Nem com Paris


Quando Mario Vargas Llosa apresentou os supostos motivos por trás do comportamento da personagem Lily em Travessuras da Menina Má (Ed. Alfaguara, Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), já era tarde. Eu já não nutria qualquer empatia por ela e, consequentemente, também sentia certo repúdio pelo protagonista Ricardo, carpacho de Lily. Muitas coisas me incomodaram ao longo do livro, lamento dizer. Eu queria ter gostado de Menina Má. Foi o primeiro romance que li do autor peruano (já havia lido Cartas a Jovem Escritor, sugerido por uma amiga, e tinha achado interessante, sem ser apaixonante) e eu esperava descobrir um nome que me deixasse ávida pelo restante de sua obra. Bem, não aconteceu, e agora vai ser mais difícil eu me dispor a ler outra coisa do peruano. Talvez se o famoso Casa Verde cair no meu colo, quem sabe; no entanto, enquanto Menina Má for minha referência de Llosa, hum, sei não.

Nem tudo é ruim, claro. Mas criei birra até dos elementos com os quais simpatizei. Por exemplo, boa parte da trama se passa em Paris. Beleza, é bacana reconhecer os cenários e reconstruir as sequências do enredo em nossa cabeça sabendo mais ou menos como são os ares do lugar. Ainda assim, Llosa deve ser muito apaixonado por Paris, a tal ponto de sua exposição da cidade no livro ser, se isso é possível, exagerada. Não sei se me faço entender, mas a todo momento (a todo momento, mesmo) aparecem referências a restaurantes, ruas, teatros, lojas, prédios, museus, pontes, o rio, etc, numa overdose de localização geográfica que até para quem adora a cidade soa saturado, sobrando. Talvez eu não tivesse essa impressão se a história em si fosse arrebatadora (o que não achei, de jeito nenhum) ou se a linguagem do escritor fosse algo envolvente ou munida de belas imagens - o que também não achei. Então o que li foi uma história cheia de idas e vindas que não me cativaram, descrita em um estilo que chamarei de seco, apinhada de referências geográficas que me pareciam meio deslumbradas. À medida que avancei na leitura, fui vendo mais do mesmo, em diferentes lugares do mundo - Londres, Tokyo, Lima, Madrid - a ponto de eu lamentar cada retorno do caso eternamente confuso dos dois protagonistas. Sei lá, faltou paciência. Para completar meu desconforto, Llosa cria algumas expectativas que se resolvem de forma nada supreendente, e alguns fatos que talvez funcionassem bem em um conto parecem meio rasos demais para um romance que, acredito, propõe-se grande.

Embora possa parecer o contrário, gostei de ter lido (mas gostei mais de ter terminado, hohoho), porque, seja como for, aprendi alguma pouca coisa sobre a história política do Peru (história meio abandonada ao longo do livro, mas vá lá, não parecia ser esse o propósito central mesmo), o que serviu, ainda que de maneira ínfima, para diminuir um tiquinho minha profunda ignorância em relação à história dos países da América do Sul.

É engraçado esse negócio chamado leitura: não acho difícil que muitas pessoas gostem e até se encantem com o livro. Se alguém me disser que adorou, vou entender - os elementos estão lá: pano de fundo histórico (bom), história de amor (sempre bom), cenários em cidades incríveis (bom), protagonista com comportamento fora do padrão (promete), uma história que se estende pela vida inteira do narrador (pano pra manga, bom), viagens, golpes, hippies, vida loca. No entanto, em linguagem extremamente técnica: faltou o tchan. Não me fisgou e ainda me arrancou "aff" em vários trechos. 

Tudo bem, c'est la vie, como certamente diria o protagonista Ricardo, às margens da Pont Neuf, mirando o Sena, antes de ir almoçar num restaurante em Passy e voltar para um descanso em seu apartamento na Rue Joseph Granier, para mais tarde buscar o amigo no Charle de Gaulle, com quem seguiria para uma visita rápida à Notre Dame, antes de ir à Ópera e terminar a noite no Marais, falando sobre o Louvre. Mais ou menos assim. ;-)

10 comentários:

Caminhante disse...

Dele eu só li Pantaleão e as visitadoras, depois de já ter visto o filme. É divertidíssimo, mas me parece que não tem a ver com o restante da obra dele.

Paulo Marreca disse...

Sério? Este último parágrafo diz tudo. Eu gostei de "La Guerra del Fin del Mundo"...mas faz muito tempo...foi na época em que ainda lia romances modernos...rsrs

Marissa Rangel-Biddle disse...

Odiei tanto que devo ter deixado o livro por aí, em um banheiro publico.

Marissa Rangel-Biddle disse...

Odiei tanto que devo ter deixado o livro por aí, em um banheiro publico.

Amanda disse...

Li esse livro cheia de expectativa e a queda foi bruta. Agora, lendo vc falar dele me dou conta de que nem lembro quase nada. Que bom, sobra espaço na minha memória pra coisas mais interessantes! Acho que o título fica melhor no original: menina mala. Bota mala nisso.

Deborah Leão disse...

Eu gostei de "Travessuras" como gostei de "O Código Da Vinci": sem aprofundamento nenhum, mais pelo ritmo do que por qualquer outra coisa. Uma história que me fazia querer continuar lendo para saber como acabava, mas que não criou em mim especial impressão.

Também achei difícil criar empatia com os personagens principais, o obsessivo preso no objeto da obsessão e a histérica doidivanas alpinista social, que raramente demonstra qualquer traço de humanidade.

Mas é divertidinho, vai? Entretenimento, tipo um best-seller desses que a gente lê só pra esquecer daqui a pouco...

Daniela disse...

Eu também não gostei, não tive empatia por nenhum personagem. Lá pelo fim, já estava até com raiva do protagonista, achando que ele bem merecia o jeito que a Lily o tratava. Li também Pantaleão e as visitadores, depois de ver o filme. Achei o livro divertidíssimo, cheguei a chorar de rir lendo, coisa que é muito rara de me acontecer. Li um outro, chamados Os Filhotes, mas não tenho nenhuma lembrança dele, nem para o bem nem para o mal.

Iara disse...

Rita,

Tô com o pessoal aqui. Bom mesmo e do Llosa é Pantaleão, porque é de chorar de rir (eu engasgava). Eu nem tinha me ligado pra esse excesso de referências aí que você diz, mas é bem capaz. Mas olha, endosso, empatia nenhuma pelos protagonistas.

Daniela disse...

Olha, achei que eu tivesse sido a única pessoa, que alívio...hahaha. Parei de falar nesse livro porque tenho os amigos mais fãs de Vargas Llosa que alguma vez pisaram a terra (entre eles tem gente que se dedica a estudá-lo, veja bem). Era eu falar mal do homem pra sofrer bullying. Eu tenho grande dificuldades de separar as opiniões políticas dele da sua obra, reconheço, tenho birra de quase tudo. E esse livro, meu Deus, O HORROR. Eu ia pulando páginas. Enfim, odiei com todas as forças.

K disse...

Li ha muito, muito tempo. Lembro que gostei sim mas não me apaixonei. Outro que li foi O Paraiso Na Outra Esquina mas foi a mais tempo ainda.
conclusão: gosto do autor mas não de paixão.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }