Canta, alma


O primeiro ganho das curtas férias, além das horas a mais de sono de manhã, foi terminar o livro que estava lendo. Eu, que já não tenho dado conta de ler livros "em uma sentada só", agora fico feliz quando passo semanas para terminar um mísero Agatha Christinho da vida. Tá valendo. Antes tarde do que nunca, agora sei como se deu a última missão do Poirot e, de brinde, li duas grandes autoras, completamente distintas em seus estilos, de uma só vez: a tradução da edição de Cai o Pano que tenho foi feita por Clarice Lispector. Impressões? Li AC na época certa, lá nos anos 80, ainda adolescente. Ainda gosto, mas não me arrebata mais. Sem dúvida o final é mirabolante e inesperado, mas falta do lado de cá o deslumbre, acho. Não há nada de errado com o texto, com o enredo, eu é que não compro mais as motivações dos assassinos. De qualquer maneira, ler AC traz sempre aquela melancoliazinha de fundo: minha mãe gostava e líamos com pressa para descobrir a identidade do assassino e finalmente poder falar abertamente do livro na hora do almoço. Ela ficaria muitíssimo decepcionada com Cai o Pano, a propósito. Mas não serei indelicada a ponto de dizer por quê. Se spoilers em qualquer livro já estragam a vida de tanta gente, imaginem em um AC. Imperdoável. 

Sai Agatha, vem Jeanne. Comprei o  Caio Fernando Abreu - inventário de um escritor irremediável (Jeanne Callegari, Ed. Seoman) assim que soube do lançamento. Não que seja grande fã do autor gaúcho - na verdade, conheço praticamente nada de sua obra. Mas por vontade de ler um livro escrito pela Jeanne, que comecei a admirar nas redes sociais e em listas de discussões pela internet. Mal comecei e já me vejo nas livrarias fuçando livros do Caio para espiar.


***

Quando eu tinha 17 anos e acabara de concluir o segundo grau, fiz uma viagem de férias inesquecível. Foi a melhor maneira de esperar o resultado do vestibular, longe da ansiedade de acompanhar as notícias que antecediam a divulgação da lista ou de esperar meu nome lido pelo rádio. Acompanhada de minha tia, passei dois meses de vida mansa no Rio, na casa de uma outra tia paciente que me hospedou, apresentou-me a primas que eu tinha visto quando era praticamente ainda um bebê e me deu dicas do que fazer na tal cidade maravilhosa. Eu aproveitei como deu, espantada com os 38 graus às nove horas da manhã, com a beleza absurda da cidade e com a bonança de tanto passeio bacana pra fazer. De praia a festinha de bairro, morro a parque, cinemas e passeios de ônibus sem fim, fiz de tudo. Foi um excelente turning point antes da fase tão cheia de mudanças que se iniciaria depois com a entrada na faculdade. Nunca mais voltei ao Rio. Para mim, a cidade tem se resumido ao Galeão, um ponto de conexão.

Mais de vinte anos depois, voltarei lá agora. Animada é pouco, não define. Serão pouquíssimos dias, nem sei muito bem como me sairei na tentativa de mostrar um pedaço bom para as crianças. Vamos ver no que dá. Dizem por aí que continua lindo.  


4 comentários:

Angela disse...

Finalmente a semana do Rio. Como diria Max, I've been waiting for this all day! :) Estou animadissima por aqui tambem.

Ah quanto ao Rio, a cidade, fui pela primeira vez aos 6 anos e me lembro de muito daquela viajem 3 decadas depois. E olha que nem visual aids tive durante esse tempo todo, ja que perdemos a camera fotografica.

Aproveitem bem, e o mais importante: safe travels!

Juliana disse...

Li agatha quando menina e foi com ela que descobri o que amar os livros. nunca tive coragem de ler Cai o pano.

Quando ao Rio, às vezes me esqueço de prestar atenção no quanto é bonito. Talvez porque eu conheça as durezas da cidade. De qualquer modo, pra mim, nada deve ser mais bonito no mundo que o mar de Copacabana, num dia de sol, visto do Forte.

Seja bem-vinda!

Lud disse...

Rita,
tô com a meta de ler todos os livros da Agatha Christie (em 85 no meu kindle). A minha conclusão é que ela é uma escritora um pouco irregular: tem livros fantásticos, como A Ilha dos Dez Negrinhos e o Inimigo Secreto, e outros bem mais ou menos.
Muito bom é lê-la em francês para treinar a língua, porque é fácil. Se tiver Aliança Francesa na sua cidade, aposto que 1) você pode se filar à mediateca deles pagando uns reais e 2) deve ter uns Agathas por lá.
Beijos!

K disse...

O problema dos livros da AC é que ela so fornece pistas que não vão levar ao assassino. Cansei desse joguinho! rsrs

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }