Dos desaforos e outras belezas



- Arthuuuur!
- Oiiiiii!!
- Não tá esquecendo nada, não?
- Nã-ão.
- Tá, si-im. Você não tirou o prato da mesa.
- Affff.... já vou. [tira o prato]
- E não terminou seu suco.
- Affff.... [toma o suco]
- E não...
- Ai, mãe, tá bom...
- E não me deu um abraço. [ganho um sorriso e um abraço]
- E não disse que sou linda
- Aí você já tá querendo demais!
- o.O

Não é um desaforo? Estou decidindo se confisco o videogame ou cancelo o cinema. Ele que me aguarde. ;-)

***

Pensando seriamente em contratar alguém para tomar as decisões mais difíceis por mim. Esse negócio de pensar tá cansando minha beleza. Ponderar, então, socorro. E ainda por cima ser sensata e acertar? Ah, não. A vida adulta deveria ter férias quinzenais na infância, só pra recarregar.

***

Quando o que mais te motiva a terminar o livro é o próximo da fila.

***

Amanda é dos exageros, seu mundo é over, plus, big size. Dramática, melancólica de vez em quando, vive dos suspiros e assombros, suas narrativas são emolduradas por seus olhos arregalados, sua fofice é muita, a brabeza também. E assim também são algumas reações alérgicas. Um mísero mosquito causa estragos que duram dias, inflamam, coçam, sangram, marcam, somos a alegria da fábrica de band-aids. Quando voltamos das últimas férias, sua perna parecia a perna do Popeye. Por causa de uma única picada, que cheguei a temer que fosse de aranha, a panturrilha ficou incrivelmente inchada e dolorida. Já vi sua mãozinha redonda como um pão por causa de um borrachudo (mosquito pretinho que toca o terror aqui em Floripa). Essa semana o beijinho indesejado foi na pálpebra esquerda. Chegamos a levá-la ao consultório médico para uma conferida se realmente se tratava de uma picada de mosquito, porque o troço parecia mais grave, tememos pela saúde de seu olho. Felizmente, era mais do mesmo. Apenas seu corpinho refletindo a personalidade. ;-)

***

O frio voltou num sábado molhado e preguiçoso, com comidinha feita pelo marido e aquele vinho mais querido. Um dia sob medida para me lembrar que aquelas decisões difíceis não deveriam sequer arranhar a superfície. Anotei, voltei a encher a taça e tomei um gole lento em homenagem à sequência boa dos dias.

***

Quando eu era pequena, minha relação com meu pai era meio esquisita e o dia de amanhã nunca significou muita coisa. Mas minha mãe se importava com datas e sempre comprava um presente para eu dar a ele. Eu dava, ele nem ligava, ela ficava satisfeita com a tarefa cumprida. Vá lá. Aqui em casa digo que deveria ser a data mais comemorada, porque considero Ulisses um paizão, bla bla bla. Mas a verdade é que ele, assim como eu, não liga muito para essas datas também. São as crianças que me pedem: mãe, vamos comprar um presente pro papai, vamos vamos vamos. 

Tão melhor assim. 

Escrevo isso sem rancores, mesmo. Meu pai foi meu pai do jeito que soube ser e hoje olho para aqueles tempos com mais serenidade do que um dia supus possível. Olha, merecia outra taça. E ainda tá friozinho. Né? Fui. 



2 comentários:

Liliane Gusmao disse...

Só para dizer que essa semana aqui em casa foram duas visitas ao médico por causa de mosquito. O rosto do menino ficou desfigurado por causa de uma picada na testa... Momentos de pânico e hoje foi dentro do ouvido... olha tanto remédio que ele tá tomando chega a dar pena. Gostei da sua definição da alergia ser o reflexo da personalidade no corpo. Bem parecido mesmo no caso do meu filho
E aqui amanhã é apenas um domingo qualquer o dia dos pais aqui foi em junho e não ligamos pra essas datas também não.

antonio cerqueira disse...

.. "e ainda por cima ser sensata e acertar?" - sou o neurótico q tem a necessidade q as coisas deem certo 3, 4 vezes/dia, e certamente não dão. este é o meu "corpo refletindo alma"

 
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