Dos pacotes


Eu tenho certa preguiça de ir às compras. "Ir às compras" raramente é um programa pra mim. Via de regra, só vou às compras quando preciso comprar alguma coisa, mas aí deixa de ser um "programa" e passa a ser uma tarefa, né? Nem tudo é tédio, no entanto. Eu gosto de escolher roupas para as crianças, por exemplo, gosto bem. Mas, salvo uma exceção aqui, outra ali, normalmente faço isso cerca de duas vezes por ano, quando as variações marcantes de temperatura e o tamanho dos bracinhos-que-logo-serão-brações e perninhas-que-logo-serão-pernonas exigem. Não chega a ser um sacrifício entrar em uma loja para escolher roupas, mas anda longe de ser meu programa favorito. Quando o assunto é supermercado, a relação é de amor e ódio. Já tive fase de curtir passeios preguiçosos pelos corredores, tecendo longas elucubrações sobre a marca da geleia. Já tive fases de compras pela internet, tudo para não precisar sair de casa e ter de escolher a laranja. Agora estou em uma fase meio-termo: vou, faço as compras da semana sem muito mimimi, mas tento ser o mais precisa possível e terminar tudo em menos de uma hora. Há uma coisinha no universo das compras, contudo, que adoro. O pacote que chega pelo correio.

Não é uma delícia? Escolher pela internet, pagar com o cartão e receber, dias depois, o pacotinho esperado. Meu marido, há muito adepto das compras online, compra de tudo sem sair de casa, sapatos, livros, eletrodomésticos, o que for. Ontem recebemos a louça que ele comprou para a mãe dele. Outro dia chegaram o fogão e a TV. Livros, então, há muito não chegam às mãos dele nos balcões das livrarias. Alega que o preço online é imbatível e se recusa a pagar mais. Eu ainda sou daquelas que se deixam seduzir pelos volumes empilhados nos stands das livrarias e, volta e meia, sucumbo ao apelo da presença imediata, pago mais e volto pra casa com embrulho na mão. Para as crianças, impacientes como só elas, também prefiro comprar nas livrarias. Sei o que é olhar, folhear, querer, levar. Então deixo. Ulisses, não. Pede pela internet. Ontem Arthur ganhou o quinto volume da série que anda lendo, entregue pelo carteiro. Teve gostinho de surpresa a "doutrinação" do pai para que ele também vire adepto das compras que chegam depois de dias de espera. Chegou junto com as duas caixas de louça.

Mais tarde recebemos outro pacotinho. Por ser inesperado, causou aquele frisson que só eles, os pacotes inesperados entregues  pelo correio, sabem causar. Acho uma graça como eles nem parecem fazer força: ficam ali, parados, retangulares, envelopados sobre o balcão que divide a sala e a cozinha, enquanto nós os fitamos cheios de perguntas. O que é isso? Que horas chegou? Pra quem é? Quem mandou? Você comprou alguma coisa? Eu não, vê pra quem é. Era pra mim. Quer dizer, era o que o envelope dizia. Rita Medeiros sou eu. Então, feliz da vida com meu direito natural de abrir um pacote que tem meu nome, fui logo rasgando o envelope branco enquanto verificava quem era o mensageiro da alegria. Era a Fal. A do Drops. Aí rasguei com gosto. 

Não era pra mim. 

Era para as crianças. Um livro com capa cor-de-rosa de letras coloridas, uma história a ser descoberta e a alegria que os livrinhos inesperados trazem. Imediatamente transferi o direito de fuçar o objeto surpresa para Arthur e Amanda que, curiosos (quem é Fal? é pra gente? posso ler?), abriram, recitaram o título, disputaram a posse. Assim que percebi as letrinhas pretas na contracapa, pedi que me deixassem ler para eles as dedicatórias. E vimos os desenhos, a letra e o carinho da Fal. Conhecemos parte de sua família desenhada na dedicatória (uma mãe, um cachorro, seis gatos) e decidimos, juntos, que a Fal é legal. Amanda comunicou solenemente que o marca-páginas fofo é dela e que ela vai ler primeiro. E assim é.



O livro é o Dizzy, da autora britânica Cathy Cassidy. A Fal traduziu o livro para a editora Fundamento, pegou um exemplar, encheu de dedicatórias e desenhos de gatos pensando nos meus pequenos e mandou pra eles. A gente agradece, falando dela no jantar.

- Mas ela tem seis gatos??!
- Como assim, ela traduziu?
- Ela é sua amiga, né?
- Por que ela mandou um livro pra gente?
- É Fol ou Fal?
- O cachorro dela é bonitinho.
- Que fofa, né?

E num é?

***

Nem sei se o interesse da Amanda vai se manter, por enquanto. Talvez a história seja elaborada demais para seus cinco anos. Talvez ela não entenda muitas palavras e largue o livro difícil de lado. Eu não quis interromper a empolgação e deixei que ela experimentasse o prazer de se sentir dona do objeto livro, todo lindo e colorido. E hoje ela entrou no pátio da escola abraçada a ele. Escreveu seu nome na primeira página e me disse que já estava "na página 13". Suspeito que ela deve ter largado o livro na mochila para ir pular corda, feliz da vida. E que de vez em quando, ao abrir a mochila para pegar um lápis de cor, tenha espiado os desenhos de gatinhos pretos que a Fal fez. Se o fez, aposto que sorriu. De um jeito ou de outro, um livro é sempre um bom amiguinho.

***

(Dei uma espiada na história agorinha e vi que é mesmo elaborada demais para ela. Acho que, por enquanto, ela vai mesmo se prender aos gatos pretos. E como livro não tem prazo de validade, não há pressa.)

***

Arthur viu o marca-páginas no capítulo 5. "Amanda, você já tá no capítulo 5??!" "Ah, não. O marca-páginas caiu, eu num sabia em que página tava. Aí botei em qualquer uma." :-) 
 

2 comentários:

Fal disse...

O bonito dessa história é que as novas gerações já vão me conhecendo como "a velha louca dos gatos". Uma mulher que se dá ao respeito tem de manter sua reputação. <3 <3 <3 Beijos em vocês, seus lindos!

K disse...

Nos também, ha anos, compramos tudo pela internet:eletrodomésticos, material escolar, roupa, sapato, livros, brinquedos, presentes...

E eu também recebi uma entrega surpresa semana passada.Também nos perguntamos para quem e o que seria enquanto desciamos para encontrar o carteiro.

Era um livro da Fal, "O nome da Cousa" cheio de desenhos dela e da Maliu. A melhor surpresa do ano, sem duvida.
beijoKas,

 
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