Soleira


Torceu muito para que ele não tivesse percebido o suspiro incontido ao abrir a porta. Jamais esperava que fosse ele, ali, àquela hora. Completamente desconcertada, falou na voz menos gaguejante que arrancou da garganta:

- Meu irmão saiu.

Ele, livro de química na mão, perguntou com a voz mais tranquila que ela já ouvira.

- Ele ainda não voltou? Pensei que o futebol acabasse às quatro.

Ela, morrendo:

- Não, é só depois das cinco, ele volta com meu pai. 

Ele, morador feliz do universo das pessoas que não estão apaixonadas:

- Entrega pra ele e diz que fui eu que trouxe? Amanhã ele me devolve no colégio. - E, seguro, tranquilo, casual, estendeu-lhe o livro de química.

Ela, implorando aos deuses pra não tremer, estendeu o braço e pegou o livro.

- Pode deixar.
- Tchau. - disse ele, displicente.
- Tchau. - disse ela, já com saudades.

Momentos antes, do lado de lá da soleira, ele se perguntava se ela perceberia sua imensa ansiedade. Durante os quase dez minutos que esperou no hall antes de criar coragem suficiente para apertar o botão da campainha, rezou muito para que todas as outras pessoas da casa estivessem fora. Quando finalmente a porta se abriu, sentiu o coração quase parar diante da figura dela, tão senhora de si, em sua casa, seu ambiente, enquanto ele, perdido em seus desejos confusos, estendia o livro-pretexto. Quando ela disse tchau cheia de charme e fechou a porta, deu um pulo silencioso no hall, ergueu os braços em vitória, a boca escancarada em um silencioso yes!. Ela não percebeu nenhuma movimentação vinda do hall, ainda que estivesse agarrada ao livro e encostada na porta, sem conseguir parar de sorrir. Tão feliz, que quase sentia pena das outras pessoas do mundo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que romântico e lindo!!!
As palavras rolando como pérolas aos olhos...demais!

Anônimo disse...

q lindo! Vc podia escrever um livro!

 
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