Rio - primeira parte


Chegamos ao Rio na tarde da última terça-feira e nos deparamos com um inverno inexistente. Já esperávamos temperaturas bem distintas das normalmente esperadas para Santa Catarina nesta época do ano, de modo que não houve surpresas. Largamos os casacos no hotel e tratamos imediatamente de aproveitar o resto do primeiro dia. Ficaríamos menos de uma semana por lá, era conveniente não desperdiçar tempo.

Começamos pelos Morro da Urca e Pão de Açúcar. A ausência de filas no ponto da Praia Vermelha (certamente por ser final de tarde e a maioria dos visitantes optar por aproveitar a luz do dia para apreciar a vista) foi um excelente início de viagem. Subimos o primeiro trecho banhados pelos últimos raios de luz do dia e lá de cima vimos a noite cair rapidamente. Ver o Rio iluminado não é o mesmo que ver Paris do alto da Torre Eiffel, certamente, mas também tem lá o seu charme. Mostrei a boca banguela da baía de Guanabara para o Arthur, passamos pouco tempo no Pão de Açúcar e voltamos para o Moro da Urca. Tínhamos bastante tempo até o horário da última descida, então aproveitamos para conhecer um pouco da história do bondinho, sua idealização considerada por vários engenheiros uma loucura na época, a instalação do aparato todo, um pouco sobre a ousadia dos escaladores dos dois morros, a badalada história do Teatro do Morro da Urca - tudo explicado em vídeos de curta duração, disponíveis em uma pequeno espaço cultural chamado Cocuruto; talvez o acesso aos vídeos (em iPads fixados à parede) seja complicado em horários mais disputados, mas tudo estava inteiramente à nossa disposição no final do dia. As crianças circularam pra lá e pra cá, brincaram com os antigos bondinhos que estão em exposição em um dos pátios, vibraram ao cruzar o bonde que seguia na direção oposta enquanto descíamos. Devidamente batizados, seguimos para o hotel.

No dia seguinte vimos de nossa janela o sol nascer lindão.


Tínhamos ingressos comprados pela internet para visitar o Corcovado de manhã. Diante da ideia de visitar o Cristo Redentor (tudo é festa), as crianças pularam cedo da cama sem protestar. Mais uma vez, fomos agraciados com a ausência de filas. Seguimos sem trânsito rumo à estação do Cosme Velho e chegamos lá mais cedo do que pretendíamos.

A estação vazia, um sonho.

Nosso voucher nos dava direito a subir no trem das 8:40 (não conseguimos comprar ingressos para mais tarde), mas a moça da bilheteria, onde fomos trocar os vouchers pelos tickets, perguntou se gostaríamos de subir no trem das 8:00. Aceitamos e assim subimos no primeiro trem do dia: o corcovado era só nosso.
  
Lagoa, vista lá de cima.

Circulamos sem aperto, tiramos as fotos que quisemos e, agora sim, vimos o Rio à luz do dia. E constatamos sem muita discussão que a cidade continua mesmo linda. A manhã azul foi parcialmente tomada por uma neblina que logo se dissipou, durando o suficiente para realçar nossa caminhadinha nas nuvens.


À medida que os dias se seguiram, foi se tornando mais e mais frequente avistarmos pessoas com mochilas, bonés ou camisetas da Jornada Mundial da Juventude. A toda hora festejávamos nossa sorte de ter visitado os pontos mais badalados sem qualquer tumulto ou espera em longas filas. 


Com o Corcovado visto e explorado, a brincadeira das crianças passou a ser localizar o Cristo a partir de outros pontos da cidade. E com elas animadíssimas, rumamos para o Jardim Botânico. O Jardim ainda habitava minha memória como um dos lugares mais agradáveis que eu havia visitado em minha primeira ida à cidade, mais de vinte anos atrás. A sensação se repetiu, dessa vez com o ganho gigantesco de ver as crianças se esbaldando em correrias naquele cenário impecável. Escalaram árvores, correram descalços, morreram de calor, descobriram plantas esquisitas, exploraram como quiseram todo aquele verde sem fim.



Planta insetívora, sucesso com as crianças.


Monet não reclamaria.



Árvore maluca que encantou a Amanda.


Havia uma lanchonete que nem era lá essas coisas, mas a gente nem ligou. A parada foi rápida e, picolés devorados, logo estávamos caminhando outra vez. Ao final do passeio, quando seguíamos para a saída do parque, a cereja do bolo: a exposição Genesis, do fotógrafo Sebastião Salgado, apenas. Nem sabíamos dela, um presente-surpresa do Rio para nós. E adiamos o almoço um pouco mais, encantados com dezenas de imagens incríveis tiradas em lugares impressionantes espalhados pelo planeta. Ali, abrigada pelas palmeiras do Jardim Botânico, Genesis nos arrancou ainda mais suspiros. Um luxo, adoramos.



Nossos planos eram almoçar no Leblon e depois seguir caminhando pela orla rumo ao Arpoador, onde estava nosso hotel. Mas estes são tempos incertos e, alienados em nossos deslumbres de férias, não sabíamos da manifestação programada para aquela tarde. Descobrimos a tempo, enquanto almoçávamos em uma esquina supervalorizada qualquer e vimos, espantados, o absurdo comboio da PM fechando ruas e seguindo rumo à praia. Preocupados com o que se seguiria nas próximas horas e naturalmente empenhados e afastar as crianças de qualquer área de riscos vários, mudamos os planos e optamos por passar o resto da tarde escondidos no interior do Planetário, não muito longe dali. 

O Planetário nos proporcionou de tudo um pouco: sessão péssima na cúpula, sessão bacana na mesma cúpula, exposição legalzinha no museu, um encontro bem gostoso e, quando a noite veio, um presentinho sem qualquer planejamento. Primeiro, a sessão péssima: compramos para satisfazer a Amanda ingressos para um filminho infantil sobre o medo do escuro. Ruim com força, zzzzz,.. RONC! Em seguida, após um café que não tomei, porque não havia café na única "lanchonete" do lugar (que, na verdade, fica fora do lugar, mas pulemos os detalhes menos interessantes), encaramos desanimados a sessão seguinte, cujo ingresso compramos para satisfazer o Arthur. Tivemos mais sorte dessa vez e fomos positivamente surpreendidos ao longo do filme, aprendemos um pouco sobre o funcionamento dos telescópios e a genialidade dos primeiros a observar o céu com instrumentos tão mais rudimentares que os moderníssimos de que dispomos atualmente. Satisfeitos, passamos as horas seguintes tagarelando com a Juliana (que cruzou a cidade para nos encontrar, uma querida, e contou tudo aqui). Conhecer a Ju foi a coisa mais legal da tarde. E tudo ficou ainda melhor quando Ulisses descobriu o presentinho: bem naquela noite os telescópios do teto do Planetário estavam abertos ao público para uma espiadela na Lua e outra em Saturno. Amor. Adiamos o jantar e subimos. Depois de tagarelar com a Ju na fila, ouvimos o moço do telescópio explicar que, por não haver atmosfera ou ventos, as mudanças na superfície da Lua são lentíssimas, quando muito. As pegadas do homem ainda estão lá, por exemplo. Amanda ouviu aquilo e deve ter ficado bem impressionada. Em sua vez de espiar, debruçou-se, mirou e foi surpreendida pela beleza daquele queijo enorme:

- Nooossaaaa!  - E, em seguida, lembrou-se do que havia aprendido: - Já achei uma pegada!
:-)

Saturno nos pareceu uma figurinha de álbum, pequenino, mas muito nítido naquele infinito todo, com seus anéis e suas luas. Para quem ainda pretende ter sua própria luneta, foi um pequeno deslumbre.

Com o trânsito complicado por causa da confusão que rolava no Leblon enquanto olhávamos para o céu, fizemos um lanche nas imediações do Planetário e depois seguimos como deu para Ipanema. Juliana se despediu de duas crianças cansadas e se foi. Eu reforcei aquilo que já sentia em nossos papos pelas redes sociais: Ju é uma daquelas almas boas que andam por aí. Sorte nossa ela ter nos brindado com sua presença por algumas horas. Adoramos.

Cenas do próximo post: de volta ao hotel, vi pela internet um pouco do que estava acontecendo no Leblon e agradeço a gentileza dos amigos do Rio que se preocuparam com nossa segurança. A manhã seguinte exigiu esforço extra para pularmos da cama ainda mais cedo. Era dia de entregar documentos e solicitar visto junto ao Consulado dos EUA. Uma pequena novelinha cheia de informações equivocadas e funcionários confusos, outros gentis e solícitos, com final tranquilo. E mais andanças e encontros deliciosos.   

  

3 comentários:

Juliana disse...

tb fiquei assustada quando vi depois tudo o que tinha acontecido no Leblon.

Eu realmente ADOREI conhecer vocês.

Luma Perrete disse...

Fica uma dica pra próxima vez: dá pra subir pro Morro da Urca pela trilha. A trilha é tranquila (apesar de ser puxada, porque ela é basicamente uma escadaria) e já vi várias crianças fazendo com os pais. Só não dá pra fazer se tiver chovido, porque fica escorregadio.
Já fiz duas vezes e é bem legal.
E se esperar até às 18h, dá pra descer de graça pelo bondinho. Por isso eu gosto de fazer no meio da tarde. Aí dá pra subir sem pressa e dá tempo de ver o pôr-do-sol antes de descer.

Clara Lopez disse...

Muito sortuda você, e essa passagem tranquila, ou seja, sem filas, pelo Rio. Eu saí de lá por uns tempos, e não me arrependo. beijos
clara

 
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