Uma Ponte para Terebin


Adiei o quanto pude, mas terminei a leitura de Uma Ponte para Terebin (Letícia Wierzchowski, Ed. Record). Eu não queria acabar, fechar o livro pela última vez. Segui devagar pelas últimas páginas, com um misto de satisfação por ter lido aquela narrativa e tristeza por me despedir dela. De consolo, fica o fato de que a história contada ali não terminou; o livro, pode-se dizer, não tem um final ou uma solução que encerre o convívio do leitor com seus personagens. Posso imaginar a sequência dos anos na vida deles, olhando para a história do mundo após a Segunda Guerra. Afinal, seus  personagens habitaram e habitam o mundo real, e suas vidas migraram para as páginas do livro através do talento para vesti-las em palavras que tem sua autora.

Eu me lembro de algumas situações em que li o início de uma história em uma livraria e saí de lá com o livro embaixo do braço por querer muito saber como se desenrolaria a sequência. Foi assim com Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago, por exemplo. Como sair dali sem saber como cargas d'água o moço no carro lidaria com a cegueira instantânea, no meio do trânsito? Teria sido assim com Terebin, se o livro não tivesse chegada às minhas mãos emprestado por uma amiga. Caso eu tivesse lido a orelha do livro numa livraria, muito provavelmente teria saído de lá com ele:

"(....) Uma ponte para Terebin é uma romance sobre a vida e sobre as travessias sem volta. Um romance sobre a liberdade e sobre o preço que é preciso pagar por ela. Mas, acima de tudo, Uma ponte para Terebin é a história de uma caixa de retratos que, um dia, começaram a falar."

Então é assim, mais do que observar, Letícia ouve as fotografias de sua caixa de retratos. E nos conta a história da família de seu avô, Jan, imigrante polonês que se mudou para o Rio Grande do Sul na década de 1930, onde se casou com uma brasileira e com ela teve filhos, construiu uma casa e viveu sua história. Mas trouxe com ele a Polônia dentro de si, onde ficaram seus pais, avós, irmãos, sobrinhos, a casa de sua infância, seus amigos. Para Jan, não era possível acompanhar as notícias da guerra, que explodiu em 1939, pelos jornais e pelo rádio. Não era possível contentar-se com palavras como "centenas", "milhares", "bombardeios", "refugiados", "avanço", "invasão", porque ele tinha seus próprios rostos e nomes no meio da guerra. Sem saber que destino tinham as cartas que enviava desesperado à família na Polônia, Jan deixou Porto Alegre e embarcou como voluntário para a Europa. Com sorte, voltaria depois de algum tempo, com boas notícias de sua família e de sua terra novamente livre, para viver a vida que sonhara quando havia deixado a Polônia anos antes.

Uma Ponte para Terebin é a história da esposa Anna, que fica com o pequeno filho Janeczek em Porto Alegre e com ele enfrenta as angústias de ouvir a guerra pelo rádio, ela que agora também tinha um nome e um rosto por lá; e que enfrenta sem o marido os sustos com a saúde frágil do menino. E é também a história da guerra, onde os termos como "milhares" nos doem mais, porque seguimos com o rosto de Jan e dos seus. Os capítulos intercalam relatos sobre a jornada de Jan pela Europa e outros sobre a corajosa espera de Anna; por vezes são as fotografias da caixa de retratos da autora que nos falam, e seus bisavós nos contam dos poloneses de Terebin, dos incêndios, das terras tomadas, das expulsões, dos assassinatos, da fome, do desespero, das famílias separadas em minutos que durarão para sempre, das fugas pela madrugada rumo ao medo; ou então quem nos fala é o irmão de Jan, preso, escravizado, fugitivo, sobrevivente nos esgotos de Varsóvia, contando páginas tão tristes que temos vontade de abraçar a Polônia. Ler sobre o Gueto de Varsóvia conhecendo um nome que seja de alguém que vivenciou todo aquele horror aperta o peito ainda mais. Eu abraçava o livro.

O que Letícia não encontrou nas fotografias ou nos documentos que pesquisou, o que não ouviu dos relatos nas entrevistas que fez, preencheu com imaginação e sensibilidade. Uma Ponte para Terebin é, portanto, um romance, não exatamente uma biografia. É uma história bem contada, em tom carinhoso, com linguagem bem costurada que soa bonita em blocos onde a simplicidade do calor da tarde dá as mãos às dores mais fundas. Para mim, a Polônia é agora mais que um pedaço colorido no mapa, Letícia é uma autora para ser lida e a Segunda Guerra ficou ainda mais áspera. 

Quero ter meu próprio exemplar de Uma Ponte para Terebin. Quero tê-lo na estante, para que um dia meus filhos leiam, para que Ulisses leia, para que eu possa emprestar aos amigos.

***

Procurei no livro alguma passagem para citar aqui, mas lá ia eu digitando a página inteira. Citar alguns eventos mais tocantes poderia tirar o sabor da descoberta para algumas pessoas. Então fico quieta, relendo.


5 comentários:

Iara disse...

<3

simone disse...

Literatura brasileira de qualaidade, precisa e merece ser mais divulgada, mais comentada e mais valorizada.

Continuo também acho os livros brasileiros um pouco caros ainda.

Mas valeu a dica, sucesso com o blog, sempre.

Abraço d eLuz e Paz do interior de SP.

Murilo S Romeiro disse...

Simone, este livro vc encontra aqui por um preço camarada . (eu sempre procuro nos sebos)
http://www.estantevirtual.com.br/sebodorato/Leticia-Wierzchowski-Uma-Ponte-para-Terebin-92062988

Deh disse...

Acaba de ir pra minha lista de "Vou ler" do skoob! :)

K disse...

Não tem nada a ver com o livro Uma Ponte Para Terabitia, né? Alias, este é um dos livros preferidos do Jujuba.

 
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