O silêncio e as bailarinas


No domingo passado fomos ao teatro ver algumas apresentações de um festival de dança. Um grupo de três bailarinas do interior de São Paulo apresentou uma coreografia intitulada Degas, ao som de um dos movimentos da Primavera de Vivaldi. Tutus, pernas, braços, voltinhas, passinhos. No meio da coreografia, silêncio. Um problema qualquer no sistema de som interrompeu a música. Todos na plateia prenderam a respiração (eu, pelo menos, prendi). As bailarinas? Dançaram ao som do silêncio. Como se os violinos continuassem enchendo a sala, continuaram executando seus passos e seus bailados de braços, enquanto nós, apreensivos, ouvíamos os toc toc das sapatilhas de ponta (ou sapatilha de caixinha, com diz a Amanda) no tablado do palco. A alguns segundos do final, a música voltou, obviamente fora do tempo da coreografia. As bailarinas a ignoraram e seguiram o script como se fossem bonecas em uma caixinha de música. Só hesitaram quando, finda a coreografia, a música seguiu, e uma delas fez uma cara de "meu, essa música não vai parar nunca?" Foram, claro, aplaudidas como se fossem heroínas. 

Na mesma tarde Amanda dançou com seu grupo de dança da escola. A música não parou e elas se sacudiram bem lindas. Eu tirei fotos péssimas e aplaudi como se fosse uma... mãe. Assim, daquelas corujas, sabe? Pois então.

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Ontem revi duas grandes amigas com quem não conversava há um tempão. Precisamos organizar um sistema de senhas para ver quem falava primeiro, porque, olha, coisa boa é ter assunto, viu. E ouvidos atentos. E frase interrompidas por mais histórias. E aquela velha certeza de que amigos estão ali entre as melhores coisas da vida, junto com chocolate e cobertor. Não houve silêncio algum.

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Status: tentando encher a alma com tantas janelas quanto as que vejo na tela do computador. Para arejar as ideias e deixar o vento bagunçar o cabelo.

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Ando tentando não me distrair com o silêncio. Quando as ideias se calam, tento fazer como as bailarinas e seguir em frente. Não consigo, claro. Tropeço, erro o passo. Teimosa, sigo treinando. Quem sabe? 

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