Mistérios


As aulas voltaram, mas meu filho teve febre e placas na garganta. Achou graça e perguntou se eram de proibido estacionar. Ele tem vencido praticamente todas as partidas de Uno e diz "sou quente!". Os dias também esquentaram e têm sido azuis. Da janela do meu trabalho tenho várias vistas, todas me levam de lá. Os ciclistas me causam inveja do passado, quando eu deveria ter tempo e não pedalava. Tá, eu pedalava, mas não o suficiente. Jamais pedalarei o suficiente. Os carros não me dão inveja, só me lembram da pressa. A água me dá vontade de desenhar, mas logo passa, que as vontades sem talento morrem rápido. Os montes lá no fundo me lembram de filmes. Assim, genericamente: parecem longe, postos ali para servirem de cenário de filme ou livro triste. Eu li um livro quando era pequena, da biblioteca da escola, que falava de uma garota de cabelos vermelhos que tinha uma amiga difícil na escola. A escola dela também era difícil, talvez um internato; se não estou enganada, a menina havia sido mandada pra lá em represália a alguma coisa. Não me lembro do título nem da capa, mas sei que era velho, com papel amarelecido e folhas grossas. E uma história boa com duas garotas num colégio difícil. E o cabelo vermelho. Meu cabelo já foi vermelho, eu gostava de pintar. Agora não gosto mais, tenho preguiça da obrigação de retocar. Estou ficando cheia de cabelos brancos; ainda não sirvo para "grisalha", mas chegarei lá. Ou não, dizem que o tonalizante é mais prático. O problema é que minha preguiça é ainda mais prática. Ontem vi um tutorial de maquiagem maravilhoso, feito por uma garota linda e talentosa que se transformou na imagem de uma diva de cinema em alguns minutos. Adorei, mas o que gostei mesmo foi do sotaque inglês dela. Se ela tivesse ficado horrorosa, eu ainda teria gostado. Mas não ficou. Falando em transformação, a planta que compramos viçosa e grande mirrou e se transformou num espectro do que foi antes. O chão da sala perto do sofá fica coberto de suas folhas que caem podres, seus galhos aparentemente foram tomados por um fungo. É a terceira planta que vemos morrer no mesmo vaso. Na primeira culpamos a própria planta, a segunda já não teria vindo bem da loja e não sobreviveu nem à mudança de lugar do vaso. Agora começamos a olhar atravessado para o vaso. Temos uma árvore da felicidade no canto oposto da sala. Linda, enorme, altiva, tem ignorado o sofrimento das companheiras de sala. Tem sido assim: a felicidade observando os perrengues. As pequenas plantas que moram no parapeito da janela viram essa semana a abelha rainha caída no quintal. Marido chamou a filhota e eles colocaram o bicho num vidro. Eu fiquei impressionada com a beleza da abelha, nunca tinha visto uma rainha. Enorme, colorida, cheia de detalhes. Amanda usou lupa, mas nem precisava. Soltamos no gramado da frente da casa, mas não sabemos se ela conseguiu voar, ninguém voltou lá pra ver depois. Eu voltei pra ver a febre, havia cedido. E aí ele perdeu várias partidas de Uno, os mistérios dessa vida. 

5 comentários:

Daniela disse...

Sotaque inglês.
Plantas, grama e dias ensolarados (embora frios e ensolarados, eu prefira). Cores e detalhes. Adoro.

Daniela disse...

P.S: ainda não li os posts do Rio porque AMO o Rio e sei que vou amar o seu olhar renovado sobre o Rio. E quero comentar. E pra comentar precisa tempo. :)

Fabiana disse...

Tanta fluidez. Só você, Rita, só você.

Murilo S Romeiro disse...

a abelha rainha era "real"...

Marissa Rangel-Biddle disse...

<3 para seus textos.

 
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