Sem ribalta


Ontem minha professora de piano me comunicou a data em que os alunos da escola irão fazer o tradicional recital de final de ano. Sorri e respondi que estarei lá, na plateia, vendo o Arthur, se ele quiser tocar. Ela então me perguntou se eu mesma não iria participar. Foi uma pergunta retórica, ela já sabe a resposta. É claro que não. Ela, generosa e cumprindo seu papel de tutora entusiasta, insistiu sem ser indelicada, dizendo que ah, seria tão legal. Não, não seria.

Quando eu era pequena, adorava participar em todas os eventos em que a palavra "palco" estivesse presente. Poderia ser qualquer coisa: recitar, dançar, representar, ler, rezar, anunciar, fazer mímica. Era no palco? Eu era voluntária. Adorava aquilo. Mais do que o dia da apresentação propriamente dita empolgavam-me os ensaios. Eu gostava dos bastidores, dos biombos, dos escuros, das marcações de texto, dos exercícios de voz. Saboreava a espera, o burburinho, as escolhas dos figurinos e montagens. Para mim, estar no palco era um complemento divertido da preparação que normalmente levava semanas de encontros incríveis. Em uma ocasião, lembro-me de que os ensaios eram noturnos, porque o professor de música que conduzia a muvuca só tinha disponibilidade de tempo à noite. E eu, algo parecido como uma pré-adolescente, achava o máximo ter compromissos à noite. Adorava os ecos do auditório, os corredores escuros do colégio, as salas de aula silenciosas enquanto decorávamos falas e ensaiávamos passos. Nenhuma diversão poderia ser mais saborosa do que aquilo. 

Nunca precisei enfrentar a timidez em situações assim. Eu podia ter vergonha de sorrir para um garoto, mas era só chegar minha vez de entrar no palco e lá estava eu, confortável.

Mas com o piano, não.

Com o piano tudo é íntimo. É como um tapete velho, um porta-retratos meio quebrado, um conjunto de louça com peças que não combinam: o conforto habita os limites da casa. Se alguém não muito próximo espiar, pode rolar certo constrangimento. Faço meus exercícios quando posso, brinco com canções de que gosto e que consigo executar do jeito que dá. Nada disso, contudo, é proporcional ao prazer que sinto. Já falei e repito, o piano é um brinquedão; faço com ele aquilo que seria o propósito-mor de um brinquedo, eu me divirto. Contudo, depois de quase um ano de aulas, acho que já consigo ter alguma noção do quão limitado meu desempenho sempre será. Quando ouço o Arthur tocar, vejo a leveza com que seus dedinhos deslizam e tocam notas suaves com suavidade, notas fortes com entusiasmo, como tem de ser. Meu toque, ao contrário, é quadrado, quebrado, igual. Divertido pra caramba, mas não serve pro palco. Sem lamentações, vou espichar as nuanças da palavra amadora: nenhum profissionalismo, muito amor. 

Além do mais, não me falta plateia. Marido anda provando seu afeto, os filhos não reclamam, os cachorros não choram. E até a pior das hipóteses é bacana: qualquer hora levanto o Chopin do túmulo, olha que ganho para a humanidade! Até já imagino o que ele vai falar: Ritinha, querida, vai lavar a louça, vai. (É possível que ele fale em polonês, portanto não vou entender e vou continuar martelando as teclinhas. Mas só em casa.)

 

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

não curti esse post não, tava esperando te ver logo pelo youtube...agora tenho que esperar ir até tua casa pra ouvir?

Anônimo disse...

Respeito. Mas vou adorar quando for a sua casa ver você brincando.
Beijos,
Ju

 
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