bebê nos álbuns que até hoje guardo comigo, mas várias das fotos de minha mãe elegante e produzida se reduziam aos monóculos. Nunca perguntei a ela sobre as possíveis versões impressas.

Na semana passada as fotos das antigas alunas do colégio me levaram de volta à porta inferior da velha estante escura, hoje convertida em porta superior da minha própria estante branca. Os monóculos agora habitam o silêncio de uma caixa florida, no escritório de uma casa que fica muito longe daqueles cenários onde minha mãe posava para o fotógrafo da cidade onde nasci. Como em minha infância, pus a caixa no colo, voltei meus olhos para a luz e olhei as minúsculas películas. E fiz o que deveria ter feito anos atrás, imprimi as fotos dela. Agora tenho preciosas imagens impressas, cujo principal benefício é o tamanho. Ficou mais fácil observar cada detalhe. De certa forma, ficou maior o silêncio, também.  E, ai, adoro as poses!

Ah, esse olhar... :-)




De longe, minha favorita. Tudo me fascina nessa foto: o semblante dela, com o sorriso leve; o conjunto lenço na cabeça e óculos; o telefone maravilhoso; ela, se achando linda. 

A foto clássica do espelho, com direito a fotógrafo refletido nele. Minhas pulseiras moram nesse porta-joias azul; é impossível olhar para ele e não ser visitada por fragmentos de lembranças de décadas atrás.

A trilha sonora da minha infância.



E há as fotos impressas em seu velhíssimo álbum. Pele de diva de cinema.




Batom.



Em Ponte para Terebin, a orelha do livro diz que aquela é a história de uma caixa de retratos que um dia começaram a falar. Eu sei do silêncio que vem com essas fotos. Ao mesmo tempo, é verdade que elas falam, às vezes até ecoam a voz dela por um segundo. E fico tendo ideias de histórias que poderiam ser contadas sobre cada uma dessas fotos. Quem sabe as invento, quem sabe mesmo eu as escute bem direitinho. Afinal, eu conheço esses olhares e adoro os colares.  

6 comentários:

ADRIANA ATAIDE disse...

Como sempre, seu texto lindo impecável. E as fotos me fizeram ver uma Bernadete que não conheci, vaidosa. Fotos belíssimas.








Deh disse...

Rita, que post incrível. As fotos não contam em si uma história, cronologicamente, mas são uma face tão interessante da sua mãe (e de você!) e você trazer aqui tudo isso e mostrar um pouco do você + ela é lindo demais!

Beijo!

simplesmentefluir disse...

Tudo muito lindo!!!
Abraço!

Anônimo disse...

Linda e elegante sua mãe!! A foto ao telefone parece pose de cinema...Lindo post! Adorei!!!
beijos,
Ju

Rita disse...

Obrigada, gente. Adorei remexer nessa caixinha. :-)

'O DIÁRIO' por Mãe Solteira disse...

Um texto lindo
uma recordação, os filmes

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }