Caio


De meias e encolhida na cadeira, foi-se o livro sobre o Caio (Caio Fernando Abreu - inventário de um escritor irremediável, Jeanne Callegari, Ed. Seoman). 

Está escrito no prefácio que "o perfil de Caio Fernando Abreu escrito por Jeanne Callegari pode ser lido como um romance". Pode. A vida de Caio, com toda aquela resistência ao que lhe parecia engessamento, cabe num romance. Como cabe também sua jornada rumo ao posto de grande nome da literatura do país. A mim, a biografia apresentada por Jeanne pareceu conversa de amigos, com cheirinho de melancolia e solidão.

O nome dele deve ter me chegado lá pelos idos do curso de Letras (Morangos Mofados, provavelmente, além de contos avulsos retirados de outros livros), certamente associado a outros escritores, como Clarice ou Lygia. E agora foi gostoso ler sobre o mundo em comum desse povo, os pontos de convergência desses nomes, os encantamentos dele diante da grandeza delas e, depois, ali, junto, renomado, reconhecido. Bonito, justo, grande. 

O livro da Jeanne foi como um filme bom, visto numa tarde de chuva, sob a manta do sofá. Um filme que sinaliza no início que haverá tristeza no final, mas que as cenas até lá compensarão a possível dorzinha trazida pela empatia. Aí o filme segue, você percebe referências tão queridas que chega a se sentar no sofá, dá um pause, busca mais um café, pensa a que amigos indicará o filme. Toca o play, volta uma ou duas páginas, uma ou duas cenas, diverte-se com os rumos incríveis da vida dele, com as loucuras e os riscos; tenta imaginar a alegria, o medo, a solidão de ser tão poeta, de não caber em lugar nenhum. Você percebe a grandeza de alma e lamenta tantos amores desencontrados, tanto sonho perdido. Dele. Os seus. O filme segue um pouco mais triste, você volta para baixo da manta. Quando a cena final chega, você lamenta que o filme tenha sido curto, que a dor tenha sido tão grande, que a vida não tenha se prolongado. A dele. A dos sonhos. No fim, há os créditos borrados de lagriminhas. E um monte de texto bom para ser lido e relido.

Apesar do reconhecimento que alcançou ainda em vida, de ter tido a alegria de ver sua obra celebrada, traduzida, premiada, referenciada, apesar de tudo, o livro de Jeanne nos dá a impressão de que Caio andou sempre de mãos dadas com a solidão. Li outro dia que a Lygia F. Telles afirmou que se mantém viva graças à literatura (Lygia está com 90 anos); Caio também escreveu, ao se descobrir doente, que só o que podia fazer era escrever, escrever. Jeanne nos conta que Caio também gostava de flores. No final da vida, quando, já doente, voltou a morar com os pais, teve a chance de se dedicar a um jardim, como quis durante muito tempo. Sobre o girassol pesado demais sobre seu caule, ele diz que a flor não suporta "o peso da própria beleza que engendrou". Caio morreu aos 48 anos. Lendo sobre sua história, acho uma pena que a escrita e a jardinagem não lhe tenham bastado como antídotos e que ele tenha partido tão cedo. Bem que a vida podia ser, de vez em quando, mais parecida com a poesia.

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