19



Eles se sentaram num banco da praça, bem em frente à parada do ônibus dela. O ônibus só passava de hora em hora, mas ela não reclamaria disso naquela noite. Ela carregava a bolsa a tiracolo e um livro didático que usaria na manhã seguinte para preparar aulas. Ele tinha aquele olhar que tirou tanta coisa do lugar. Chegaram de mãos dadas e assim permaneceram por um tempo, até que se abraçaram e ele passou a mão no cabelo dela. Trocaram algumas carícias no ritmo suspenso em que vinham tocando a vida há algumas semanas. Conversaram também, não lhes faltava assunto. Era como se.

Ele disse que alguns gestos eram como marcos, iniciavam histórias. Ela entendeu aquilo como um aviso, talvez ainda não fosse a hora para ele. Não combinava muito com a situação, pelo menos não com a situação dentro dela, mas não havia nada que ela, prontíssima, pudesse fazer. E no entanto ele fez o gesto. E quando o beijo acabou, ela pressentiu as muitas linhas da história que se estenderam à sua frente, no tempo que ainda nem estava ali.

O ônibus passou.

Na manhã seguinte, sentada sozinha na sala de seu apartamento cheio de móveis tubulares, ela olhou o livro aberto por um longo tempo. E quase perdeu o ônibus que só passava de hora em hora para ir ao trabalho.

Faz 19 anos.


5 comentários:

Juliana disse...

ouuunnn!

Anônimo disse...

Fico feliz com as linhas da história que se seguiram, com o seu desfecho... Que seja uma vida toda!
Felicidades!
Ju

Silvia disse...

Felicidades, Rita!!

Silvia disse...

Felicidades, Rita!!

Fabiana disse...

Não tem mau humor matinal que resista. : )

 
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