Data querida e palavras perdidas


"Meu amor por você permanece. Ele está no mesmo lugar - ouça, por favor -, no mesmo lugar em que esteve, a vida toda, a vida toda."* 

Antes era feito da admiração, daquela que temos pelos heróis. Depois moldou-se como a escolha dos sensatos, fez-se caminho. E aos poucos se transformou em amor-carinho, amor-segredos, amor-cumplicidade. Hoje é amor-saudade e um vaso sempre regado. Você faz a falta que não descrevo porque não sei, pois você sobra e ainda me ensina. O mundo continua confuso, mas você continua me olhando em minhas lembranças, seus olhos cor de azul-proteção. E sempre serei sua filha. 

Dia 03 de julho sempre será seu aniversário. Você faria 73 anos agora. Continuo contando, porque sim.

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*Peguei a frase emprestada da Fal, em Sonhei que a neve fervia. Amigos são para essas coisas, também.

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Cancelamos nosso contrato com a operadora de telefonia. Sem TV a cabo, telefone fixo e internet, viva o plano de dados do celular. O varal despencou, uma das luzes de freio estragou (reza a lenda que faz tempo) e o Ulisses hoje decidiu me contar detalhes de uma história trágica. Não leio os detalhes das histórias trágicas há algum tempo, porque sou uma banana inútil. Hoje ele me contou, no trânsito, e cheguei ao serviço engolindo as lágrimas. Continuo uma banana inútil. Um dos problemas de tantas coisas serem tão tortas e equivocadas é que até os gritos para que elas mudem muitas vezes soam tortos também. Aí me irrito, sinto dor no peito e penso no varal despencado. Como se minhas esperanças fossem as roupas. Elas ainda estão lá, presas pelos pregadores, mas, né, o varal despencou. Sigamos.

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Minha filha teve uma crise de ciúmes porque o irmão teve febre e ganhou mais colo, dengo e remédio. O choro sofrido e dolorido foi cortado por frases duras como "você não cuidou de mim quando fiquei doente". /o\ Diante de meus protestos veementes e, principalmente, de colo e dengo extras, tudo ficou bem e logo ela estava dançando. Convencida de que não precisa ficar doente também, cantou comigo a canção do amor que vai da pontinha do pé até a ponta do nariz, ô ô ô ô. E comeu torrada com mel, a nova ordem mundial desta casa sem telefone fixo.

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Meu telefone celular parou de funcionar. Minimalismo compulsório, trabalhamos.

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Escrevi um pequeno conto sobre uma moça que encolhia e acordava na estante da sala. De lá ela via seu companheiro frustrado, tentando escrever um livro, perdendo as palavras. E ela via sem ser vista o olhar de devaneio dele, diante do enredo que visitava sua cabeça, mas se recusava a se transferir para o papel. O conto ficou horrível e deletei. Ele também desistiu, desligou o computador e foi ver um episódio de Big Bang Theory. Ela olhou para o alto, escalou a prateleira superior onde ficavam as narrativas absurdas, entrou no primeiro livro que conseguiu e virou palavra. No dia seguinte voou para os dedos dele, e ele, maravilhado, escreveu seu livro. Fim do conto que nunca será.


4 comentários:

Janete disse...

Um abraço bem forte. beijo...

Anônimo disse...

Surpreendente e humano Rita! Como só você consegue exprimir, muito lindo!
Um grande abraço!

Anônimo disse...

Lindo o conto que você não escreveu ;) Desde que pesquisei sobre um destino e veio seu site, dou uma espiadinha por aqui mas nunca comento. Os textos da sua mãe sempre me dão um nó na garganta. Fica bem!
Micheli

Clara Lopez disse...

Otimo conto! Write it :-):-):-)

 
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