Rio - segunda parte


Nós começamos a planejar uma viagem aos EUA para o ano que vem. Várias razões colocaram os planos em banho-maria e, até segunda ordem, a viagem não deve rolar, pelo menos não na data inicialmente prevista. Enquanto achávamos que iríamos, demos os primeiros passos para a renovação do visto de visitante. Preenchemos os formulários na rede, pagamos a$ taxa$, ligamos para agendar entrega de documentos e entrevista. Descobrimos que precisaríamos agendar um pouco mais tarde, pois os horários de julho ainda não estavam disponíveis. Como os formulários têm validade de apenas trinta dias, precisei preencher tudo outra vez. Em junho, liguei para fazer o agendamento novamente. E aí fui informada de que, como meu visto anterior datava de 2004, eu estava dispensada da entrevista. Bom, a notícia era ótima, mas divergia do que eu havia ouvido antes, então duvidei: tem certeza? Tenho, senhora. Mas... Não se preocupe, senhora, a senhora está dispensada da entrevista, senhora, precisa apenas entregar os documentos, senhora. Muitas senhoras depois, aceitei o que o funcionário estava me dizendo (afinal, ele certamente sabia mais sobre o babado do que eu)  e agendei a tal entrega dos documentos para o período de férias das crianças. Juntamos a fome com a vontade de comer e programamos um curto passeio pelo Rio.

Minutos antes de fechar a mala e partir para o aeroporto, fiquei na dúvida se entregaria os documentos no endereço x ou y. Liguei para o mesmo serviço de atendimento, para tirar a dúvida, e o que se seguiu foi mais ou menos assim:

- A senhora vai entregar os documentos no endereço x. O endereço y é para a entrevista do dia seguinte.
- Ah, perfeito. Mas na verdade, vou apenas entregar os documentos, estou dispensada da entrevista porque meu visto anterior é de 2004.
- Mas quando o seu visto anterior expirou?
Suspense. Ninguém havia me perguntado isso antes.
- No mesmo ano.
- Então a senhora NÃO está dispensada da entrevista.

OLHA. Respira. Bom, vou poupar vocês dos detalhes, mas foram vários e-mails para o atendimento e para o consulado na tentativa de ter a tal entrevista agendada em caráter de urgência, na semana em que estaríamos no Rio. Um troço um tanto irritante, porque, né, segui cada passo que me foi indicado e só não agendei a entrevista porque o funcionário do atendimento me convenceu de que eu não precisava. Enfim. Vários e-mails depois, recebi um telefonema (quando visitava o Planetário, um dia antes de entregar os documentos para análise) de uma funcionária do Centro de Atendimento ao Solicitante de Visto (CASV) me comunicando que, bem, tinha havido um equívoco e minha entrevista seria feita logo após a entrega dos documentos. Oba. E assim foi, mas não sem um detalhe curioso: no momento em que a funcionária que me atendeu no CASV bateu o olho em meu antigo visto, afirmou:

- É, mas você não precisava mesmo de entrevista. 

OLHA. Enfim, de lá seguimos imediatamente para o consulado, onde fomos entrevistados e tivemos o visto aprovado. Fim, seguem férias.

***

Com o lance do visto resolvido, bateu a fome. Tínhamos pulado cedíssimo da cama e mal tínhamos engolido um iogurte no quarto do hotel antes de sair. Como estávamos no Centro do Rio, o mais óbvio era aproveitar e ir conhecer a famosa confeitaria Colombo. Seguimos pela Rio Branco admirando os prédios antigos da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas Artes e do Teatro Municipal, perguntamos aqui e ali, compramos gibis em uma banca e finalmente achamos a confeitaria com a ajuda de uma simpática garota que seguia para o trabalho na galeria vizinha. Estava fechada, mas abriria em vinte minutos. Turista é turista. As crianças se sentaram no batente de uma loja em frente à confeitaria e abriram seus gibis; e assim esperamos. Depois nos fartamos. O lugar não é famoso à toa, a comida que provamos (o café da manhã duplo) estava perfeitinha (a melhor torrada ever), o ambiente é bonito e aconchegante, e tivemos ótimo atendimento (pelo menos no início do dia, com mesas à vontade e garçons disponíveis). Foi mais um dos lugares de que usufruímos sem filas no Rio. Pular cedo da cama em período de férias pode soar como algo para loucos, mas preciso admitir que é um excelente negócio em vários aspectos. Depois do Corcovado vazio e sem filas, e da Colombo quase toda nossa, qualquer grupo de cinco pessoas à minha frente já está me parecendo multidão. :-)

Barrigas cheias, fizemos uma visita rápida ao prédio da Biblioteca Nacional. Por um minuto perdemos a visita guiada que nos deixaria ver todos os ambientes do prédio. Demos uma circulada bem desinteressante por onde tínhamos acesso sem os guias e pulamos fora. 

  
Hall da ...

...Biblioteca Nacional.

Mais uma caminhadinha e chegamos à movimentada Praça XV. Lá pegamos a barca e fomos para Niterói. A primeira coisa que Arthur falou quando contei que iríamos ao Rio foi que gostaria de visitar o MAC, "aquele museu redondo". O dia estava lindo, como todos os dias que passamos no Rio, e o visual estava azul. Mas as crianças estavam mais interessadas nos gibis do que na ponte Rio-Niterói. A chegada ao museu foi aquela festa, porque o prédio é mesmo muito interessante. Depois do MON, em Curitiba, ficamos ali mais uma vez admirando as loucurinhas do Niemeyer. Dentro, porém, a história é outra. O museu nos decepcionou bem. Pequeno, com alguns espaços para exposição vazios, um acervo razoável (com alguns pontos interessantes, mas não muitos), o lugar me pareceu mau cuidado. Bem diferente do Museu do Olho, de onde nem queríamos mais sair, o MAC nos marcou mais por seu exterior maluco do que por seu conteúdo. Mesmo assim, gostamos de ter ido.


Um sem-fim de ponte.

MAC


O dia estava quente, a palavra inverno parecia ficção científica. Almoçamos em Niterói e logo em seguida pegamos a barca de volta. Todos cochilaram, a cama do hotel era uma lembrança atraente. Depois da barca, Amanda dormiu no táxi. Mas foi só chegar ao Parque do Catete, nos jardins do Museu da República, para o sono passar, ela correr, arrancar os sapatos e brincar por horas. Não visitamos o museu. Enquanto as crianças brincavam no parque, a Renata Lins, com quem tenho o prazer de trocar figurinhas de vez em quando na rede, mora por ali. Uma mensagem, uns minutinhos e, ploft, lá estava ela, toda sorriso e papo bom. Sentou-se comigo no meio-fio de um jardim cheio de crianças barulhentas e engatou a conversa. Pouco tempo depois chegou minha tia, moradora do Rio há mais tempo do que sei contar, e por ali ficamos até anoitecer. Naquela noite, duas crianças exaustas e felizes deram zero trabalho para dormir. Os pais, idem. 

***

Os planos para a sexta-feira incluíam brincar no Parque da Catacumba, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Fomos até lá, demos uma explorada básica no parque - que é bem bonito, por sinal - à procura dos monitores que auxiliariam as crianças na atração principal de lá: um conjunto de atividades mais radicais, incluindo escaladas, tirolesas e outras coisas feitas nas alturas. A demora em achar os monitores e a falta de lugares mais amplos para correrias acabou mudando nossos planos e logo seguimos para outro parque, próximo ao Jardim Botânico, o Parque Lage. Acabou sendo um dos passeios mais legais da viagem. Além de bonito, com o paredão do Corcovado à vista de muitos ângulos, o Lage tem várias atrações. Começamos por deixar que as crianças se esbaldassem no playground, cercado por palmeiras e macaquinhos curiosos.


Não vou parar quieto pra foto.

Quando elas desaceleraram um pouco, seguimos as placas e procuramos o solar, um casarão construído por Henrique Lage para sua esposa, há quase cem anos, segundo li no blog da Luciana Misura. No solar funciona uma escola de artes. Tudo é lindo: o parque, o casarão, o pátio interno do casarão com seu visual inacreditável. Nos corredores que cercam a piscina localizada no pátio interno ficam expostas obras feitas pelos alunos da escola de pintura. Há também uma simpática cantina, uma pequena biblioteca, além de uma lojinha de material de pintura e outras salas que, acredito, devem abrigar salas-de-aula. Comentei com o Ulisses que se alguém estudar ali e ainda assim não conseguir pintar quadros lindos, deve tentar outra coisa na vida: jamais poderá alegar falta de inspiração. Para onde quer que se olhe, há um quadro esperando para ser pintado.

O solar dos Lage. 


A piscina básica, com o Corcovado de visu.



Antes de irmos embora, exploramos outros lados do parque e visitamos uma gruta que abriga um pequeno aquário. As crianças se divertiram brincando de esconde-esconde por ali, enquanto aproveitamos para curtir a sombra das árvores imensas e escolher pelo celular um lugarzinho bom pra almoçar.

A gruta dos peixes.

Almoçamos em um restaurante próximo e depois demos uma caminhada ao longo da Lagoa Rodrigo de Freitas. Inverno? Sabíamos que existia, acreditávamos nele. Mas não nos lembrávamos bem como era. Fomos para o hotel, tomamos banho e fomos para o Centro.

Uma escaladinha rápida às margens da Lagoa, para não perder o hábito.


Decidimos visitar a exposição A Herança do Sagrado, promovida pelo Vaticano por conta da Jornada Mundial da Juventude. Sabíamos que haveria uma ou duas telas do Da Vinci e outras coisitas potencialmente interessantes, fomos expiar. Encaramos nossa primeira fila de responsa na cidade. A exposição está em cartaz no Museu Nacional de Belas Artes e o acesso é gratuito. Ficamos cerca de, sei lá, uma hora na fila, talvez. Do outro lado da rua, enquanto a noite caía, o Teatro Municipal se acendia e minha vontade de visitá-lo aumentava. Estava fechado e fiquei babando. Na próxima, quem sabe.

Águia  no alto da cúpula do Teatro Municipal que não visitei.

Quando finalmente entramos  no MNBA (Arthur e Amanda eram as únicas crianças num raio de quilômetros), Amanda quis saber e-xa-ta-men-te por que, afinal, não poderia fotografar a exposição, ela que fotografa tudo, de maçaneta de porta a obras de arte, de grama seca a orquídeas raras, besouros e xícaras. "Mas eu não vou usar o flash", disse, pacientemente, após ouvir da segurança que o flash estraga as telas. Não teve jeito. Passou rapidinho pelos Da Vinci e Caravaggio e se divertiu mesmo no corredor de esculturas fotografáveis. Quando decidimos sair, Ulisses e eu precisamos esperar o final da sessão de fotografias que as crianças estavam, uh, desenvolvendo. 

Lá fora Ulisses e as crianças comeram pipoca na escadaria do Teatro Municipal, pouco antes de sermos completamente estragados com uma boa dose de mimos. Fomos recebidos por um casal de amigos para um churrasco na casa deles, uma noite de papos e comilança que recebemos como um presente carinhoso. As crianças se encarregaram de tornar a casa deles bem mais barulhenta. Todos juntos, crianças e adultos, babamos com as duas labradores da casa, lindas cadelas espertíssimas e cheias de charme. Enquanto comíamos e bebíamos e falávamos e mimávamos os cachorros, Arthur e Amanda brincaram nas redes e ainda ganharam sessão de filme Disney. Diálogo de hoje aqui em casa:

Vovó: - Amanda, o que você mais gostou no Rio?
Amanda: - Da casa da Deborah. Tinha duas redes e dois cachorros que faziam truques!

Tentamos agradecer, mas, né? Como fazer?

O sábado amanheceu ainda mais quente. Voltaríamos para casa à noite e tratamos de aproveitar as horas da manhã que restaram após arrumação de malas e café. Caminhamos para o Forte de Copacabana, praticamente ao lado do hotel, e lá curtimos aquela vista. Nem entramos no Museu do Exército. Demos uma espiada em uma exposição (interessante) sobre a construção do Cristo Redentor e apreciamos todos os azuis do Rio.



Não podíamos nos demorar muito no Forte, precisávamos desocupar o quarto do hotel. O mimo então alcançou picos imbatíveis. O casal que nos recebera na véspera nos buscou no hotel e nos presenteou com um passeio delicioso pela Floresta da Tijuca. Zummm... e de repente estávamos no meio do mato, subindo subindo subindo. Aviso aos navegantes floresteiros: o restaurante bonitinho lá na meiuca da Floresta da Tijuca não aceita cartão de crédito. Nem choramingamos. Rapidamente descemos e buscamos outro lugar onde comer que, para alegria infinita da Amanda, ficava na cara do playground que ela avistara na subida. Já viu, né.



Brindando com o Ulisses, os lindos e queridíssimos paparicadores oficiais das nossas férias, Deborah e Ricardo. A comida estava boa, a vista era linda e o papo bom demais. 

***

Voltamos pra casa com a sensação de termos passado bem mais de quatro dias perambulando pelo Rio. Com tanta lindeza e gentileza nos cercando, as férias curtas nos pareceram generosamente esticadas. 

Vista Chinesa, Floresta da Tijuca, que faz o Corcovado parecer baixinho. Mais um presentinho do casal Deborah e Ricardo. Com direito a Lua, claro, porque não temos pouca sorte nessa vida, viu.

***

O Rio continua lindo, sim.

Agora estamos aqui, aguardando a tal frente fria mega blaster plus super ultra incrível que, dizem, cairá sobre o sul do país a partir desta madrugada. Dizem que vai nevar na Serra. Que as temperaturas vão bater recordes, que Floripa vai congelar. Que venha, estamos com o coração bem quentinho. ;-) E luvas, por garantia.


4 comentários:

Juliana disse...

o MAC é sem gracinha, mas o visual é bonito, né?

mas vcs são muito sortudos: Colombo e Cristos vazios!! olha!

Iara disse...

Nossa, Colombo vazia, te invejei profundamente agora.

E mimimi, todo mundo conhece a casa nova da Deborah e do Ricardo, menos eu. Ela me contou que o assunto não acabava nunca. Delícia, hein? <3

Deborah Leão disse...

Amei tanto conhecer vocês, não dá nem pra descrever. Não tem nada dessa história de mimo, não, a gente é que ganhou um presente enorme de poder passar mais tempo com vocês.

Arthur e Amanda conseguem ser ainda mais encantadores ao vivo do que nas histórias que você conta, tão alegres, tão afetuosos, tão abertos para quem quiser se aproximar. Uma delícia as risadas deles enchendo a casa.

Eu não entendo essas pessoas que têm medo da internet. A internet trouxe para a minha vida as pessoas mais incríveis, com a vantagem de que a gente primeiro aprende a amar de longe, e depois, quando encontra ao vivo, só tem que continuar o assunto :)

Voltem sempre, viu?

P.S.: Dona Iara, ainda dá tempo de encaixar a vinda ao Rio na programação da visita ao Brasil ;-)

Marissa Rangel-Biddle disse...

Fui quase aos mesmos lugares quando estive no Rio, Rita. É inebriante, né? Obrigada pelo post.

Eu queria muito ter visto - entrado em contato - com a Deborah para agradecê-la por ter traduzido um doc. para mim. Tenho que programar outra visita.

Ainda estou na vibe Rio. Vai ser um pouquinho dificil desacelerar e voltaar a Chicagoland.

 
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