Praia



Uma casa com areia na varanda, onde o vento salgasse a rede embalada pelo eterno ensaio das ondas. Que o café sobre a mesa fosse um pouco forte. Que se sentassem na areia, lá perto da água, para ver as pinturas do sol; que o olhar se perdesse nos pontos prateados das primeiras horas do mar. Que alguém se ocupasse em sentir a areia fria invadindo os chinelos e em pensar no mundo feito de conchas e encontros. 

Que o mundo me parecesse sempre assim, terra e um sem fim de oceano, horizonte, curva, além; brisa, assobio, respingo. Que eu visitasse aquela casa. E visse barcos e pensasse nos peixes e na pele curtida dos homens do mar, para nunca deixar de me lembrar de que o mundo é de marés. Que eu finalmente aprendesse com elas a não impor grandeza demais. Que eu aprendesse a esperar menos. Que meus espantos fossem bons: ondas, luar, gaivota - não essa velha ferrugem dos meus medos mais antigos. Que eu conseguisse arrancar as raízes, puxando-as com tranquilidade de dentro da areia fofa e fria no início do dia. Que eu confiasse. E fechasse os olhos e os ouvidos, sem medo, para deixar vibrar as vozes do meu peito. E depois, tranquila, salgada, descalça e sem pressa, eu me deitasse ali, no teu peito travesseiro.

E ao contrário da poeta, que abriu o mar com as mãos para naufragar o sonho, que eu resgatasse do fundo dele, lá onde o barulho da superfície não confunde as almas, meus olhares antigos, aqueles que desenhavam horizontes. 


1 comentários:

Anônimo disse...

Huuuum! Belo!!
Bom dia,
Ju

 
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