Sinestesia



Quando ela abriu a gaveta e pegou uma folha de papel, a brancura um pouco doce iluminou a sala. Quando abriu a caixa de lápis de cor, cada ponto do espectro salpicou o ambiente de manchas e riscos e sombras de efeito. Ela examinou o tecido da própria saia e de lá retirou duas pequenas flores amarelas, e com elas fez um jardim na parte baixa do papel. Com a grama pronta, pisou lá. E foi. No outro lado era o sonho. Soltou os cabelos, abandonou as sandálias e viu que o ar que pisava era frio e macio. E sem fim. Não escolheu direção alguma, apenas seguiu aleatoriamente grupos de notas musicais coloridas que sopravam e eram o vento e a neblina. Pintou por horas, dançou em todas as cores. Quando quis voltar, fechou os olhos. Depois guardou a caixa de lápis e refez a trança. No armário pendurou a saia com duas flores a menos, para passeios futuros. Então sentou-se ao piano e pintou a sala de poente.

2 comentários:

Anônimo disse...

"Uma leveza na alma, esse batuque me dá..."

Visitar o seu blog é assim.
Obrigada, Rita!

Luciana Nepomuceno disse...

Estou adorando os rascunhos ;-)

 
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