Infiel - e um pequeno planeta girando no infinito


Talvez o fato de eu não saber me expressar bem acerca de Infiel - A história de uma mulher que desafiou o islã, da escritora somali Ayaan Hirsi Ali (Cia das Letras, tradução de Luiz A. de Araújo), reflita o quanto ainda não elaborei todas as sensações que sua leitura me causou. Vou tentar, mesmo assim, mais como exercício de concatenação das ideias do que como expressão delas. É possível que eu me empolgue e acabe falando demais, então se você pretende ler a autobiografia de Ayaan e tem alergia a spoilers, talvez não seja um boa ideia ler o post. Nem sei se faz muito sentido falar em "spoilers" quando se trata de biografias (afinal a história dela virou assunto jornalístico), mas fica o aviso. Normalmente escrevo sobre livros que leio revelando quase nada do enredo, mas não sei se consigo me expressar sobre esse livro em particular sem tocar em determinados detalhes da trajetória da autora, e isso pode ser visto como estraga-leitura por alguns. 

Ao longo dos primeiros capítulos, era comum eu resgatar imagens que vi na TV nos anos 90, de crianças somalis desnutridas, sentadas no chão em abrigos improvisados, fugindo com suas famílias de conflitos civis e da fome. Aquelas imagens resumiam a Somalia para mim e essa é uma das razões pelas quais gostei de ter lido Infiel, pela chance de dar alguns nomes e histórias àquelas figuras em minha memória. Não que os relatos tenham me causado qualquer alegria, longe disso; mas acho útil pensar num quadro maior, com mais personificação. Aquelas crianças enfrentavam a crueldade das infinitas caminhadas pelo deserto, carregadas por pais e mães desesperados em busca de abrigos que os protegessem da morte e do ódio de classe e de clãs inimigos. As imagens que eu via na TV e que tanto me chocavam eram certamente dos abrigos de fronteira, onde eles paravam exaustos depois de uma longa fuga, e onde ficavam à mercê dos controles corrompidos das imigrações. O horror era muito maior do que eu supunha diante do noticiário e, por causa de episódios descritos no livro, penso nelas agora com contornos um pouco mais nítidos. Há um pano de fundo, um país abandonado, cidades, casas, salas, vizinhos, hábitos. Há, portanto, mais empatia e espanto.

Em Infiel, o drama dos refugiados, que a toda hora me fazia perguntar "que mundo é esse?", dividem as páginas com passagens da infância de Ayaan. Filha de um ativista político respeitado por muitos e perseguido por outros tantos (seu pai foi preso político durante muitos anos), Ayaan fala, sobretudo, da vivência de sua fé como garota muçulmana na capital somali, Mogadíscio, no Quênia e na Arábia Saudita. E ainda que não falte dor nas experiências pessoais de Ayaan, é a inquietação que a distingue. Ayaan desafiava, desde muito cedo, um dos maiores tabus para as mulheres de seus grupos sociais: ela fazia perguntas. Para além de seguir as tradições que herdou de sua família e de seu clã, ela queria compreendê-las. Por que devo cobrir meu corpo? Por que os homens não precisam fazê-lo? Por que não posso sentir desejo? Por que não posso olhar nos olhos dos homens? Por que preciso repetir orações que não compreendo? Por que orar cinco vezes ao dia, sempre posicionada atrás dos homens, nunca ao lado? 

Conforme visitava comunidades mais ou menos apegadas a princípios mais radicais do islã, mais ou menos evidente ficava seu desconforto com a necessidade de entender e interpretar o conjunto confuso de leis que regiam as relações pessoais e sociais de seu mundo. Em dado episódio, ela conta do sufoco que sua mãe passou quando chegou à Arábia Saudita, mas seu pai não estava lá como combinado. Sozinha com as crianças, ela não podia ir ao mercado. Até que passou a ir com o filho, um rapazote de dez anos, que fazia as vezes de seu protetor, visto que mulheres não podiam andar sozinhas por aí. A situação se prolongou e ela passou a sair sozinha, amargando olhares de reprimenda e toda sorte de insultos por onde passava, o preço pela ousadia de comprar comida sem um homem ao lado. O incômodo experimentado por Ayaan em situações assim era a semente dos conflitos de fé que enfrentou no futuro e que acabaram por transformar sua vida radicalmente.

É inegável que um dos elementos mais chocantes do livro, para mim, pelo menos, seja o tema da clitorectomia. Sendo ela mesma uma vítima da prática que mutila milhares de meninas todos os anos, Ayaan nos dá uma visão aterradora do assunto. Quase parei de ler o livro. E ainda que ela faça questão de ressaltar que a mutilação nem sempre está vinculada à fé islâmica, ela aponta que muitas comunidades muçulmanas encontraram na ideia de "pureza" da mulher terreno fértil para propagação da famigerada tradição.

Mesmo que, lendo o livro, eu tenha a impressão de que Ayaan tenha desde sempre adotado uma postura revolucionária, foi a partir de seu casamento que sua vida mudou definitivamente. Ou melhor, a partir da recusa em aceitar o marido escolhido para ela. Refugiada na Holanda, rompeu com seu clã e sua família ao se negar a acatar o papel de esposa obediente. Pagou um preço alto ao se rebelar: enfrentou profundos conflitos emocionais e sentiu muita culpa, foi renegada pelo pai, levou vergonha ao seu clã. O contato com a liberdade de expressão que encontrou na Holanda, contudo, gerou espaço para que aquelas sementes questionadoras germinassem. E ela nunca mais foi a mesma.

Para Ayaan, questionar sua posição de mulher, e portanto de pessoa submissa, era o mesmo que questionar sua fé. Aos poucos as palavras do alcorão começaram a lhe parecer vazias, tamanho o contraste com o mundo que ela encontrou nas relações sociais na Holanda: as mulheres eram livres e trabalhavam, apaixonavam-se e o demonstravam, faziam sexo, trabalhavam no que queriam; os homens não se descontrolavam diante de braços de fora; as meninas não eram mutiladas e mesmo assim se tornavam mulheres respeitadas e donas de suas escolhas; os homens participavam da educação das crianças em casa, dividiam as tarefas domésticas. E ninguém morria fulminado por um raio. Uma palavra possível para descrever a postura de Ayaan diante de sua nova vida é deslumbre. E eu penso no que ela passou nos primeiros anos de sua vida e compreendo muito sua postura. No entanto, confesso que fiquei um pouco desapontada com os rumos que tal deslumbre tomou. Porque Ayaan sabia melhor do que ninguém quão alto foi o preço que pagou por suas escolhas revolucionárias. Mas em certo ponto do livro ela começa a criticar os refugiados que, ao contrário dela, não romperam com suas tradições. Como se não tivesse sido um ato verdadeiramente heroico tomar as decisões que ela tomou, virar alvo de execração em nome de sua liberdade. Ayaan cresceu aprendendo que o bom muçulmano não se rende aos valores dos "ímpios"; ao se libertar desses preceitos, passou a criticar de forma muito incisiva aqueles que não o fizeram e que, na Holanda, insistiam em se manter ligados às tradições e à fé.

Como pessoa cética que sou, e que acredita que, no cômputo geral da história da humanidade, as religiões e a crença no além causam mais mal do que bem, entendo perfeitamente o rumo que Ayaan percorreu até se tornar ateia, acho até bem natural. Ainda assim, não sei bem como encarar a postura que ela adotou em relação aos muçulmanos. Mais tarde eleita deputada, ela chegou a propor o fechamento das escolas muçulmanas na Holanda. Sua alegação era que não havia espaço para debate dentro do islã e que meninas e mulheres continuariam sendo segregadas e subjugadas mesmo vivendo em um país livre e democrático. Confesso que fiquei um pouco surpresa com tal postura adotada por alguém com enorme admiração pela liberdade. O ser humano é mesmo um bicho complexo.

Todo o tom da parte final do livro me pareceu muito maniqueísta: ocidente, bom; países islâmicos, ruim. E ainda que eu partilhe da mesma opinião dela em relação a vários pontos, especialmente no que diz respeito à posição da mulher em determinados contextos, não deixei de me surpreender com a ingenuidade de alguns de seus argumentos. Para Ayaan, que hoje vive nos Estados Unidos, este país seria o líder da liberdade ocidental. Irônico, no mínimo, se pensarmos no papel que governos estadunidenses tiveram em ditaduras na América Latina décadas atrás, para ficar em apenas um exemplo. Da mesma maneira, ela praticamente não faz menção ao papel das colonizações europeias no continente africano e não raro se refere aos holandeses com um simplista "pessoas boas". Considero notável o engajamento de Ayaan na luta pelos direitos das mulheres no mundo islâmico; mas sinto arrepios com a forma como ela se pronuncia sobre o assunto na reta final de seu livro. Ainda vou pensar muito sobre isso e, diferente de Ayaan, não acho que haja respostas simples e diretas para um conflito de tamanha grandeza.

É verdade que o livro me deixou com mais perguntas do que respostas, mas isso não é necesariamente ruim. Não sei bem como me posicionar a respeito da intervenção em comunidades onde se pratica a clitorectomia, por exemplo, e admito que é tão mais fácil viver sem pensar nisso. Qual o papel da comunidade internacional nesse debate? Como proteger as meninas da mutilação? Não faço ideia. Por ora, olho para minha filha de quase seis anos, idade em que milhares de meninas são mutiladas em nome da honra, e penso na loucura que é esse mundo. A palavra que me ocorre é sorte - eu jamais diria algo como "graças a Deus", o que, para mim, levantaria imediatamente a pergunta: quem olha pelas mutiladas? Sigo achando que estamos mesmo à deriva.

3 comentários:

Paulo Marreca disse...

Se isso é não saber se expressar bem a respeito de um livro, eu não sei o que é! Excelente post! Sobre a clitorectomia, para mim, os países que ainda a permitem deveriam sofrer o máximo de pressão da ONU para acabar com essa violência. Embora o direito à religião e à crença seja um direito humano, penso que este deveria ter limites. É o mesmo caso aqui no Brasil, e no resto do mundo, das Testemunhas de Jeová que rejeitam a transfusão de sangue com base em textos bíblicos. Preferem deixar os seus filhos morrerem do que aceitar o sangue de outra pessoa. Acho que não podem nem aceitar seu próprio sangue. Livros sagrados permitem várias interpretações. Logo, alguém vai querer retomar o sacrifício de crianças para acalmar a ira dos deuses. Abs!

Silvia disse...

Pois... aqui em Portugal também me sinto á deriva... e é muito triste...

K disse...

Eu também nunca diria "graças a Deus". Não dou conta mais de ler esses livros de não ficção. Como você mesma disse, é mais confortavel não saber.

 
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