A amiga e os ecos


Ela olhou a amiga no outro lado da livraria e se perguntou se iria lá trocar uma frase ou duas. O assunto seria óbvio, vai comprar o quê? Seria descomplicado. A hesitação parecida com preguiça estava presente, no entanto. Gostava da amiga. Não era um amor daqueles, mas gostava. Aprendia com ela, achava divertidas algumas histórias que ela contava, admirava a sagacidade. Ora, então por que cargas d'água não ia logo lá bater papo, quem sabe tomar um café no andar de cima? Era só se manter no universo seguro dos assuntos inequívocos e tudo pareceria carinho e tempo morto. Não havia erros. A amiga avaliava com concentração inabalável um exemplar de culinária colorido, espalhafatoso e famoso. Olha aí, já haveria assunto, o pão exótico da véspera, hum, posso te passar a receita se quiseres! Olhou para o livro de contos em suas mãos, será que levaria? Será que queria mesmo aquele papo todo sobre as buscas e os corredores cheios de ecos inexatos? Sim, queria. Foi direto ao caixa. Pagou com cartão de crédito que tinha crédito por causa das escolhas que odiava. Dispensou a sacolinha plástica com timbre da livraria e já saiu lendo a orelha. A amiga já havia saído. Certamente a viu no caixa, de onde estava era impossível não ver. Seguiu sozinha para o café, que tomou lendo e encarando os ecos. Em cada entrelinha lamentou a amizade que se diluía por causa das palavras.

2 comentários:

Clara Lopez disse...

A vida e as escolhas que são feitas a cada hora, a cada momento. Às vezes dá pena - sobretudo quando sou a outra, a amiga.
abraço,
clara

Rita disse...

Olha aí, um eco. ;-)

Beijo, Clara.

Rita

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }