Rainha



Achou que seria melhor fazer um bolo. Voltou pra casa sozinha, todos ficaram lá. Ela não alardeou para onde ia, não achou necessário. Despediu-se de quem estava por perto, falando baixinho, e saiu sem sequer avisar à família de Lisa. Não torceu para não ser notada, não se perguntou se julgariam sua atitude estranha, não pensou o que a amiga teria achado ou como ela mesma encararia o fato no dia seguinte; simplesmente pensou que seria melhor voltar para casa e fazer um bolo. Atravessou a pequena multidão que se formara na frente da capela, manteve o lenço encharcado sobre o nariz, seguiu seu caminho quase sem enxergá-lo através das lentes molhadas dos óculos de sol. Voltou caminhando pelo bairro. Ao passar pela calçada da escola de música que frequentava com Lisa, esforçou-se um pouco mais para pensar nos ingredientes que usaria.

Ligou o forno como se fosse um autômato, sem olhar exatamente para lugar algum. Abriu o armário e retirou de lá a batedeira, pegou a espátula na gaveta, selecionou os ingredientes que a manteriam ocupada na próxima metade de hora. Fez um cálculo rápido e viu que esperaria o bolo assar, não poderia abandonar a cozinha antes disso. Pegou mais uma folha de papel toalha, reprimiu um soluço e despejou ao acaso os ingredientes na vasilha metálica. Ligou a batedeira.

Gostaria de pensar em algum papo descontraído, uma conversa regada a vinho numa noitada comum. O que veio, contudo, foi como uma música triste. Haviam falado das escolhas difíceis, do rompimento sem cura que a transformara para sempre. Haviam falado dos planos enterrados com pás de conformismo. Haviam confessado suas derrotas, como se fosse preciso, como se não se conhecessem há tanto tempo e não tivesse uma interferido na infância da outra. Então o fio dos pensamentos driblou seus propósitos e resgatou o dia da abelha rainha encontrada no quintal pela pai de Lisa. Lembrou-se do espanto diante do tamanho do inseto cuja beleza silenciou as duas por muitos minutos. Imenso, curvado sob suas patas largas voltadas para cima, mexendo-se em câmera lenta, o bicho pareceu-lhe sagrado, com olhos de alien encarando-as de lá do fundo do pote de vidro. E se lembrou que foi Lisa quem sugeriu devolver a rainha ao jardim para que ela seguisse seu caminho. Nunca saberiam se a abelha ainda disputaria seu lugar em alguma colmeia ou se já havia abandonado sua colônia de milhares de operárias e morreria completa, naquele dia, naquele gramado. Nunca souberam. Nunca sabemos. 

Desligou a batedeira, mas ao enfiar o indicador na massa soube que não levaria o dedo à boca. Não naquele dia, a vida não podia ser vibrante, nenhuma seda seria permitida. Naquele dia seria aridez. Despejou a massa na forma e abriu o forno como quem embarca no ônibus em uma estrada esburacada. Sentou-se diante dele, descansou as mãos sobre as pernas quase dormentes e durante quarenta minutos encarou o imenso olho composto da abelha. Dessa vez, o inseto conseguiu se voltar sobre as patas e, batendo suas asas pesadas como plástico, abandonou o pote e saiu pela janela. Era dia de sol, era hora de sol incandescente, e a rainha sumiu enquanto os olhos das duas meninas se apertavam para encarar a claridade que vinha da rua e trazia para a sala o mundo infinito da abelha. Quando o forno apitou não sentiu o aroma, não provou, não verificou a textura. Fez cálculos novamente e foi para o jardim.

Sem pressa, carregou suas pernas pesadas pela varanda, pegou o vaso verde com a tulipa e foi para o cemitério. Todos já teriam ido embora e ela poderia tentar fazer de conta que iria alimentar as abelhas. Não houve surpresa quando chegou ao jazigo e viu encolhido sobre um cravo o corpo contorcido de uma pequena operária. Depositou o vaso verde com a tulipa sobre a mureta fria e assistiu a noite chegar em silêncio, vinda do infinito.

2 comentários:

Murilo S Romeiro disse...

belo!

Silvia disse...

Muito bom, beijinhos Rita

 
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